Inteiros

Para o ex-secretário-geral do PS, o partido está «ensanduichado em duas frentes», uma à esquerda e outra à direita.

«PCP e BE denunciam as patifarias que o Governo tem feito com os direitos sociais, mas também têm responsabilidade directa e decisiva na criação deste Governo», acusou, referindo-se à fuga de votos do PS para estes partidos.

Quanto à direita, para Ferro Rodrigues, PSD e CDS «insistem em falar no passado como se o PS e José Sócrates fossem responsáveis por toda a crise, uma mistificação que estão a aprender na prática».

«Não nos podemos deixar intimidar, sufocar, nesta tentativa de nos cercarem à direita e à esquerda», alertou.

Ferro

*

Debaixo da superfície da política organizada institucionalmente, onde cada partido é um agente conflitual com a sua identidade, corpo e respectivo eleitorado, existe uma dimensão de fusão entre a ideologia pré-partidária e a cidadania militante. Neste espaço todos não seremos de mais. É um local de encontro, de reconhecimento.

Tentar entender, e logo depois tentar compreender, o que levou o BE e o PCP a serem cúmplices da estratégia de PSD, CDS e Belém é um exercício que não se pode evitar por respeito intelectual próprio. O diagnóstico revela um tríptico onde à esquerda as abstracções são o factor principal para a decisão política e à direita o resultado concreto é o objectivo único na decisão política. Isso leva esta esquerda a recusar todo o compromisso e negociação, pois seria a negação da sua realidade meramente abstracta, e leva esta direita a ter como solitário critério a conquista do poder, o ideal concreto ao qual se reduz cinicamente a sua praxis.

Entre estes extremos, o centro. Pode ter vários nomes, várias inclinações. Mas seja lá o que ele for, não será o deserto do cinismo, nem a esterilidade do fanatismo. Será o que nós quisermos, que o mesmo é dizer que será o reino da liberdade. Com os pés bem assentes no concreto e os olhos postos no abstracto. Inteiros.

Um livro por semana 251

«Mário Saa – Poesia e alguma prosa»

Com organização, notas e introdução de João Rui de Sousa, este volume de 388 páginas recolhe textos dispersos e poemas inéditos de Mário Saa (1893-1971). O poeta de Avis nasceu, afinal, nas Caldas da Rainha onde viveu até 1902 e foi amigo de grandes vultos das letras do seu tempo: Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Raúl Leal, António Botto e José Régio. Os seus textos forma publicados nas mais importantes revistas literárias como a Presença, a Athena, a Contemporânea e a Sudoeste. Colaborou também regularmente em jornais tanto de âmbito nacional (Diário de Lisboa, A Capital) como de influência regional (Gazeta das Caldas e Brados do Alentejo).

A sua poesia não teve grande visibilidade pública pois Mário Saa nunca publicou em vida um volume de poemas mas este livro vem revelar uma voz poética singular. João Villaret divulgou muito em recitais o poema «Xácara das mulheres amadas»: «Quem muitas mulheres tiver / em vez duma amada esposa / mais se afirma e se repousa / pera amar sua mulher; / quem isto não entender…/ em cousas d´amor não ousa / em cousas d´amor não quer!»

Em 1921 nas páginas de A Capital Mário Saa polemizou («Há duas grandes vergonhas neste mundo: não a ter e ser sócio nacional das Belas Artes!») e em 1930 assinou no catálogo do Salão dos Independentes este texto: «A obra de arte é uma maneira exterior de dar o interior, mostrar é uma necessidade tão imperiosa como a de ver. Ora a arte é o gostoso estendal das dores do artista – as suas descobertas. A arte é um refúgio como todos os vícios. É a sede que a si própria se sacia mostrando exactamente como tem sede». Este livro tem um grande mérito: vem pela primeira vez colocar toda a obra de Mário Saa num volume acessível ao grande público.

(Editora: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Organização, notas e introdução: João Rui de Sousa)

O caso do Porfírio e da Universidade Católica: reaccão imediata, puramente jurídica, sem irritações, nem perder a cabeça

A história é esta.

