Limites do bom senso

Isto ultrapassa os limites do bom senso. Esta é a realidade. É a realidade em que chegámos em Abril. E se não quiserem reconhecer a realidade, se não quiserem reconhecer a realidade, não a reconheçam. Batam com a cabeça na parede, porque a realidade é sempre mais resistente do que a cabeça. Isto podem ter a certeza.

Carlos Costa a dar tautau nos xuxas

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No que toca a ofensas aos deputados ocorridas dentro da Assembleia da República, quase nada consegue superar o espectáculo do Crespo a distribuir fotocópias pelos deputados sentados, depois a sacar da camisola com uma idiotice qualquer acerca de Sócrates e a galhofar que dormia com ela. Crespo foi para uma comissão parlamentar com a intenção planeada de achincalhar todos os deputados presentes. Mostrou o seu visceral desprezo pela instituição que o convocou e pelo regime que lhe garante os direitos. E saiu de lá cheio de razão: é mesmo possível tourear deputados numa qualquer saleta do Parlamento.

Claro, pior do que a pândega do Crespo, mil, milhões de vezes pior, foi a inaudita utilização de escutas para fazer do mais baixo e sórdido combate político que jamais se viu em democracia. Dos dois deputados que aceitaram ser cúmplices da violação da privacidade de cidadãos, um disse nada ter lido que tivesse interesse político ou criminal, o outro disse que encontrou factos “avassaladores”. Que deve então fazer um deputado quando encontra provas avassaladoras de conspirações governamentais para dominar politicamente canais de televisão privados através de empresas com capitais públicos? Segundo o exemplo do Pacheco, nadinha de nada. Se isto não é o maior insulto ao estatuto dos deputados, a lógica é uma batata.

Não, o descontrolo emocional de Carlos Costa, deixando-se arrastar para uma reacção que tinha tanto de arrogância oligárquica como de despeito geriátrico, não belisca os deputados. O homem tem direito à sua pequenez. Mas as palavras proferidas importam precisamente no que transmitem de racionalidade. Elas repetem o estribilho que tomou conta da retórica da oposição ao Governo, e da direita, com uma ferocidade que se adensa com o agravamento da crise, apesar de a gente séria estar agora a pôr e dispor nisto tudo: Sócrates, por loucura ou por ser o Diabo, levou Portugal à bancarrota; e o PS alinhou com ele, ou foi por ele dominado, nessa corrida para o abismo. O Governador do Banco de Portugal conhece a realidade, como fez questão de ensinar aos deputados, sendo que quem não concordar com ele não pode estar bom da cabeça. O Galamba seria um desses seres asquerosos que têm alergia à realidade, pelo que devia ser devidamente higienizado para não andar por aí a espalhar o vírus da irrealidade. Eis a Política de Verdade ainda a servir para o gasto.

Vem, pois, mesmo a propósito lembrar que Carlos Costa foi escolhido pelo Governo que ele, logo após tomar posse como Governador, não se cansou de boicotar com declarações públicas ao serviço da estratégia alarmista. Os ranhosos e os broncos não estão em condições neuronais capazes de operar com estes dados, porque isso implicaria terem de conseguir explicar como é que o tipo que tinha uma máfia instalada no Estado, e que desejava a bancarrota do País como suprema realização pessoal, acabou por escolher tão adversa figura para tão poderoso cargo. Contudo, é bem possível que Carlos Costa, usando o Galamba como veículo da sua ira, tenha acertado em cheio a respeito da apetência de Sócrates para ultrapassar os limites do bom senso:

Teixeira dos Santos revelou ontem como Carlos Costa foi escolhido para substituir Vítor Constâncio no cargo de governador do Banco de Portugal. “Um dia à tarde, Sócrates entrou pelo gabinete e perguntou-me que nomes tinha para o Banco de Portugal.” O ministro respondeu ter uma lista com vários nomes, sendo que “o primeiro era Carlos Costa”. Ao que Sócrates retorquiu: “Fica por aí que era mesmo nesse que estava a pensar.”

