Violência publicitária

Junto-me à Ana Matos Pires na crítica a esta campanha contra a violência doméstica, um tema que me é especialmente querido (a par com o racismo, outra das patologias inscritas no legado animal que transportamos). De facto, a literatura mostra que a vítima é muitas e muitas vezes incapaz de se ajudar a si própria, seja qual for a duração e grau da violência. Dependendo dos contextos sócio-culturais, à volta da vítima até pode existir um cordão coercivo de familiares, vizinhos e autoridades variadas (civis e religiosas) a inibir uma decisão de rompimento da relação. E, finalmente, como a Ana acentua, muitas das vítimas mortais acontecem após um moroso e dramático processo de separação estar concluído.

Este filme está bem intencionado e o seu destino sobrenatural devia ser o Inferno. Por um lado, procura explorar a sexualidade feminina em registo gore, fazendo do efeito físico da violência um espectáculo de horror em ambiente higienizado, clean, cool, assim repetindo os clichés mais básicos da criação e produção publicitária. Por outro lado, transmite a mensagem de que a vítima, afinal, lá no fundo, é a principal responsável pela sua trágica condição. Ou seja, quem leva nos cornos é que tem a culpa.

A Ana aponta para uma outra via infinitamente mais relevante a explorar, haja discernimento para tal, em futuras campanhas: a responsabilidade da comunidade adentro do mandato da Lei. Divulgar que estamos perante um crime público, não carecendo por isso da iniciativa da vítima para ser denunciado às autoridades, levará a que algumas vidas se salvem, disso podemos ter a certeza. E se a mim fosse dada a direcção criativa da campanha, as peças de comunicação que resultariam seriam todas do foro da acção: o que fazer quando, onde ir, com quem falar, como se proteger.

É prática comum as agências de publicidade, e também as produtoras de vídeo, oferecerem os seus serviços para campanhas de interesse social, cívico, humanitário. Há milhares e milhares de filmes, spots de rádio, anúncios de imprensa e outdors giríssimos, onde a malta aproveita para se exibir como os grandes génios que nunca virão a atingir o estrelato. Obviamente, o barato sai caro.

78 thoughts on “Violência publicitária”

  1. Ai que eu não concordo nada com Vossas Excelências. Estão apenas a fazer um possível interpretação da campanha e a hermenêutica é pródiga a ter muitos filhos (interpretações). E a frase final apenas é tenebrosa se descontextualizada. No anúncio, refere-se obviamente à esperança que por vezes leva a vítima à inacção (isto não volta a acontecer e tal). Como é óbvio, a violência doméstica é um crime público e o ónus da denúncia não pode ser integralmente atribuído à vítima. Mas isso não implica que não se apele à sua reacção. Eu acho que a campanha não deverá ficar por aqui e quem sabe não haverá mais spots publicitários que o complementem.

  2. Estou com mais com o João Pedro Costa. A esperança de que seja a última vez é que levou aos tais números que vemos publicados no cartaz. A acçãoa atomar? Telefona…Tá lá o número…

  3. Tens razão, primo, a frase está bem intencionada. Entretanto, e mesmo admitindo que possam vir mais peças nesta campanha, a frase é também ela desesperante.

  4. Sim é possível que se interprete esta campanha da forma como o Val o está a fazer, podemos ser levados à conclusão que a culpa das agressões é da vitima. Mas vejo a campanha mais para além desse factor, vejo-a como a tentativa de, ao chocar com a imagem da morte, despertar atenções para um problema que sendo um crime público, continua ainda, e muito, a ser tratado como questão privada.

