Cineterapia


Pandora_António da Cunha Telles

Ontem o cinecartaz deixou-me com água na boca. Disse-me que às 19.30 teria o mais belo animal do mundo à minha espera na sala Luís de Pina para me derreter no PANDORA. E prometia isto:

Um filme-culto, “reflexo mítico de uma certa Hollywood”, arquétipo dos filmes bizarros que por vezes ali se fizeram, banhado na fantástica fotografia a cores de Jack Cardiff. “Pandora and the Flying Dutchman” constrói uma lenda moderna, apoiando-se em antigos mitos como o do “navio fantasma”, com Ava Gardner transfigurada na mulher que redime o Holandês Voador da maldição que o cerca.

Amaldiçoei pela trilionésima vez estes horários de merda, feitos para reformados e ricalhaços, que obrigam o cinéfilo a meter-se em urgências na hora de ponta e tratei da vidinha. Às 19.23 subia com olímpico passo de corrida a Avenida da Liberdade e entrei na Cinemateca pujante de confiança — Quero um bilhete para o PANDORA. Dito e feito, foi-me dado o bilhete sem qualquer perturbação facial da estimada vendedora. Abanco na sala e um minuto depois sofro o primeiro choque da sessão. Alguém anuncia que tínhamos o privilégio de contar com a presença do realizador, o qual nos ia brindar com umas palavrinhas dentro de momentos. Ora, o realizador do filme para o qual tinha solicitado bilhete chama-se Albert Lewin e tem na sua biografia duas curiosidades que tornavam aquele anúncio num acontecimento sobrenatural: a primeira era a de ter nascido em 1894, e a segunda, intimamente relacionada com a primeira, a de andar a comer alface pela raiz desde 1968. Se, mesmo com estas limitações, tinha conseguido vir a Lisboa falar com a malta, e logo àquela ingrata hora, então os bilhetes da Cinemateca poderiam ser aumentados 1000% que ninguém se revoltaria. A minha ilusão não aguentou mais de um par de segundos porque o bacano desvelou o enigma. Tratava-se do António da Cunha Telles. E eu tinha sido enganado pela estimada vendedora, pelo Luís de Pina e pelos cabrões do Governo que, afinal, eram quem mandava naquilo. Tal foi a minha raiva que posso testemunhar terem sido vocalizadas múltiplas frases pelo senhor realizador, mas não faço ideia do que disse. Se acaso aproveitou para partilhar o seu alívio pela saída de Postiga e Djaló da amada instituição leonina, daqui lhe mando um atrasado aplauso.

Começa o filme. Um filme chamado PANDORA, entre outros nomes, um deles em francês. Isso ilibava a estimada vendedora, mas não os cabrões do Governo. Entretanto, alguém acende um isqueiro na fila de baixo. Para quê? O facto de o isqueiro ter sido acendido ao longo do filme a intervalos de 20 minutos deu-me a resposta: para nada. Era apenas a pancada de um maluquinho qualquer. Na minha fila, vazia quando me sentei na ponta, um imparável processo gravitacional estava em marcha. Das cinco pessoas que entraram depois do filme começar, algumas já a fita ia para lá de meio, e a última com uma enorme mochila às costas, todas, todas, todinhas, escolheram a minha fila para se sentar, obrigando a levantar-me de cada vez. Obviamente, estavam combinadas entre si e tem pinta de ter sido manobra do gabinete do Relvas. Numa outra zona do entretanto, o filme avançava. Avançava não em direcção ao abismo, antes como se tivesse há muito caído nesse abismo e, por ser abismo do tipo sem fundo, ia apodrecendo durante a queda. Esta presciência ficou estabelecida assim que Philippe Léotard entrou em cena, o tal actor para quem a palavra canastrão foi inventada. Na verdade, a história é muito mais sórdida, porque este franciú estava num processo suicidário, ou libertário, através do álcool e das drogas, vindo a morrer poucos anos depois. A película regista o seu estado de completa embriaguez e deboche, a um ponto que nos obriga a questionar a responsabilidade ética do realizador e restante equipa. Quanto mais não seja, por meras razões estéticas, ele não devia ter sido filmado. Já o mesmo não posso dizer dos gulosos mamilos da Fanny Cottençon, para os quais o bom do Cunha Telles inventa a suspeita de uns caroços só para deixar a câmara lambuzar-se na apalpação frente ao espelho e no exame mamário com plano frontal detalhando a aplicação do gel e passagem do instrumento da ecografia. Friso que, para a economia narrativa da obra, este episódio não tem qualquer relevância outra que não o exibicionismo glandular. Está pois de parabéns o senhor realizador. Realizador esse que tinha ido sentar-se na fila acima da minha. Tal proximidade física veio a revelar-se fonte de tensão. É que à medida que ia recolhendo abundante material que me confirmava estar a passar pela mais penosa experiência cinematográfica de que tinha memória, tendo noção plena de tal infortúnio ainda bem antes do final das quase duas horas da empreitada, crescia em mim o funesto desejo de me virar para trás, agarrar nas golas do casaco ao septuagenário e sacudi-lo violentamente em desforço, perguntando-lhe: “Porquê?!”, “Porque é que fizeste esta bosta?!”, “Quanto dinheiro espatifaste numa tortura narcísica e tonta que não tem ponta por onde se pegue?!”. Infelizmente, não cedi à tentação e sei que me irei arrepender para sempre. Do que não me irei arrepender foi de ter abalado da sala logo que o filme conseguiu acabar, um processo desesperante pelos sucessivos finais que invadiam o ecrã à doida – lista onde se encontram despedidas, viagem de barco, suicídio, salvamento de suicida, cenas de hospital, despedidas, bebedeiras nos Açores, fufaria, morte, gravidez surpresa, orfandade de pai e despedidas – metidos a martelo, absurdos e abstrusos, tendo sido eu o primeiro a sair. Foi o meu prémio de consolação. Ainda tive o discernimento de agarrar, en passant, na recensão oferecida pela Cinemateca e ala que se faz tarde. Hoje, procurando imagens do filme, fossem quais fossem, descobri que não há uma única para a amostra em toda a Internet; e se a Internet é grande, senhores ouvintes. Nem sequer se apanham fotos dos gulosos mamilos da Fanny tão dedicada e longamente fotografados em 35 mm, o que rotulo de avassalador e a merecer a atenção do Ministério Púbico. Será que um filme do qual não se encontra um fotograma na Internet existe? Esta dúvida atingia-me com pungente inquietação. A resposta teria de estar na folha distribuída pela Cinemateca, eles não seriam capazes de enganar o seu povo. Fui a correr ler o que lá se imprimiu, e deparei com isto:

