Vasco em Elvas – 1946

Faltavam poucos minutos. A perder por um a zero
Percebi ser preciso tomar uma atitude de imediato
Ser campeão nacional hoje é aquilo que eu quero
Mas só ganhando o jogo ganharei o campeonato

Havia à volta do campo uma onda de tristeza
No rosto dos adeptos que chegaram de Lisboa
Quando fazia lançamentos sentia uma certeza
Não os podia decepcionar a jogar a bola à toa

Foi por isso que peguei na bola junto à lateral
E avancei pelo meio campo do meu adversário
Ninguém esperava este meu arranque triunfal
Porque dos defesas só esperamos o contrário

Do livre a castigar o meu derrube perto da área
Veio o golo do empate. Renasceram as ilusões
O Rafael fez depois uma jogada extraordinária
E saímos de Elvas com o título de campeões

A crise zen

Na entrevista desta noite, Vítor Gaspar repetiu a promessa de já em 2013 termos o sarilho resolvido. No final da legislatura, 2015, estaremos melhor do que nunca, afiança.

Bom, foi para isto que PSD, CDS, BE e PCP derrubaram o Governo PS. E foi nisto que os eleitores votaram, encarregando Passos Coelho da tarefa. Isto é a democracia a funcionar, pelo lado dos vencedores.

Parafraseando o Ministro das Finanças, podemos ficar absolutamente tranquilos. Com a prática, e muito chá, até conseguiremos levitar.

Comentadores

Agora que o governo patina, dando um trambolhão a cada duas piruetas, tendo já perdido a nota artística, os comentadores televisivos do PSD entenderam já ser tempo de mandar às malvas o princípio de não atribuir culpas ao governo anterior e de recomeçarem os ataques, agora em retroactividade (inclusive ad hominem).

As frases preferidas são já conhecidas: “Sócrates levou o país à bancarrota!” e “O estado em que o governo anterior deixou o país”, ou ainda “A dívida astronómica que herdámos” (Marcelo, Mota Pinto, José Eduardo Martins são alguns dos que ouvi estes dias). A cada três frases, lá metem o estribilho. Se dúvidas houvesse, esta é mais uma prova de que as coisas não lhes correm de feição, pelo que abandonaram as luvas e regressam, com algum prazer, diga-se, à técnica mais rústica.
A esses charlatões tenho apenas a dizer o seguinte: o governo anterior tinha sido o primeiro em décadas a baixar o défice para 2,8% do PIB. A redução da dívida seguir-se-ia, a par da redução da despesa e do aumento da actividade económica, como aliás se estava a verificar. Ninguém no governo andou a enriquecer à pala do endividamento. A crise de 2008, que levou inúmeras empresas a fechar por falta de encomendas, lançando milhares de trabalhadores no desemprego, obrigou a aumentar a dívida pública, sim senhor, e o défice, pois claro, como aliás em todos os países europeus, devido ao reforço dos apoios sociais e aos estímulos às empresas (lembram-se ou não?). A Parque Escolar foi mais uma das iniciativas para dinamizar a economia, com benefícios óbvios para os cidadãos.
Esta é a primeira parte.
Na segunda parte entram vocês, os grandes responsáveis pela espiral que nos levou ao precipício: Finais de 2009, eleições. Por razões que se prenderam com o desemprego e sobretudo as sucessivas campanhas de intoxicação da opinião pública, as calúnias e os ataques de carácter por vós perpetrados, Sócrates não obteve maioria absoluta. Para o exterior, a falta de uma maioria e de acordo político transmitia sinais de instabilidade. Juros começaram a subir perigosamente. O PSD, já com Passos e Relvas, salivava a cada subida (era, porém, preciso esperar até o Cavaco ser eleito). Na Assembleia, confirmavam-se os receios de instabilidade: todas as medidas de contenção da despesa – em matérias tão distintas como o ensino (carreira docente), as transferências para a Madeira, o aumento do IVA para produtos não essenciais como os refrigerantes e o leite achocolatado, etc., etc., etc. – contaram sistematicamente com obstáculos quando não mesmo com o bloqueio de vossas mercês e dos comparsas da extrema esquerda. Ainda este ano, o vosso avô amigo apregoava que “havia limites para o que o comum dos cidadãos pode suportar”. E agora têm a distinta lata de andar a dizer que o anterior governo não quis cortar nas despesas e que deixou descontrolar a dívida? Pois o certo é que, apesar da guerra movida, a despesa estava mesmo a baixar consideravelmente no primeiro semestre deste ano! A partir de agora é tudo a piorar!
Basta de mentiras. Afinal não foi o vosso ministro Gaspar que reconheceu, há dias, em entrevista, que o grosso dos cortes na despesa constava do orçamento de 2011? O exasperante disto tudo não é o Gaspar, pobre diabo – tem a sua visão do mundo a partir de bibliotecas e de uma poltrona dourada, que esperará por ele – é os jornalistas no estúdio nem ousarem interromper com o óbvio quem tão javardamente assim fala.

