Má sorte serem os portugueses a habitar em Portugal

O secretário de Estado do Orçamento disse esta tarde, no Porto, que “as medidas no Orçamento do Estado (OE) para 2012 são suficientes” para atingir o défice de 4,5 por cento, mas sublinhou que, “evidentemente, precisamos de muita sorte”.

Luís Morais Sarmento referiu “haver muitos riscos macroeconómicos, que não temos capacidade de influenciar ou dominar, porque é completamente exógeno” ao Governo e a Portugal.

“O que temos de fazer bem é o nosso trabalho de casa, mas se as coisas correrem menos bem teremos de ver que medidas adicionais serão necessárias” para alcançar os 4,5 de défice no próximo ano, defendeu o secretário de Estado, que não prestou declarações à comunicação social e regressou logo a Lisboa após a sua intervenção no debate.

Fonte

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O que diz este Secretário de Estado é em tudo igual, no que à lógica diz respeito, ao que se disse nos PEC apresentados pelo Governo anterior. A única diferença é a de no passado não se invocar a sorte. Eram mais responsáveis os socialistas, embora menos transparentes. Porque ser transparente, completamente transparente, significa assumir à letra o que este Sarmento está a dizer: pouco importam as metas orçamentais que se definam, o resultado final das contas públicas é uma questão de sorte. Se tal nem ofende em tempos de alguma estabilidade na economia e finança internacionais, nesta situação caótica a sorte é o único factor com o qual se pode contar.

A estratégia do PSD e de Cavaco, assim que rebentou a crise das dívidas soberanas, foi a de apagar as referências à Europa e repetir a tanga de que a causa do problema para Portugal estava nos erros ideológicos dos socialistas, nas falhas técnicas dos governantes PS e no carácter de Sócrates. Embrulhavam o veneno com a promessa de irem estancar sem dor a sangria do esbanjamento de recursos e salvar-nos da hipoteca do nosso futuro. Era uma questão de ginásio três vezes por semana e umas saladinhas, não de bloco operatório e coma induzido. Havia muitas e badalhocas gorduras no Estado, sendo que a gente séria não suporta o convívio com gordos a cheirar a povo. Assim que tomaram o poder, os actuais dirigentes social-democratas mostraram que as eleições de 2011 correspondem à maior fraude programática de que há memória.

Em Março, dizia-se que o PEC IV não chegaria e que ele só alimentava o problema. Supostamente em nome do limite aos sacrifícios, o Presidente da República e toda a oposição acharam preferível levar o País para um empréstimo de urgência que seria sempre ruinoso, fosse ele qual fosse. Do lado da direita, a austeridade imposta de fora aparecia como a solução ideal, a capa perfeita para o seu desprezo pelos pobres. Do lado da extrema-esquerda, reinava a dinâmica do quanto pior para o trabalhador melhor para o sindicalista-guerrilheiro e para o demagogo.

Hoje, estamos em período de intensa aprendizagem. Vamos sentindo cada vez mais no bolso, e no enfraquecimento do Estado, que o PEC IV, e outros programas e medidas que continuassem a ser necessários adentro da inevitabilidade dos riscos macroeconómicos exógenos, correspondia ao trilhar do caminho menos gravoso para o maior número de cidadãos. Só que nem toda a sorte do Universo o poderia salvar. O seu chumbo provou que muito mais poderosa do que a sorte é a fatalidade de serem portugueses os actuais nativos de Portugal.

6 thoughts on “Má sorte serem os portugueses a habitar em Portugal”