Fonte

15 thoughts on “Limites do bom senso”

  1. Zorrinho declarou ontem, que eu ouvi, acerca do achincalhamento do deputado Galamba, “em sede de uaudiçâo parlamentar” pelo Costa de Portugal era um assunto entres os dois.
    Valupi, se ainda tens algum resto des esperança nestes lesmas que herdaram a direcção do PS, deixa-te de ilusões.
    Acaba de ser puxado um cordelinho da possivel conspiração contra o ex-presidente do FMI. Conspiração ao mais alto nível. Lá fora, como cá dentro uma completa urdidura da direita mais assanhada. Onde vai parar isto? Começo a ter medo de verdade.Quando são torpedeados os mais elementares direitos dos cidadãos por gente que segura a rédeas dos países, só nos espera uma escalada no sentido da catástrofe. O nazismo não foi assim há tanto tempo e nasceu de um sociedade supostamente cultissima, respeitabilissima, cartaz da modernidade, da ordem e do avanço cientifico.
    Naquele tempo foram os judeus convertidos em bodes expiatórios. Hoje começa-se pelos preguiçosos povos do sul da europa. E temos um francês no lugar de Moussoline.

  2. Se ignorarmos que o deputado João Galamba é, realmente, um personagem asqueroso, se ignorarmos a falta de educação desse mesmo deputado ao interromper um convidado de uma comissão parlamentar com um deselegante “é mentira”, se ignorarmos que, efectivamente, esse deputado está errado nessa matéria (demonstrado por vários economistas na blogosfera e na imprensa) então… sim, podemos considerar que Carlos Costa teve uma reacção desproporcionada.

  3. Ibn Erriq, vê lá se eu tenho “Google” escrito na testa.

    Em relação à credibilidade, queres com mais, ou menos, que João Galamba? De qualquer forma, assinalo com satisfação que a única coisa que salientas no meu comentário é precisamente se ele está certo ou errado…

  4. Pelos visto na testa não tens escrito Google, ao que parece a mona só serve para segurar a armação!

    Qual foi a parte que não percebeste que o Galamba estar certo ou errado é a que menos interessa!

    Já agora convinha que soubesses que o estar certo ou errado só existe nas ciências exatas. Nestas coisas de zandiga o que interessa, pelos vistos, é a retórica.
    Ah mas se me apresentares um economista que comprovadamente esteja certo mudo de opinião (O Duque não conta LOLOLOLOL)!

    O problema é mais ou menos o seguinte, os economistas foram preparados para fazer pouco mais que um contabilista, no entanto, como têm necessidade de se afirmar diferentes atiram-se a adivinhar. Contudo, pelas amostras que temos tido, mais valia estarem quetinhos e caladinhos………….

    Eu de economia não percebo nada, graças a Deus!

  5. Ah, tinha percebido mal: afinal estás a dizer que João Galamba é uma besta, visto que quando diz “é mentira” no campo da economia, não o pode fazer, porque não há certo nem errado.

    Interrompe. Mal educadamente. E para dizer algo que não pode dizer na sua própria área, que devia conhecer de trás para a frente. Obrigado, Ibn Erriq, por tão bem clarificares a tua opinião.

  6. Pelos visto a tua continua por clarificar, não é capaz?
    É normal tu próprio reconheces que dentro da mona nada tens para além de vácuo.

    Acrescento eu, isso é já um princípio, se te esforçares o suficiente podes sempre evoluir! Quem sabe não consegues chegar a ministro ou sec. de estado? Já a padeiro ou servente das obras me parece mais dificil!

    És um pandego pá!