Troquem os sicofantas pelos académicos

Ferreira Fernandes pegou numa característica de Vítor Gaspar, a prosódia, e usou-a como gazua para lhe abrir a cachimónia com a sua elegante atenção ao detalhe: O ministro que falava baixinho

Não sei se FF sabe, ou já esqueceu, mas falar baixinho é uma táctica usual nas faculdades, locais onde é suposto os professores estarem duas horas de cada vez, ou mais, a palestrar para adultos. Óbvio, os novéis estudantes universitários entram na academia com a cultura do Secundário intacta, e a maior parte nunca a perderá mesmo depois do canudo. Daí não terem hábitos de disciplina adequados à nova exigência, podendo tranquilamente boicotar a autoridade docente imitando as estratégias espontâneas de prolongar a barulheira após o professor ter entrado na sala e começado a discorrer. É aqui que o truque de falar baixo é usado com alta eficácia pelos professores mais batidos, pois a reacção é a de rápido silenciamento num contágio culpado que chega a toda a sala.

Vítor Gaspar tem outros truques, mas acima de tudo tem uma inteligência aquilina e um excelente controlo emocional do protocolo, o qual usa a seu favor para dramatizar retoricamente o poder institucional que representa. Isto são manhas de puta velha das universidades, as quais começaram por serem herdeiras da cultura monástica, e têm séculos e séculos de aperfeiçoamento. O seu efeito é o de introduzir racionalidade simbólica numa situação de inevitável conflito, o que só traz vantagens. Por exemplo, de Vítor Gaspar não se espera ouvir uma difamação, muito menos uma calúnia. Ter confiança num limite ético que o adversário respeitará aumenta decisivamente a qualidade intelectual do debate.

Para defender a ideia de que devemos diminuir o peso do sector público na economia portuguesa, intento absolutamente legítimo e que resume o que o actual Ministro das Finanças tem para dizer aos cidadãos, não é preciso diabolizar e perseguir os adversários com assassinatos de carácter e conspirações mediático-judiciais. É até sensato admitir que se o PSD se tivesse preparado para fazer pedagogia à volta dessa ideia durante o período em que foi oposição à maioria socialista podia ter chegado às eleições de 2009 com uma verdadeira proposta alternativa que pudesse vencer o PS. Em vez disso, porque não acreditavam poder ganhar pelo valor das propostas, mergulharam alucinados no ódio.

Perdemos todos.

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Para a etimologia de sicofanta, recomendo esta cesta de figos.

Vinte Linhas 659

Isso foi na Jardia ou no Alto Estanqueiro

As nossas memórias são assim: «coisas desencadeadas» como dizia o grande escritor Carlos de Oliveira.

A propósito de uma nota de leitura publicada no Aspirina B surgiram alguns comentários de pessoas que conheciam muito bem a geografia dos trabalhadores rurais chamados «caramelos» referidos no livro do professor Orlando Ribeiro.

Entrei para a Escola Primária do Montijo em Outubro de 1958, perto do Bairro dos Pescadores. Ali os alunos eram divididos em «bons», «assim-assim» e «burros». Todas as sextas feiras o professor promovia ou despromovia os rapazes conforme a sua prestação semanal. Como já sabia ler e escrever, entrei logo para a fila dos «bons» e lá fiquei. Como nasci em Fevereiro de 1951 foi por uma birra da delegação escolar que só entrei em Outubro de 58 quando deveria ter entrado em Outubro de 57. Resolveu-se o problema em Abril e Julho de 1961 quando, por despacho superior, fiz os exames da terceira e da quarta nas Caldas da Rainha.

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A elite a que temos direito

Este Editorial do DN, que presumo seja invariavelmente escrito pelo director, volta a repetir uma das atoardas preferidas dos jornalistas e comentadores que pretendiam ridicularizar o Governo PS antes das eleições de Junho, a de que alguns ministros socialistas, algures no tempo, teriam declarado o fim da crise em Portugal.