  5. Uma única palavra mal escolhida. Experimentem trocar “esperança” por “ilusões” que faz tudo muito mais sentido.

  6. (e sim, é um crime público mas para poder ser efectivamente punido depende quase exclusivamente do testemunho da vítima. Penso até que a grande vantagem de ter passado de crime semi-público para crime público não é a possibilidade de qualquer um poder denunciar mas ter deixado de permitir a desistência da queixa e o perdão da vítima não ser determinante para a medida da pena)

  7. será um erro pensar nisto como uma questão altruísta antes, e por isso pública, de a vermos como, em privado, egoísta. e será, neste sentido, sempre egoísta pelas sequelas – ou morte, não se cingirem a marcas físicas ou fim de vida: as marcas no corpo curam-se mas as da alma podem matar lentamente; e é de um egoísmo enorme a resistência da vítima, que é sempre vítima e nunca culpada, a deixar sair, a deixar que as marcas invisíveis se lavem no rio. comece-se pelos tanques domésticos. e cada um lá saberá se faz e diz e mostra, em privado, à pessoa que sabe que é ou foi vitimizada, o melhor que se pode fazer ou dizer ou mostrar: que não está sozinha e pode partilhar. partilhar é meio caminho andado para tratar e prevenir disto: e não precisa de selo, só de atenção e compreensão e tempo e amizade.

  8. Concordo com o João Pedro da Costa. Não vejo porque é que chamar a atenção das vitimas para que elas deixem de negar a existência do problema, equivaleria a desresponsabilizar as outras pessoas, ou alias a torna-las elas, as vitimas, responsaveis pela situação…

    A melhor protecção que se pode dar à vitima, é dar-lhe a possibilidade de deixar de o ser…

    E a ultima frase também não me parece despropositada, nem mesmo saida do contexto. O problema não se resolve se te fiares na virgem, ou na decisão do tribunal quando é demasiado tarde…

    Que conclusão é que v. queriam ? Morreste mas é porque ha homens mesmo ruins, alias este até vai ser condenado e tudo, assim como os vizinhos que não disseram nada, so que não teria adiantado nada procurares ajuda, o mais que te podia ter acontecido era ele fazer ainda pior ? E’ isso ?

  9. O João Viegas mostra bem a eficácia da campanha ao escrever “chamar a atenção das vitimas para que elas deixem de negar a existência do problema”. Que paternalismo o seu, acha mesmo que é preciso “chamar a atenção à vítima” ou que a vítima nega “a existência do problema”?

    Eu não queria conclusão nenhuma, eu até nem queria este filme, calha bem.

  10. Ana Matos Pires: devaneia. Pelo seu raciocínio qualquer campanha de sensibilização, ou melhor: qualquer acto comunicativo, é paternalista porque pressupõe certas condições que motivam a comunicabilidade. Indo na sua onda, também poderia dizer que está a ser paternalista com o João Viegas quando afirma que ele demonstra a eficácia da campanha na sua escrita: coitadito dele que não tem a finura da Ana Matos Pires para resistir à alienação da mesma.

    Não, assim não vamos lá.

  11. Primo: a frase ao ser desesperante também é eficaz para a sensibilização de terceiros para a denúncia de actos de violência doméstica que eventualmente conhecem. É. Quanto mais penso, mais tendo a reconhecer a eficácia desta campanha. Mas claro: posso estar a pensar tudo mal.

  12. Ana Matos Pires,

    por acaso até conheço quem trabalhe com estes casos. Em quase 100% deles, a “esperança/ilusão” de que com o último arrependimento e pedido de desculpas e beijar dos pés , finalmente o pesadelo vai acabar, até que acaba assim. Chama-se negação, em psicologia. Não digo que seja o único factor para o desenlace. Mas a campanha focou-se neste, que não é menos importante que outros, porque é a própria vítima, afinal que deve pegar no telefone, sem esperar que os outros o façam, os outros podem chegar tarde, compreende?

    A própria campanha não está mal, chegou tarde para muitas centenas de mulheres.

    Parece-me melhor que apelar aos maridos para não baterem nas mulheres, pelo menos.

  13. Primo, por “sensibilização de terceiros para a denúncia de actos de violência doméstica que eventualmente conhecem” estás a enunciar uma probabilidade, um desejo ou uma fezada. Por aí, esta campanha, como tantas outras, terá alguma eficácia. Ou seja, qualquer atenção mediática dada ao tema conseguirá aumentar o número de cidadãos informados e dispostos a agir.