Uma curta: P. é contratado oralmente pela UC sendo depois informado de que não há verba para a contratação, sendo depois informado de que afinal não o querem porque ele escreveu umas coisas anti-católicas. Rua. Adeus.

Quid iuris?
Nos termos do nº 1 do artigo 18º da CRP, os preceitos constitucionais respeitantes a direitos, liberdades e garantias (DLG) são directamente aplicáveis e vinculam entidades públicas e privadas.
Esta norma é altamente complexa e já foi densificada em todos os manuais de direito constitucional, na jurisprudência constitucional e, a meu ver, mais importante, nas mais modernas teses dos constitucionalistas de ponta. Veja-se, por exemplo, o que escreve José de Melo Alexandrino sobre isto no seu monumental “A estruturação do sistema de direitos, liberdades e garantias na constituição portuguesa” ou Jorge Reis Novais na descida de deus à terra “As restrições não expressamente autorizadas à constituição portuguesa”
Citei estas obras para que se entenda que o preceito tem mais do que uma norma e não é lido por ninguém, apesar de suscitar várias teses, literalmente.
Voltando ao modo “reacção imediata”, eu diria o seguinte:
É evidente que as entidades privadas não estão vinculadas aos DLG com a mesma intensidade com que o estão as entidades públicas. À partida, os DLG nasceram para nos darem uma posição de força contra quem tem a força, o Estado, as entidades públicas.
Obrigar os privados a respeitarem todos e cada um dos DLG em todas as circunstâncias seria esmagar o valor da liberdade.
Ser livre implica poder ser, desde que numa situação de igualdade, um imbecil.
Graças a deus.
É aqui que toca o ponto. O Contratado prometido não está numa situação de igualdade com a UC, está antes numa situação de sujeição, de desigualdade de forças, precisamente o pressuposto de aplicação dos DLG à entidade privada que surge equiparada a uma entidade pública. Podia dizer-se que a UC rege-se por certos princípios, o que excluiria o escrito atrás. Não é o caso. Poder ter como tem um conjunto de princípios próprios, pode, mas há uma exigência de ponderação entre os princípios estatutários de universidade privada reconhecida por tratado internacional (Concordata) e a forma como o contratado oralmente exerceu concretamente a sua liberdade de expressão e de pensamento.
Na ponderação entre a prerrogativa da UC reconhecida por um tratado internacional e o exercício em concreto (nunca se avalia em abstracto) das liberdades referidas do Profírio, a balança cai vertiginosamente para o lado do cidadão e não para o da instituição.
Em suma: uma vergonha, é caso para impugnar a não contratação, digo eu.

MV FLUX – Muito mais do que já é

Para além de sermos primos por casualidade apelidadora, o João Pedro da Costa é o blogger mais criativo que conheci, sendo um virtuoso da escrita, do vídeo, da linguagem, do humor, da poesia e do HTML lúdico e ético. Anda agora a aplicar esses talentos, e outros, numa nova fase da sua vida:

MV FLUX é o blogue do meu projecto de investigação que está a ser desenvolvido na Universidade de Aveiro (Departamento de Comunicação e Arte) e na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa) sobre a presença dos vídeos musicais nas plataformas digitais subordinado ao título Difusão na Web Social: o caso dos fluxos videomusicais e que aponta, através de uma abordagem transdisciplinar entre os Web Studies e os Estudos Literários, para a definição de uma poética da propagação digital.

O referido projecto de doutoramento, agraciado em Setembro de 2010 com uma bolsa de investigação pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, conta com a orientação de Rui Raposo (Universidade de Aveiro) e de Rosa Maria Martelo (Universidade do Porto) e integra a rede de pesquisa internacional Lyra ComPoetics coordenada por Paulo de Medeiros (Universidade de Utrecht) e Rosa Maria Martelo (Universidade do Porto).