Parece um assunto menor, até desprezível, mas estamos perante uma peça de uma insídia muito maior. De facto, afirmações foram feitas por Manuel Pinho, Teixeira dos Santos e Sócrates que se permitiam a um optimismo facilmente atacável e caricaturável. Contudo, o seu significado era específico de um certo contexto: elas referiam-se à Grande Recessão iniciada com a falência do Lehman Brothers, a crise que se temia viesse a desembocar numa depressão global, tendo como objectivo espalhar lúcida confiança entre os agentes económicos com vista a evitar a retracção e a estimular o investimento, como é obrigação de todos os Governos responsáveis sem excepção. E essas afirmações vinham suportadas por números validados pelos institutos nacionais e europeus. Se não fosse a crise seguinte, a dos mercados de financiamento a partir de 2010, Portugal teria saído de 2009 com boas razões para continuar a acreditar na sua capacidade de recuperação económica. Depois da crise da Grécia e da Irlanda, nenhum ministro de Sócrates, nem o próprio, referiu que essa nova crise tinha acabado, bem pelo contrário. O que se disse foi que valia a pena lutar com todas as forças para não ficar à sua mercê.

Quem volta a dizer que o Governo PS decretou o fim da crise não ignora esta destrinça. Acontece é que a vontade de continuar a pintar Sócrates como o grande mentiroso não desapareceu. Nem irá desaparecer, no que fica com uma das maiores homenagens que lhe podem fazer. Ainda há uma semana, nesse tempo de antena da direita sem qualquer contraditório nem rival, Marcelo Rebelo de Sousa repetia que Sócrates eras mentiroso, assim sem mais nada explicar, como se fosse uma evidência já pertença da cultura popular.

Num país onde os canalhas e os broncos estão igualmente distribuídos pelo espectro político, estas pulhices passarem como comentário político de referência prova exuberantemente como a nossa elite conhece bem o seu povo.

Good food for good thought

For some people, any taxes at all are unfair. The current Republican opposition to tax/revenue increases is a culmination of the determined effort spearheaded by Grover Norquist, a one-time aide to President Reagan, and his “Americans for Tax Reform” to persuade the Republicans to oppose taxes, not as a matter of sound economic policy but as a fundamental violation of our “liberty.” As Norquist himself puts it: “You are stealing money from some people and giving it to others.”

Norquist’s campaign has been hugely successful, and he has inspired the GOP to re-brand itself as the “no-tax party.” All but 6 of the 240 House Republicans and all but 7 of the GOP Senators have signed Norquist’s no-tax pledge. No wonder House Speaker Boehner is locked into an uncompromising stance, despite the extraordinary Democratic concession of offering a 3:1 ratio of spending cuts versus tax increases.

Underlying this anti-tax attitude are some truth-claims that need to be examined. One is that the wealthy pay a “disproportionate” share of our income taxes, currently at 38 percent of the total, twice their share 30 years ago, while the bottom half of income earners pay a very small portion of the taxes. Well, yes, but that is because the incomes at the top of the scale have more than doubled while the median income of the bottom half has significantly declined. (When inflation is factored in, “real incomes” among the middle class and blue-collar workers have declined even more.) Today, the top 1 percent of income earners receive 24 percent of the total and the top 10 percent take home almost half. If you use the “progressive” criterion of scaling taxes to the distribution of income, the wealthy should be paying even more than 38 percent.

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Ironia socrática

Recuperando a ideia defendida desde a campanha eleitoral de que “Portugal não pode falhar”, Passos Coelho assegurou, contudo, que “no dia em que for necessário cortar mais despesa e aumentar impostos para impedir que Portugal caia na bancarrota” ele próprio o dirá aos portugueses.

“Isso não há dúvida nenhuma que não mando dizer por ninguém, digo eu próprio e desafio qualquer um em Portugal que tem uma solução diferente para evitar que o défice orçamental não resvale no final do ano”, sublinhou.

Fonte

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A ideia de que Portugal não pode falhar, começando logo por ser um tautológico cliché com séculos, é inerente à participação na União Europeia e seus condicionalismos inevitáveis e coercivos. Depois das eleições de Setembro de 2009, no contexto da crise económica internacional e da crise política nacional, Cavaco simulava apelar à concórdia entre PSD e PS precisamente referindo que o País não podia falhar a recuperação económica. Durante o teatro da viabilização do Orçamento de 2011, o Governo de então avisava que o seu chumbo levaria o País a falhar fatalmente essa recuperação. E em Março de 2011, ao se tornar evidente que o PSD queria abrir uma crise política para derrubar o Governo, Sócrates alertou para as consequências dessa irresponsabilidade: Portugal iria aumentar desvairadamente o risco de falhar os seus principais objectivos, onde se incluía a defesa do Estado Social até ao limite do possível.

