Veneza o Primeiro poema – Entre pedra e água (foto Humberto Lopes)

As ruas de Veneza são iguais às veias e artérias que percorrem os caminhos líquidos da alegria. O mesmo é dizer: não há ruas em Veneza, apenas travessas, becos e praças no intervalo das pedras e da água.

As ruas de Veneza não existem como as outras ruas de outras cidades: com fumo e ruído e a ânsia metálica de chegar numa pressa para nada. A água dá aos grandes passeios o ritmo de uma vida que nasceu num líquido anterior, num sono descansado, na paz de não haver conflitos porque a placenta os dilui e aniquila. A pedra dá às viagens a força dum passado sempre a resistir à erosão da chuva, do vento e da morte.

Entre pedra e água, as ruas de Veneza não existem mas são verdade.

Má sorte serem os portugueses a habitar em Portugal

O secretário de Estado do Orçamento disse esta tarde, no Porto, que “as medidas no Orçamento do Estado (OE) para 2012 são suficientes” para atingir o défice de 4,5 por cento, mas sublinhou que, “evidentemente, precisamos de muita sorte”.

Luís Morais Sarmento referiu “haver muitos riscos macroeconómicos, que não temos capacidade de influenciar ou dominar, porque é completamente exógeno” ao Governo e a Portugal.

“O que temos de fazer bem é o nosso trabalho de casa, mas se as coisas correrem menos bem teremos de ver que medidas adicionais serão necessárias” para alcançar os 4,5 de défice no próximo ano, defendeu o secretário de Estado, que não prestou declarações à comunicação social e regressou logo a Lisboa após a sua intervenção no debate.

Fonte

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O que diz este Secretário de Estado é em tudo igual, no que à lógica diz respeito, ao que se disse nos PEC apresentados pelo Governo anterior. A única diferença é a de no passado não se invocar a sorte. Eram mais responsáveis os socialistas, embora menos transparentes. Porque ser transparente, completamente transparente, significa assumir à letra o que este Sarmento está a dizer: pouco importam as metas orçamentais que se definam, o resultado final das contas públicas é uma questão de sorte. Se tal nem ofende em tempos de alguma estabilidade na economia e finança internacionais, nesta situação caótica a sorte é o único factor com o qual se pode contar.

A estratégia do PSD e de Cavaco, assim que rebentou a crise das dívidas soberanas, foi a de apagar as referências à Europa e repetir a tanga de que a causa do problema para Portugal estava nos erros ideológicos dos socialistas, nas falhas técnicas dos governantes PS e no carácter de Sócrates. Embrulhavam o veneno com a promessa de irem estancar sem dor a sangria do esbanjamento de recursos e salvar-nos da hipoteca do nosso futuro. Era uma questão de ginásio três vezes por semana e umas saladinhas, não de bloco operatório e coma induzido. Havia muitas e badalhocas gorduras no Estado, sendo que a gente séria não suporta o convívio com gordos a cheirar a povo. Assim que tomaram o poder, os actuais dirigentes social-democratas mostraram que as eleições de 2011 correspondem à maior fraude programática de que há memória.

Em Março, dizia-se que o PEC IV não chegaria e que ele só alimentava o problema. Supostamente em nome do limite aos sacrifícios, o Presidente da República e toda a oposição acharam preferível levar o País para um empréstimo de urgência que seria sempre ruinoso, fosse ele qual fosse. Do lado da direita, a austeridade imposta de fora aparecia como a solução ideal, a capa perfeita para o seu desprezo pelos pobres. Do lado da extrema-esquerda, reinava a dinâmica do quanto pior para o trabalhador melhor para o sindicalista-guerrilheiro e para o demagogo.

Hoje, estamos em período de intensa aprendizagem. Vamos sentindo cada vez mais no bolso, e no enfraquecimento do Estado, que o PEC IV, e outros programas e medidas que continuassem a ser necessários adentro da inevitabilidade dos riscos macroeconómicos exógenos, correspondia ao trilhar do caminho menos gravoso para o maior número de cidadãos. Só que nem toda a sorte do Universo o poderia salvar. O seu chumbo provou que muito mais poderosa do que a sorte é a fatalidade de serem portugueses os actuais nativos de Portugal.

