Não é novidade alguma dizer-se que não somos apenas produto de uma realidade recente. Lembro-me de ser muito nova e ouvir de uma professora que sabia muito de história para andar em diante, como num carro, mas sempre espreitando o espelho retrovisor. Somos o que fomos, o que somos e o que vamos ser.
Compreender, por exemplo, o nosso sistema constitucional sem ler todas as constituições – e a carta constitucional – desde 1822 até agora é impossível. No texto actual da lei fundamental há influências de todas as que lhe precederam, donde o título da tese do Professor José de Melo Alexandrino – “A estruturação do sistema de direitos, liberdades e garantias na Constituição portuguesa – queira significar, no que ao conceito de Constituição diz respeito, uma análise que começa em 1822 e no que, até 1976, e após as suas revisões, há de continuidade e descontinuidade.
É bom, claro, ver uma revolução acabar com décadas de ditadura e com a sua polícia política, depositária de métodos documentados de abate de pessoas, sendo que aqui, abate, quer dizer muitas coisas. É bom saber que se conseguiu, que somos, claro, sem dúvida, um Estado democrático. Mas, contrariando o conceito útil lançado por José Gil de “não inscrição”, ou talvez antes alinhando com ele, a democracia não apaga a memória do quero, posso e mando, nem apaga a memória dos métodos de vencer uma batalha pessoal infame recorrendo à distorção do Estado de direito.
É o caso do bastonário da Ordem dos Advogados (BOA), sujeito que odeia quem discorde dele, que odeia a magistratura em geral, que adere apaixonadamente ao corporativismo e que se vinga, pela calúnia, de quem se atreve a responder-lhe.
Estamos perante uma varinha mágica a funcionar em velocidade máxima, mas sem recipiente. Por isso, a porcaria toca todos os assuntos, toca tudo e todos, o que lhe permite a bateria de ter razão aqui e ali para poder continuar a manchar a Ordem e o Estado.
Lança-se sobre todos os magistrados, lança-se, sem dizer nomes, sobre todos os Deputados que são advogados – automaticamente ladrões e patifes envolvidos em negociatas com o Estado -, lança-se sobre os jovens licenciados, negando-lhes o acesso à profissão, por reglamento interno, questionando-os sobre o que já foi objecto de certificação universitária – que importa a autonomia universitária? – e triplicando os chumbos para que o “mercado” dos advogados não cresça.
O opinador mais inflamado da sociedade portuguesa, que “acha” que Duarte Lima “deve” aos portugueses uma explicação nos “media”, ofendeu repetidamente a Ministra da Justiça. Durante meses, a última manteve-se calada e, no congresso da Ordem, fez um discurso institucional sobre todos os assuntos que teve por pertinentes, acabando por declarar a lealdade ao parceiro OA “mesmo quando ela não era recíproca”. Depois saiu porque tinha de fazer. Logo seu ouviu o grito: – “só PR fala em último lugar!!!”
No lugar da Ministra, confesso que teria sido mais dura. Mas tive a certeza absoluta de que no dia seguinte o BOA teria revelações “chocantes” sobre a atrevida e assim foi: nomeou este e aquele que ainda lhe são chegados assim e assim.
Pide. Isto é a Pide. Um ar venenoso do nosso passado invade as páginas dos jornais quando este pidesco reage no dia seguinte a ser incomodado com tentativas de destruição de carácter que, apesar de “criminosas”, ele guarda preventivamente na gaveta para o caso de ser ser atacado (coisa maravilhosa que desmente a veracidade de todas as suas acusações, ou o senhor não sabe o que é a obstrução à justiça?).
Uma revolução não apaga a Pide, não.
Acaba com ela, felizmente, mas são décadas de métodos enraizados numa memória coletiva, a qual, felizmente, a repudia. Mas como na banda desenhada, há sempre aldeias resistentes, e cá vamos vivendo com o BOA, que larga o veneno a conta gotas, esquecendo-se, talvez, que o seu recurso ao método salazarista de contar com o analfabetismo dos portugueses é, para sua imensa infelicidade, anacrónico.
Arquivo mensal: Dezembro 2011
Foi bem claro
E o entrevistador.
…
“Foi bem claro”
“Viu o conflito interno no PS”
“Vai consegui-lo a médio ou longo prazo”
“Isso foi feito, sim”
“Redistribuindo esses sacrifícios”
“Foi bem claro”
“Foi bem claro”
“Não há folga neste orçamento”
“Foi bem claro”.
“Muito bem”
“Tem que ser”
“Muito bem, foi bem claro”
“E o presidente, se …já será um problema”
“E (o presidente) não atrasou algumas coisas?”
“Com o devido respeito”
“Sim, claro, claro”
“Muito bem, foi bem claro”
“Traduza lá isso para os portugueses”
“Vai cortar a direito nessa área”
“Foi bem claro”
“Muito bem”
“Foi bem claro”
…
Perceberam telespectadores, o primeiro fala claro.
Muito bem, digo eu, tudo muito claro.
Tudo Dominado.
Oferta do nosso amigo TudoDominado
Vinte Linhas 696
Memória do eterno titular da selecção nacional «B» (a José Vilela)
As mãos tinham que ter a força das tenazes embora no retrato ficassem atrás das costas. Como a baliza, como o Estádio Nacional minutos antes de um jogo da equipa «B» de Portugal. Entre 1946 e 1954 havia cinco nomes para Sporting e Os Belenenses: Capela, Sério, Azevedo, Dores e Tormenta. Em Belém fui suplente até à chegada de José Pereira. O guarda-redes é o topógrafo do relvado, o seu olhar é uma lente de ângulo aberto aos movimentos mais inesperados. São cinco avançados contra três defesas, sempre à espera que os médios possam recuar. Havia então muitos pelados, a bola ganhava efeitos de capricho, a chuva era mais fria, o vento forte era um temporal desatado sobre o campo e sobre a solidão da pequena área.
No ano de 1949 havia nuvens de morte à volta dos estádios. Os jogadores do Torino morreram na montanha de Superga. Havia luto nas camisolas e nos corações de toda a gente. As irmãs Meireles (Milita, Cidália e Rosário) cantavam na rádio e no Sporting enquanto Hermínia Silva dava o tiro da partida no ciclismo. Era preciso construir a alegria todas as manhãs. Nas reservas havia nomes insólitos: Cascalheira, Palmense, Fósforos, Marvilense. Na primeira divisão havia clubes hoje ausentes: Lusitano de Évora, Sporting da Covilhã, Estoril Praia, Elvas, Atlético.
Meu filho Victor vai ser, anos depois, o confidente das lágrimas e dos sonhos de uma geração: Luís Boa Morte, Simão Sabrosa, Caneira, Miguel Garcia, Hugo Viana, Ricardo Quaresma, Cristiano Ronaldo, Nani. Ao intervalo, um cubo de marmelada ajuda a repôr os hidratos de carbono e o sorriso. Quando tudo corria mal na cabina, ele dava a solução: ganhar o próximo jogo. No olhar de meu filho o meu tempo interior continua: ficar nos bastidores a esperar as condições para uma subida ao palco dum jogo onde o efémero faz o seu esplendor. Sempre.