Graças à decisão conjunta do Presidente da República e da oposição, estamos agora obrigados a suportar ainda mais e maiores constrangimentos, limitações, austeridade e sacrifícios do que aqueles já consequência das duas crises – a económica, causa do aumento do desemprego, e a europeia, causa do aumento dos juros da dívida soberana e arrastando a banca nacional para crescentes dificuldades de financiamento. E se este é o preço que foi infligido a Portugal só para fazer a direita regressar ao poder, está para nascer alguém que consiga entender que raio o BE e o PCP ganharam com a troca que promoveram entusiasticamente.

Estas declarações de Passos são exactamente iguais às que Sócrates fazia. Ambos descrevem uma situação de emergência e desafiam a oposição a apresentar alternativas. Sabemos que Ferreira Leite chegou ao patético de explicar que não apresentava soluções para os problemas nacionais para evitar ser imitada pelo Governo. E sabemos que Passos dizia que a solução era algo tão simples como voar de Económica ou tirar a gravata.

Mas sabemos mais, muito mais. Sabemos que o combate a Sócrates passou por assassinatos de carácter, devassa da sua privacidade, difamação da sua família e tentativas de criminalização, num conjunto de processos que foram todos demorada e profundamente investigados por dezenas de jornalistas, agentes policiais, procuradores, juízes e até autarcas. E sabemos que PSD e CDS estão ligados, por via de actuais e antigos dirigentes, aos casos BPN, submarinos e défices democrático e das contas públicas da Madeira. São casos para dizer: só sei que ainda nada sei.

Vinte Linhas 658

Quantos pobres são precisos para produzir um rico?

O falatório feito aqui em Portugal (e não só) a propósito dos ricos e dos pobres tem dado origem a uma série de disparates. Um dos ricos de Portugal apareceu a dizer que é um «trabalhador». Desceu ao nível da anedota sobretudo para os que, como eu, ouviram alguns clientes do Banco desabafar como é que, em pleno PREC, foi construído o chamado «império da cortiça» entre as Unidades Colectivas de Produção do Alentejo e as fábricas de Santa Maria de Lamas.

Vejamos as palavras de Almeida Garrett em «Viagens na minha terra»: «E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa; á desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?»

Mas no livro «Levantado do chão» de José Saramago aparece «infância» em vez de infâmia. Ainda há pouco tempo o editor Cruz Santos do Porto fez uma cuidada edição deste livro com caixa e tudo mas a gralha permanece. Não são apenas as dedicatórias que saltaram por uma espécie de gripe espanhola; foi a gralha que permaneceu ao longo de dezenas de anos e de muitas edições.

Outra gralha muito curiosa (e teimosa, já agora) é a que diz respeito ao livro «Viagem a Portugal» do mesmo José Saramago. Na página 252 da edição (sem fotografias) do Círculo de Leitores lá vem «Assim mais confortavelmente se visitará a cidade, não o Museu de São João de Alpalhão, hoje fechado». É um erro crasso, o nome correcto é Alporão por causa da porta das muralhas de Santarém com esse nome.

Nunca se tinha visto, um Primeiro-Ministro incendiário

Passos Coelho deixou ainda um aviso a «quem se entusiasme muito com as redes sociais e com o que vêem lá fora esperando trazer o tumulto para as ruas de Portugal», muito embora tenha lembrando a existência de direitos da população.

«Em Portugal, há direito de manifestação e à greve, direitos que estão consagrados na Constituição e que têm merecido o consenso alargado em Portugal. Não confundiremos o exercício dessas liberdades com os que pensam que podem incendiar as ruas e ajudar a queimar Portugal», concluiu.

Fonte

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Estas declarações são alarmantes. Alarmantes porque têm sido repetidas em diferentes ocasiões e o Governo tem apenas 10 semanas, estabelecendo um padrão. Alarmantes porque revelam uma surpreendente fobia e fragilidade no exercício da autoridade do Estado. Alarmantes porque o seu efeito é exactamente o oposto do aparente sentido da mensagem. Alarmantes porque foram proferidas pelo Primeiro-Ministro, assim escalando a sua importância e atrofiando a autoridade do Ministro da Administração Interna e seus Secretários. Alarmantes porque causam alarme social. Alarmantes porque Passos tem mais de 20 anos de actividade política constante, não podendo reclamar inexperiência.

