Vinte Linhas 703

Lembrar Afonso Praça e recordar Raul Brandão

Afonso Praça (1939-2001) concluiu o curso de Românicas em 1968 com uma tese de licenciatura intitulada «Raul Brandão, Jornalista» na qual o orientador foi Jacinto do Prado Coelho. Profundo conhecedor da obra de Camilo Castelo Branco e de Raul Brandão, entre outros autores portugueses, espanhóis e franceses, Afonso Praça dedicou muito do seu tempo ao estudo dos livros e da vida do autor de «Os pescadores». Por isso pode vir a jeito lembrar uma bela página de Raul Brandão (1867-1930) datada da Nazaré em 1923:

«Tive sempre a ideia de que quem manda em todo o país é a mulher. Na lavoura, às vezes o bruto bate-lhe mas é ela que o guia e lhe dá os mais atilados conselhos. E é ela em toda a parte que nos salva, parindo filhos sobre filhos para a emigração, para a desgraça e para a dor. Creio que só assim, parindo e gemendo, tecendo e lavrando mas principalmente parindo, é que se equilibra a nossa balança comercial, o que nos tem permitido viver como nação independente. Valem mais que o homem, sacrificam-se mais que o homem – mas aqui o seu trabalho é tão palpável que toda a gente afirma que a mulher da Nazaré é a alma desta terra. Os pescadores obedecem-lhe – a bem ou a mal, dizem… Não é, como em toda a parte, insinuando-se, que a fêmea, mais fina que o homem porque cria, o governa nesta terra. Aqui impõe-se, aqui existe a verdadeira e autêntica casa do Varunca – e sólida, apesar de edificada sobre areia… Da praia para cima só elas põem e dispõem. Eles, saindo do barco, metem-se na taberna e bebem. Sóbrios na comida, gastam quase tudo que ganham a beber: a percentagem e a rodada ou o giro. Só entregam em casa, intacto, o salário. Se as mulheres lhe batem, como corre, na verdade acho bem feito. – Eles merecem-no».

Descoberto e revelado por J.C.Francisco

6 thoughts on “Vinte Linhas 703”

  1. Obrigado Olinda pelos comentários! Quanto ao «pobre» acima uma explicação de cultura geral – não confundir a «pessoa» com o projecto «dicionário de literatura»… A pessoa faleceu em 1984; o projecto tem continuado e continua.

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