    Contudo, e esquecendo os restantes elementos da narrativa, a frase é particularmente melindrosa. Para começo de conversa, a semântica de “esperança” pressupõe uma relação ainda regida pela intenção de manter o casal numa qualquer suposta “normalidade” coabitada. Tem razão a Teresa quando propõe a substituição por “ilusões”, um território mais conforme à violência da situação limite e já do foro da auto-estima e da reacção construtiva. Quando se abandonam as ilusões, fica a realidade – qualquer que ela seja, quaisquer que tenham sido as ilusões. Quando se abandona a esperança, pode nada ficar – sequer a força para fugir.

    É verdade que existe o padrão onde o violentador é igualmente um manipulador que explora e aumenta a dependência da vítima. Em muitos casos, as vítimas continuam a permitir a proximidade do agressor, faça ele o que fizer. E estas mesmas vítimas estão dispostas a tudo perdoar, declarando a sua fidelidade, o seu “amor”, àquele que as desgraça. Ora, por esta mesmíssima causa, essas pessoas jamais seriam sensíveis ao repto para “perderem a esperança”. Isso é o equivalente a perderem a identidade. Estas campanhas são absolutamente ineficazes para esses casos.

    Dito isto, a campanha não é um crime, e foi feita com excelentes intenções. Tal como todas as outras anteriores, né?
    __

    edie, e porquê?

  14. Tipicamente, a mulher que vive a situação não crê que esteja em ilusão – isso não lha permitiria manter – ela, pensa, sim, em esperança. É esse o perigo.

    (e porquê o quê? (não percebi)

  15. espera…porque é que não concordo que a imagem seja clean.Got it.
    Pois bem, só porque o sangue não está a vermelho, não te esqueças que o corpo está azul, está em decomposição, a imagem é horrenda, as feridas, a deformação, não sei onde vês clean naquilo…

  16. que falta de visão holística: a sujidade, que é a violência, costuma vir de fora, em volta, não está na vítima. e não há nada mais limpo que uma paisagem neutra, gelada. é naquela parte em que a sujidade, depois de não estranhada e já entranhada, venceu a limpeza e já não há cor de sons nem movimentos.

  17. edie, um choque de realidade – “a imagem é horrenda” – ajuda a curar muitas ilusões.

    Valupi, leste-me os pensamentos, o que escreveste corresponde ao raciocínio que fiz.

  18. não, não respondo por outros – só por mim, quando leio coisas quadradas e fico com vontade de lhes sacar os cantos. ainda não preciso de levantar o dedo para falar. digo eu. :-)

  19. Teresa,
    sim. E continuo a não perceber qual a dificuldade de perceber que a vítima não crê que esteja em ilusão- isso cria necessidade de acção, de ruptura. Óbvio que se trata de um sentimento de esperança. E é a esse que se apela, porque é esse que ela sente.

  20. Ó Olindazita, filha, eu não disse que a vítima pecava por sujidade, disse que a imagem , para mim, é horrenda. Se para ti não é, também eu posso dizer que te falta visão holística…Olha que lógica da batata…

  21. edie, a vítima vive com esperança sim, com esperança que a vida melhor, mas iludida quando acredita que é o agressor que vai mudar. A esperança não lhe pode ser retirada, tem de acreditar sempre que a vida vai ser melhor porque só isso a levará a agir mas tem de ganhar consciência que não é realista acreditar que o agressor altere o comportamento.

  22. Pois, mas quando falava dos casos acompanhados (vê lá acima), o que se verifica é que não há esperança numa vida sem o agressor, nos casos difíceis. A esperança está toda numa vida com o agressor, que entretanto, num belo dia de sol deixará de o ser. Porque a ama, e não consegue controlar-se. Estes são os depoimentos reais das vítimas.

  23. edie, infelizmente também acompanhei, em circunstâncias diferentes, algumas, bastantes, vítimas, e digo infelizmente porque preferia que não houvesse vítimas para acompanhar, e não concordo contigo quando dizes que têm esperança numa vida com o agressor. Na minha experiência encontrei a tal ilusão que tu tão bem retratas -“porque a ama” – e, nos casos bons, a esperança de uma vida melhor. Essa vida melhor em que algumas acreditam só passa pelo agressor porque ou se iludem acreditando num amor que muitas vezes sabem que não existe ou por razões logísticas – casa, filhos, dependência económica, família, amigos.

