Discursos seguros

O discurso de abertura de António José Seguro teve todos os ingredientes de um bom discurso. Tinha que ser, aliás. Seguro sabe que a partir de sexta, acabou-se o conforto do partido, das caras conhecidas, das distritais, dos gabinetes e dos amigos. A partir de sexta, está exposto às luzes implacáveis da ribalta, de onde só sairá em glória ou desgraça. Não há meio termo. E Seguro cumpriu, ninguém o pode negar : foi um discurso inteligente, astuto, bem pensado, definidor das linhas gerais de uma estratégia politica, com um rumo para o Partido Socialista e, muito importante, críticas certeiras ao actual governo. Seria, em tempos de normalidade, um excelente discurso feito por um líder com boas qualidades.

O problema é que não vivemos tempos normais. Muito longe disso. E por isso esta estratégia, e este discurso, são claramente insuficientes para o momento que o país atravessa, e como Seguro em breve descobrirá, para o que vem aí. Foi um daqueles casos em que, para mim, o todo foi bastante menor que a soma das partes. A falta de urgência foi gritante, a falta de indignação para com a golpada – porque não há outro termo – que permitiu a subida da direita ao poder através da falência forçada do país, essa falta de indignação foi gritante. Acabou por ser o que mais me impressionou, essa aceitação, quase subserviente, às circunstâncias politicas que vivemos e de como aqui chegámos. Isto já para não falar na falta de carisma, que se tornava mais evidente a cada berro visivelmente estudado, e para ser sincero, um discurso demasiado longo mais revelador de falta de ideias claras, definidas e fortes do que de profundidade de pensamento. Mais de uma hora? Eu sei que o António José Seguro está contente por ser finalmente Califa em vez do Califa, mas caramba, via-se claramente que já ninguém o podia ouvir, e as ideias importantes, fortes e carismáticas transmitem-se em 20 minutos. E já agora: quem é que teve a magnífica ideia de relembrar a todos os socialistas, já para não falar dos restantes cidadãos, que ainda faltam mais de 1700 dias para se poder correr com este governo? Como grito de reunir as tropas, como fonte de energia e inspiração para o duro trabalho da oposição, era difícil fazer pior. Não há pressa, foi isso que se quis dizer? Isto já para não falar da banalidade absoluta de “as pessoas estão primeiro”, um slogan de instituição bancária, com o mesmo nível de sinceridade e imaginação destas. Foi mesmo o melhor que se lembraram, ou estava em saldo na Young & Rubicam?

E uma ultima coisa que me ficou na memória: eu sei que se calhar parecia bonito andar a exibir o apoio das velhas glórias fundadoras do PS, mas o que o gesto realmente transmite é uma tremenda insegurança, uma necessidade de atestado de qualidade para militante ver, e mais grave ainda, cola a imagem a tempos passados e a batalhas que já lá vão. Ser líder significa estar lá em cima sozinho, caso ainda não tenha percebido, pelo que mais vale ser o seu próprio homem, sem necessidade de se andar  a colar ao brilho dos outros. E, sinceramente,  já não estamos nos anos 80, embora a recuperação do antigo logotipo queira se calhar indicar umas tremendas saudades desse tempo. Já fui feliz aqui, não é?

Percebe-se portanto a estratégia de Seguro para ser primeiro-ministro: exactamente a mesma que o levou a secretário-geral. Trabalho de formiguinha paciente durante anos a fio, sem se expôr demasiado, sem entrar em grandes polémicas ou batalhas, evitar o desgaste prematuro, para depois esperar que o adversário caia de podre e aparecer como o salvador. De preferência o único. Pode ser que seja a estratégia correcta, que sei eu disto? Afinal, temos um governo com maioria absoluta que será protegido até ultimas consequências pelo Presidente da Republica, pelo menos enquanto o conseguir controlar. Mas temo bem que, como habitual, os acontecimentos se precipitem e apanhem Seguro totalmente desprevenido. Como a crise na União Europeia está prestes a entrar em velocidade Warp, creio que em breve descobriremos.

