Ficamos à espera de um pedido de desculpas do governador do Banco de Portugal ao Parlamento na pessoa do Deputado João Galamba e que de caminho o refute

“Na audição ao governador do Banco de Portugal, que decorreu na passada sexta-feira na Assembleia da República, eu disse que Carlos Costa não tinha razão quando afirmou que a compra de dívida pública* por parte dos bancos tinha limitado a capacidade de concessão de crédito à economia. Carlos Costa chamou-me “ignorante”, acusou-me de não perceber o conceito de crowding out e mandou-me “aprender”. Para demonstrar o seu conhecimento, Carlos Costa deu uma pequena aula: um banco pode dar crédito a três tipos de entidades – Estado, empresas e particulares -, e como o crédito é escasso, se concedermos mais crédito a uma dessas entidades, então, necessariamente, há menos crédito disponível para as restantes. Esta história tem um problema: é falsa.
Para entender como funciona a concessão de crédito não podemos pressupor que os bancos partem de um volume fixo de crédito que, posteriormente, distribuem por um conjunto de entidades. No regime de moeda fiduciária e de reservas fraccionais que caracteriza o sistema financeiro moderno, a criação de crédito não está limitada por qualquer stock prévio de poupança. Aliás, a própria ideia da existência de uma restrição dessa natureza é ilógica: a poupança não pode anteceder a concessão de crédito porque, no momento em que um crédito é concedido, o rendimento a partir do qual se pode poupar ainda não foi inteiramente gerado. O crédito está limitado – ou melhor, regulado – pela necessidade de cumprir requisitos mínimos de capital; pela capacidade de aceder a liquidez para financiar o volume de crédito concedido e, finalmente, pela rentabilidade (ajustada ao risco) do crédito facultado.
A compra de dívida pública por parte dos bancos não limitou a capacidade de concessão de crédito à economia porque não interferiu com os rácios de capital do banco nem dificultou o acesso a liquidez. Não desvalorizo os problemas graves do acesso ao crédito e financiamento da economia portuguesa. Limito-me a dizer que esses problemas não só não decorrem como não foram agravados pelo facto de os bancos terem comprado dívida pública.
Um banco está a obrigado a deter capital na medida de uma ponderação do risco dos seus activos, e como a dívida pública tem uma ponderação de 0**, isto significa que, ao contrário de outro tipo de activos, quando um banco compra dívida pública não tem necessidade de deter ou reforçar capital para cobrir os riscos associados a esse investimento. A compra de dívida pública tem, portanto, um efeito neutral nos rácios de capital, pelo que não pode, por esta via, constituir qualquer tipo de limite ao investimento adicional noutro tipo de activos nem à concessão de crédito***.
A partir da crise financeira, os bancos passaram a depender cada vez mais do BCE. A certa altura, para além dos depositantes e financiamento de mercado a muito curto prazo, o BCE tornou-se mesmo o único financiador. O crédito concedido pelos bancos passou a ser muito caro e, em muitos casos, inacessível. Mas não foi a compra de dívida pública por parte dos bancos portugueses que causou esta situação. E também não é correcto dizer que a compra de títulos de dívida tenha agravado, ainda mais, as condições de acesso ao crédito. Aliás, deter dívida pública para usar como colateral tornou-se mesmo a forma mais simples e rentável de obter liquidez junto do BCE. Se os bancos não tivessem comprado dívida pública teriam perdido um negócio rentável, não teriam mais liquidez disponível e, portanto, não teriam emprestado nem mais um euro à economia portuguesa”.

in “O governador do Banco de Portugal não tem razão”

11 thoughts on “Ficamos à espera de um pedido de desculpas do governador do Banco de Portugal ao Parlamento na pessoa do Deputado João Galamba e que de caminho o refute”