Cineterapia


The Ides of March_George Clooney

Este é um filme falhado, superficial, tanso que merece ser visto e estimado. E precisamente pelas mesmas razões. Começa por ser uma obra do Clooney, um dos maiores porreiraços de Hollywood. Queremos que ele continue a realizar, focando-se nas temáticas políticas, sociais e dos direitos humanos como tem feito também como cidadão do Mundo, por isso o mínimo que podemos fazer é continuar a pagar pelos seus serviços artísticos. Depois reúne os actores mais porreiraços do momento, como o próprio George, Ray Gosling (que teve em 2011 um ano glorioso), Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti e Marisa Tomei, seres humanos com quem gostaríamos muito de passar a noite de réveillon ou, em alternativa, uma qualquer outra noite do ano findo ou vindouro desde que o fluxo de bebidas e petiscos não fosse inferior. Por fim, porque nos conta uma historieta porreiraça, com os mínimos de interesse e banalidade para satisfazer tanto os ingénuos como os cínicos.

Só para idealistas e românticos – portanto, só para os cinéfilos, irremediáveis platónicos – é que este filme se revela uma chachada. Prometendo tratar do esvaziamento ético que será inerente à carreira política, o espectador é levado para uma sequência de peripécias que vão ficando cada vez mais gratuitas e inverosímeis apesar, ou por causa, da sua convencionalidade. Claro, estamos no cinema, um reino de fantasia, celebrando-se o decisivo contributo dos elementos gratuitos e inverosímeis desde 1902, ano em que Méliès disparou um foguetão para a Lua. Mas quando deixamos de acreditar nas personagens, constatando que também elas não sabem em que filme estão metidas, e descobrindo penosamente a sua infantilidade, esse é um salto para o fantástico que não tem nada de maravilhoso.

O tema da corrupção na política – ou seja, a problemática da presença do mal na sociedade – é coevo da invenção da fala e uma das chaves hermenêuticas para o estudo das mitologias e tradições poéticas orais. Quem estudar História, seja qual for a época escolhida para o efeito, vai descobrir um lençol de perfídias e de queixas que emanam da luta pela sobrevivência e da procura de recursos e segurança. Algumas são em tudo equivalentes às nossas na actualidade – apesar das variações geográficas e culturais, quando não civilizacionais – da passagem dos séculos – quando não dos milénios – e do primitivismo do modo de vida – quando não da brutalidade e violência como norma. Botar discurso a respeito deste plano da experiência humana, assim, pede um inevitável trabalho de recapitulação da memória histórica, de montanhismo intelectual, para se poder dar a ver uma qualquer nova paisagem, ou que não seja nova mas que esteja límpida e larga. Não sendo o caso, mais valia que Clooney tivesse escolhido fazer o remake de Mr. Smith Goes to Washington. Tinha os actores ideais para a empreitada e uma história onde a corrupção da política é contada com muito maior ferocidade. Para além disso, o filme de 1939 dá-nos algo que podemos fazer nosso, que não mais nos abandonará. É só para isso que serve o cinema, George.

O improvável não é impossível

Manoel de Oliveira fez 103 anos há uns dias. Em 1981, iniciou-se o período de maior e melhor actividade da sua carreira. Quanto mais não fosse, apenas por nos mostrar que a vida pode recomeçar aos 73 anos e depois continuar num crescendo de frenesim criativo, a nossa gratidão já daria para encher muitos filmes.

Gostava de dizer isto antes de morrer, disse ela

Eu ’tou enervada com o Sócrates. Eu ainda não deixei de estar enervada com o Sócrates, e queria só dizer uma coisa em relação à suposta licenciatura dele. Agora saiu um livro do Rui Verde, que foi o subdirector da Independente, e que mostra provas… Portanto, o mesmo homem que aqui há uns tempos sancionou, dizendo que não houve nenhuma irregularidade, agora está a mostrar provas concludentes de que houve trafulhice administrativa. Bom, mas independentemente disso, e agora se é verdade ou se não é verdade, eu gostava de dizer, gostava de dizer isto antes de morrer, que para mim não é preciso ir às Freeports e òs Faces Ocultas e òs enriquecimentos ilícitos da família dele para eu ter vergonha deste primeiro-ministro, se é verdade, de facto, que ele mentiu na licenciatura.