Tirando a forte hipótese de estarmos perante mais uma prova da incompetência do indivíduo e de quem o aconselha, como vimos ao longo do processo que levou à crise política e durante a campanha eleitoral, a única explicação lógica para se estar a despejar gasolina na rua é a de que tais convulsões sejam desejadas pelo Governo. De facto, tal permitiria assustar o eleitorado da direita, oferecendo um inimigo comum que amansaria a ala Cavaquista e promoveria a unidade à volta do Governo. Nada como uns 20 ou 30 taralhoucos a partir montras na Baixa para o Governo ficar com um escudo protector para as suas políticas.

É de esperar que os imbecis mordam o isco. Eles têm sido de uma fidelidade canina aos propósitos e estratégias desta miserável direita, até entrariam em ressaca se não pudessem continuar a ajudar os seus aliados.

Impressionar no emprego, brilhar nos jantares, seduzir em festas

Fathers’ Presence Linked to Enhanced Intellect, Well-Being Among Children
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Parents’ Stress Leaves Lasting Marks On Children’s Genes, Researchers Find
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Mind-Altering Microbes: Probiotic Bacteria May Lessen Anxiety and Depression
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Heavy Chocolate Consumption May Be Linked to Heart Health, Study Suggests
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Like Mama Bears, Nursing Mothers Defend Babies With a Vengeance
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Exercise Boosts Health by Influencing Stem Cells to Become Bone, Not Fat, Researchers Find
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Social Media Expert Explores Dynamics of Online Networking
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Humans Shaped Stone Axes 1.8 Million Years Ago: Advanced Tool-Making Methods Pushed Back in Time
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‘Senior moments’ less common than perception
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People Think the ‘Typical’ Member of a Group Looks Like Them
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Time Off Work for Exercise Linked to Increased Productivity
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Chickens Eject Sperm from Males They Don’t Fancy

Um livro por semana 250

«O cisne submerso» de Fernando Pinto Ribeiro

Fernando Pinto Ribeiro (1928-2009) foi revisor de imprensa (Diário de Notícias) e colaborou em revistas de Letras e Artes e em páginas literárias de diversos jornais. Foi autor de fados e canções cantados por nomes famosos como Beatriz da Conceição, Anita Guerreiro, António Mourão, Artur Garcia e Tristão da Silva. Um exemplo: «As meninas dos meus olhos / nunca mais tive mão nelas / fugiram para os teus olhos / por favor deixa-me vê-las //As meninas dos meus olhos / num castigo que é perdão / prende-as dentro dos teus olhos / quero vê-las na prisão».

Fernando Pinto Ribeiro, para quem «Ser poeta é amar o amor», criou também outro tipo de poemas, voltados para as questões sociais, como as lutas nas grandes searas do Sul, num cântico que é também um grito: «Fui pastor, sou corticeiro / conheço o custo à desgraça / só ninguém sabe o dinheiro / que ela rende na praça // Ela rende lá na praça / ou na banca do galego / quem montar uma trapaça / cavalga qualquer borrego // Cavalga qualquer borrego / toureia qualquer carneiro / quando o cão de guarda é cego / arma-se o lobo em cordeiro //Se pão rijo é papa-açorda / e o óleo faz vez de azeite / quem é gordo mais engorda / quem magro é não se ajeite // Quem é magro não se ajeite / que o cevado enfarda a pança / ninguém durma nem se deite / o toucinho também rança// O toucinho também rança / bom vinho dá bom vinagre / quando o tempo é de mudança / a força faz o milagre!».

(Editora: Edium Editores, Organização: Julião Bernardes, Capa: Alice Fergo, Prefácio J. Leitão Baptista, Posfácio: Paulo Jorge Brito e Abreu)

A Idade Média revisitada – os municípios e os principados

Segundo noticia o correspondente da BBC em Roma, as medidas de austeridade que determinam a fusão de municípios em Itália levaram já a que um deles, uma pequena localidade com 550 habitantes, na iminência da fusão com Trevi, declarasse a independência, cunhasse a sua própria moeda e estabelecesse um brasão. Possivelmente, se existirem muralhas, será fácil cobrar taxas aduaneiras…
Loucura, promoção turística ou desespero do autarca “deposto”, o facto é que a notícia corre mundo, neste momento.