  24. hum. :-) eu vou fazer-te um desenho para prevenir a tua atitude de agressora, sim porque os agressores possuem o síndrome da diminuição da vítima, nem que seja a começar pelo nome: a sujidade é a violência que entrou; a limpeza tranquila foi a que ficou em redor, a impotência da impotência.

    a esperança, o por vir, tem beleza e uma vítima não pensa que vive em beleza; a ilusão é uma espécie de condomínio fechado em que o que há dentro é o que há e nem se pensa que por vir há melhor. pensar em sair do condomínio fechado traz o medo – e o medo prende; a esperança não existe, apenas resiste à ilusão. quando há esperança soltam-se as amarras e sai-se do condomínio fechado: fode-se o medo e o agressor que se foda.

  25. Vejo que ja responderam à Ana Matos Pires, porventura melhor do que saberei fazê-lo. Ainda assim, correndo o risco de estragar tudo vou responder à pergunta.

    Se eu acho que as vitimas de violência doméstica podem ter tendência para negar o problema, ou não querer encarar a sua dimensão ?

    Acho.

    Estou errado ?

    Quanto a ser paternalista, francamente não sei. Eu diria que o que é paternalista é fechar a mulher no seu estatuto de vitima, recusando colocar sequer a hipotese de que possa estar nas suas mãos agir para se defender, ou para se proteger. (Sem prejuizo de isso estar também noutras mãos, a começar pelas do agressor, isso não esta em causa)

    E finalmente, peço imensa desculpa mas continuo sem perceber por que razão deveriamos sacralizar a esperança (ou o amor ja agora ?) a ponto de não querer admitir que eles são muito bonitos assim ao longe, mas que às vezes o melhor é mesmo telefonar…

    Mensagem simples transmitida pelo video, que não desculpa nenhum filho da puta, nem sugere nada que tenha a ver com atenuantes ou com mensagens desresponsabilizadoras, pelo menos que eu visse.

    Boas

  26. Olinda, quando falas em atitude agressora ligada ao síndrome de diminuição da vítima, referes-te àquela frase. “que falta de visão holística”? È? tá bem, aceito o teu mea culpa.

    E claro que a esperança não existe, apenas existe na medida em que “resiste à ilusão” – cito-te. …Claro que não falamos de uma esperança verdadeira, imaculada, isenta de medo, smart girl. Podia ter-me lembrado do boneco no princípio e escusávamos de estar com esta conversa de merda, da qual saio já de seguida. O assunto não merece este nível.

  27. …a minha esperança é que não se fique só pelo style ao style das campanhas de combate aos crimes de violência doméstica…ilustres ‘blablazeiros’ que tal um pouco de acção… vai uma campanha qualquer mesmo cheia de defeitos e tudo e tal… a vadiar nos blogues …não as há a mais podem crer…apesar de haver quem nem queira nada e tudo (como eu)…estou em crer que da esquerda à direita todos alinham…vá reinventem a coisa…se se livrar uma só vitima que seja então…LOL..:))) que se ffff o style…

  28. blablazada, estamos de acordo. Mensagem publicitária que se preze não pode passar despercebida. E esta, claramente, deu que falar (e não só no aspirina…é que eu ando de transportes públicos).

  29. Acho fantástico o spot. É duro, pois é. Cumpre impecavelmente a sua missão de alertar e dá coragem (…e esperança!) às vítimas. Quem não quer ver isso é cego.

  30. Vou só acrescentar o que me salta à vista: utilizar a ameaça de morte como tese central num anúncio supostamente dirigido a vítimas crónicas de violência doméstica parece-me duma infantilidade atroz. Ameaçadas de morte são elas todos os dias.

  31. isso mesmo, Vega: há vítimas que se estreiam e rompem com o presente, pulando a cronicidade e, ora lenta ou apressada, a morte. aqui ficava bem um vídeo de caralho com orvalho alusivo à esperança. :-)

  32. Ana Matos Pires: agradeço o seu poder de encaixe perante a minha provocação. O problema com o conceito de comunicação paradoxal é o facto de o mesmo se localizar já na área da hermenêutica, isto é, da interpretação. Aliás, o conceito já foi desmontado por muito bom linguista que chama a atenção que, em potência, qualquer texto emana um feixe paradoxal de sentidos. A questão é saber se o mesmos são recebidos como tal. E é nesta zona de indecisão que se ancora qualquer acto comunicativo ou campanha publicitária.