Porque é assim: eu não sou formada, não sou licenciada. Durante uma vida inteira, há 40 anos, que eu estou a dizer – que é uma coisa incómoda e chata – “não sou doutora”, “não sou doutora”. Corta a conversa, não é relevante, as pessoas dão-te um honoris causa por simpatia e tal. Mas, de qualquer maneira, há um escrúpulo das pessoas dizerem “não sou doutora”, porque as coisas ou são ou não são. Agora, este tipo, que não tinha necessidade disto, ter feito isto, para mim é nojento. Nojento. Não tem explicação.

[…]

É vergonhoso. O mau exemplo que se dá às crianças, não é? Eu tenho poucos exemplos, mas tenho um ou dois, não é? Agora quando os exemplos vêm desta coisa… Enfim.

[…]

Porque é que não é relevante, a gente ter um tipo que é primeiro-ministro, que é um exemplo de uma nação, que mente e diz que é doutor? Que se vá julgar isto, porque isto chama-se burla, e a burla é passível de processo.

[…]

Nada foi investigado exaustivamente até ao fim, nada foi levado a julgamento.

Rita Ferro, a partir do minuto 12

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Rita Ferro não acredita na palavra de Sócrates nem nas entidades que investigaram os casos lançados contra ele. Em vez disso, diz que o homem falsificou documentos para se poder apresentar como doutor. E diz que a família de Sócrates enriqueceu de forma ilícita. Daí a angústia da Rita Ferro com o sofrimento das crianças, sujeitas a estes exemplos vindos de um primeiro-ministro. Que será das nossas crianças? Que mazelas irão marcar as suas inocentes almas como resultado de Sócrates não ser um verdadeiro doutor? Algo devia ser feito, um bom exemplo devia ser dado: processá-lo por burla, por exemplo. É que aquilo que não vai parar aos tribunais não é investigado exaustivamente até ao fim, explica a Rita Ferro – embora omitindo, e também aqui por causa da sua preocupação com as crianças, a parte em que o fim mesmo final, esse tal fim que resolve definitivamente o problema levantado pelo primeiro-ministro-não-doutor, implicaria um grupo de caçadores lado a lado frente a uma parede, corda grossa pendurada num pinheiro ou uma cadeira ligada à EDP. As nossas crianças não precisam de saber já desta parte da resolução do problema, têm tempo para irem aprendendo com a gente séria.

Rita Ferro é paga pela estação pública de televisão para insultar, ofender, difamar e caluniar um número indeterminado de pessoas, incluindo variegadas autoridades. Incrivelmente, esse não é o mal maior. A seu lado estava um Herman José que tentou introduzir racionalidade na situação, mas o qual acabou por alinhar no mesmo registo, tendo verbalizado que também ele poderia contar casos de supostas ilegalidades ou crimes de políticos, não podia ser era frente às câmaras. E ainda isto não é o mal maior, incrivelmente. Tendo o programa ido para o ar no dia 11, e estando nós a 14, ninguém sequer registou a ocorrência, quanto mais protestar. O que tem como corolário a fortíssima hipótese de já não estar em vigor o Estado de direito. Nem magistrados, nem partidos, nem sindicatos, nem ordens, nem grupos cívicos, ninguém se importa que Sócrates – alguém que não consta ter perdido o estatuto de cidadão – seja perseguido e vexado na RTP em modo de pré-linchamento. O mal maior é esta cumplicidade silenciosa com os pulhas.

A Rita Ferro repete o que milhares e milhares de infelizes continuam a balir fruto de uma campanha imparável que serviu, e serve, os interesses de Cavaco e do PSD. Mas também os interesses do PCP e do BE, que se juntaram febris para a matança da honra de um adversário transformado em inimigo a abater por todos os meios porque não se deixava assustar ou comprar. O Portugal da Rita Ferro, essa mixórdia de videirinhos hipócritas e de inquisidores vermelhos, suporta quase tudo menos aqueles que perderam o medo.