Como nota final sobre o que é realmente um grande discurso, revelador de um pensamento avançado, combativo, moderno, combativo, límpido, combativo, mobilizador, combativo, e com a crucial  – repito, crucial – desmontagem da narrativa dos partidos de direita (já referi a combatividade?),  fiquem com o Francisco Assis. Grande homem, grande pensador, grande orador. Subscrevo por inteiro, sem tirar nem pôr, tudo o que ele diz, de uma ponta à outra. É um dos melhores discursos que lhe tenho ouvido. Se alguma crítica lhe tenho a fazer, é só a necessidade de treinar e controlar aquela linguagem corporal e a velocidade do discurso. É que parece, aqui entre nós, que está sempre aflito para ir à casa de banho. E isso distrai um bocadinho.

A interrogação de Carl Sagan

Pitágoras triunfou. Os números são a realidade. Por isso se começou a falar deste 11 de Setembro com semanas de antecedência. Por isso se sente a pressão para dizer (ainda mais) qualquer coisa neste ano. Porque é o décimo. Como se isso o fizesse qualitativamente diferente do nono e do décimo primeiro. Como se só pudéssemos voltar ao assunto, ou ser tão profundos, exaltados e definitivos, no vigésimo aniversário. Eis a decisiva importância sentimental do zero, um nada que é tudo.

O que mais me surpreendeu nesse dia foram as piadas que apareceram horas depois. Horas depois. De pessoas com quem me dava com menor ou maior proximidade. Só porque o alvo tinha sido a América, as vítimas os americanos. Significava que havia uma outra forma de terror muito mais insidiosa, a ausência de empatia naqueles com quem partilhamos o espaço e o tempo.

O que o 11 de Setembro representa transcende a alegada questão política. A sua mensagem é verdadeiramente apocalíptica. Diz-nos que haverá sempre alguém que fará tudo o que puder, recorrendo a complexas capacidades cognitivas e força de vontade, para destruir a Humanidade. Caso tenha os meios para isso, ser-lhe-á igual destruir um autocarro, comboios, arranha-céus ou a Terra inteira. Aliás, para este tipo de martírio psicótico, quão maior a destruição, maior a felicidade.

Quando Carl Sagan se questionava a respeito da possibilidade de existir vida inteligente noutros planetas, punha como hipótese que as civilizações galácticas pudessem autodestruir-se após chegaram a um certo ponto de desenvolvimento tecnológico. Temos essa capacidade por via das armas nucleares e das restantes tecnologias destrutivas que sempre nascem do avanço científico. Dada a pulsão irracional que transportamos, que até leva potenciais vítimas do terror a defender os terroristas, talvez esta experiência da civilização num discreto planeta nas bordas da galáxia seja um mero ensaio que correu mal. Num outro planeta, dos triliões que existem, certamente as coisas correrão melhor. No universo, o que não falta são locais para a Criação ir tentando até acertar. E, dizem ainda outros, o que não falta são universos. Infinitos.

Impressionar no emprego, brilhar nos jantares, seduzir em festas

Medical Schools Spend Small Amount of Time Teaching Content Related to Health of Gay, Lesbian, Bisexual and Transgender Patients, Survey Finds
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Peer Pressure? It’s Hardwired Into Our Brains
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A More Progressive Tax System Makes People Happier, 54-Nation Study Finds
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Investigation Reviews Occurrence Of Unconscious Race And Social Preference In Medical Students
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People Communicate in Bursts: Rhythms of Communication Revealed in Study of 9 Billion Phone Calls
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Never Too Soon: Means to Reduce Violence May Start in Utero
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Birth Control Pills Affect Memory, Researchers Find
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Aerobic Exercise May Reduce the Risk of Dementia, Researchers Say
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Sick Body, Vigilant Mind
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Volunteering to Help Others Could Lead to Better Health