    Primo: estamos de acordo. Apenas queria sublinhar as aspectos positivos da campanha, apenas isso.

    (As caixas de comentários do Aspirina são mesmo uma maravilha)

  33. Está a ver Ana Matos Pires? Até numa coisa tão simples como uma troca de comentários dá origem a estes mal-entendidos. A análise pragmática de qualquer acto comunicativo não é, portanto, compatível com frases setenciosas e simplificadoras com as do seu primeiro comentário neste post:

    É isso, ponto. A frase final é tenebrosa “Não tenhas esperança, liga.”

    As coisas são bem mais complexas. É só isto.

  34. Ana Matos Pires,

    aterrou numa longa história que não conhece. A Olindã percebe melhor a minha expressão que a Ana, mas nem tinha que perceber.

    Já agora, agradeço que não me troque o género.

  35. muito te enganas, edie, se dizes que não a entendo de forma igual – senão mais abrangente – à Ana. serei, talvez, bem mais tolerante à vulgaridade pelo simples facto de dar sempre o benefício da dúvida à tua eventual capacidade de melhoria contínua sem me veres como uma rival, sem entender bem porquê – não devemos querer ser o que sabemos que não conseguimos por incapacidade aguda. faz assim: vai-me copiando aqui e ali que eu não me ralo nada e pensando que já é bom – sem precisares de me querer liquidar. é que nem nos teus sonhos mais selvagens o consegues, estou certa. :-)

  36. Peço desculpa, edie, foi mesmo acto falhado essa de a ter colocado como XY.

    E desde quando a argumentação não é uma forma de comunicação, João Pedro? Claro que as interpretações e as opiniões são múltiplas, as caixas de comentários servem exactamente para isso, mas eu posso ter a minha, e é aquela, ponto.

    Já agora partilho convosco esta ma-ra-vi-lha que a Shyznogud me acabou de enviar por mail http://etat-du-monde-etat-d-etre.net/du-reste/faites-vos-jeux-rien-ne-va-plus/etats-unis-pour-des-raisons-financieres-battre-sa-femme-est-desormais-legal-au-kansas

  37. Não, Ana, foi desconhecimento.

    Mas reparo que o preconceito desavergonhado de que se orgulha não a impediu de fazer o contrário do que prometeu: não responder “ao” edie :)))
    “Nota: pela própria definição de crime de violência doméstica não existem vítimas agudas.”

    (nota: por vezes, é necessário deixar a literalidade de parte)

  38. Não, a argumentação não é uma forma de comunicação, Ana Matos Pires. É uma característica textual de um discurso. A comunicação implica um circuito comunicacional. São coisas absolutamente distintas do ponto de vista linguístico.

  39. agarrem nestes 58 comentários 58 e deêm-nos a ler a uma vítima de violência doméstica, depois perguntem-lhe se prefere ler novamente ou continuar a levar porrada.

  40. E porque é que um discurso argumentativo não é um meio de comunicação? Qdo olhamos para as alterações do discurso em termos psicopatológicos englobamos, tb, as alterações que determina na comunicação, nomeadamente através da capacidade de argumentação.

    Discordo de si, João Pedro.

  41. A Ana Matos Pires não discorda nada comigo, está é a embirrar. Como provo isso? Pelas suas próprias palavras. Quando diz:

    “Qdo olhamos para as alterações do discurso em termos psicopatológicos englobamos, tb, as alterações que determina[m] a comunicação”

    1) utiliza a expressão “alterações do discurso” e essa construção genitiva inclui as alterações como uma característica discursiva e não comunicacional;
    2) as alterações discursivas “determinam” a comunicação, ou seja não fazem parte da comunicação até porque em 1) as tinha atribuído ao discurso.

    Ou seja: os seus argumentos (melhor: as suas palavras textuais) suportam a minha afirmação. Ainda assim, diz que não concorda comigo. É obra.