Separando as afinidades pessoais, que rapidamente se transformaram em amizade anos atrás, consigo perfeitamente reconhecer uma dimensão objectivamente admirável neste blogue do projecto: a normal decorrência da investigação está a gerar tanto uma divulgação científica aberta ao público como se constitui em pedagogia para presentes e futuros investigadores. Veja-se o modo com a informação está organizada e a facilidade que o meio digital oferece para trabalhos académicos, enriquecendo tanto as possibilidades de contacto com materiais originais como a sua análise e reflexão. Isto é uma novidade só possível pela existência da Internet, por um lado, e pela cultura de partilha tão rara no selvático meio académico, pelo outro.

Portanto, primo, és o maior. Que o HTML esteja sempre contigo.

Empata-democracias

PCP e BE, seja por coerência ideológica ou por constrangimento sociológico ou ambos, recusam ser parte de uma solução governativa reformista. Eles só irão para o Governo se puderem aplicar os seus programas sem quaisquer cedências a interesses que considerem espúrios. E todos os interesses remotamente ligados ao capitalismo, ou aos EUA, não poderão ser admitidos sob pena de abalarem os seus valores fundamentais. Esta é a definição mesma do radicalismo, o projecto de substituição do regime vigente por outro declarado superior ou o único legítimo.

Os políticos, publicistas e simpatizantes da esquerda radical, então, descrevem a situação a partir desta recusa que só admite dois desfechos: a revolução ou o boicote. Posto que não partem para a revolução, e muito gostava de saber porquê, entregam-se furiosos ao boicote. Na Assembleia da República votam invariavelmente contra tudo o que venha do Governo e de quem o apoiar, apresentam propostas irrealistas, celebram pequenas vitórias como se fossem trombetas a anunciar o fim dos tempos. Na rua, fazem greves, fazem comícios, fazem barulho. O modo é o da resistência, a retórica é a da barricada. E assim se conservam.

Quando atacam o centrão, fustigando os partidos que governam por serem… os únicos partidos que admitem governar em democracia, não se interrogam acerca da sua própria recusa. Falam como se PS, PSD e CDS fossem os culpados por eles serem radicais. Ó, se ao menos os socialistas, sociais-democratas e centristas não insistissem em terem as ideias que têm, nós, os admiráveis comunistas e bloquistas, com as nossas maravilhosas ideias tão mais melhores boas do que as deles, poderíamos, finalmente, ir para o Governo com essa gente… quanto mais não fosse, para os educar e vigiar…

Os imbecis são uns empata-democracias. Se não querem fazer a revolução nem querem governar, façam um favor a toda a gente: desamparem-nos o Parlamento. E reflictam um bocadinho neste cenário: se acaso fossem poder, que diriam aos radicais que inevitavelmente apareceriam?

Vinte Linhas 664

Dissertação para um quadro de Ana Cristina Dias

Os olhos deste cão não enganam. A menina do vestido verde confia na sua vigilância e acredita na sua força. Os dois podem enfrentar o Mundo hostil, suas emboscadas e percalços quotidianos. A parede vermelha pode ser o fogo ou a palavra, pode ser o lume ou o grito da Terra mas as duas mãos da menina abraçam o cão para afastarem o medo.

Não importa o nome ou a raça: mastim dinamarquês, dobermann, lebreiro sueco ou pastor alemão. Importa apenas a segurança que transmite à menina no momento de olhar o Mundo. Importa apenas a ternura do gesto da menina num abraço feito carícia.

Os olhos deste cão não mentem. São um farol a avisar a navegação para as tempestades de todos os dias. São uma guarda pessoal pronta a seguir a menina em todos os caminhos e a defendê-la em todas as adversidades mesmo as mais inesperadas.

Os olhos deste cão não enganam. Os olhos deste cão não mentem. Os olhos desta menina confiam neste aliado de todos os momentos. A cabeça feita torre de vigia, o corpo feito pelotão de reconhecimento, a boca feita trompete numa batalha quotidiana contra as emboscadas do silêncio.

Todas as manhãs surge a luz do sorriso convocada pela chegada do cão ao espaço da menina. Entre o vermelho da parede e o vede do vestido, há no olhar da menina, uma bandeira de alegria. No seu reduto não cabe o mapa do medo nem o vento da angústia nem a escuridão da morte.

