Vinte Linhas 705

Não há areia nas praias de Brighton

No Teatro da Politécnica os quatro actores da peça «A farsa da rua W» de Enda Walsh (Américo Silva, João Meireles, António Simão e Laurinda Chiungue) falam muitas vezes de um lugar (Elephant & Castle) que faz parte de uma zona muito pobre do Sul de Londres. Nesse chamado South Bank, o sítio Elephant & Castle faz parte de um triângulo entre Lambeth, Walworth e Kennington. Foi aqui (East Street) que nasceu Charles Chaplin em Abril de 1889. Foi aqui que seu pai morreu em 1901 com apenas 37 anos de idade. Mais tarde, lembrando as mobílias em segunda mão da casa de Brixton Road que habitou em 1908, Charlot dirá que havia ali uma «mistura de um bordel francês com uma tabacaria».

Embora Enda Waslh tenha nascido em Dublin, pode estar nesta peça uma homenagem a Charlot, talvez o mais ilustre habitante do Sul de Londres. Claro que a farsa pode ser vista como uma tragédia na qual só se salvam os mais puros que partem para usufruir da beira-mar: Brighton é a praia mais óbvia para quem vive ali em Elephant & Castle porque o comboio que passa em Londonbridge, Croydon e Gatwick, tem em Brighton a última estação da linha. Qualquer empregada do TESCO sonha com um fim-de-semana nos seixos das praias de Brighton sem esquecer o carrocel e as lojinhas de marisco e recordações. Aquela pobre gente (também gente pobre) que não tem conta no Banco e guarda o dinheiro numa lata de chocolates, aquela gente que vive num cárcere privado e dentro de uma história por si inventada para se justificar, acaba por morrer por uma boa causa: só se salvam os puros. Os tijolos da parede do prédio em Elephant & Castle são como os desenhos das casas das praias de Brighton. Eles sabem que, entre pedra e seixos, não há areia nas praias de Brighton.

7 thoughts on “Vinte Linhas 705”

  1. Meu caro poeta:
    A areia das praias de Brighton veio parar toda ao Algarve. E o Sol, felizmente para nós, que saimos beneficiados desta divisão.
    Um abraço
    Jnascimento

  2. oh meu! ganda tolada, agora deste em crítico bandeira azul fora d’época, por momentos ainda pensei que fosses falar da peça, mas deves ter adormecido a meio e acordaste com o barulho do teu ressonar quando já todos tinham saído e aproveitaste para nos contar o pesadelo que tiveste durante a peça que não viste. todos os calhaus de brighton são poucos para correr contigo à pedrada mais às tuas efemerdas.

  3. oh pá! atão vais ao teatro e sais a falar da paisagem, os calhaus de brighton, quando o calhau és tu, vê lá se abres os olhos e se sais da farsa que construiste.

  4. Olá, meu caro poeta:
    O almirante ainda não veio, nem virá jamais, para não estragar a minha crónica de um almirante por vir.
    Mando-lhe, em separado, um texto recente sobre os velhos cafés de Albufeira, um deles ainda aberto, sem que o facto mereça o respeito e a consideração que é devida aos pioneiros do turismo e da restauração algarvios.
    A autarquia é agora Polis” , com chão de mármore nas ruas, elevador para a praia do “pneque” e escada rolante do outro lado, da praia dos pescadores para a FNAT – eu sei que agora os pescadores já não varam naquela praia e que a FNAT se chama INATEL – e não tem tempo para as “intiguidades” que eu amo, nem sequer para fazer um catálogo decente da exposição de Bailote que lhe organizou no ano passado.
    Um abraço, poeta, abra o seu correio para ler o Café da Júlia.
    Jnascimento

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