Cortes cegos extremamente estudados nos contraceptivos

Surgiu a notícia de que entre os cortes na despesa pública – gorduras do Estado? – estaria o fim das comparticipações nos contraceptivos, concretamente nas pílulas.
Pensando aliviar as milhares e milhares de mulheres que usam a pílula como método contraceptivo, o Ministro especializado em cortes sem referentes, veio a público desmentir a notícia.
O Governo não decidiu nada. Calma. O Governo está a estudar, “no âmbito do corte da despesa”, a possibilidade dessa medida a par do fim de outras comparticipações.
Não sei o que escrever sobre esta direita que nos calhou.
Todos os dias temo por todos nós.
Não sei o que escrever sobre esta direita que revogou o contrato que fez com os seus eleitores em matéria de medidas que tomaria em sede de impostos e de despesa púlica.
Não sei o que escrever sobre esta direita que em mais ou menos 80 dias subiu o IVA para o gás, para a electricidade, muito acima do previsto no acordo da TROIKA, gente que quer fazer história talvez com um défice zero e um consequente país arruinado.
Não sei o que escrever sobre uma direita que, com esse objectivo “Paulo Futre”, não se fica pelo IVA acima da TROIKA e, não falando nas taxas de solidariedade no IRS e IRC, nem na subida da tributação de mais-valias no IRS, como Deus, olhou, mas não gostou e viu que não estava bem.
Era por isso preciso introduzir uma sobretaxa do IRS equivalente a uma parte substancial do subsídio de Natal.
Já nem vale a pena falar no fim dos reembolsos de despesas de saúde e de educação nos dois últimos escalões do IRS.
Não sei o que escrever sobre esta direita porque ela escreve-se a si própria, todos os dias, e não vai acontecer o que era importante, um Governo com linhas para um plano de desenvolvimento económico, e não um monte de técnicos a brincar ao monopólio…com pessoas.
Mas sei o que escrever sobre quem acha que sequer merece um estudo acabar com as comparticipações nos contraceptivos.
A direita que lutou décadas contra a despenalização da IVG, gritando que o caminho era o planeamento familiar, mas fazendo zero pelo mesmo, assistiu nos últimos tempos à construção de uma política de saúde sexual integrada, que passa, entre outras coisas, pela facilidade no acesso a meios contraceptivos.
É preciso desenvolver?
V. Exas. estão a estudar o quê?

Boas expectativas

A eleição de Maria de Belém para Presidente do PS cria uma especial expectativa. Não por ser mulher, circunstância secundária ou lateral, antes por ser uma figura exemplar. Dela podemos esperar, invariavelmente, um zelo imaculado pela ética republicana, um conhecimento profundo e rigoroso dos assuntos acerca dos quais opina e um culto do serviço público como a mais alta realização da cidadania. Por isso tanto me custou ver o seu nome desperdiçado na última contenda presidencial, esmagado logo à partida pela ganância inane de Alegre e pelo oportunismo velhaco de Louçã. Enfim, não faço ideia se aceitaria concorrer à Presidência da República contra Cavaco, mas tenho a certeza de que seria uma candidatura apavorante para a direita pela sua capacidade de congregar o centro, as mulheres e o voto útil da extrema-esquerda; para além de todos os socialistas, unidos sem os anticorpos que o vate gerou na sua megalomania. E Maria de Belém tem outra característica que teria evitado o triste, talvez indigno, espectáculo dado por Alegre no frente-a-frente com Cavaco: ela adora debater, tem gosto em vencer uma discussão à força de argumentos. É enigmático mas incontestável: o PS só tem feito disparates em matéria de candidatos presidenciais desde 2006. Como a consequência foi ter Cavaco a conspurcar a democracia a partir da Casa Civil, se calhar alguém devia pedir desculpas aos portugueses.

A escolha de Carlos Zorrinho para líder parlamentar também desperta especiais expectativas, pois ele aparenta ser a honestidade intelectual em pessoa. Trazendo competências ligadas às vanguardas tecnológicas, o que não tem directa relevância na vida parlamentar, começa por parecer demasiado macio para a linha da frente da bancada. Tal percepção poderá ser errónea, claro, e ele ter outras facetas mais guerreiras ou o lugar vir a moldar o homem. Também é possível admitir que o seu perfil é exactamente o desejado por Seguro, interessado em fazer uma oposição branda para ir aguentando os 4 anos sem belicismos à Sócrates. Uma oposição-empresa, primando pela limpeza e aparato das instalações. O tempo o dirá.

