Sobem os impostos de maneira, enfim, “brutal”, para controlar uma situação económica em espiral depois do chumbo do PEC IV e cumprir com um programa punitivo que vai devastar a economia e a vida de muito boa gente. Os famosos cortes na despesa, a tal fórmula mágica que Sócrates não queria implementar por causa dos “amigos” e das “clientelas”, afinal não se conseguem, não é? E os que andaram anos a acreditar em conversetas infantis como “cortar as gorduras do estado”, “acabar com os institutos”, “não sacrificar a classe média”, e o governo de gente “honesta, competente e capaz” que tinha “tudo estudado” para governar com o FMI que “vinha pôr isto na ordem”, enquanto fingiam (mal) que isto era mais do que uma mera campanha para correr com o Sócrates e restaurar o satus quo de gente que estava cansada de estar de fora do poder e influência a que estavam habituados, dizem-se agora desiludidos e desapontados uns meros dois meses depois da tomada de posse. Desculpem, retirando os spinners e propagandistas que se limitaram a fazer, e bem, o seu trabalho, isto inclui muita gente à direita que respeito e gosto de ler, independentemente de concordar ou não. Mas “desiludidos e desapontados”? Só se for com vocês próprios.
Arquivo mensal: Setembro 2011
De cócoras, ó vítimas da fome
Este será, de longe, o Governo que mais rapidamente envelheceu aos olhos do público desde o 25 de Abril. Os dois meses passados parecem dois anos. E até a sua base de apoio mais fanática se mostra descrente e cansada.
Não admira. A direita portuguesa está decadente desde a traição de Barroso. Por isso, depois do vexame Santana, não tinham mais nada com que fazer oposição para além do ódio. Só que o ódio, quando é mantido por longos períodos, passa a consumir as reservas de inteligência e esperança do portador. O resultado é a subnutrição política, a fome moral e intelectual.
Parelhas
Vinte Linhas 656
SCP – O elogio da chamada prata da casa
Sou o sócio nº 54442 do Sporting Clube de Portugal e tenho as quotas em dia. Fui colaborador do jornal do Clube de Agosto de 1988 a Dezembro de 1996 e redactor efectivo de Janeiro de 1997 a Novembro de 2006. Viajei com as equipas «leoninas» por todo o país, ilhas e estrangeiro como enviado especial. Talvez por isso, por ter conhecido por dentro o Clube, tenho uma opinião formada contrária à situação dominante no Sporting Clube de Portugal.
Para jogar para o quarto lugar no campeonato, o SCP só precisa de trabalhar com a prata da casa. Jogadores como Cristiano Ronaldo e Nani (Luís Carlos Cunha) foram dois que cresceram em Barroca de Alva e de lá partiram para o Grande Mundo do Futebol cuja capital é Manchester. Partiram mas antes deram muito de si ao Clube. Faziam parte da prata da casa como Manuel Fernandes, por exemplo. Agora acaba de chegar mais um, o 16º elemento contratado esta época mas os jovens vice – campeões do Mundo Cedric Soares e Nuno Reis, jogadores do SCP mas não jogam no seu Clube.
Mandar embora jogadores como Vukcevic, Liedson ou Tonel sem esquecer Adrien, Emídio Rafael, Silvestre Varela, Hugo Viana e Miguel Garcia, para receber um brasileiro que, na primeira entrevista afirma, sem mais nem menos, querer «engrandecer o Clube», é mau.
Tristeza! Não houve ninguém que lhe explicasse a diferença entre «equipa de futebol» e «Clube». O Clube é outra coisa. Muito diferente e não tem nada a ver uma coisa com a outra. Não cabe nos centímetros quadrados das camisolas, é memória e sangue pisado, vida e morte, alegria e tristeza, história e lenda mas nunca se pode confundir com uma equipa de futebol. A prata da casa é sempre o melhor de nós e para o quarto lugar chega e sobra.
Perguntas simples
Chanfalhos
A propósito deste post do Valupi, e referindo-me em particular à sintese contida na sua última frase, não posso deixar de lembrar aqui uma entre muitas das experiências por mim vivida quando jovem dos 20/23 anos. Passa-se o caso em finais da década de 60.
Vivia então em Benfica e utilizava com frequência o comboio da linha de Sintra para me dirigir à faculdade. O comboio frequentemente chegava atrasado ao Rossio. Certo dia gerou-se um imenso burburinho quando algumas pessoas se dirigiram ao Chefe da Estação que por ali foi encontrado à mão, pedindo que lhes passasse um documento justificativo do atraso para poderem apresentar nos empregos. Resposta do sujeito: Esses documentos só são passados pela Estação de Santa Apolónia!
Perante o aberrante da situação as pessoas exasperadas pelos constantes atrasos entraram a manifestar-se um tanto agressivamente mas apenas no que ao tom de voz se referia.