Um livro por semana 267

«O sangue por um fio» de Sérgio Godinho

Para Camilo Castelo Branco o poeta é quem desmente as leis fisiológicas, vivendo do princípio vital de uma única entranha – o coração. E é o coração que dá o título ao livro no seu último poema: «Até que uma tarde, manhã, noite / por impulso e por vingança / (aquela que se serve fria) / arrefece e deixa de bater / sem dar tempo aos outros de o chorarem.» Mas o ponto de partida do livro é a viagem como metáfora da vida: «Não aparecem sempre, os destroços dos actos / em cada memória flutuam / e em cada sonho se transformam / desejam o que antes desejámos / não se conformam / desaparecem levados».

O poeta sabe que não há presente na Poesia; apenas esperança (futuro) e saudade (passado). Por isso adverte sobre as ilusões: «as ilusões parecem-se com a moeda / como a moeda não têm medida certa / não se definem senão / pelo uso que delas se faz». Num Mundo violento («arma de fogo é metáfora»), o poeta pergunta: «Para que serve uma arma de fogo? / Para chegar mais depressa aos inimigos». O poeta vê, no oposto da Violência a Liberdade: «São os acordos falhados / que fazem da liberdade uma procura / uma cratera uma conquista». No oposto da Nação, vê o Indivíduo: «Quem atirou fora, na pressa, / a minha primeira radiografia, como é que eu sei?». No oposto da Vida, vê a Morte: «A morte encontra o seu projecto por entre arenas / precedida por rastos de entradas e saídas / a coisa do costume / areia no sangue». No oposto da Morte, vê o Amor: «Quando muito mais tarde / tendo aprendido as leis da perspectiva / vi os teus olhos numa clara recta / um claro dardo / curvado só por esse riso / que sabemos vir das vidas anteriores / – e o sonho, tido de véspera / me confirmou ser conforme o original – / não digo que passei a acreditar em tudo / mas acreditei em tudo nesse momento».

(Editora: Assírio & Alvim, Desenhos: Tiago Manuel)

O jacaré e as lagartixas

Há porém agora uma nova versão destes ataques que é a invenção de histórias falsamente testemunhais em que apareço como parte e que são, pura e simplesmente, inventadas. Nem sequer são apenas deturpadas, falsas, são inventadas. De uma ponta a outra. E como na Internet nada se cria e tudo se transforma, elas circulam repetidas dia a dia ganhando nessa repetição o estatuto de verdadeiras.
(…)
Há um mecanismo psicológico que faz com que as pessoas inventem “factos“ que as relacionam com alguém que tem a maldição de ser demasiado conhecido, quer positiva, quer negativamente. Já não é a primeira vez que isso me acontece e não será a última. Sei também que não adianta desmentir nada, a história, essa e outras, continuarão a circular. Como disse antes, é a vontade de alguns de que seja verídica, que a faz circular, porque isso é útil para os ataques de carácter.

Lamentos de Pacheco

 

O Pacheco Pereira tem toda a razão, embora o que mais surpreenda neste vídeo insonso não sejam propriamente as acusações e deturpações imbecis, mas antes o facto de conseguirem pegar numa das personagens mais trágico-cómicas da nossa política e terem um resultado tão tristonho e desinspirado. É, convenhamos, uma enorme seca, a confirmação que o 31 da Armada está a cair naquela triste decadência Hermanjoseniana que inevitavelmente atinge os putos reguilas quando se tornam parte do establishment. Especialmente quando esse establishment é o Passos, o Relvas, a Cristas e, enfim, o Álvaro.

Há no entanto um lado muito positivo deste episódio que o afamado estratega deverá ter em consideração, à laia de consolo: ao menos estes aprendizes de feiticeiro não têm uma comissão parlamentar de inquérito à disposição. O estatuto, afinal, ainda vale alguma coisa.

Conforto não lhes falta – Passos fala estrangeiro

Vamos lá a saber. Como interpretará a grande maioria da população do nosso país as seguintes palavras do primeiro-ministro, ontem proferidas para as televisões:”o Governo está absolutamente confortado com a proposta” (feita pelo ministro da Saúde)?

Contexto: aumento das taxas moderadoras e “plafond” ainda não atingido.