Cineterapia


Pandora_António da Cunha Telles

Ontem o cinecartaz deixou-me com água na boca. Disse-me que às 19.30 teria o mais belo animal do mundo à minha espera na sala Luís de Pina para me derreter no PANDORA. E prometia isto:

Um filme-culto, “reflexo mítico de uma certa Hollywood”, arquétipo dos filmes bizarros que por vezes ali se fizeram, banhado na fantástica fotografia a cores de Jack Cardiff. “Pandora and the Flying Dutchman” constrói uma lenda moderna, apoiando-se em antigos mitos como o do “navio fantasma”, com Ava Gardner transfigurada na mulher que redime o Holandês Voador da maldição que o cerca.

Amaldiçoei pela trilionésima vez estes horários de merda, feitos para reformados e ricalhaços, que obrigam o cinéfilo a meter-se em urgências na hora de ponta e tratei da vidinha. Às 19.23 subia com olímpico passo de corrida a Avenida da Liberdade e entrei na Cinemateca pujante de confiança — Quero um bilhete para o PANDORA. Dito e feito, foi-me dado o bilhete sem qualquer perturbação facial da estimada vendedora. Abanco na sala e um minuto depois sofro o primeiro choque da sessão. Alguém anuncia que tínhamos o privilégio de contar com a presença do realizador, o qual nos ia brindar com umas palavrinhas dentro de momentos. Ora, o realizador do filme para o qual tinha solicitado bilhete chama-se Albert Lewin e tem na sua biografia duas curiosidades que tornavam aquele anúncio num acontecimento sobrenatural: a primeira era a de ter nascido em 1894, e a segunda, intimamente relacionada com a primeira, a de andar a comer alface pela raiz desde 1968. Se, mesmo com estas limitações, tinha conseguido vir a Lisboa falar com a malta, e logo àquela ingrata hora, então os bilhetes da Cinemateca poderiam ser aumentados 1000% que ninguém se revoltaria. A minha ilusão não aguentou mais de um par de segundos porque o bacano desvelou o enigma. Tratava-se do António da Cunha Telles. E eu tinha sido enganado pela estimada vendedora, pelo Luís de Pina e pelos cabrões do Governo que, afinal, eram quem mandava naquilo. Tal foi a minha raiva que posso testemunhar terem sido vocalizadas múltiplas frases pelo senhor realizador, mas não faço ideia do que disse. Se acaso aproveitou para partilhar o seu alívio pela saída de Postiga e Djaló da amada instituição leonina, daqui lhe mando um atrasado aplauso.

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Credibilidades e injustiças

Ontem, ao contrário do que é felizmente habitual, cometi o erro de visitar o site do i. Não sendo um espectador particularmente atento dos nossos media, lembro-me que quando foi lançado era um jornal bonito, agradável e que tentava ser inteligente, o que muitas vezes conseguia. Passando por lá agora, o panorama é devastador. Não faço ideia, nem me interessa em especial, se o objectivo é ultrapassar o Correio da Manhã por baixo, numa espécie de jogada para nulos por falta de trunfos. Mas o nível é dos mais rasteiros que já tive o desprazer de ler. Basta ver esta peça, ou esta. Duas entre muitas (já nem falo disto), onde o insulto, a calúnia e a insinuação são usados de uma maneira que quer passar por natural, como se quisessem impor um novo normal em termos de reportagem. Resumindo, um esterco. Descontando, no entanto, todo o resto das notícias e reportagens que compôem o resto do site, que me parecem normais, até boas. Não volto é lá tão cedo, como é evidente.

