Verniz intergovernamental

Segundo os planos mais ou menos conhecidos da chanceler alemã, os países que celebrem o novo pacto de estabilidade do euro vão ter de submeter-se a uma disciplina orçamental rigorosa (para nós, maior do que a actual), não autónoma, controlada a nível da Comissão (ou assim parece), e os desvios e incumprimentos serão punidos pelo Tribunal de Justiça Europeu. Estes planos baseiam-se, claro está, no princípio teutónico dos santos e pecadores, totalmente discutível, até por grandes sumidades internacionais, e que, aliás, já começa a perder consistência com a transformação dos primeiros dos santos, os Santos dos Santos, em pecadores como os outros, quiçá mortal e suicidariamente pecadores. Mas esse princípio foi plenamente abraçado e é repetidamente defendido pelo nosso actual primeiro-ministro, que precisa de justificar a falta de qualquer desígnio de desenvolvimento para o país com os “pecados” do seu antecessor que agora haverá que expiar e pagar. A senhora Merkel é tão-só o farol que o ilumina. Um triste, sem qualquer orgulho próprio (é certo que não tem motivos) nem nos cidadãos que governa.

No caso concreto do Portugal pecador (para perceber os nossos pecados, basta ler o post do Valupi intitulado “A culpa é dos faraós”), e no que toca a um possível desenvolvimento económico que nos tire dos infernos, exceptuando as migalhas que algumas empresas alemãs ou francesas benemeritamente aqui quiserem investir (digo benemeritamente, porque, bem mais perto das fronteiras alemãs, existem paraísos de mão-de-obra barata, como a Roménia, a Bulgária, a República Checa, futuramente a Croácia e a Sérvia, etc., bem mais barata do que a nossa e com melhores acessos ao núcleo duro da Europa), como não há crédito, as perspectivas são as de os nossos investimentos apenas poderem decorrer da riqueza gerada a nível interno. Ou seja, em plena recessão e a afundar-nos, nenhuns. Nas nossas circunstâncias, sem crédito para ideias luminosas devido às pobres perspectivas causadas pela recessão, e sem mercados europeus para onde exportar, dada a austeridade generalizada, restar-nos-á o quê?
O espartilho do euro vai condenar-nos à maior e mais longa miséria de que há memória. E em regime de subjugação política. Há uns tempos, falava-se que o abandono do euro por parte de um Estado poderia ter um efeito arrasador nos restantes sócios desta abstrusa empresa. A ser verdade, e se em vez de um (Grécia), forem dois a ameaçar sair (e porque não a Itália?), não estará aí uma poderosa arma de pressão a nosso favor? Iremos ser chantageados na próxima cimeira. Tens alguma na manga, Passos? Ou baixas as orelhas? É que o que nos propõem não acende a mínima luz ao fundo do túnel. Do que li, não há cenoura a acompanhar o chicote. E os nossos interesses não são os da Alemanha. Nem os dos eleitores da senhora Merkel, nos quais, como sabemos, não nos incluímos.

Só pode revoltar, por isso, o que lemos sobre as ideias do ministro das Finanças alemão, citado pelo Jornal de Negócios, e o “elogio” hipócrita e paternalista que dispensa a Portugal e à Irlanda.
Não percebe ou não quer perceber que o problema da zona euro é actualmente o seu fraco crescimento, impossível de inverter com políticas sacrificiais de empobrecimento.
Não será na sexta-feira, mas um dia o verniz estala.

12 thoughts on “Verniz intergovernamental”

  1. A verdade é que, até para um feredalista como eu, estamos a assistir a um triste espectaculo : os responsaveis dos dois paises motores da construção europeia estão a procurar socorrer-se das fraquezas da construção europeia para tentar obter pontos numa luta de pura politica interna. A proposta do asqueroso Sarkozy de um tratado que institucionalize a “regra de ouro” apenas esconde a sua total incapacidade de ir a votos com a dita regra.

    Falta total de sentido de Estado (para não falar no sentido democratico) e ausência completa de visão europeia.

    Os dois principais adversarios da construção europeia são neste momento Sarkozy e Merkel. São-no objectivamente, não por convicção, mas por mero calculo eleitoralista, dando de bandeja aos cépticos a prova de que os imperativos europeus funcionam de facto, algumas vezes, como meros instrumentos de desresponsabilização colectiva. A aposta feita pelos dois lideres é um suicidio, o que não seria de lamentar se não fosse ao mesmo tempo uma valente machadada no projecto europeu.

    So podemos esperar que os partidos da oposição europeistas, verdes e socialistas, saibam estar à altura e que saibam propôr uma politica alternativa sem ceder a aventureirismos populistas.

    O projecto europeu merece melhor. Merece que os povos da Europa lembrem que a união politica não é um mero artificio burocratico, mas uma ideia a que os povos europeus aderiram ha muito tempo, logo que perceberam que esse projecto é a condição necessaria para continuarem a viver num continente em paz, numa sociedade desenvolvida e justa…

    Bo(l)as !

