Vinte Linhas 664

Dissertação para um quadro de Ana Cristina Dias

Os olhos deste cão não enganam. A menina do vestido verde confia na sua vigilância e acredita na sua força. Os dois podem enfrentar o Mundo hostil, suas emboscadas e percalços quotidianos. A parede vermelha pode ser o fogo ou a palavra, pode ser o lume ou o grito da Terra mas as duas mãos da menina abraçam o cão para afastarem o medo.

Não importa o nome ou a raça: mastim dinamarquês, dobermann, lebreiro sueco ou pastor alemão. Importa apenas a segurança que transmite à menina no momento de olhar o Mundo. Importa apenas a ternura do gesto da menina num abraço feito carícia.

Os olhos deste cão não mentem. São um farol a avisar a navegação para as tempestades de todos os dias. São uma guarda pessoal pronta a seguir a menina em todos os caminhos e a defendê-la em todas as adversidades mesmo as mais inesperadas.

Os olhos deste cão não enganam. Os olhos deste cão não mentem. Os olhos desta menina confiam neste aliado de todos os momentos. A cabeça feita torre de vigia, o corpo feito pelotão de reconhecimento, a boca feita trompete numa batalha quotidiana contra as emboscadas do silêncio.

Todas as manhãs surge a luz do sorriso convocada pela chegada do cão ao espaço da menina. Entre o vermelho da parede e o vede do vestido, há no olhar da menina, uma bandeira de alegria. No seu reduto não cabe o mapa do medo nem o vento da angústia nem a escuridão da morte.

(Ana Cristina Dias inaugura a sua exposição integrada na mostra « I Love Bairro Alto» da CML na Rua da Misericórdia 30 no dia 22 de Setembro às 18h30m)

21 thoughts on “Vinte Linhas 664”

  1. Tenho pouca instrução
    tão pouco sou literato,
    mas se existe furacão
    porque não há fura… gato?

    A propósito de gatos:

    A cantora italiana
    sobre os seios, quem diria,
    colocou uma bichana
    p’ra provar que a MAMMA MIA!

    Boa noite que já é tarde:

  2. O Garfo e a Colher:
    Eram inseparáveis no bolso da casaca ou calças do João tanto nas boas como nas más horas. Os três davam-se bem. O que o João fazia ao Garfo também tinha de fazer à Colher se não os ciúmes davam cabo da boa harmonia. Quando o João saía da cela – quarto de dormir – se por qualquer motivo se esquecesse de algum, o outro dizia. – Vais ver o quanto te vai custar o esquecimento. Não comes a sopa – caso o esquecimento fosse da Colher. Ou não comes o prezigo – caso fosse do Garfo.
    Depois das refeições gostavam de ser lavados e murmurava o Garfo para a Colher antes de ser introduzido novamente no bolso. – Não tens dentes para serem lavados olha como os meus estão bem conservados e branquinhos! A colher – não sabe o motivo porque os não tem – contentava-se com a sorte para que foi criada e respondia. – Para que os quero… se tudo o que dou a engolir é mais água do que entulho – parte sólida da sopa.
    Estas cenas eram frequentes e o João que não gostava de tomar partido por um ou outro sorria com a conversa tida entre ambos. Prometeu-lhes se um dia tivesse a felicidade de beneficiar de uma saída precária prolongada havia de arranjar maneira de os levar com ele mesmo sabendo que não era permitido. Queria mostrar-lhes como era a vida, vivida em Liberdade – Liberdade era a localidade onde moravam os familiares do João.
    Para se ter direito a usufruir de saída precária prolongada tem de se ter bom comportamento, não sofrer qualquer castigo, e o João nesse aspecto era um pouco arisco. A partir desse momento quando se ia meter em qualquer desordem com os companheiros era logo avisado ou pelo Garfo ou pela Colher. – Olha a saída precária! Por ser constantemente avisado a sua conduta melhorou e passado uns meses foi contemplado com a dita saída precária prolongada.
    Quem ficou contente com esta situação foi o Garfo e a Colher que assim iam matar a curiosidade com o que iam ver em Liberdade (terra do João) tanto falada por ele mas acontece que só se lembrava dela quando não a tinha. Desde que se lembram, a sua vida era passada entre a cela, posto de trabalho e recreio, – tinham essa sorte porque o João era impedido na oficina de marcenaria e como na hora do almoço as celas não eram abertas era esse o motivo de andarem sempre na sua companhia – o que não era mau porque outros seus companheiros só saiam da cela para o refeitório e do refeitório para a cela.
    Chegou o dia mais ansiado pelos três. Antes, tanto o Garfo como a Colher, avisaram o João para que os escondessem bem para que à última hora não acontecesse nenhum imprevisto. Pediram para serem bem embrulhados, caso com o movimento do saco em que iam escondidos, não acontecesse de chocar um com o outro e com o tilintar fossem denunciados. Dito e feito. Na revista a que o João foi sujeito fez todos os possíveis para que os amigos não fossem descobertos o que acabou por acontecer.
    Chegados a casa do João ficaram maravilhados com as condições habitacionais e locais, pois no recreio, ouviam colegas do João a contar tristezas do lugar e da casa em que habitavam assim como das péssimas condições socioeconómicas.
    No primeiro dia tudo correu bem. Foi-lhes apresentada a Faca. Esta não fazia parte do utensílio que era entregue ao João e seus companheiros. Ficaram espantados pois não sabiam que existia tal figura mas em conversa entre ambos já tinham notado que algo fazia falta para cortar certos alimentos para serem tragados. Assim não era preciso andarem a afiar o seu cabo para servir de corte, o que era proibido, quando fossem apanhados nesta situação o seu dono era castigado e eles iam para a prateleira dos monos. Outros preferiam rifar com as mãos certos alimentos do que se meterem em aventuras, principalmente, os que não tinham dentes ou possuíam poucos. A Faca era muito nervosa e quando se zangava com alguém tornava-se perigosa e naquele meio podia dar em mãos que não a sabia usar.
    O João levou-os a dar uma volta pelas redondezas e ficaram maravilhados com o que viram mas sempre com a ironia da Faca por os ver tão surpreendidos. Não estavam acostumados com a vivência em liberdade e não sabiam que havia outro tipo de talher. É o que faz uns nascerem num berço de ouro e outros numa manjedoura. Mas… não entraram em litígio. A partir daí mostraram sempre desagrado com o que ela dizia. Quando estavam os dois sozinhos comentavam que certas personagens deviam de ter um melhor conhecimento da vida para darem mais valor a essa mesma vida. Não era só conhecer a boa moeda a má também existe!
    O João saía à noite e não os levava porque para onde ia a companhia deles não era bem aceite. Ficavam amuados e para mais tinham de gramar com a companhia da Faca que desde a chegada deles só pensava em tornar-lhes a vida num martírio. Já pensavam no regresso e o que desejavam era que chegasse o mais rápido possível porque além de estarem sempre fechados em casa, tinham medo da presença da Faca, agora percebiam porque não era aceite no meio da comunidade em que viviam, tinha uma lâmina bastante afiada, à mínima questão a usavam para cortar o que quer que fosse.
    O que é certo é que chegou o dia do regresso. O João mostrava pouca vontade de regressar mas avisaram-no que o devia fazer, ou que pelos menos, os levassem porque se davam melhor lá, que esta experiência não resultou, que era melhor viver com menos conforto mas ser bem aceite e acarinhados. Com este pedido lá o convenceram a regressar mas entre ambos combinaram que a partir daquele momento nunca mais o chamavam à atenção para ter bom comportamento com a finalidade de beneficiar de outra saída precária. Para exemplo bastou esta.
    Para eles é melhor viver como vivem. Assim têm mais tempo e carinho para usufruir e gostam muito do João, não querem ser abandonados, só em pensar que a sua liberdade está a chegar ficam mal dispostos porque não sabem quem vem a ser o seu dono ou se vão ser separados.
    Pode-se ser pobre e viver em fracas condições mas nada chega à amizade, lealdade, amor e carinho. São estas quatro palavras que os fazem resistir e encarar a vida com optimismo quanto ao futuro.

  3. my best friend à venda na allarts, pra variar. falta interacção, gosto mais daquele quadro do menino que tira macacos ao burro, assim tipo paulada rego, tás a ver?