Há uma afirmação que vejo esgrimida à laia de argumento quando se chama a atenção para algumas peças de tal maneira más que é impossível disfarçar que são encomendas de alguém, ou fruto de ódios particulares. Dizem-nos: “sim, até podes ter razão em algumas, mas 95% dos jornalistas são pessoas sérias e isentas que não se prestam a tais serviços”. Não tenho informações – já que não conheço nem o meio nem nenhum jornalista – para desmentir esse argumento, pelo que o aceito como verdadeiro e justo. E irrelevante. Uma edição de  jornal não é composta de 95% de jornalistas, é composta por 100. E os 5, mesmo em minoria clara, estragam o trabalho e a reputação dos outros, porque estes não têm associados às peças um indicador de credibilidade, e eu tenho mais do que fazer do que decorar-lhes os nomes e seguir-lhes as carreiras, para poder afirmar, como se vê tanto por aí, “ah, mas isso é uma peça do X, que odeia Y”, como se fosse justificação. Por isso, se vejo uma notícia falsa, enviesada, caluniadora, encomendada, lamento mas como leitor tenho que partir do pressuposto que todas as outras também o podem ser. E que o editor do jornal se está perfeitamente nas tintas para o que é verdade, ou então até faz parte dos 5. Que neste ponto não são 5. Para efeitos de reputação, no que me diz respeito, são potencialmente 100.

O que não quer dizer, obviamente, que os jornalistas não podem errar, e que uma redacção tem de ser constituída por anjos. Todos erramos, como é óbvio, e felizmente ninguém é perfeito. Mas acontece que um jornal, a meu ver, vive antes de tudo da credibilidade. Essa é a sua alma, a sua razão de existir – o facto de o que lá vem contado corresponder à verdade,  de não andarem propositadamente a enganar os leitores ou a induzi-los em erro, de não haver agendas ocultas. Podem contar-me mil histórias e relatos fantásticos, bem escritos, detalhados. Se quem me conta não tiver credibilidade, essa técnica e talento não passam de acessórios inúteis a adornar trabalhos de fantasia com propósitos dúbios. A credibilidade de um órgão de informação – e por inerência a credibilidade de todos os que lá trabalham – é o seu esqueleto, aquilo que suporta toda a estrutura. Enfraquece-se, nem que seja numa pequena parte, e tudo o resto é posto em causa, por melhor que seja.

Por isso, quando se tenta justificar que nada disto é muito relevante ou deva pôr em causa a reputação dos media, porque a vasta maioria são bons profissionais, faço a seguinte pergunta: ficavam num hotel onde o gerente vos garantisse que a vasta maioria dos quartos não tinham baratas? Ou chamavam ao sítio uma pocilga e nunca mais lá punham os pés? A meu ver, seja em tablóides ou em jornais ditos de referência – e sobretudo nestes – existe uma cultura de tolerância, e ás vezes encorajamento, para com percevejos que destroem toda a imagem do edifício que é um órgão de informação e de todos os que lá trabalham. É claro que nos hotéis de referência há sempre a hipótese, mesmo remota, de aparecer uma barata no quarto, tal como num jornal de referência. Como já escrevi acima, nada é perfeito, e aconteceu há uns anos no NYT, por exemplo. A diferença está em que no Hilton o gerente, pálido e a tremer, pediria mil vezes desculpas, trataria do assunto imediatamente, e garantiria-me que tudo seria feito para nunca mais sucedesse. Nos nossos jornais, sinceramente, tenho grandes dúvidas que sequer admitam a existência do insecto, e mesmo que sim a suposta reputação não poderia ser posta em causa com uma admissão dessas. Não há baratas neste nosso hotel, nunca, essa acusação é um insulto que nem merece resposta. O que me leva, como pessoa decente e senhor da minha carteira, a evitar tais pocilgas. As tais que, apesar de tudo, têm provavelmente a grande maioria dos quartos perfeitamente limpos.

Que diz a isto João Aibéu?

A propósito de assassinatos de carácter (houve muitos, visando quase sempre socialistas, nos últimos 15 anos), veja-se a reportagem sobre o caso Casa Pia no DN papel de hoje, escondida lá a páginas tantas, sem chamada na primeira. O DN oline omite a história, não sei se por alguma razão secreta.

