No final será o verbo

O comentador rapace continuou hoje uma conversa que começou em 2007 pela mão do Daniel de Sá, a qual não recebeu qualquer comentário em 2008, e que voltou a ser reactivada em 2009, 2010 e 2011. Não é caso único, claro, apenas o aproveito para realçar alguns aspectos que fazem dos blogues, neste formato tradicional como é o da blogosfera política onde existem caixas de comentários sem aprovação prévia, um formato único de livre comunicação no meio digital.

Ao contrário dos chats, Facebook, Twitter e quejandos, onde a actualidade é reduzida à sua expressão mínima e tende sempre para a efemeridade (excepção feita às imagens arquivadas e recorrentemente expostas), os fóruns e os blogues (estes, em vários aspectos, sendo como que uma 2ª geração dos fóruns) não sofrem a erosão do tempo. A actualidade é antes uma dádiva do participante, o que torna possível manter a mesma conversa durante anos e anos. As páginas electrónicas não amarelecem, os registos antigos não escapam aos motores de busca, as datas perdem a sua inércia e mofo. Quem se interessa em 2011 por algo que foi publicado em 2007, ou 1997 ao ponto de querer entrar na conversa, manifesta a crença de que alguém o irá ler assim que as suas palavras apareçam no ecrã. O espaço mantém a promessa de estar habitado pelos seres que lá deixaram pedaços de alma, esses reflexos e sombras de uma interioridade que permanecem intactos tal e qual como foram enviados. Contudo, e sendo algo que a literatura já não permite ao leitor de romances, num blogue acredita-se na possibilidade de entrar em diálogo com as personagens daquilo que muitas vezes pode ser descrito como um drama em gente. O poder de atrair uma voz, qualquer voz, nada lhe cobrando pela participação nem lhe exigindo prova de identidade, revela-se essencialmente político. É a experiência mesma de ocupar o espaço público e dizer de sua justiça.

A liberdade será inevitavelmente abusada. Neste modelo de blogue, aparecem bisonhos, caducos, doentes, malucos. Aparecem aqueles que não escolheríamos para amigos, ou cujo convívio físico nem sequer suportaríamos. E aparecem criaturas admiráveis, que encaixam perfeitamente no molde das nossas fantasias ou, ainda melhor, que nos despertam fantasias novas. Mas este encanto tem de aprender a suportar a pulsão disfuncional que o espaço aberto aceita acolher. Um só indivíduo pode enviar centenas de comentários por dia, inventando nomes e emails, assim lhe dê na mona e tenha tempo para gastar. Outros dedicam-se à perseguição de autores ou comentadores. A agressividade é frequente, resposta antropológica usual face a um ambiente desconhecido e à abstracção da comunicação apenas por palavras escritas, não se tendo a dimensão corporal da voz e do rosto para as contextualizar nos seus primeiros e últimos sentidos.

Todavia, para quem gosta de pessoas, poder contemplar com esta intimidade a natureza humana na sua mais gloriosa actividade, conversar, é um privilégio para o qual faltam palavras.

10 thoughts on “No final será o verbo”

  1. Por acaso, estava aqui a pensar se se farão amizades lá no Speakers’ Corner em Londres. Mas não dá tanto espaço à fantasia, isso não…

  2. só será abusada quando quem escreve não se assume inteiramente pelo que escreve – quando se aproveita da ausência de voz e do rosto para dizer o que nos olhos nunca diria. neste contexto, declaro-me uma verbalina absolutamente desabusadora. mas deixo uma nota: afinal nem sempre só aos miseráveis oferecemos o silêncio. de resto, conversar sem abusar há pouco quem queira – e se não o fazem com e na vida não será aqui que o farão. e mais: o verbo mais a voz mais a dimensão corporal, o conjunto, é o sonho, sem ser sonho, das quatro estações da tal gloriosa: a glória da gloriosa. :-)

  3. Mesmo sem comentários novos, é muito interessante ir ao arquivo do blogue, pelo menos deste, e ler os textos e as conversas que deles resultaram. É impressionante verificar como muitos, apesar de já terem uns anos, se mantêm absolutamente actuais.

  4. Val, mas temos de admitir que, tirando o Kalimatanos e um ou outro desarticulado mental matador do verbo e das ideias, isto está muito homogéneo e concordante por oposição aos velhos tempos pré-5 de Junho. Que é feito da outra malta, pá? Foram para o governo?Estão a anti-depressivos? Envergonharam-se? O que é que se passa? Falta romanos aqui na aldeia, porra. Temos que animar a malta…

  5. Caro Valupi estava a referir a surpresa que foi o aparecimento «agora» de uma coisa antiga, Só isso. Cheguei agora a casa e só agora respondo. Nada de especial, foi só a surpresa.

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