Por motivos de força maior não nos foi possível escrever a habitual folha para o acompanhamento desta sessão. Optámos por transcrever um excerto do texto do realizador editado no catálogo do 27º Festival de Cinema da Figueira da Foz (1998). Pelo facto as nossas desculpas.

Seguiam-se as tais palavras:

Nasceste nas tardes de Setembro
Quando a luz é perfeita e mais doirada
Eugénio de Andrade

Uma ternura confusa, como um vidro
Embaciado, azulada
Álvaro de Campos

(…) Não, não é um filme crepuscular. Nem uma banal história de amor triangulada. É a história de uma paixão: a paixão da descoberta da circulação dos sentimentos no interior da solidão urbana. Neste filme falamos de Lisboa, do seu espaço insólito e terno, de personagens à deriva, da tessitura precária dos afectos, da dor, do tempo, da morte, da memória. Mas falamos também da alegria incontaminada dos corpos que se encontram sem culpa nem pecado, na inocência, no esquecimento.

António da Cunha Telles

Bom, era claríssimo. Para a Cinemateca, e apesar de terem a bobina e cobrarem pela sua projecção, a existência do filme era uma questão em aberto. Por essa razão não tinham escrito nada a respeito, chutando a responsabilidade para o realizador. Quem se arrisca a escrever sobre algo que não existe? Se o Cunha Telles estava muito seguro da existência da peça, ele que desse o nome e o texto para a apresentar. E aqui colhe recordar que um dos títulos do filme é Setembro ou uma ternura confusa. Quando o próprio autor não se decide entre Setembro e uma ternura confusa, algo que uma criança de colo já é perfeitamente capaz de fazer, o mais certo é ainda não termos filme.

20 thoughts on “Cineterapia”

  1. ai , que erudito. e chato. só te salvas por gostares do vicent gallo. será qiue gostas do hal hartley ? espero que não, pq eu gosto muito.
    bom , o que eu te queria dizer era que fosses ver o filme de animação “capuchinho vermelho , a nova aventura”… e não estoui a gozar. o Bruno Bettelheim escrevia um livro , eui faço-te um resumo : mete uns porcos alemães , uma europa lixada por ser sempre a segunda que se alia a eles , uma avó américa ainda disposta a dar-nos a mão , uma aranha que eu acho que é a rússia… e uma solução : sobreprodução alemã , nem se mexem de gordos. tens de ir ver. espero que tenhas sobrinhos pequeninos.

  2. tenho de largar o vinho. .mas não resisto a dizer-te que o jean pierre braqui é o meu ai jesus , a seguir ao o toole e ao peck. imagina , careca e narigudo. adoro o homem , e todos os filmes que ele fez. é tão , sei lá , pouco plástico ? que é que se há-de fazer. é comovente , o tipo.
    E o filme da minha vida ? os idiotas , do lars. ainda hoje me lembro de tudo. sobretudo do que senti : que raio de cena é esta? porra , filme mais esquisito. uma pérola. ainda bem que não sou porca.
    e apaga este post , ainda me dei ao trabalho de ler qualquer coisa , mas sabes ? o surrealismo chateado não é a tua onda. não se percebe grande coisa. e se te queres aborrecer ainda mais que isso vai ver um filme do manel de oliveira: acho que sai do primeiro e último assim , igualzinha a isto que apresentas.