Na reportagem, três casapianos envolvidos na acusação confessam as suas mentiras, nomeadamente a respeito de Pedroso, Ferro Rodrigues e Gama. Declaram que não foram só eles a mentir, pois muitas das testemunhas de acusação terão feito o mesmo no processo e no julgamento, enquanto iam confessando isso mesmo privadamente uns aos outros. As pressões que exerceram sobre eles são denunciadas. Um afirma ter sido chantageado por um procurador de nome João Aibéu: “Ou dizes o que eu quero ou vais já preso”. Outro conta que “atiraram para o ar” os nomes que a PJ queria ouvir e a polícia depois pegou nos que quis, fazendo fugas controladas para a comunicação social. A polícia e os magistrados é que decidiram o que eles deveriam confessar. Outro casapiano confessa que foram aliciados pela perspectiva dos 50 mil euros de indemnização, à custa da destruição da reputação de figuras públicas, mas que agora está arrependido. Curiosamente, um declara que, dos sete condenados só o Silvino é realmente culpado, mas acrescenta que o ministério público decidiu não acusar um educador da Casa Pia que terá realmente estado envolvido no esquema pedófilo. Acrescenta o mesmo entrevistado casapiano que pode ser preso pelo que agora confessa, mas que não se importa.

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Vinte Linhas 661

Saudades da Estremadura 45 anos depois

Há 45 anos cheguei a Lisboa com o olhar cheio de sonhos mas também de dúvidas e de angústias. Comecei a trabalhar em 9-9-66 e quase não reparei que Lisboa era a capital da Estremadura. Tinha vivido em Santa Catarina, Montijo e Vila Franca de Xira, tinha o diploma do Curso Comercial, estava habilitado a trabalhar segundo os padrões da época mas não tinha tido tempo para aprender a amar a Estremadura.

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Tolerância zero aos zerinhos intolerantes

Na sua abstracção, o ideal das democracias modernas possibilita a livre escolha dos governantes. Porém, como logo os gregos do século VI a.C. descobriram e denunciaram, essa liberdade começa a ficar limitada se as difamações e calúnias influenciarem a avaliação dos candidatos ao exercício do poder. Dizer de alguém que não é de confiança, ou que terá cometido ilegalidades, cria uma automática suspeita naqueles a quem chegar esse ataque, incluindo nos apoiantes do alvo. E, mesmo se inocente, os danos na sua credibilidade poderão ser irreversíveis e impedirem a sua eleição.

A eficácia dos assassinatos de carácter nasce de uma absoluta necessidade antropológica: segurança. Precisamos de conhecer os nossos aliados e os nossos inimigos. Em especial, precisamos de descobrir os traidores, muito piores do que os inimigos. Saber se alguém nos está a enganar, ou já enganou terceiros, torna-se no principal critério de legitimação política numa democracia. Antes das restantes considerações programáticas no processo de escolher o destino do nosso voto, queremos depositar o poder em mãos impolutas ou delas o retirar se o deixarem de ser. Ainda no plano antropológico, os ataques ao carácter podem tão-só expressar o medo perante aquele que não partilha da nossa identidade grupal. Desconfiamos do estranho por instinto, efabulamos esse medo para nos protegermos da potencial ameaça. Se o pudermos destruir, retirando-lhe o acesso ao nosso grupo ou a capacidade de atracção, teremos afastado o perigo.

Saltando para o plano psicológico, os ataques ao carácter aparecem por acção consciente. Podem ser originados por deficiente ou errada informação, criando uma ilusão. E podem ser uma opção lógica inscrita numa dada estratégia. Se a estratégia for a de fazer Justiça, como num tribunal onde vigore o Estado de direito, o ataque ao carácter corresponde ipsis verbis à sentença que determina uma culpa. Fora destas mediações onde se garante juridicamente a integridade do bom-nome do réu ou arguido até à conclusão do processo, os ataques de carácter são sempre manobras perversas que intentam um ganho através do dano causado. Implicam, pois, uma qualquer relação conflitual. Ocorrem na política, mas também ocorrem nos negócios, nas relações amorosas e de vizinhança. E não exigem qualquer tipo de especial capacidade intelectual ou cognitiva, bem pelo contrário. Qualquer imbecil é capaz de imitar um ranhoso e vice-versa.