  2. Mas agora que as agências de rating ameaçam (e quando ameaçam, cumprem) baixar os ratings da Alemanha, França, Holanda e mais não sei quantos do norte europeu, será que as sanções automáticas para os não cumpridores do défice se mantêem? (caramba, que confusão)

  3. Se eu soubesse há mais tempo que aqui no aspirina B existiam tão excelsos e proficientes economistas, que são tão majestosos e “seguros” a diagnosticarem e implacáveis a prescreverem a solução para os problemas da Europa,

    c’um catano, quero-vos já a todos na minha equipa do governo da Europa

    digam quanto querem ganhar, please, e o muno será vosso, majestades.

    depressa, depressa

  4. Cara Penélope,
    enquanto os mais ricos não entenderem que o acumular de riqueza sem sentido não serve para nada. Se os governos, com os teóricos do costume, continuarem com a ideia que os mais ricos vão arriscar o capital em empreendimentos úteis que em vez de lhe proporcionarem mais dinheiro fácil apenas lhe trazem mais preocupações, e os poderão baixar na tabela da Forbes ou outra qualquer que lhes agrade, aliviando-lhes os impostos e fazendo bicha pedinchando empréstimos, continuaremos na mesma.
    Basta lembrarmos o ano de 1990 e recordarmos a reunificação da Alemanha para verificarmos como é a sociedade europeia.
    Na altura a Alemanha não se importou de receber ajuda económica de todos os países da zona Euro a preços de saldo e por isso esteve tão entusiasmada na costrução duma comunidade que lhe dava dinheiro a ganhar, agora que as aflições passaram e os vizinhos estão à rasca, vira-se para o outro lado e diz que cada um se arranje desde que seja ela a fornecer o material, desde as salsichas aos barquinhos de guerra, e quem não quiser alinhar que vá para a rua.
    Enquanto os países mais pobres não se convencerem que o são e os ricos pensarem que não têm nada a ver com isso, chamar comunidade, união ou qualquer outro epíteto que simbolize que todos estão de acordo é apenas uma brincadeira de mau gosto.
    Já gora e só para alguns mais distraídos, ninguém me quererá explicar como é que a economia cresce sem se investir no seu crescimento? Será que tornando-nos mais pobres isso quer dizer que passaremos a ter mais dinheiro disponível ao fim do mês para comprarmos o que não produzimos? Será que um esfaimado deve dar prioridade ao pagamento das dívidas ao banco ou ao merceeeiro?

  5. Como ensinam o neurasténico Gaspar e os teóricos biliosos da austeridade punitiva, quando formos todos miseráveis estaremos prontos para começarmos então a “crescer”! Ou seja, atiramo-nos do precipício para podermos mostrar que sabemos escalar mesmo com os braços aos peito. Espera: vou já hoje cortar as pernas aos meus dois Filhos e esperar que eles cresçam saudáveis.

  6. Eles querem atirar-nos a todos para o abismo e nem vêem que estamos todos atados uns aos outros e também a eles. Com a diferença de que eles estão muito lá mais para trás a empurrar-nos. Tantp, que só verão o precipício quando for tarde demais. E nós todos estaremos todos lá em baixo, bem lá em baixo, mas de punhais aguçados à sua espera. No exacto local onde eles aterrarem.

  7. Todos: Temo bem que, no próximo Conselho, a grande maioria dos líderes presentes ajoelhará voluntariamente perante Frau Merkel e seu acólito Sarkozy. Rajoy acabou de ser eleito e quer mostrar-se bom aluno e obediente, Passos voluntariamente se prostrou, Itália e Grécia têm os primeiros-ministros que a Alemanha quis, etc. e tal, incluiídos os países que estão em condições semelhantes às da Alemanha e cujos interesses só podem ser coincidentes. Se nada de fracturante vier da Irlanda ou da Polónia, isto para já é um bando de presidiários drogados…

  8. Parabens pelo post. Vai direitinho .
    Iste verniz estalará, mas até isse dia, concordo que vão ser datas tristes.
    Iste é o caminho do escuro. Estamos, estão errados. Até que à froilai desapareza, isto vai ir cada día a pior. Inglaterra já , ora e com um governo conservador, esta à falar de mudar de política restrictiva, de que o caminho dos recortes e de tão grande disminução do gasto público aumenta a falência, a pobreza, e contrae a economìa.
    Está muito craro, os países povres de Europa estão a ser enganados. Quer queira quem não, estase a fazer política interesada para os interesses da alemanha.
    Aquí ha uma crise financeira, fundamentalmente e um aproveitamento para fazer uma política económica liberal retornando o XIX, e senão já veremos. Estase a por em questão tudo o mais básico do mundo laboral e social, dende o salario mínimo até os sindicatos, a negoaciação laboral etc. isto é uma ceifeira comtra os que menos têm, que vão a pagar e carregar com tudo.
    Isto leva-nos a falência da demanda interna, e com isso o empovrecimento geral. O que faz falta e politicas públicas para a distribução mais equitativas do ingreso e a riqueza.
    A maior concentração de renta nuns poucos menor volumen de produção, maior pobreza.
    Imos a côncava funda do largo lago da noite ( como diz a canção). Faz falta gasto público, os governos têm de gastar em emprego público, aliás haverá quem ache isto toleima nistes tempos. O Estado mais que numca tem que combatir a desigualdade e fazer redistrubução da riqueza pelas vias dos impostos e do gasto pùblico.

    A luta dever ser comtra a corrupção pública, os fraudes fiscais, o controlo da economìa especulativa e bancaria dos paraisos fiscais, maiores impostos ás grandes fortunas, seguir investindo en sanidade e educação e despois fazer os amanhos que sejam precisos nos modelos productivos e isso não quita que haja certas austeridades. Embora se apretam tamto quem vai gastar para que haja trabalho e se poida seguir gastando, esta loucura só leva a pobreza. Ora as contas macroeconómicas do deficit chegarão o nível merkeliano, aliás a microeconomía dos cidadans vai pro caralho. O que semelha a solução no curto tempo e fame para manhã.

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