Vinte Linhas 706

O Bairro Alto em festa quer dizer que não morre

Nasceu em Dezembro de 1513 e está a festejar 498 anos. A primeira casa, ainda como Vila Nova de Andrade, está testemunhada num tabelião de Lisboa. Na manhã do passado domingo o Conservatório Nacional teve dois cantores a darem a boas vindas a um grupo de moradores do Bairro Alto que ainda resistem. A orquestra do Conservatório, sob a direcção de Alexandre Branco, executou peças de Mozart, Beethoven e Mendelssohn. O concerto para piano e orquestra de Mozart teve como solista Bárbara Costa. Foi uma abertura solene e cosmopolita para o aniversário de um bairro onde sempre se cantou o Fado, se fizeram e ainda fazem livros e jornais, onde João Garcia de «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio passou as suas angústias à espera da carta de Margarida e onde Molero viveu as suas aventuras nas ruas perto do «Farta Brutos» e nas páginas de Dinis Machado. Hoje o Bairro Alto tem os seus filhos cada vez mais longe. Uns em Londres, outros em Dublin, outros a caminho da Austrália. Um ex-morador desabafa: «Se não fosse ter um bebé pequeno, também eu emigrava!»

O segundo andamento da «Eroica» de Beethoven mais parece uma marcha fúnebre. Solene embora mas triste como um epitáfio. Havia um Bairro Alto cheio de vida mas os jornais fecharam quase todos, os editores foram-se embora, os alfarrabistas também estão de partida, muitos escritórios fecharam e procuram outros lugares da cidade onde a EMEL ainda não fez a sua terra queimada. Entre a emoção do concerto final de Mozart com Bárbara Costa ao piano, firme, atenta, suave, tirando do teclado todas as modulações possíveis da partitura, fica uma angústia e uma pergunta: «Será que a pianista também vai emigrar»? O Bairro Alto festeja ainda o seu aniversário e, com esse gesto teimoso de festa, quer dizer que não morre.

5 thoughts on “Vinte Linhas 706”

  1. uma vez morei numa rua Vitorino Nemésio, gostava muito, mas decidi entretanto migrar quando atiraram com um balão cheio de água do terceiro andar, que deixou marca no meu carro até hoje, e fui considerada culpada pela polícia. nunca a vou tirar, a marca do balão no capô, para poder ter sempre presente que os sítios e os lugares só são o que fazem deles sem nunca, porém, algum dia destronar o pai da rua. isto para dizer, e assentir, que os parentescos, esses que falas, nunca morrem. :-)

  2. culpada de estar sossegadinha em casa a estudar e de ter o carro parado imediatamente por debaixo do eixo vertical da varanda do terceiro andar que uma criancinha, coitadinha, pequenina e inconsciente, de dezasseis anos, inocentemente atirou quando estaria a brincar. e além disso, ainda fui assediada pela polícia depois da insinuação de que alguém adulto como eu teria uma qualquer actividade sensual nocturna visto ser estranho ocupar as tardes a estudar em casa quando todos os que são normais estão, fora de casa, a trabalhar. a única coisa que me ofereceram foi uma visita à garagem mecânica do pai da criancinha para eventualmente dar um jeitinho ao capô. mandei-os foder e para a puta que os pariu e apanhei com um processo por desrespeitar as autoridades. e depois saí formosa e segura – da esquadra e da rua e da cidade. :-)

  3. Um ex-morador desabafa: «Se não fosse ter um bebé pequeno, também eu emigrava!»

    esta é de almanaque oh poeta da treta

  4. oh bécula! fiquei muito comovido com essa estória de seres tratada como delinquente & boa na esquadra da psp por não saberes arrumar o carro aos 16 anos de idade na rua vitorino manganésio.

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