Nas duas legislaturas passadas, e excluindo o racismo ideológico da extrema-esquerda que calunia sistematicamente tudo o que lhe cheire a democracia, o grande símbolo desta decadência moral e disfunção política foi o Pacheco Pereira. A criatura repetiu com afã maníaco, durante 3 ou 4 anos, as piores insinuações que lhe passaram pelo bestunto a respeito do Governo, apostando tudo numa criminalização de Sócrates e seus próximos. Quando regressou da saleta na Assembleia da República, onde passou horas a devassar a privacidade de um concidadão escutado ilicitamente, disse que tinha encontrado elementos avassaladores. E que fez a seguir? Que fez até hoje a respeito do avassalamento que interceptou como deputado-espião? A ponta de um caralho.

Este comportamento bicéfalo, onde se emporcalha o adversário e se perverte o Estado de direito, merece tolerância zero por parte de todos aqueles que quiserem viver em democracia.

Para onde vai o PS?

Seguro vai ter que fazer referências ao seu antecessor, destacando as circunstâncias da crise financeira que assolou o país a partir de 2008. Se ignorar Sócrates, se atacar a sua governação ou se se esquecer de mencionar a crise, dividirá o congresso, desencadeará muita contestação entre os militantes e eleitores socialistas, confirmando os piores receios sobre a sua colagem à esquerda irresponsável, e provocará uma rejeição no eleitorado de centro-esquerda muito idêntica à rejeição provocada por Alegre.

A reflexão de fundo que o congresso do PS terá de fazer não é sobre a anterior liderança do partido, mas sobre o presente e o futuro de Portugal. Se criticar a performance do anterior governo, Seguro só se vai enterrar, porque terá de pedir emprestados argumentos ou à extrema-esquerda, ou à direita, ou a ambas ao mesmo tempo. Seguro nunca mostrou interessar-se pelo problema da dívida pública ou pela dívida externa do país e, no lugar de Sócrates, teria feito muito pior.

O que interessa debater no congresso são outras coisas. Como vai o partido responder à guerra contra o Estado social desencadeada pelo governo de direita? Como vai o PS reagir ao anúncio da privatização da RTP, das Águas de Portugal, dos CTT, da CGD, etc? Como vai a oposição socialista combater a estratégia deste governo de se aproveitar da crise para levar por diante uma ofensiva política direitista? Como vai o PS lutar contra o clientelismo e a corrupção maciça que se avizinha e as obrigatórias malfeitorias dos banqueiros laranjas, autênticas sanguessugas do povo português? Em particular, vai o PS esquecer e arquivar o caso BPN, a maior burla financeira e o maior roubo da história de Portugal? Vai o PS permitir a entrega das Águas de Portugal aos amigos de Passos Coelho e Ângelo Correia? Vai o PS permitir a entrega da CGD, o maior banco português e o mais idóneo, a um cambão de malfeitores reciclados da banca privada falida? Vai o PS permitir a liquidação da RTP, a voz mais isenta da TV e da rádio?

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Oferta do nosso amigo Apoiante de Sócrates

Vinte Linhas 660

O Portugal-França, o Futebol juvenil e a fábrica dos sonhos

O Portugal-França em «Sub-21» terminou há minutos. No particular o que conta para as estatísticas é o resultado (1-) e o marcador do golo Wilson Eduardo. Mas um jogo de futebol é sempre algo mais do que a sua ficha técnica. A mim deu-me para ir escrevendo nas margens de um jornal diário a lista de jogadores do Sporting Clube de Portugal que ou estão ou já estiveram na Academia de Barroca de Alva. (Os jovens da foto são apenas um exemplo)

Continuar a lerVinte Linhas 660

Política de Verdade, agora a sério

“Cortes racionais, estruturais e sustentáveis na despesa exigem tempo para desenhar as soluções e tempo para as executar”, diz Vítor Gaspar, acrescentando que “em termos imediatos, a operacionalização e execução de cortes racionais na despesa não é possível”.