Em Portugal, há municípios a mais, alguns ridiculamente próximos (5 ou 10 km), como Almeirim e Alpiarça, ou Mangualde e Penalva do Castelo (porquê estes? Ora, porque passei por lá há pouco tempo). Intervir neste domínio para cortar despesa é questão delicada em que este governo parece não querer entrar, apesar de tais medidas constarem do Memorando da Troika. A razão é ser o poder local quem alimenta a base eleitoral dos principais partidos políticos, temendo-se, por isso, conflitos intra- e interpartidários insanáveis, ou mesmo uma guerra civil, altamente inconveniente nesta altura. Mas não devia ser impossível.

Uma esquerda actualmente sem ideias

O Fórum Novas Ideias para a Esquerda, onde estarão as principais figuras do Bloco e que terminará com um discurso de Louçã, coincide com o Congresso Nacional do PS. Seria uma coincidência irrelevante não fora a natureza parasitária e predatória do BE, um partido híbrido que tanto cavalga a máquina sindicalista do PCP como se imagina a dividir o palco com o PS de igual para igual.

Ninguém sabe se já houve algum debate interno a respeito da bela merda que andaram a fazer desde Setembro de 2009. Ninguém sabe se existe algum valente que seja alternativa a Louçã e que não se assuste com as rosnadelas do Fazenda. E ninguém sabe o que raio quer o Bloco para Portugal, embora se tenha vindo a saber ao longo do tempo que pretendem cortar relações com Angola e Espanha, sair da União Europeia e da Nato, nacionalizar a banca e garantir que os professores não voltem a ser avaliados dado que eles não têm condições mentais para aguentar esse tipo de pressão. E isto, que até parece muito, é menos que nada.

Vinte Linhas 657

A Big Band da Nazaré em São Pedro de Alcântara

Dirigida por Adelino Mota, a Orquestra de Jazz da Nazaré (fundada em 1999) tocou ontem (1-9-2011) às 19 horas no Jardim de São Pedro de Alcântara em frente à minha casa – ou quase. Moro a 50 metros e o som chega lá muito bem. Charles Mingus e Wayne Shorter são alguns dos clássicos interpretados durante mais de uma hora pelos músicos Vítor Guerreiro, Margarida Louro, Luís Guerreiro, André Venâncio, Reinold Vrielink, Élio Fróis, Luís Pires, Fábio Matias, Joaquim Pequicho, João Capinha, Nuno Mendes, Wilson Ferreira, Pedro Morais, Gonçalo Justino, Ricardo Caldeira, Tiago Lopes, Bruno Monteiro e (por fim, sem esquecer) a excelente voz de Júla Valentim.

Para além do usufruto das melodias e das canções, dos arranjos e dos improvisos de vários intérpretes, ficou no meu olhar uma outra memória sobreposta. Que será a memória da Nazaré dos meus tempos de criança: os círios que eu ia ver com o meu avô, as imagens de Dom Fuas Roupinho em todas as casas, o circo que muitos de nós só vimos na Nazaré e, por fim, a tourada das festas anuais. Sem esquecer as mulheres que iam vender peixe à minha terra e se abrigavam da chuva na adega e a quem a senhô Maria (como elas diziam) dava uma pinguinha de café. Aquele café forte que ao subir na cafeteira é parado com uma brasa grande que o faz descer de imediato. Neste momento chove. Por um estranho fenómeno de meteorologia chove em Lisboa, frente ao miradouro de São Pedro de Alcântara como chovia na minha infância muito perto da Nazaré nesse tempo dos anos 50. Regresso à minha infância pelo puro som da Orquestra, pelo olhar e pela voz das mulheres no palco, um mergulho na memória dum certo tempo português – entre círios, foguetes, arlequins e procissões.

Ainda e outra vez

Bom, assim vai a coisa:
Bastou o facto de se saber que Sócrates está vivo, activo, bem de saúde e com contactos políticos, ainda que mínimos, para se soltarem os tigres.

Ontem, fomos brindados com a “bosta” do director do jornal i.
Hoje, temos o Daniel Oliveira com a tradicional demagogia, cegueira radical e ataque ao principal adversário,
Como dantes. Nem falta o nome do bicho.