«Questionado se os aumentos das taxas moderadoras que estão previstos não poderão deixar portugueses sem acesso à saúde, o primeiro-ministro respondeu que “não” e que “o Governo está absolutamente confortado com a proposta” feita pelo ministro da Saúde.» (ler no DN)

Chatices entre talibãs

O deputado João Semedo considerou, esta sexta-feira, que a saída de 200 elementos da Ruptura/FER vai deixar o Bloco de Esquerda reforçado.

«É um grupo que sempre teve uma linha política muito sectária, de extremo radicalismo, que sistematicamente discordava das decisões do BE, fossem elas quais fossem», assumindo, em contrapartida, «decisões incompreensíveis e inaceitáveis», como apelar à constituição de «brigadas de solidariedade com os talibãs no Afeganistão» e «apelar ao voto em branco nas presidenciais», disse.

Fonte

Vinte Linhas 706

O Bairro Alto em festa quer dizer que não morre

Nasceu em Dezembro de 1513 e está a festejar 498 anos. A primeira casa, ainda como Vila Nova de Andrade, está testemunhada num tabelião de Lisboa. Na manhã do passado domingo o Conservatório Nacional teve dois cantores a darem a boas vindas a um grupo de moradores do Bairro Alto que ainda resistem. A orquestra do Conservatório, sob a direcção de Alexandre Branco, executou peças de Mozart, Beethoven e Mendelssohn. O concerto para piano e orquestra de Mozart teve como solista Bárbara Costa. Foi uma abertura solene e cosmopolita para o aniversário de um bairro onde sempre se cantou o Fado, se fizeram e ainda fazem livros e jornais, onde João Garcia de «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio passou as suas angústias à espera da carta de Margarida e onde Molero viveu as suas aventuras nas ruas perto do «Farta Brutos» e nas páginas de Dinis Machado. Hoje o Bairro Alto tem os seus filhos cada vez mais longe. Uns em Londres, outros em Dublin, outros a caminho da Austrália. Um ex-morador desabafa: «Se não fosse ter um bebé pequeno, também eu emigrava!»

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Da importância do estudo da filosofia

Comme la volonté particulière agit sans cesse contre la volonté générale, ainsi le gouvernement fait un effort continuel contre la souveraineté. Plus cet effort augmente, plus la constitution s’altère; et comme il n’y a point ici d’autre volonté de corps qui, résistant à celle du prince, fasse équilibre avec elle, il doit arriver tôt ou tard que le prince opprime enfin le souverain et rompe le traité social. C’est là le vice inhérent, et inévitable qui, dès la naissance du corps politique, tend sans relâche à le détruire, de même que la vieillesse et la mort détruisent enfin le corps de l’homme.

Jean-Jacques Rousseau, Du Contrat Social, Chapitre X – De l’abus du Gouvernement & de sa pente à dégénérer, 1762

ASAE, a milícia socrática

ASAE encerra “Guilty” e detém empresário Olivier

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Se este acontecimento tivesse tido lugar antes de 6 de Junho de 2011, podemos ter a certeza de que iria causar um banzé monumental. O “Guilty” é um bar-restaurante que começou por ser um poiso preferencial dos queques e agora está na fase da miscigenação com o povoléu beto. E o Olivier é filho do famoso Michel, juntos têm engordado e embezanado a totalidade da gente séria nos seus estabelecimentos ao longo de muitos anos. Maneiras que teríamos assistido a um imediato clamor, com milhares de caracteres a serem furiosamente debitados, declarações inflamadas dos comentadores televisivos e conferências de imprensa especialmente dedicadas ao assunto. Relvas apareceria a berrar que os familiares de Sócrates deviam ter vergonha dele por andar a perseguir a fina-flor dos nossos empreendedores. Portas surgiria de dedo em riste apontado a um Governo que deixava o País a saque e só queria prender quem trabalha. E a legião de publicistas direitolas faria intermináveis variações sobre o nojo que sentiam dos socialistas e a necessidade de um Governo de iniciativa presidencial com plenos poderes para julgar Sócrates por crimes contra a restauração.