  4. tão lindo este texto, Zézinho. os olhos dos cães não mentem – nem os das meninas. só os olhos de vidro é que mentem. :-)

    também gostei muito da tua história, Manuel pacheco. :-)

  5. “Pode-se ser pobre e viver em fracas condições mas nada chega à amizade, lealdade, amor e carinho. São estas quatro palavras que os fazem resistir e encarar a vida com optimismo quanto ao futuro.”

    Manuel Pacheco eu já ouvi isto em qualquer lado. Não era este o lema do Salazar? Pobrezinhos mas honrados.
    Um dia num jogo de futebol na minha terra em que estavam de serviço em redor do campo e sempre olhando a maralha para aí 40 gnr’s o pessoal começou a clamar contra o árbitro e um gnr teve este comentário:
    -Olhem que amanhã é dia de trabalho.
    Como quem diz, portem-se bem se não vão no xelindró. Bons tempos em que não havia liberdade.
    Quais greves, quais reuniões, mais de 1 pessoa já era um comício, uma manifestação.
    Alguém tinha o cuidado de zelar por nós. Não precisávamos de pensar. Só trabalhar, tamancas calçadas, um fato de surrobeco, trabalhar de sol a sol, sem domingos nem dias santos, comer umas couvinhas, um naco de pão e não fazer ondas.
    Bons tempos em que a liberdade só servia para dar nome às avenidas.

  6. não percebes nada de cães e muito menos de crianças. mais publicidade dissimulada em forma de crítica d’arte aos amigalhaços do costume. quanto é que a c.m.l. te paga para escreveres essas frioleiras?

  7. Das duas uma: ou tu não viste bem o quadro, ou era urgente escrever um post. Aquilo que eu vejo quando olho a tela é uma menina de olhar aterrorizado e um cão com um olhar mais distraído do que outra coisa. Enfim, sai um «floreado» para agradar à autora do quadro e à galeria…

  8. Aquilo que tu vês só a ti interessa não interessa a mais ninguém, ó bandido! Aterrorizado andas tu com os teus travestis que não metem medo a ninguém, ó bandalho!

  9. Ó imbecil, Joca André Anónimo, “abre os olhos mula”, ou então vai ao oculista adão, pode ser que te abra bem o olho.

  10. E o que tu vês, ó da Benedita, interessa a alguém? É só uma perguntinha sem maldade… E continuas sem imaginação. Olha-me só: Evaristo! Tás à espera que pergunte: «Ó Evaristo, tens cá disto?». Pronto, tá feita a tua vontade. Agora, deixa-me dizer-te, cada vez tás mais ordinarote, meu. Um intelectual que vai numa delegação ao Ceará, pá?! Mas voltando à miúda do quadro: és capaz de me desmentir? Tem ou não tem um olhar aterrorizado? Se calhar tem medo que a obrigues a ler os teus posts, pá. É o mais certo…

  11. E não é só o olhar, é todo o seus aspecto, toda a sua postura. Até na intenção de procurar auxílio junto do cão – que me parece estar bem ausente da aflição da cachopa… Faltou-me acrescentar isto, pá!

  12. Da Benedita não deves ser tu, és mais da “Maledita”.

    Não ponhas o José Francisco ao barulho, sabes bem que ele não faz travesti como tu. O te melhor papel é o real: o de monte de merda com os cotovelos sempre esfolados.

  13. ADOLFO DIAS: o elogio repete-se!… Fantástico. Adoro quando me fazem rir com palavras, e isso raramente acontece. Vamos ser sinceros (e nisto estou à vontade porque sou crítico de arte): o quadro é merdoso. Nem todos podem ser Paulas Regos, e acho que está na altura desta nova geração de “artistas” perceber isso de uma vez por todas. A composição é fraca, e tem erros evidentes de perspetiva, que a pintora, por muito que se esforce na sua eventual retórica, não consegue justificar. Há no entanto um elemento de congruência: o olhar do cãe é tão palerma como o da rapariga, e isso pode dizer-nos qualquer coisa sobre o artista em questão. Quem perde tempo em exposições com rasquices destas, devia visitar mais vezes o Louvre ou a Tate. Ah, que mau que é ser-se simplório!…

  14. oh pedante! claro que o quadro é merdoso, está ao nível do poeta da treta e da versalhada do tobias que tantas cócegas te faz. se calhar querias pauladas no rego, mas aqui não te safas, nem com a bécula.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.