Partindo de uma triste frase do ainda mais triste António J. Seguro (“ficaria triste se o primeiro ministro do meu país fosse receber ordens da senhora Merkel ou do senhor Sarkozy“, snif), Daniel Oliveira decide investir contra o PS, começando, ora pois não, por Sócrates (carências!): “Mas o que raio fez José Sócrates, nos dois últimos anos, senão receber ordens de Berlim? Quem impôs as regras do PEC IV? Não foi a senhora Merkel? O que é o memorando da troika senão a institucionalização dessas ordens? O que tem feito o PS, nas últimas duas décadas, senão abdicar de qualquer discurso autónomo sobre a construção europeia e assumir uma postura umas vezes euroentusiástica, outras euroconformada?”

Há pessoas que têm de acordar: em primeiro lugar, hoje em dia (mas a história da Alemanha nem sempre foi gloriosa), toda a gente na Europa “recebe ordens” de Berlim. Até a França. Por outro lado, parece-me que há quem queira construir a Europa fora dela. Acontece que os países que a compõem, representados nas maiorias que os governam, são os interlocutores com quem temos de lidar. Não há outros. Em segundo lugar, nas últimas duas décadas, a Europa nem sempre tem seguido o mesmo rumo. A influência inglesa, as alterações do contexto internacional e os líderes têm sido factores determinantes no andamento desta “obra”. Daí as oscilações. Da Europa, dos socialistas, dos conservadores, da China, dos Estados Unidos, de toda a gente. Só quem faz da vida uma contestação e um berreiro permanentes é que não oscila. Está sempre bem e a salvo. Comprometido com coisa nenhuma. Apenas sujeito ao risco de extinção após breve fulgor.

Mas adiante: a alternativa de sair da Europa tem sido sempre pior, muito pior, do que a de ficar. E a força de Portugal para impor seja o que for num Conselho em que predominam dirigentes de direita, ou que fossem de esquerda, é bastante reduzida. Isto não é conformismo. É outra coisa e depende dos protagonistas. Sócrates, por exemplo. Este homem gostava do seu país. Não o entregava sem luta, ou ardis/salvaguardas, à Alemanha ou à Espanha, conformado com a nossa triste sina de pobrezinhos, ignorantes e obedientes (veja-se o que agora faz a dupla PPC/Gaspar às empresas públicas estratégicas, com entusiamo e convicação tudo vendendo ao desbarato, prestando autêntica vassalagem, estando-lhe a conjugação de salazarismo com neoliberalismo no subconsciente e Cavaco em Belém). Pelo contrário, Sócrates tudo fez para transformar o país, modernizá-lo, dar-lhe ambição e distingui-lo no contexto europeu e internacional. Por isso, merece o meu aplauso. Enquanto isso, o Bloco protestava.
Continuar a lerAinda e outra vez

Das gorduras do Estado, sem demagogia

Não sou economista, não sou dada a finanças, mas penso saber ler, saber ouvir e, sobretudo, sei o que significa o resultado de um esforço enorme, começado em 1975.
Nesse tempo, tempo atribulado, tempo cansado de quase 50 anos de contas equilibradas em cima da miséria, da exclusão, da pobreza, da desigualdade – tão úteis à manutenção de um regime moralista, repressivo, com técnica apurada de propagação do medo – começou a construir-se um modelo de Estado social, de inspiração europeia, esse modelo com pais ideológicos socialistas democráticos e democrata-cristãos.
Com o tempo, um tempo cada vez mais em paz com os seus, o modelo aperfeiçou-se, e a beleza da coisa estava no consenso em torno da ideia que suporta um conjunto de funções básicas do Estado e um conjunto de direitos sociais: na desigualdade, na pobreza, somos todos escravos.
É por isso que liberdade e iguladade são duas faces de uma moeda. Não há liberdade na subjugação, na privação, na impossibildade de aceder aos melhores cuidados médicos que o Estado tem para oferecer, na impossibilidade de garantir o acesso à escola pública das crianças e dos jovens e por aí fora.
Estes direitos, decorrentes de funções do Estado, são de todos. Mesmo quem tem possibilidades de pagar uma intervenção num hospital privado, porque tem seguro, por exemplo, tem o direito de aceder aos melhores cuidados médicos do SNS. Não por acaso o IRS tem escalões diferentes, pelo que mesmo quem mais tem recebe o retorno dos impostos que pagou.
A não ser assim, imagine-se o que se passa noutros países, em que não há um serviço nacional de saúde tendencialmente gratuito, e verificamos números assustadores de famílias a falirem, a cairem na miséria, porque não têm seguro ou, mais grave, tendo seguro, perante uma doença grave, a seguradora encontra um fundamento para não cobrir as despesas.
Não é um desses o nosso país.
Que bom que não é. E que cansaço ler alguns ou a ditarem a morte do Estado social ou a acusarem quem o defende de ser imobilista.
Não somos imobilistas. A Constituição dá margem ao legislador para fazer políticas sociais várias. Repito mais uma vez que desde o 25 de Abril o TC nunca inconstitucionalizou uma política pública de direita, excepto a ideia espectacular de Paulo Portas de excluir do então RMG todos os que tivessem entre 18 e 25 anos, assim, de um dia parao outro. Foi caso único.
De resto, claro que se pode pensar em novas medidas ou políticas sociais em função dos recursos disponíveis (veja-se a criação de taxas moderadoras).
Agora, custa muito, mas muito, ler o compromisso com a Troika, ler o documento de Vítor Gaspar, e constatar que a obsessão da direita não é evitar a recessão, o desemprego, mais sacrifícios a quem já não pode mais, mas é antes ir além da Troika, três vezes além só no IVA, flexibilizar e flexibilizar o mercado de trabalho, omitindo que os Estados onde essa flexibilização é mais acentuada estão com os mesmos problemas de desemprego, de não crescimento, etc, e ter por gorduras do Estado aquilo que eu pensava serem funções do Estado.
Qual é a beleza da coisa?