  1. Penso que chegamos a um ponto de não retorno no caminho de um atraso colossal. Hoje, um jornal (de referencia) qualquer titula em parangonas: “Os portugueses não têm dinheiro para a solidariedade”. Curioso isto ser proclamado num país pretensamnente de cultura cristã fraterna. Curioso a hierarquia deste cristianismo alinhar militantemente e praticamente em bloco contra a “vocação” social-solidária do Estado, pugnando pela caridade medieval de uma sociedade feudal. A imagem de um senhor rico e todo poderoso governando a multudão dos súbditos devidamente submetidos, que recebeu directamente de Deus o seu poder, é o ideal não confessado mas profundamente gravado na alma da hierarquia católica portuguesa. O bem-estar é mesmo no “outro mundo”, para onde empurram o seu rebanho. Brevemente, nenhum meio aéreo (estatal-solidário) gastará um centimo de combustivel para salvar pescadores aflitos, porque essa tarefa será cometida à Senhora de Fátima.
    Deus, Pátria e Familia. Só falta PCP e o BE voltarem à clandestinidade. E nem imagino quanto têm rezado pela chegada deste momento. Finalmente como peixes na água.
    Podem contar com um povo serenado e confortado aos pés da Virgem Maria e da Santa Madre Igreja. Os padres são poucos mas isso tornou-se até muito conveniente, concentrando-se, por causa dessa escassez, a mensagem em meia dúzia de bispos- pastores a quem se diponibilza em profusão a vastissima rede dos meios audio-visuais da comunicação social.
    Colossal. Fatalidade de serem cristão-fraternos portugueses os actuais nativos de Portugal.
    “Salvé, nobre Padroeira, Rainha de Portugal, Enquanto houver portugueses…

  2. Ainda ontem ouvi Miguel Relvas dizer, para as televisões e a propósito dos protestos violentos contra as portagens na Via do Infante, que (cito de cor) “ninguém cobra portagens por gosto; durante anos andaram a construir-se estradas e mais estradas sem olhar aos custos”, etc.. Lembro que estava a referir-se ao Algarve. Ao Algarve! (mas podia ser às Beiras, a diferença não é muita) Alguém no seu perfeito juízo acha que no Algarve se poderia circular apenas com a 125 e que uma via como a A22 era perfeitamente escusada??

  3. Portugal sem os portugueses seria um País extraordinário. Por isso é que eu defendo, a médio prazo, uma República Federal Ibérica. Para deixar de haver portugueses e Portugal voltar a ter Futuro.

  4. Adoro ler aqui estes textos. Belíssimos! Escrevessem assim a maioria dos jornalistas e eu voltava comprar jornais. Com verdade, coerência, inteligencia e bom humor. Bem, com a crise que o fedelho e amigos nos estão a impingir, o dinheiro será escasso até para os jornais. oh! oh! Parabéns aos autores deste blog e as maiores felicidades sempre.

  5. Caro Val,
    se começamos a acreditar que só a sorte nos tirará deste imbróglio, quem vai ganhar é a santa casa, pois vai haver uma corrida ao euromilhões com o governo a obrigar os funcionários públicos, pensionistas e reformados a fazer dois por semana e, se tiverem prémio, a doar metade para o governo.
    Para além das medidas do OE2012 serem apenas um chorrilho de disparates, como é que uma figura do estado se pode refugiar na sorte para querer atingir uma meta a que se obriga?
    Um orçamento que atira a classe média para baixo, que põe os pobres mais pobres do que o que eram, que lança impostos e aumenta preços de tudo o que é importante (água, eletricidade, transportes, alimentação), que não dá um tusto para a economia, que reduz a duração dos subsídios de desemprego, bem como o seu valor, que destrói sistemática e tenazmente o SNS e a Segurança Social entregando-a aos privados, que ameaça vender ao desbarato todas as empresas que apresentavam alguma rentabilidade para o Estado.
    Um governo que mais parece um catavento, pois hoje diz uma coisa e amanhã o seu contrário com a imperturbável calma que nasce da ignorância.
    Sorte!
    Sorte teremos nós, se a Europa ganhar juízo e os movimentos que começam a aparecer crescerem e assustarem.
    Sorte nossa, se num rasgo de iluminação mariana a Igreja se resolver colocar do lado dos oprimidos e não o contrário como geralmente sempre faz.
    Sorte teremos ainda, se o PR admitir que se enganou e mandar este governo à fava.
    Sem esse tipo de sorte, restam-nos apenas os quatro cavaleiros do apocalipse cujos cavalos já estão a ser arreados.

  6. a mesma cassete contra tudo e todos.Um tal centro, imaginário e sebastianista, que quer dar-se bem com deus e com o diabo

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