  42. Boa tarde. Trabalhei durante cinco anos com vítimas de violência doméstica.

    O único comentário que aqui me faz sentido é o que fez Vega 9000 quando disse:”utilizar a ameaça de morte como tese central num anúncio supostamente dirigido a vítimas crónicas de violência doméstica parece-me duma infantilidade atroz. Ameaçadas de morte são elas todos os dias.”

    O resto, senhoras e senhores, são teorias. Também eu comecei esse trabalho repleta de academismos. Mas na violência – fruto da sede incontrolável de domínio – não há nada sobre o qual dissertar. Há um rasto de sangue, que é calado diariamente porque – na esmagadora maioria das vezes – as “vítimas” vivem dependentes de quem as maltrata.

    O Estado, os vizinhos, os amigos, os teorizadores, os técnicos, todos nós, nunca nos damos conta de que mais não fazemos do que dar caldos de galinha e opiniões disparatadas sobre a atroz realidade que é viver sob o jugo de outrem que obriga um ser humano a ajoelhar-se sempre que entram em casa. Ajoelhou mal? Leva até lhe sairem os dentes da frente. “Da próxima, sai-te o cérebro”. E se saem de casa, são perseguidas, encontradas, às vezes mortas… acidentalmente ou nem tanto. Quase nunca, a justiça dá a devida pena. E elas sabem-no. Não raras as vezes, protegem os filhos com o corpo. Até que, também não raras as vezes, os filhos crescem e chega a sua vez de bater nos pais que bateram nas suas mães durante anos.

    Não estou hoje dentro desse mundo. Mas todas as minhas teorias cairam quando o vi com os meus olhos.

    Ameaças de morte? Elas sobrevivem a isso todos os dias. Como podem. Sobreviver é a palavra de ordem. E estão cansadas das parvoeiras que nós, armados de Psicologia da treta e de Acção Social de trazer por casa arrumada, lhes damos. Não resolvemos coisa nenhuma. O que resolvia algo era se a Justiça e os Tribunais actuassem como deve ser em Portugal.

  43. maria, até que enfim que alguém com bom senso chama parvos as estes teóricos da desgraça alheia. foi um prazer teres acabado com esta discussão de umbigos.

  44. Actuaram bem, pelo menos, uma vez, com a Hortênsia. Posso tratá-la pelo nome porque a Hortênsia já deu a cara e contou a história dela a quem a quis ouvir.
    A Hortênsia foi uma vítima durante quase toda a vida e era quase como a Maria conta, ajoelhas ou levas, ajoelhaste mal levas mais. A Hortênsia criou três filhos e passou noites de Inverno a velá-los do lado de fora da janela depois de espancada e posta na rua pelo marido, a Hortênsia saía de casa todos os dias para ir trabalhar ou para ir para o Hospital e toda a gente sabia que a Hortênsia era um saco de pancadas. Foi assim durante mais de vinte anos até os filhos, um a um, casar e sair de casa. Quando voltou a estar sozinha com o homem que lhe tinha feito da vida um Inferno a Hortênsia só se deixou bater mais uma vez porque na vez a seguir, ainda antes de ele levantar a mão, a Hortênsia pegou no machado e abriu-o ao meio. Foi presa, julgada e condenada. 15 anos de cadeia. Recurso para a Relação, 12 anos. Recurso para o Supremo, absolvida.

  45. Que conversa de merda, perdoem-me a franqueza.

    Vejo um video que tem uma mensagem simples : “estas com um problema de violência em casa, trata disso e trata de te safar, antes que seja o estafermo que te mande desta para melhor. Não te fies na virgem nem fiques à espera.”

    Simples, directo. Não sera panaceia, a estética sera discutivel, mas parece razoavel considerar que é parte da resposta ao problema ?

    Nada disso.

    Afinal, esta mal. Que digo, é péssimo, um ultraje, uma falta de sentido, e de ética, e de tacto. Acabe-se com o video, e ja agora com as campanhas que procureem sensibilizar e ajudar as vitimas. São vitimas. São sagradas. Não se lhes toque, que quem as toca é, por definição, um porco violento sujo e mau.

    Sensibilizar, pedir algo, so à policia, ao juiz, aos vizinhos. E a Deus, à Esperança no ser humano, que é o que nos resta.