No final será o verbo

O comentador rapace continuou hoje uma conversa que começou em 2007 pela mão do Daniel de Sá, a qual não recebeu qualquer comentário em 2008, e que voltou a ser reactivada em 2009, 2010 e 2011. Não é caso único, claro, apenas o aproveito para realçar alguns aspectos que fazem dos blogues, neste formato tradicional como é o da blogosfera política onde existem caixas de comentários sem aprovação prévia, um formato único de livre comunicação no meio digital.

Ao contrário dos chats, Facebook, Twitter e quejandos, onde a actualidade é reduzida à sua expressão mínima e tende sempre para a efemeridade (excepção feita às imagens arquivadas e recorrentemente expostas), os fóruns e os blogues (estes, em vários aspectos, sendo como que uma 2ª geração dos fóruns) não sofrem a erosão do tempo. A actualidade é antes uma dádiva do participante, o que torna possível manter a mesma conversa durante anos e anos. As páginas electrónicas não amarelecem, os registos antigos não escapam aos motores de busca, as datas perdem a sua inércia e mofo. Quem se interessa em 2011 por algo que foi publicado em 2007, ou 1997 ao ponto de querer entrar na conversa, manifesta a crença de que alguém o irá ler assim que as suas palavras apareçam no ecrã. O espaço mantém a promessa de estar habitado pelos seres que lá deixaram pedaços de alma, esses reflexos e sombras de uma interioridade que permanecem intactos tal e qual como foram enviados. Contudo, e sendo algo que a literatura já não permite ao leitor de romances, num blogue acredita-se na possibilidade de entrar em diálogo com as personagens daquilo que muitas vezes pode ser descrito como um drama em gente. O poder de atrair uma voz, qualquer voz, nada lhe cobrando pela participação nem lhe exigindo prova de identidade, revela-se essencialmente político. É a experiência mesma de ocupar o espaço público e dizer de sua justiça.

A liberdade será inevitavelmente abusada. Neste modelo de blogue, aparecem bisonhos, caducos, doentes, malucos. Aparecem aqueles que não escolheríamos para amigos, ou cujo convívio físico nem sequer suportaríamos. E aparecem criaturas admiráveis, que encaixam perfeitamente no molde das nossas fantasias ou, ainda melhor, que nos despertam fantasias novas. Mas este encanto tem de aprender a suportar a pulsão disfuncional que o espaço aberto aceita acolher. Um só indivíduo pode enviar centenas de comentários por dia, inventando nomes e emails, assim lhe dê na mona e tenha tempo para gastar. Outros dedicam-se à perseguição de autores ou comentadores. A agressividade é frequente, resposta antropológica usual face a um ambiente desconhecido e à abstracção da comunicação apenas por palavras escritas, não se tendo a dimensão corporal da voz e do rosto para as contextualizar nos seus primeiros e últimos sentidos.

Todavia, para quem gosta de pessoas, poder contemplar com esta intimidade a natureza humana na sua mais gloriosa actividade, conversar, é um privilégio para o qual faltam palavras.