  7. Foi por muitas pequenas decisões estúpidas e levianas como esta que Sócrates foi apeado sem dó nem piedade! Espero que, ao menos, lá no assento etéreo (e queirosiano) para onde subiu, vá aprendendo com estes números patéticos alguma coisinha de “realpolitik”, se é que ainda acalenta algumas ambições de voltar para a piolheira…

  8. Caro Val,
    a ser verdade o que diz Teixeira dos Santos, dá a impressão que o governo de Sócrates era uma brincadeira de crianças.
    O chefe entrava, fazia uma pergunta, decidia e saía! O ministro, mantinha-se sereno, pois teria achado que a deisão não mereceria mais ponderação, ou então teria medo de apanhar tau-tau se não concordasse?
    Tenho sérias dúvidas que as coisas se passem assim em qualquer governo, inclusivé neste.
    Ninguém no seu perfeito juízo decide ou aceita uma decisão deste calibre como se o diálogo eventualmente tivesse sido:
    – Ó Teixeira você hoje almoçou?
    – Não…
    – Era o que eu pensava, vou mandar vir umas sandes!
    Habituado à conhecida isenção do DN, não estranho nada que a fabricação da notícia tivesse acontecido no remanso de uma bem regada comezaina. Só pode. Isto porque um mês antes, o mesmo jornal afirmava que o nome tinha sido proposto pelo ministro das Finanças em conselho de ministros, o que não seria o caso enunciado.
    Aliás, a notícia veio noutros jornais e é bastante diferente da agora posta como fonte.
    Carlos Costa teria sido a primeira escolha de Teixeira dos Santos (quem ele considerava mais adequado) e não apenas uma de muitas hipóteses.
    Sócrates, se tinha opinião idêntica, aceitou a proposta.
    Aí a situação é bastante diversa, ou não será assim?

  9. Mário, é bem verdade: o PS está entregue a umas lesmas.
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    anonimo, larga o vinho.
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    Marco, larga o vinho.
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    Ibn Erriq, já não se pode discordar dos economistas da blogosfera, é a bancarrota da inteligência.
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    Marco Alberto Alves, a notícia não permite a tua conclusão.
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    Teofilo M., a notícia não permite as tuas ilações. Estamos apenas perante um fragmento que, de objectivo, somente transmite o acordo entre Teixeira dos Santos e Sócrates quanto ao nome para suceder a Constâncio. Com certeza que o quotidiano de um primeiro-ministro, e de um qualquer ministro em relação às suas equipas, estará cheio de episódios em que as decisões são expressas com esta rapidez, mas tal nada nos diz do processo, e seus critérios, que levou a elas.

  10. Eis a parte da notícia que permite as minhas conclusões: “O ministro respondeu ter uma lista com vários nomes, sendo que “o primeiro era Carlos Costa”. Ao que Sócrates retorquiu: “Fica por aí que era mesmo nesse que estava a pensar”.

    Se foi conforme noticiado, foi uma má decisão, uma péssima decisão de Sócrates! A prova está bem à vista…

    E se foi também assim que Sócrates escolheu Campos e Cunha, Freitas do Amaral, Manuel Pinho, Mário Lino, Ana Jorge, Alberto Costa, Ant.º Mendonça, Alberto Martins e até Basílio Horta e Luís Amado – bem como escolher apoiar Manuel Alegre para a Presidência da República! -, eu reformulo a minha conclusão anterior, substituindo o “pequenas decisões estúpidas e levianas” por “médias e grandes decisões estúpidas e levianas”.

  11. Mas isso esquece o factor humano: as pessoas não são máquinas, têm livre-arbítrio. Por isso, aquele que podia ter ao tempo o melhor perfil para os governantes com a tutela, como a notícia descreve, podia vir a ser alguém que se revelasse inadequado ou prejudicial. Isso está sempre a acontecer em todas as situações onde há recrutamento de pessoal, e ir para Governador do Banco de Portugal, para mais no meio da maior crise económica e financeira de sempre no país das últimas décadas, não seria excepção, bem pelo contrário.

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