(Ana Cristina Dias inaugura a sua exposição integrada na mostra « I Love Bairro Alto» da CML na Rua da Misericórdia 30 no dia 22 de Setembro às 18h30m)

Pessimismo em forma de notícia

Um país que, provavelmente, nunca deveria ter existido, a Bélgica, tal como a conhecemos, está prestes a desaparecer. Com alguma precipitação, direi mesmo que poderá ser já para o mês que vem. E o seu desaparecimento, quem sabe, poderá preceder de pouco tempo o fim da União Europeia ou, pelo menos, da zona euro.

As duas comunidades nunca se amaram. Ora porque os valões, francófonos, quando eram ricos (minas, fábricas de armamento, Congo) menorizavam os flamengos, quando não subjugavam, e mais tarde os acusaram de colaborarem com os nazis, ora porque, mais recentemente, os flamengos floresceram industrialmente e não vêem, obviamente, razões para financiarem os do sul, desde há algumas décadas em declínio. As diferenças linguísticas também não ajudam. Com o respaldo da vizinha França, os francófonos têm clara facilidade em expandir a sua língua, a que, aliás, os inúmeros estrangeiros que habitam a região de Bruxelas aderem espontaneamente, e, por essa razão, os flamengos erguem barreiras e fazem questão de afirmar e enaltecer a sua até ao absurdo (poupo-vos os pormenores).

Depois das eleições legislativas de Junho de 2010 – 2010, repito – não foi possível formar um governo, dadas as incompatibilidades insanáveis entre o partido mais votado na Flandres, o NVA, liberal e de tendência separatista, e os partidos francófonos, com o PS, o vencedor, à cabeça. Desde há 15 meses, portanto, que o anterior governo se mantém provisoriamente em funções, com poderes diminuídos, aguardando a formação de um novo executivo baseado no resultado das eleições.
As negociações para formar um governo têm continuamente fracassado, mesmo quando, ao cabo de um ano de alta tensão, já se prescindiu da participação do NVA, cujas exigências se tornaram inaceitáveis para os francófonos.
Para agravar ainda mais a situação, hoje, o primeiro-ministro, Yves Leterme, anunciou que abandonará o governo no fim do ano para ir ocupar um lugar de topo na OCDE. Adeus e passem bem, decidiu, tal elefante em loja de porcelanas.

Perante este cenário, há quem desdramatize, dizendo que, bof, o rei nomeia um substituto et voilà, e quem dramatize, dizendo que a separação está agoara iminente ou, os dramáticos mais moderados, que, saindo o primeiro-ministro, o governo tem obrigatoriamente de cair, havendo lugar a eleições. Que, por si só, nada resolverão, evidentemente, podendo até o NVA sair reforçado.

O país de que falo é uma micro-Europa. Quando tudo vai bem economicamente, as divergências atenuam-se; quando vai mal, chega-se rapidamente à beira da ruptura. Há já quem diga que a divisão do país será um incentivo a que, por exemplo, a Escócia, a Catalunha ou o norte de Itália lhe sigam o exemplo. Se juntarmos a tudo isto a crise generalizada, política e económica, que a Europa atravessa neste momento, o horizonte afigura-se bastante carregado. Há já quem fale em guerra.

Como nos filmes e por várias vezes ao longo da história, não é de onde mais se espera que surge o primeiro tiro.

Good food for good thought

Our tendency to see gender in everything, even numbers, is a reminder of how fundamental gender is to how we perceive the world. When people are led to believe that an object possesses one gender or another, it changes how they relate to that object. For example, Stanford researchers Clifford Nass, Youngme Moon, and Nancy Green had people interact with a computer that was programmed to have either a male-sounding or female-sounding voice. They found that when the computer had a female-sounding voice, people saw the computer as less friendly, credible and knowledgeable, as compared to the male-sounding computer. People did this openly, despite knowing perfectly well that they were making judgments about a machine and not a real person.