Impressionar os amigos, brilhar nas festas, seduzir o Pai Natal

Mix of Traditional and Contemporary Values Linked To Married Parents’ Happiness
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A Mother’s Touch May Protect Against Drug Cravings
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Human Brains Unlikely to Evolve Into a ‘Supermind’ as Price to Pay Would Be Too High
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Economic Recession Takes Toll On Family Relationships
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Child Abuse Changes the Brain, Study Finds
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Patterns Seen in Spider Silk and Melodies Connected
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How People Assign Blame: Cohesive Groups Hold Members Less Responsible for Individual Actions
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Helping Your Fellow Rat: Rodents Show Empathy-Driven Behavior, Evidence Suggests
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Humility Key to Effective Leadership
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Intermittent, Low-Carbohydrate Diets More Successful Than Standard Dieting, Study Finds
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National Pride Brings Happiness, but What You’re Proud of Matters
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Middle-Class Elementary School Students Ask for Help More Often Than Their Working-Class Peers
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What We Want to See On TV: Handsome Politicians

Vinte Linhas 705

Não há areia nas praias de Brighton

No Teatro da Politécnica os quatro actores da peça «A farsa da rua W» de Enda Walsh (Américo Silva, João Meireles, António Simão e Laurinda Chiungue) falam muitas vezes de um lugar (Elephant & Castle) que faz parte de uma zona muito pobre do Sul de Londres. Nesse chamado South Bank, o sítio Elephant & Castle faz parte de um triângulo entre Lambeth, Walworth e Kennington. Foi aqui (East Street) que nasceu Charles Chaplin em Abril de 1889. Foi aqui que seu pai morreu em 1901 com apenas 37 anos de idade. Mais tarde, lembrando as mobílias em segunda mão da casa de Brixton Road que habitou em 1908, Charlot dirá que havia ali uma «mistura de um bordel francês com uma tabacaria».

Continuar a lerVinte Linhas 705

Lembramo-nos tão bem de quando Sócrates não queria pagar a dívida

Nem baixar o défice! Tudo começou a tornar-se claro por volta de 2007/2008, ia o governo com mais de dois anos de exercício e satisfeito da vida com o défice herdado, de 6,3%, quando, de repente, se deu conta de que o mesmo caíra para uns escandalosos 2,8%! Como fora possível? Sócrates não queria; achava que ter um défice elevado era bom, significava que Portugal poderia num dia glorioso avistar-se da Lua: as suas obras sumptuosas, douradas, faraónicas seriam o cartão de visita do planeta! E ele, o seu responsável.
Mas enfim, azar, aconteceu. O défice baixou. E que fez o nosso homem? Ouviu dizer que rebentara um escândalo em Wall Street, umas vigarices valentes, uns “subprime”, uma bolha imobiliária que rebentara e que, diziam-lhe, estava a causar um tsunami na Europa, com fecho de empresas e quebra acentuada das receitas. Viu ali então uma ocasião única para voltar a elevar o défice e aumentar a dívida para níveis mais compatíveis com o seu gosto e as suas teorias económicas extravagantes, que, sabe-se hoje, assentam no princípio de que quanto maiores as dívidas dos Estados melhor, e que as dívidas não são para pagar em nenhuma circunstância. Esta informação chegou-nos directamente de Poitiers, com o selo de garantia do Correio da Manhã. Não ouvimos o mesmo que o director do jornal nem o orador o confirmou, mas, se eles o dizem… vamos discordar porquê?

Foi assim que, apesar das ordens estritas da União Europeia para que nenhum Estado-Membro apoiasse a economia e que, nos diferentes países, se deixassem as empresas em dificuldades ir à falência – caso da Alemanha, que deixou imediatamente falir a Volkswagen -, Sócrates, teimoso, insistiu em aumentar os apoios aos desempregados e conceder incentivos à economia, prevendo, inclusivamente, investimento público para compensar a falta de investimentos privados e não deixar morrer a economia. Tudo, claro, contra as directrizes da Comissão que até nem tinha adoptado um pacote de medidas de estímulo intitulado “Plano de Relançamento da Economia Europeia”.