    O que podemos fazer é lamentar,

    Mais nada. Nem sequer nos devemos atrever a tentar imaginar o que as mulheres sofrem. Ah, e também ansiar pelo juizo final, se possivel com alguns ensaios prévios em tribunais plenarios perto de casa, para que se perceba que a violência doméstica é ma e que as mulheres são vitimas.

    Numeros de apoio para prestar auxilio, aconselhar, amparar, se necessario fôr incitar à queixa e à denuncia. Esta quieto ! Isso talvez funcione na Suécia. Em Portugal é paternalismo. Do outro lado da linha, esta necessariamente um incompetente, um académico que pensa que pode fazer alguma coisa, que digo, um cumplice inconsciente do agressor, que vai fazer ainda pior, senão mesmo ser a causa determinante do homicidio.

    Eu acho que os Portugueses gostam de se ver como vitimas, de violência doméstica, ou de outra coisa qualquer.

    Gostava de vos dizer que podem chamar um numero de apoio : “Socorro, sou Português, não tenho jeito para isto, acudam-me”.

    Mas não ha.

    Foda-se !

  46. Viegas, em estreia, junto o meu foda-se ao teu.Puxa, não se pode fazer nada, porque as vítimas são dependentes??? Mas que raio de argumento é este??… CLARO QUE SÂO DEPENDENTES…por que outra razão estariam nesse papel?

    E depois? É o destino, é o fado, é fatal? Parece que sim, não há nada a fazer. É deixá-las morrer ou matar o marido.

  47. Desculpe lá, João Pedro, se há aqui alguém que está a ser pica na merda não sou eu, explique-me lá como é que uma alteração no discurso, no código de um discurso, não determina uma alteração na comunicação? Você decide encher um cx de comentários de neologismos e, em consequência, a nossa comunicação, até aqui possível, passa a estar profundamente comprometida, alterada, portanto.

    (não discorda nada de mim, não comigo, eis uma alteração na comunicação)

  48. comunicar é muito mais do que argumentar e antes de exigir retribuição condigna exige, como alguém me disse um dia, vontade e, como digo eu, verdade. a comunicação eficaz é a que consegue reunir, em comum, as vontades e as verdades de cada um.

  49. João Pedro , os seus argumentos foram comunicados de forma excelente , até eu percebi.
    as demonstrações da Ana ? pois , que é que há-de fazer?

  50. e já agora , os 3 casos de violência doméstica que conheço de perto:
    1- o génio da família , prof doutor , 2 licenciaturas , conservatório de piano , e suponho que até fala francês , filha única e todo o apoio e mais algum quando deixar o anormal bebado que decidiu sustentar , coitada , está esperançosa que um dia se renda ao seu amor incondicional e se torne um homem pacífico e trabalhador.
    2- prof primária , excelente dona de casa , rica , casada com um tóxico a quem sustenta o vício. foi tendo filhos na esperança de que um dia ele por artes mágicas e do seu amor incondicional mudasse. o que mudou foi o número de pessoas da família a quem sovar.
    3- uma miúda de 20 anos , empregada e com uma filha , uma tia madrinha e pessoas no trabalho que a incentivaram a deixar o cromo que vive à conta dela : ai , noutro lado ele muda..é o pai da milha filha.. o meu amor vai fazer que ele um dia me deixe de bater e trabalhe.. deixou todos os apois que reuniu para fugir com o sovador , quando se fez queixa dele.
    Logo , Edie , um dia eu tinha de te dar toda a razão e mais alguma. só alguém mesmo fora das relações gata borralheira /príncipe pode achar que ” não tenha esperança , telefone ” não se enquadra no real.

  51. e ia dizer ao V : tranquilo , o grátis não vai substituir o pago.. mas depois lembrei-me do Agostinho da Silva , da net e dos viciados em dádiva ( que os há) agora com viral público de milhões e já não digo.

  52. Val, reparei que não respondeste à minha pergunta, apesar de eu ter respondido à tua.
    Mas acho esta resposta muito satisfatória, do William A. Ewing (The Body) :

    “A fotografia não obedece a nenhuma norma moral, não deve lealdade a ninguém”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.