It’s no surprise that the first thing that most people ask new parents is whether they had a boy or a girl. When we don’t know somebody’s gender, it creates confusion in our minds—we have no framework from which to build upon. Gender helps us not only understand how to think about someone, or something, but it also helps us figure out that person or thing’s relationship to the rest of the world. Our brains can’t help but see gender everywhere we look.

What is the Sex of 17?
People think of many things, even numbers, as being either male or female

A transparência vai nua

No discurso de encerramento do congresso, Seguro apresentou o combate à corrupção como uma das três prioridades do PS para a presente legislatura, a par das questões do emprego e do crescimento económico. Estamos perante um feito extraordinário. Que me recorde, nunca um partido tinha assumido na sua agenda ser o combate à corrupção algo tão importante como as problemáticas económicas. E não menos extraordinário é o facto de não ser a reforma da Justiça um objectivo ainda mais urgente e relevante, o que até pode dar azo a variados e sugestivos paradoxos.

Daqui se inferem alguns pressupostos fundamentais para o entendimento do que acaba de acontecer:

– O PS vai mobilizar os seus deputados, quadros e militantes para esta causa – se não o fizer, a promessa é pura demagogia.
– O PS já fez o diagnóstico do problema e as soluções apresentadas nasceram dessa análise e reflexão – se não o fez, a promessa é pura irresponsabilidade.
– O PS, ou o Secretário-Geral, ou alguém em nome do Secretário-Geral ou por ele indicado, será capaz de apresentar à sociedade uma definição exacta, no mínimo clara, do que seja a corrupção que pretendem diminuir ou erradicar – se não forem capazes, a promessa é pura demagogia irresponsável à mistura com pura irresponsabilidade demagógica.

Vejamos com mais atenção o que Seguro declarou em Braga:

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Vinte Linhas 663

Um outro olhar sobre a diabetes tipo II

A vida é um mistério, não é um negócio. No dia 11 de Novembro de 1992 a APDP pela sua dietista Rosalina David emitiu-me um programa alimentar com indicação de 7 refeições por dia entre as 8 e as 24 horas. O sinal de alarme foi a doença da minha mãe que viria a falecer em 13 de Abril de 1995 mas, como a diabetes não dói, lá fui fingindo que não era nada comigo. Um dia fui entrevistar o Dr. Estevão Pape sobre as Associações Protectoras de Diabéticos no Ribatejo. Corria o ano de 1999 e fiquei logo ali a saber que tinha mais esse problema. Em 23 de Julho de 2006 nasceu no Hospital Universitário de Londres o meu neto Tomás. Passei a ter outras responsabilidades, a minha vida mudou porque passei a tomar mais a sério essa doença que não dói. Os netos, talvez mais do que os filhos, são os nossos juízes implacáveis. Com eles não pode haver fugas à lógica, nem mentiras, nem desvios palavrosos. Hoje sou avô de três netos (Tomás, Lucas, Pedro) e sócio nº 23866 da APDP desde 14-10-2010 onde tenho sido tratado com toda a competência e toda a simpatia. O ponto alto desta ligação foi o dia 9-9-2011 quase todo ele passado no palacete da APDP na Rua do Sol ao Rato nº 11 num seminário sob a direcção de Catarina Andrade. Ao longo das seis horas do curso ficou bem claro que há três factores a ajudarem ao desenvolvimento da diabetes tipo II: falta de actividade física, excesso de peso e recusa de uma alimentação saudável. Pelo meio tivemos um passeio pelo Jardim da Estrela em marcha activa tendo como locomotiva a professora Catarina. Ninguém pisou ovos e assim merecemos o almoço que para mim foi uma posta de peixe grelhado com batatas e dois copos de vinho branco fresco da Adega de Santo Isidro de Pegões. Valeu a pena. A vida é mistério, não é um negócio. Se fosse um negócio os ricos compravam a saúde.

José do Carmo Francisco sócio 23866 da APDP

Passos e os concursos de ideias

Quero propor-vos a introdução do debate, da crítica, do escrutínio, da participação, como princípios fundadores da reforma do Estado, incluindo do Estado social”, afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento das jornadas parlamentares do PSD, no Fundão.