Contente por finalmente estar a conseguir aumentar a dívida e o défice para valores totalmente do seu gosto, e não vendo, não vendo mesmo, tão enebriado estava com os gastos sumptuosos, que os especuladores começavam a encontrar na zona euro um filão promissor e potencialmente inesgotável, começou a pedir à oposição que lhe desse todo o apoio possível ao aumento do endividamento. Foi isso, não foi? E aí, ironia!, constatou que a dita oposição, sim, lhe dava todo o apoio : não queria impostos, não queria sacrifícios, havia limites! Ele queria gastar mais e eles até alinhavam!
Só para contrariar, porém, e contra tudo o que pensava, até mesmo contra as novas directrizes da União Europeia, Sócrates começou a reduzir a despesa e a seguir uma via de maior austeridade, através dos PEC.

E a oposição? Uns, que não, que não podia ser, que havia direitos adquiridos. Outros, que não, que assim não, que havia maneiras simplicíssimas de cortar na despesa, que não se justificavam aumentos do IVA, nem cortes de 5% nos salários, nem suspensão das transferências para a Madeira, nem escalões no ensino. Que fariam melhor e mais rápido sem sacrifícios para os portugueses, que já se sentiam no limite.
Transpostos estes argumentos para o megafone do presidente da República e depois para o das televisões, tomaram o poder.

O resto da história e os limites da austeridade já são de todos conhecidos.

Mas aventesmas como esta ou Freitas ou Henrique Monteiro do Expresso e outros pulhas, que até admitem que a crise é sistémica e que a sua origem nacional é altamente discutível, continuam a debitar que Sócrates foi o responsável pelo estado a que chegámos, agora revigorados pela descoberta de que, para ele, as dívidas não se pagam (o que desde a primeira hora do seu governo se demonstra, não é?) e, portanto, os défices não se baixam. Até quando vamos ter de aturar estes vómitos?

Limites do bom senso

Isto ultrapassa os limites do bom senso. Esta é a realidade. É a realidade em que chegámos em Abril. E se não quiserem reconhecer a realidade, se não quiserem reconhecer a realidade, não a reconheçam. Batam com a cabeça na parede, porque a realidade é sempre mais resistente do que a cabeça. Isto podem ter a certeza.

Carlos Costa a dar tautau nos xuxas

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No que toca a ofensas aos deputados ocorridas dentro da Assembleia da República, quase nada consegue superar o espectáculo do Crespo a distribuir fotocópias pelos deputados sentados, depois a sacar da camisola com uma idiotice qualquer acerca de Sócrates e a galhofar que dormia com ela. Crespo foi para uma comissão parlamentar com a intenção planeada de achincalhar todos os deputados presentes. Mostrou o seu visceral desprezo pela instituição que o convocou e pelo regime que lhe garante os direitos. E saiu de lá cheio de razão: é mesmo possível tourear deputados numa qualquer saleta do Parlamento.

Claro, pior do que a pândega do Crespo, mil, milhões de vezes pior, foi a inaudita utilização de escutas para fazer do mais baixo e sórdido combate político que jamais se viu em democracia. Dos dois deputados que aceitaram ser cúmplices da violação da privacidade de cidadãos, um disse nada ter lido que tivesse interesse político ou criminal, o outro disse que encontrou factos “avassaladores”. Que deve então fazer um deputado quando encontra provas avassaladoras de conspirações governamentais para dominar politicamente canais de televisão privados através de empresas com capitais públicos? Segundo o exemplo do Pacheco, nadinha de nada. Se isto não é o maior insulto ao estatuto dos deputados, a lógica é uma batata.

Não, o descontrolo emocional de Carlos Costa, deixando-se arrastar para uma reacção que tinha tanto de arrogância oligárquica como de despeito geriátrico, não belisca os deputados. O homem tem direito à sua pequenez. Mas as palavras proferidas importam precisamente no que transmitem de racionalidade. Elas repetem o estribilho que tomou conta da retórica da oposição ao Governo, e da direita, com uma ferocidade que se adensa com o agravamento da crise, apesar de a gente séria estar agora a pôr e dispor nisto tudo: Sócrates, por loucura ou por ser o Diabo, levou Portugal à bancarrota; e o PS alinhou com ele, ou foi por ele dominado, nessa corrida para o abismo. O Governador do Banco de Portugal conhece a realidade, como fez questão de ensinar aos deputados, sendo que quem não concordar com ele não pode estar bom da cabeça. O Galamba seria um desses seres asquerosos que têm alergia à realidade, pelo que devia ser devidamente higienizado para não andar por aí a espalhar o vírus da irrealidade. Eis a Política de Verdade ainda a servir para o gasto.