Fonte

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Estas declarações, cruzadas com os resultados da execução orçamental dos primeiros 6 meses de 2011, são o mais rasgado elogio que já foi feito às decisões do Governo ao longo de 2010 e ao seu Orçamento para 2011. De facto, a colossal desonestidade intelectual de exigir ao Governo cortes na despesa celerados, com resultados imediatos e no incontrolado ritmo a que a crise da Zona Euro se ia desenrolando adentro do maior desnorte europeu que é possível conceber, ou o fel venenoso de reclamar cortes retroactivos que nem sequer a outra senhora fez entre 2002 e 2004, ficam como a marca d´água da natureza da nossa direita partidária: cambada de crápulas.

Linguee

Sobre o Linguee

O Linguee.pt é um dicionário em linha e um buscador de traduções. Em comparação a outros dicionários online existentes, o Linguee oferece a pesquisa aproximadamente a mil vezes mais material bilíngue traduzido. Ele foi fundado em dezembro de 2008 após mais de um ano de desenvolvimento por Gereon Frahling e Leonard Fink. Em Maio de 2010, a versão final foi lançada online e, em agosto do mesmo ano, foram incluídas as versões em português-inglês, espanhol-inglês e francês-inglês, todas mantendo o mesmo caráter único e a alta qualidade da versão alemã. O Linguee está entre os 100 websites mais visitados da Alemanha e é um dos dicionários online mais utilizados do mundo.

Fonte

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A equipa que produz e comercializa o Linguee sabe comunicar com blogues, daí este destaque a pedido.

Fim-de-semana em cheio

Está quase a começar, finalmente, o XVIII Congresso do PS. Espera-se que seja o acontecimento que revele ao País, finalmente, quem é esse líder da oposição chamado António José Seguro – neste momento, apenas sabemos quem foi o mais calculista e eficiente opositor interno a Sócrates. Ficaremos ainda a conhecer, finalmente, a sua equipa, o calibre e tipologia dos seus principais conselheiros e camaradas de armas.

E Sócrates será uma incontornável presença neste congresso, sem carecer de lá estar em corpo. O modo como Seguro lidar com ele revelará muito do que será o seu futuro à frente do PS, quiçá do Governo. Acresce que só tem três atitudes à disposição:

Apologia de Sócrates
Seguro, ao arrepio das críticas que tinha assumido no passado, faria o elogio de Sócrates no discurso inaugural, apenas destacando o seu legado reformista e a resistência às dificuldades que enfrentou, metendo-o de vez com uma ovação fúnebre num saco de plástico a ser despejado no oceano ainda antes do congresso acabar.

Ostracismo
Seguro não faria qualquer referência especial a Sócrates, a não ser umas poucas palavras de circunstância na abertura do congresso. No discurso final, nenhuma.

Cicuta
Seguro seria coerente com as suas posições críticas e promessas eleitorais, indo para o congresso com uma verdadeira reflexão acerca do ciclo Sócrates e apelando a que os congressistas fizessem um balanço implacável dos erros cometidos nos últimos anos. Tanto o seu discurso de abertura como o de fecho fariam de Sócrates, e dos seus principais apoiantes, um contraponto ao novo ciclo que Seguro se propõe abrir na política nacional, precisamente começando pela libertação do PS da famigerada asfixia socrática.

Destes três cenários, o pior é o primeiro. Ele exporia um cinismo em último grau, fazendo de Seguro um pseudo-líder em quem não se podia, nem devia, confiar nunca mais. E o melhor que poderia acontecer ao PS, e à política nacional, está no último cenário. Seria a redenção de Seguro e o nascimento de um verdadeiro líder. Seria também neste cenário que a sua oposição interna teria as melhores condições para ir amadurecendo como alternativa e reserva intelectual.

Como Louçã também tem estado à espera de ver como param as modas no PS para descobrir o que fazer à sua vida, este vai ser um fim-de-semana cheio de ensinamentos.