Segundo o primeiro-ministro, “daqui para a frente, o nível de exigência e de vigilância da sociedade portuguesa sobre o modo como é gasto o dinheiro dos seus impostos e como é prosseguido o interesse público pelas instituições do Estado terá de ser muito maior”, e por isso é decisiva a participação dos cidadãos “num debate colectivo sobre as melhores soluções para ultrapassar este momento“.

Fonte

Lembram-se da abertura do PSD a propostas dos cidadãos para cortes na despesa pública? E lembram-se dos milhares de propostas recebidas? Então devem também lembrar-se do quão úteis foram para a rapidez de execução desses cortes, de tal maneira rápida que nos escapou completamente… Até sermos finalmente informados pelo ministro das Finanças de que são muito difíceis e devem ser bem pensados.
Pois, animado com o êxito da anterior iniciativa, Passos lança agora um novo convite à apresentação de sugestões de reforma do Estado social. Temos, portanto, a garantia i) de que a reforma será rápida e bem feita (ordem para rir) e ii) que o homem não tem a mínima ideia sobre o assunto e que não sabe o que há-de fazer sob a pressão dos seus correligionários, que lhe apontam o facto de os cortes não se inserirem em qualquer plano de reforma do Estado (tão matraqueada na campanha eleitoral). Pretende, por isso, ganhar tempo, lançando um diálogo fictício. E poeira, claro.

Como limpar a política com uma assinatura

Mais vale confessar já as minhas intenções: eu ando nisto de comentar política na esperança de entrar no sistema, ganhar muito dinheiro, abocanhar fundos públicos para mim e para os meus, promover familiares e amigos, traficar influências, ajustar directamente a quem me oferecer mais, e no geral amealhar um bom pé-de-meia que me permita, na reforma (pelo menos três, de preferência, e antes dos 50), viver uma vida confortável à vossa custa. É por isso que tenho de apresentar o meu mais veemente protesto pelo novo código de ética proposto pelo Secretário-geral do PS. Se me obriga a assinar tal documento, todos estes planos meticulosamente pensados vão imediatamente por água abaixo. Porque posso ser um trafulha corrupto, mas levo os meus compromissos de honra muito a sério.

Sonsice com S grande

Militantes e simpatizantes do PS terão razões, algumas excelentes, para estarem satisfeitos com o congresso de Braga. Militantes e simpatizantes da democracia, ao invés, ficam ainda mais preocupados do que já estavam.

Seguro escolheu a via do ostracismo para lidar com a herança de Sócrates no partido. Os 7 anos de liderança e governação foram varridos para debaixo do tapete. Duas consequências fatais: (i) a história da subida da direita ao poder, e o papel do Presidente da República nesse processo, entram igualmente no esquecimento; (ii) ainda não foi desta que ficámos a saber quais terão sido os terríveis erros da anterior direcção socialista, e adensa-se a suspeita de que a intenção é nunca os identificar para não correr o risco de aparecer alguém a querer discutir os critérios, e a desmontar as prováveis falácias, na sua escolha.

Seguro começa o seu ciclo e anuncia um tempo novo, imaculado, esterilizado. Ele tem o mapa para a Terra Prometida onde o PS ficará isento de pecado. Este culto da higiene – que também explica a perseguição aos seus camaradas declarados por atacado suspeitos de corrupção e obrigados a assinar papéis inquisitoriais – deu finalmente a chave para se decifrar a sua postura enquanto opositor de Sócrates. Não se tratava de um conflito de políticas, uma discórdia ideológica, um antagonismo intelectual. Tratava-se de uma repulsa moral, uma aversão pessoal que tinha de ser escondida e mascarada de alternativa salvífica. Por isso Seguro utilizou sempre o silêncio como amplificador das suas mensagens corrosivas, nada tendo para discutir, sequer com que contribuir. Ele sabia-se no topo da lista dos sucessores, seria o próximo Secretário-Geral de um PS caído em desgraça. Seguro era aquele que não se tinha deixado contaminar, o rosto da resistência à opressão. Quão mais rapidamente Sócrates fosse abatido, mais rapidamente estaria a fazer visitas à comunicação social para descobrir o que ela realmente faz, um enigma que o atormentava, e a aproveitar para contar histórias de senhoras sofridas que lhe foram pedir ajuda, coitadinhas.