  3. Ler-te nesta descrição fez-me muito bem ao fígado!!!

    Que desventura tão cómica!!!

    Fizeste-me gargalhar d’alma e barriga :):):)

  4. Na realidade foste enganado pelos tipos do cinecartaz que deviam ter lido

    http://www.cinemateca.pt/getattachment/b9bfaa59-ca8e-4782-a87a-335682bf8697/desdset2011.aspx

    em vez de procurarem acertar com os filmes nos títulos que se lhes oferecem.

    De qualquer forma, o pretexto para terem passado o filme não é o realizador, nem a peça em si (nela), mas a morte de Pedro Hestnes, actor no filme, falecido recentemente e a quem a Cinemateca está a dedicar uma quase integral – o último em que entrou em pós-produção e um outro de edgar pêra que o está a remontar.

    Quanto ao resto, sabe que isso de mostrar mamilos, tirando nos pornográficos, nunca vi que fosse relevante para a história. De qualquer forma tem sempre qualquer utilidade e se tiveres boa memória fotográfica podes sempre dar-lhe uso.

  5. nm, não posso discordar mais. Há filmes cuja única finalidade, e absolutamente legítima, esteve na amostragem dos mamilos femininos, fossem desnudados ou cobertos. Tens de te dedicar com mais afinco à cinematografia dos anos 30, 50 e 60.

  6. Quanto à tua hora de saída do trabalho sabe que isso de sair às 19h decorre da hora de entrada e da necessidade de cumprir oito horas. Se fazes mesmo questão de cumprir o horário, tivesses chegado mais cedo nesse dia, e lembravas-te de que as necessidades de ter as salas livres para as sessões das 21h30 também colidem com a hora de ir para a cama para te levantares no dia seguinte a tempo de ires para o trabalho mais cedo and so on, and so on.

    A malta já dorme pouco e porcamente, se os cinemas acabam com as sessões da tarde então é que os empregadores ficavam felizes por te poder ter até às 20h ou 21h30 assim sempre podes reclamar.

  7. Sinhã e Val, não me entendam mal. Eu gosto de os ver, mas nunca é relevante mostrá-los. Com cancro da mama ou sem cancro, Telles usa-os pelo mesmo motivo que nos pornográficos, tal como se fazia o mesmo nos tais anos 30, 50 e 60.

    É para a malta ver e imaginar. Isso de que é por causa da história é apenas para as actrizes se auto-justificarem. Prefiro a resposta honesta de Jennifer Anniston quando lhe perguntaram pq se despia num filme: “Pq me pagaram”

  8. Não é inacreditável que, mesmo depois do 11 de setembro, continuemos a ir ao cinema e a curtir a vida como se nada fosse? Eu não acho nada disso inacreditável, mas a julgar pelo sentimento de histrionismo alterpatriótico propagado estes dias na televisão portuguesa e no discurso de portugueses medíocres, não deixa de ser surpreendente. Coitadas das vítimas do 11 de setembro!…

  9. Quando era criança, tive medo do escuro e de almas do outro mundo (devo isso à minha privilegiada educação católica), e a certo momento, um tio meu, farto da minha ansiedade, disse-me assim: “os mortos não querem saber de ti para nada, eles estão bem como estão”. É claro que pensei que os mortos eram egoístas, e que não sabiam o que estavam a perder (i.e. a vida). Mas hoje, crescidote, não penso senão em ir ter com eles. As voltas que a vida dá… com ajuda da morte.

  10. Sinhã, eu não diria que as senhoras mostrarem os corpos faça com que elas sejam isso. mas actores e modelos são pagos para mostrar o corpo

  11. mostrar para quem vê imaginar? então estão a prestar um serviço sexual em troca de obtenção de lucro. não é isso uma das definições de prostituição?

    que serviço sexual presta uma mulher que se despe, por exemplo, para a pintura de um quadro? quem olha para uma obra de arte imagina-se em contacto de prazer com o nu do quadro? :-)

  12. Sinhã, tinha-a em mais alta conta. Como depreendeu intenção suicida nas minhas palavras? Isso é ter olhos, e sobretudo mente, estreitos. Se quer arguir pessoas, dedique-se a isso na forma de profissão. Eu não estou aqui para debater, mas sim para me divertir (não é para isso que serve um blogue?). Se gosta de fazer questões, faça-as a si mesma. Se sente que não tem ponto para se auto-questionar, aí sim, eu aconselho-a: suicide-se.

  13. não entendi: como depreendeste que depreendi suicídio se apenas perguntei o que te impede de ires, tal como disseste, ter com os mortos? :-)

    ( e sim, questiono-me imenso. mas não só.) :-)

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