  1. Cara Isabel Moreira,
    podemos esperar sentados? É que nunca vi, ouvi ou presenciei pedidos de desculpas de indivíduos que insultam orgãos de soberania que lhes deveriam merecer respeito, nem que apenas fosse pela relação institucional que são obrigados a manter.
    Por muita razão que o João Galamba tenha, o parlamento falhou mais uma vez.
    Começou a falhar no presidente da comissão que deveria ter admoestado o prevaricador, falhou a seguir o grupo parlamentar do PS que só tardiamente veio defender a honra de um dos seus, falharam os restantes deputados, pois não reagiram ao insulto de um dos seus pares, falhou também a presidente da AR ao não assumir imediatamente uma posição de desagrado quanto ao evento.
    Quanto tudo isto falha, quando as omissões são tantas, para que é que o sr. Costa se há-de preocupar em apresentar desculpas a um jovem que considera ser-lhe inferior?

  2. oh isabel! se a tua indignação como deputada socialista é transcrever textos do galamba, vou ali e já venho, porque até este comentário é mais extenso que o título que dedicaste ao poste.

  3. acho que quem não percebeu foste tu, até eu me senti ofendido e se tu achas que cumpres os mínimos com um copy paste, estamos conversados. pelos vistos só te indignas com o marinho, avaliando pelos esforços dispendidos.

  4. Entendo a posição de Galamba mas infelizmente não concordo que tenha razão. À parte de todas as regras relativas ao funcionamento dos bancos privados e ás funções do BCE, e de forma muito pragmática, aquilo que Galamba está a defender é injecção directa de capital na economia. Criação de mais dívida portanto. A injecção de divisa na economia provoca inflação e é por isso que o BCE não o faz, não fosse a sua função mantê-lá estável e perto dos 2%. É verdade que Galamba tem de estudar um pouco melhor a lição…

  5. Bom, quanto ao assunto técnico não me pronuncio, quanto ao resto, a forma como o governador do Banco de Portugal é de lamentar. Mas pedir desculpa só está ao alcance dos grandes homens……
    Não compreendo como é que a AR deixa que alguém tenha atitudes destas com os eleitos do povo português!
    Enfim!

    PS. não gosto de jovens turcos, logo não vou à bola com o JG, esse facto, acho que me dá mais independência para achar vergonhosa a atitude do governador (que agora me escapa o nome)!

  6. O que João Galamba proferiu, e que me custa porque sou contribuinte e lhe pago o ordenado, é equivalente a dizer que 2+2=5. Ele é deputado e economista! Se ele não compreende o sistema em que vive, pergunto-me o que lá faz?!? O que o governador do BdP disse não me espanta. Os deputados devem fazer serviço público e esse está muito longe de se insinuar que se deva emitir papel-moeda desmesuradamente, através do BCE para os bancos privados e destes para a economia.
    A agravar a situação pede agora um pedido de desculpas?!?! E tem apoio no mesmo?

  7. Ainda que o sr. governador tivesse razão, isso não lhe confere o direito de ser malcriado e ofender um deputado, que é preciso não esquecer, mal ou bem, foi eleito por voto directo e popular, ao contrário de ele que foi nomeado por critérios desconhecidos pela generalidade dos portugueses (e se calhar até é melhor desconhecermos o critério, pois de escândalos estamos já lotados!!!)

  8. Não desistam, Isabel. Obriguem esse senhor a pedir desculpa ao Parlamento e concretamente ao deputado destratado e achincalhado. Exijam a intervenção da presidente do Parlamento. Ela tem esse dever. Defendam a honra ou daqui a pouco estão todos na lama.
    Eu sei que é dificil neste país falar em honra ou honradez, em verdade ou simples ombridade, depois de ter ouvido o catedrático, ex-ministro, e ex-tanta-coisa, Freitas a deturpar deliberadamente as declarações de Sócrates em Paris, no que foi seguido por outra dignissima figura e governante de tantos ministérios, o sr Paulo Portas. Isto está podre.

  9. Estuve leyendo en tu pagina y la que me gusto mas es esta que
    titulas Ficamos à espera de um pedido de desculpas do governador
    do Banco de Portugal ao Parlamento na pessoa do Deputado João Galamba
    e que de caminho o refute at Aspirina B . Felicidades.

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