Seguro junta-se a Cavaco e Passos na prática de uma sonsice verdadeiramente obscena de tão óbvia. Espero que o velho passado do PS, em nome das pessoas livres e corajosas que abominam os sonsos, se livre rapidamente deste novo futuro.

Carmo / Rua da Alfândega

São estes os lugares da memória.

Longe, mais de vinte anos longe /era esta a minha estrada.

Corria do quarto alugado / para o emprego na Baixa / por sete tostões num bilhete.

No Largo do Rato parava / e sempre me fez confusão / os trocos dum cego com lotaria.

Hoje já não há o cego / não haverá talvez o Largo.

Eu próprio passarei por aqui / talvez na minha última viagem / pois é este o mais barato caminho / entre a minha casa e o cemitério.

Bons princípios

Há uma esquerda que, quando necessário, sacrifica alguns princípios em nome dos cidadãos, e da sustentabilidade e viabilidade dos sistemas que lhe trazem bem-estar e garantias de justiça e progresso. Há outra que não hesita em sacrificar os cidadãos em nome dos princípios. Em comum, têm os actos. Uma demonstra o que vale por acções concretas. Outra demonstra-o através de textos e ideais, e quando se põe a difícil escolha entre estes e os interesses concretos daqueles que dizem defender, escolhem os primeiros. Só uma delas é digna da qualificação de verdadeira esquerda. A outra não passa de teorias, citações de livros e intelectualismos para pessoas facilmente impressionáveis. Ou seja, não passa de pose. Gostam de parecer de esquerda. Mas não são.

Todo o excesso se opõe à Natureza

Num canal qualquer, um jornalista qualquer fala com um comentador qualquer. Discutem a atitude de Seguro em relação à comunicação social. Que ele é muito mais simpático, mais próximo, mais afectivo do que foi Sócrates. E o comentador detalha. Com Sócrates, ninguém sabia para onde ele ia quando se afastava da sala do congresso. Não havia forma de saber o que andaria a fazer. E isso era perturbador, insinuava, até inquietante. Com Seguro, é completamente diferente. Ele fica no espaço visível, passeia-se à frente de toda a gente, está por ali. Ele até se dirige aos jornalistas, apresenta-se humilde e néscio. Quer aprender com quem sabe.

O comentador e o jornalista teriam a maior das dificuldades em compreender que a tirania da comunicação social tem sido um dos principais factores na degradação da democracia. E que os políticos mais perigosos não são os que mantêm os profissionais da imprensa num estado de alerta máxima, antes os que os adormecem com salamaleques e prebendas.

Em suma, há muita falta de estudos hipocráticos entre os hipócritas jornaleiros.

Algumas pessoas quiseram estar primeiro

No essencial o PS está unido como porventura há muito tempo não estava.

Ferro

*

Na aparência, uma frase convencional. No subtexto, um elogio a Assis e uma estalada de luva branca naqueles que dentro do PS foram obreiros da desunião contra Sócrates por calculismos e rancores. Aqueles que puseram as suas próprias pessoas primeiro do que o partido, o Governo e o País.

Vinte Linhas 662

O estado a que o nosso Estado chegou

Nos idos anos 90 colaborei numa revista (A Bola Magazine) com entrevistas a figuras das artes e das letras, da política e do desporto. Anos depois 30 dessas entrevistas foram publicadas no volume «As palavras em jogo» da Editora Padrões Culturais. Graças à amizade do então chefe de redacção (Joaquim Rita) escrevia lá nessa mesma revista um senhor muito especial para quem a solução de todos os problemas do nosso país passavam pela privatização dos Tribunais e da Polícias. Tudo o que não desse lucro devia ser privatizado para poder dar lucro.

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