A elite a que temos direito

Este Editorial do DN, que presumo seja invariavelmente escrito pelo director, volta a repetir uma das atoardas preferidas dos jornalistas e comentadores que pretendiam ridicularizar o Governo PS antes das eleições de Junho, a de que alguns ministros socialistas, algures no tempo, teriam declarado o fim da crise em Portugal.

Parece um assunto menor, até desprezível, mas estamos perante uma peça de uma insídia muito maior. De facto, afirmações foram feitas por Manuel Pinho, Teixeira dos Santos e Sócrates que se permitiam a um optimismo facilmente atacável e caricaturável. Contudo, o seu significado era específico de um certo contexto: elas referiam-se à Grande Recessão iniciada com a falência do Lehman Brothers, a crise que se temia viesse a desembocar numa depressão global, tendo como objectivo espalhar lúcida confiança entre os agentes económicos com vista a evitar a retracção e a estimular o investimento, como é obrigação de todos os Governos responsáveis sem excepção. E essas afirmações vinham suportadas por números validados pelos institutos nacionais e europeus. Se não fosse a crise seguinte, a dos mercados de financiamento a partir de 2010, Portugal teria saído de 2009 com boas razões para continuar a acreditar na sua capacidade de recuperação económica. Depois da crise da Grécia e da Irlanda, nenhum ministro de Sócrates, nem o próprio, referiu que essa nova crise tinha acabado, bem pelo contrário. O que se disse foi que valia a pena lutar com todas as forças para não ficar à sua mercê.

Quem volta a dizer que o Governo PS decretou o fim da crise não ignora esta destrinça. Acontece é que a vontade de continuar a pintar Sócrates como o grande mentiroso não desapareceu. Nem irá desaparecer, no que fica com uma das maiores homenagens que lhe podem fazer. Ainda há uma semana, nesse tempo de antena da direita sem qualquer contraditório nem rival, Marcelo Rebelo de Sousa repetia que Sócrates eras mentiroso, assim sem mais nada explicar, como se fosse uma evidência já pertença da cultura popular.

Num país onde os canalhas e os broncos estão igualmente distribuídos pelo espectro político, estas pulhices passarem como comentário político de referência prova exuberantemente como a nossa elite conhece bem o seu povo.

12 thoughts on “A elite a que temos direito”

  1. O DN faz campanha pelo Passos já desde 2008, aquando das eleições para o PSD em que perdeu para a Manela. E nestas eleições legislativas fez de forma despudurada campanha pelo PSD, mas tudo de modo encapotado e manipulador. Alguns jornalistas que, supostamente, estavam a descrever acontecimentos, na prática tentavam sempre descredibilizar o Governo de Sócrates e o PS.

    Tens de ler melhor os jornais.

  2. A ultima frase do que escreveu explica muita coisa. O nosso povo ainda estás longe de ler ou ouvir , noticias ou comentários, como se viessem directamente do divino. Se se disse na televisão, se é capa de jornal, se é noticia é porque há-de ter algum fundo de verdade, assim pensam muitas pessoas. Por isso as campanhas contra Sócrates acabaram por resultar. Ainda hoje muitos estão convencidos que o ex primeiro ministro recebeu dinheiro no Freeport. E quando aos media se juntam alguns poderosos agentes da justiça temos a receita perfeita para um combate politico viciado e perdido, desde o inicio, pelos alvos.

  3. Peço muita desculpa pelas gralhas que deixei no meu comentário. Nem vou falar da pontuação, fico-me pela segunda frase.
    Deveria ler-se: “o nosso povo ouve as noticias ou comentários como se viessem directamente do divino”.
    Como não consigo editar deixo aqui a correcção.

  4. val, o dn, liderado por um dos piores seres humanos que conheço, um tirano neo-liberal, andou anos com Sócrates ao colo, o que diz muito do carácter de ambos.

  5. Eduardo, exactamente.
    __

    nm, essa de ser “um dos piores seres humanos que conheço” escapa-me por completo, nem teço qualquer relação com essa dimensão pessoal. Do que falo é de uma óbvia opção de favorecimento político e partidário que o DN tem assumido com o Marcelino. E até se poderia pensar que a sua publicação do email do Público onde se descrevia a conspiração da Inventona de Belém faria ainda parte do propósito de atacar a ala cavaquista do PSD, assim favorecendo Passos. Contudo, não é necessário recorrer a essa também conspirativa hipótese, pois bastariam razões jornalísticas, até comerciais, para ter agarrado a cacha.

  6. teço eu, marcelino politicamente andará pelo PSD e mesmo assim no dn favoreceu sócrates e muito, como fizera antes noutros órgãos que dirigiu tendo-o até erigido em senador. o resto é, como lhe digo, devoção.

  7. Acho mesmo que o Sócras até controla o PSD e o PP.
    Que outra razão poderia existir para uma parte dos elementos pertencentes à máquina infernal de propaganda do anterior Governo (a tal asfixia democrática) continuar no activo e outra ter sido contratada ou promovida por este executivo? Não deviam ser acusados?
    São os tentáculos da beeeeeeeesta, muhahahahahahah!
    (música de filme de terror)

  8. O dn, jornal que li ao longo de anos, faz 6 anos que deixei de comprar ou ler a partir do momento que notei o seu alinhamento com a direita. nos ultimos anos foi vergonhoso o seu comportamento pela forma como se transformou em lapa do troca Passos.

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