Cineterapia

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Mr. Smith Goes to Washington_Frank Capra

A vida é curta e cansa. Atingir a maturidade é ser atingido pelo cinismo. E o cinismo tem benefícios evidentes, não sendo o menor deles a narcótica desresponsabilização. Depois, acontece aos cínicos o mesmo que aos psittaciformes: repetem-se. O mundo do cínico é mais redondo, mais liso e mais iluminado. Lógico e asséptico, encara a esperança como erro de cálculo e o mistério como patologia. Quando a imaginação finalmente atrofia para lá do remissível, o cínico está em condições óptimas para se tornar num corrupto. É então que olha com interesse para os negócios e para a política.


Nos partidos cultiva-se a amizade. O número de almoços, jantares e noitadas de correligionários, em qualquer mediana carreira política, é um imponente monumento aos valores do convívio, da proximidade, da solidariedade, do diálogo, do compromisso. Mas a amizade é madrasta nisso de conter obrigações. É medida pela quantidade e qualidade das retribuições mútuas, o que implica a gestão de bens não replicáveis; como o são o tempo e o espaço. Nos partidos a amizade nunca é uma questão de química, antes de física e respectivas teorias da relatividade. Por tanto, ou tão pouco, o político partidário cedo descobre a agridoce verdade dos factos: é a amizade que cria os inimigos. Sucede-se nova nova: são os inimigos que criam os amigos. O estupor das revelações acaba por ceder perante o sustentável peso do ter, e o político recupera a lucidez teórica na recolha da lição iniciática: democracia é utopia, república é oligarquia, política é negócio.

Em 1939, um serventuário da Hollywood-ópio-do-povo, hoje só conhecido por ter feito cinema delicodoce, escandalizou falcões, abutres e aves de arribação com um filme sui generis. Numa sessão de antestreia, para o Press Club de Washington, o filme foi vaiado pela esclarecida plateia. No jantar que se seguiu, um jornalista dirigiu-se à mesa do realizador para lavrar o seu protesto contra o modo como a classe jornalística aparecia retratada. Queria deixar claro que se tratava de uma afronta o filme ter sugerido que os jornalistas eram descontraídos e joviais consumidores de elixires destilados. Para não dar lugar a qualquer dúvida quanto ao teor da matéria em causa, ia de copo na mão e com uma réstia de sangue no álcool. O entusiasmo da sua exposição, em conluio com uma alteração no eixo de rotação da Terra que bizarramente só o afectou a ele, levou-o para um enérgico mergulho em direcção à mesa de Frank Capra, esposa and else, donde foi retirado em braços.

Menos espectaculares, mas mais aparatosas, foram as reacções dos políticos. Harry Cohn, fundador e presidente do estúdio Columbia, não tardou a receber cartas e telefonemas pedagógicos, onde se explicava que os bebés não nasciam em França e que o Congresso ia começar a chutar para canto as pretensões da indústria cinematográfica se o filme fosse exibido em público. Um dos passarões convocados para o pressing foi Joseph P. Kennedy (pai do assassinado e avô do malogrado), na altura embaixador em Londres. O patriarca do clã Kennedy era um especialista em cocktails “a la siciliana”, tendo feito a sua fortuna durante a Lei Seca, pelo que estava numa situação privilegiada para fazer a hermenêutica de um filme que misturava álcool, negócios, política e servia o combinado às massas sôfregas. Escreveu uma carta virulenta e deixou aquela que lhe parecia a mais forte razão de Estado – que o filme iria prejudicar a imagem dos EUA no estrangeiro, logo agora que o mundo estava em guerra, etc. e tal. Só que Mr. Cohn não era menino habituado a baixar as calças e o Frank Capra ainda menos. O filme saiu e foi um sucesso de bilheteira, apesar de críticas demolidoras por parte de jornalistas com mau vinho. O capitalismo bom tinha vencido o capitalismo mau.

Hoje sabemos que Mr. Smith Goes to Washington foi uma fonte de inspiração através das décadas e lugares. Conta a estória de um ingénuo, cuja loucura o faz ser íntegro e digno num mundo regido pela psicologia do cinismo e pela ética da corrupção. Apresenta as modalidades em que essas instâncias se organizam, disfarçam e exercem o poder. E eu não sei por que raio não se passa este filme nas escolas, todos os anos, a partir da 1ª Classe e até ao 12º ano. Não sei? Que ingénuo que eu também sou… Claro que sei.

10 thoughts on “Cineterapia”

  1. que alguém fique como uma ilha, com o cinismo a passar à volta, é perfeitamente plausível, para mim.
    mas sabes, de um filme sobre o Beethoven, o meu filho e os colegas só conseguiram reter que ele era alcoólico (e uma cena em que havia umas mamas de fora, claro, essa foi a mais falada).

  2. Em qualquer estabelecimento da especialidade, primo. Até o andaram a distribuir em jornais, creio.

    Susana, é natural. O problema também reside na escassez de mamas ao léu, como ensina o Papalagui. Mas isso há-de mudar. O que não vai mudar é a natureza humana, pelo que sempre teremos ingénuos, cínicos, corruptos e uma outra classe que não vou nomear e se distingue das anteriores.

  3. Excelente texto, Valupi.
    Eu vi o filme duas vezes, uma delas na televisão, penso que no segundo canal, o que me parece interessante é que a forma de abordagem do filme continua delicodoce e ingénua como forma de exorcizar o cinismo. Aliás, em outros realizadores, a política como utopia ganha essa carga. Lembro-me concretamente das “Vinhas da Ira” e do “Vale era Verde” de John Ford.
    No primeiro filme, há um monólogo de Henry Fonda sobre a terra e o trabalho muito comunista/cristão.

  4. Sim, Nuno, e belos exemplos. É mesmo curioso isso de se poder encontrar, para lá das ramagens ideológicas e mais vezes do que o previsto, uma mesma – mesmíssima – intuição.

    O léxico trama muitos encontros.

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