Interveio a polícia que imediatamente deitou a mão a um jovem que mais activamente se manifestava e que se pôs a jeito. Acontece que na minha inocência juvenil (alguns lhe chamarão parvoíce) eu, que me encontrava perto do jovem a que o policia deitara a mão não me contive e aproximei-me de um segundo polícia que entretanto chegara, dizendo-lhe querer ser testemunha do jovem a quem fora dada voz de prisão. Passou-se então o que nunca mais na minha vida esquecerei.
Estavam dezenas e dezenas de pessoas rodeando-me a mim e ao polícia a quem me dirigira. Este lançou-me as mãos ao pescoço, voltou o casse-tête ao contrário, levantou-o no ar ameaçadoramente e só não o abateu sobre a minha cabeça... porque terá tido um último lampejo de consciência!
E agora chego ao ponto a que queria chegar! É que, ao mesmo tempo que vi levantar-se sobre a minha cabeça o chanfalho agressivo do polícia, vi fugirem em todas as direcções as muitas e muitas pessoas que estavam à minha volta. Fiquei só à mercê do polícia e... lá fui para a esquadra... “prestar contas à justiça!” Digam lá se os portugueses não são uns valentões... mas apenas quando podem!!!
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Oferta do nosso amigo ANIPER
Pérola do jornal i
Este artigo não é inacreditável? Ora leiam.
Não é pela notícia de que José Sócrates se encontrou com Zapatero e a seguir com Angela Merkel. Por mim, é um prazer saber. Já tardava. Em andanças pela Europa? Boa!
São antes as apreciações, deduções, especulações, insinuações, associações que pontuam a notícia. Abjecto.
A felicidade da Manela
Como é óbvio, este Governo fará os tais cortes históricos na despesa que vem anunciando desde que se formou, e que o PSD promete já desde o tempo em que a Manela tinha como programa eleitoral o pára tudo. Ela não imaginava que daí a poucos meses iria rebentar a crise das dívidas soberanas e da Zona Euro, por isso apenas agitava o espantalho do endividamento das gerações futuras. Era a bandeira dos social-democratas face à política de investimento público e assistência social que tinha sido a resposta portuguesa e europeia à crise de 2008, causa do aumento dos défices em todos os países ao longo de 2009. Mas em 2011, com Passos a Primeiro-Ministro, os cortes surgem principalmente como imposição do acordo com o trio de credores.
Ora, se não tivéssemos ficado reféns deste empréstimo de emergência, os cortes na despesa continuariam a ser feitos. Era esse o sentido do PEC IV e de todas as restantes medidas que fosse necessário tomar para cumprir os compromissos para a redução do défice. Só que as condições seriam muito diferentes, não existindo a imposição de calendários e medidas estranhas aos melhores interesses nacionais. O caso das privatizações é flagrante, obrigando à venda em condições de chantagem. O mesmo para as soluções fiscais e a qualidade da prestação de serviços do Estado, onde é fácil camuflar de inevitabilidade o que é opção ideológica ou oportunista.
Um livro por semana 249
«Portugal – o Mediterrâneo e o Atlântico» de Orlando Ribeiro
Um cronista do século XV resumia Portugal a «aldeias e desertos». Terá sido esse, o ponto de partida de Orando Ribeiro (1911-1997) para este livro clássico cuja primeira edição é de 1945. Segundo o autor, a Geografia é, na sua essência, a compreensão da terra e da gente, o mesmo é dizer «os camponeses, pastores, moleiros, almocreves, pescadores e gente de outros ofícios» que, mesmo não podendo ler este livro, o ajudaram a escrever.
Um dos aspectos mais curiosos destas páginas tem a ver com as migrações: «As ceifas do Alentejo atraem grandes camaradas de trabalhadores. Sob a direcção de um manageiro, os ratinhos descem das montanhas mais pobres de Portugal: pequenos, delgados e nervosos, investem com denodo as searas mais opulentas. No trabalho das valas e arrozais, são exímios os caramelos do Mondego baixo e da Ria de Aveiro. Vêm principalmente para a região de Setúbal e o vale do Sado, assim como os gaibéus do Norte do Ribatejo e das serras confinantes acodem à Lezíria para o mesmo fim. Gente das praias da foz do Lis costuma, durante o Inverno, vir pescar ao longo do Tejo: os da Borda de Água chamam-lhe avieiros e muitos por aqui arrastam um destino errante, tendo o barco por única morada.»
(Editora: Letra Livre, Revisão: Andreia Baleiras, Revisão científica: Suzanen Daveau, Grafismo, paginação e capa: Inês Mateus, Foto: pastor tocando flauta em Fratel, Beira Baixa)