Vem, pois, mesmo a propósito lembrar que Carlos Costa foi escolhido pelo Governo que ele, logo após tomar posse como Governador, não se cansou de boicotar com declarações públicas ao serviço da estratégia alarmista. Os ranhosos e os broncos não estão em condições neuronais capazes de operar com estes dados, porque isso implicaria terem de conseguir explicar como é que o tipo que tinha uma máfia instalada no Estado, e que desejava a bancarrota do País como suprema realização pessoal, acabou por escolher tão adversa figura para tão poderoso cargo. Contudo, é bem possível que Carlos Costa, usando o Galamba como veículo da sua ira, tenha acertado em cheio a respeito da apetência de Sócrates para ultrapassar os limites do bom senso:

Teixeira dos Santos revelou ontem como Carlos Costa foi escolhido para substituir Vítor Constâncio no cargo de governador do Banco de Portugal. “Um dia à tarde, Sócrates entrou pelo gabinete e perguntou-me que nomes tinha para o Banco de Portugal.” O ministro respondeu ter uma lista com vários nomes, sendo que “o primeiro era Carlos Costa”. Ao que Sócrates retorquiu: “Fica por aí que era mesmo nesse que estava a pensar.”

Fonte

Alerta cinzento

De todos os avisos emitidos pelo Instituto de Meteorologia, aquele a que menos se presta atenção, aquele que mais se despreza, é o de risco de nevoeiro. Tão maltratado anda este fenómeno atmosférico que os próprios técnicos já nem se preocupam sequer em informar a população da sua ocorrência – como foi o caso para Lisboa, mergulhada num magnífico nevoeiro logo que caiu a noite, o qual se prolongou denso pela madrugada, mas sem tal ter sido antecipado na previsão para 6ª feira.

Como são néscios estes meteorologistas. Ignoram que as noites de nevoeiro podem levar dois amantes para o risco extremo de incendiarem as ruas e as horas.

Vinte Linhas 704

Ricardo Serrado – um historiador para quem o Sporting não existe

Este livro («Futebol – a magia para além do jogo») começa com um problema técnico: alguém se esqueceu de dar os respectivos números às páginas entre a 5 e a 16. Estão em branco. Outro problema é que para o autor os sete maiores jogadores do Mundo são: Zidane, Michael Laudrup, Le Tissier, Maradona, Pelé, Messi e Roberto Baggio. Na página 45 refere Chalana como o mais genial e na contracapa diz que Eusébio é o maior. Como nasceu em 1980 nunca ouviu falar de Peyroteo nem de Matateu nem, muito menos, de Travassos, o primeiro português a jogar na selecção da Europa. Mas anuncia o seu livro como «uma reflexão» embora depois explique que foi «escrito com o coração» e o proclame «sério, rigoroso e honesto». O autor não deve ter lido «Glória e vida de três gigantes» de 1995 (edição A Bola) pois assim saberia que, ao contrário do que diz no seu livro nas páginas 119 e 140, houve muito mais do que Benfica e Selecção Nacional na década de 60 em Portugal. Houve o Sporting Clube de Portugal que conquistou contra o MTK da Hungria a Taça das Taças em 1964, numa epopeia de 12 jogos (contra Atalanta, Apoel e Lyon) na qual impôs uma derrota ao Manchester United por 5-0. A prova, iniciada em 1960-1961, foi disputada até 1997-1998 e teve como vencedores equipas como o Barcelona, o Arsenal, o Chelsea, o Ajax, o Bayern de Munique, a Juventus e o Manchester United – entre outras. Há deslizes de escrita como na página 45 («É preciso duas coisas») ou na página 85 («A língua oficial é o inglês e o francês») mas o maior deslize será quando refere o ano da fundação do SLB: «quem fez do futebol um dos efes da sociedade portuguesa da altura foi o povo (concomitantemente desde 1908) que via naquela modalidade um enorme entretenimento e uma busca de excitação sistemática.» Ora bolas!