Credibilidades e injustiças

Ontem, ao contrário do que é felizmente habitual, cometi o erro de visitar o site do i. Não sendo um espectador particularmente atento dos nossos media, lembro-me que quando foi lançado era um jornal bonito, agradável e que tentava ser inteligente, o que muitas vezes conseguia. Passando por lá agora, o panorama é devastador. Não faço ideia, nem me interessa em especial, se o objectivo é ultrapassar o Correio da Manhã por baixo, numa espécie de jogada para nulos por falta de trunfos. Mas o nível é dos mais rasteiros que já tive o desprazer de ler. Basta ver esta peça, ou esta. Duas entre muitas (já nem falo disto), onde o insulto, a calúnia e a insinuação são usados de uma maneira que quer passar por natural, como se quisessem impor um novo normal em termos de reportagem. Resumindo, um esterco. Descontando, no entanto, todo o resto das notícias e reportagens que compôem o resto do site, que me parecem normais, até boas. Não volto é lá tão cedo, como é evidente.

Há uma afirmação que vejo esgrimida à laia de argumento quando se chama a atenção para algumas peças de tal maneira más que é impossível disfarçar que são encomendas de alguém, ou fruto de ódios particulares. Dizem-nos: “sim, até podes ter razão em algumas, mas 95% dos jornalistas são pessoas sérias e isentas que não se prestam a tais serviços”. Não tenho informações – já que não conheço nem o meio nem nenhum jornalista – para desmentir esse argumento, pelo que o aceito como verdadeiro e justo. E irrelevante. Uma edição de  jornal não é composta de 95% de jornalistas, é composta por 100. E os 5, mesmo em minoria clara, estragam o trabalho e a reputação dos outros, porque estes não têm associados às peças um indicador de credibilidade, e eu tenho mais do que fazer do que decorar-lhes os nomes e seguir-lhes as carreiras, para poder afirmar, como se vê tanto por aí, “ah, mas isso é uma peça do X, que odeia Y”, como se fosse justificação. Por isso, se vejo uma notícia falsa, enviesada, caluniadora, encomendada, lamento mas como leitor tenho que partir do pressuposto que todas as outras também o podem ser. E que o editor do jornal se está perfeitamente nas tintas para o que é verdade, ou então até faz parte dos 5. Que neste ponto não são 5. Para efeitos de reputação, no que me diz respeito, são potencialmente 100.

O que não quer dizer, obviamente, que os jornalistas não podem errar, e que uma redacção tem de ser constituída por anjos. Todos erramos, como é óbvio, e felizmente ninguém é perfeito. Mas acontece que um jornal, a meu ver, vive antes de tudo da credibilidade. Essa é a sua alma, a sua razão de existir – o facto de o que lá vem contado corresponder à verdade,  de não andarem propositadamente a enganar os leitores ou a induzi-los em erro, de não haver agendas ocultas. Podem contar-me mil histórias e relatos fantásticos, bem escritos, detalhados. Se quem me conta não tiver credibilidade, essa técnica e talento não passam de acessórios inúteis a adornar trabalhos de fantasia com propósitos dúbios. A credibilidade de um órgão de informação – e por inerência a credibilidade de todos os que lá trabalham – é o seu esqueleto, aquilo que suporta toda a estrutura. Enfraquece-se, nem que seja numa pequena parte, e tudo o resto é posto em causa, por melhor que seja.

Por isso, quando se tenta justificar que nada disto é muito relevante ou deva pôr em causa a reputação dos media, porque a vasta maioria são bons profissionais, faço a seguinte pergunta: ficavam num hotel onde o gerente vos garantisse que a vasta maioria dos quartos não tinham baratas? Ou chamavam ao sítio uma pocilga e nunca mais lá punham os pés? A meu ver, seja em tablóides ou em jornais ditos de referência – e sobretudo nestes – existe uma cultura de tolerância, e ás vezes encorajamento, para com percevejos que destroem toda a imagem do edifício que é um órgão de informação e de todos os que lá trabalham. É claro que nos hotéis de referência há sempre a hipótese, mesmo remota, de aparecer uma barata no quarto, tal como num jornal de referência. Como já escrevi acima, nada é perfeito, e aconteceu há uns anos no NYT, por exemplo. A diferença está em que no Hilton o gerente, pálido e a tremer, pediria mil vezes desculpas, trataria do assunto imediatamente, e garantiria-me que tudo seria feito para nunca mais sucedesse. Nos nossos jornais, sinceramente, tenho grandes dúvidas que sequer admitam a existência do insecto, e mesmo que sim a suposta reputação não poderia ser posta em causa com uma admissão dessas. Não há baratas neste nosso hotel, nunca, essa acusação é um insulto que nem merece resposta. O que me leva, como pessoa decente e senhor da minha carteira, a evitar tais pocilgas. As tais que, apesar de tudo, têm provavelmente a grande maioria dos quartos perfeitamente limpos.

25 thoughts on “Credibilidades e injustiças”

  1. É o eterno problema dos literatos moralistas que escrevem posts mas não dizem nada… de factual. Dá-se uns linkitos e as mangalhonas que vão lá à pocilga ver como é, sabendo-se de antemão que algumas nem vão perder tempo com isso, pois é muito mais fácil descarregar yeses e “grande posta Vega” e não digas que não somos tuas amigas. Isto é trinta vezes pior que o pior que o Valupi escreve sobre enxovalhos e ataques, coisas verificadas mas infundadas, ao governo de Sócrates. Em vez duma coisa límpida baseada na desconstrução por partes do chiqueiro da suinada, apresentando alguns exemplos da má fé caluniosa em euros ou benesses borrifadas sobre os boys e companhias, vai-se à citi de niorque e começa-se a falar de baratas. Coisa culta. Parece filosofia ou missa de corpo ausente.

  2. No sistema democrático, tal qual o concebemos, cabe aos jornalistas um papel fundamental de controle do poder político e judicial. Não por acaso a quando de mudanças de regime, sejam revoluções ou golpes de Estado, é certo que o primeiro passo é o controlar os principais orgãos de informação, para assim conseguir difundir a nova mensagem e também impedir que o antigo regime utilize esses meios para resistir. Os jornalistas são, como bem se costuma dizer, o quarto poder. Talvez por terem esta percepção alguns jornalistas (há vontade de não os catalogar como tal, mas são mesmo jornalistas) enviezam na forma como utilizam este poder. Infelizmente e, cada vez mais normal, tomam a forma de efectiva participação no desenvolvimento da própria notícia. Cremos nos jornalistas e sentimos o tapete a fugir quando por fim observamos, de forma descarada por falta de competência na escrita, que jornalista há que entendem o seu papel, não como aquele que observa, investiga, fiscaliza e denuncia, a prática política e judicial, mas como um actor da mesma. sentem-se mais um peão, sentem que podem, através dos seus artigos, influenciar o rumo de determinada questão. Influência que devem e podem ter pelo seu trabalho de investigação, sério e competente, não pela forma como alguns o fazem, onde são por vezes meros escribas de propósitos especificos e concretos, não passam de marionetas e nem isso conseguem ver. Outros há que de marionetas nada têm. Sabem ao que vão e têm um objectivo definido.
    Todo o trabalho é nobre. Ao Jornalismo acresce mais um factor; são quem vela pela saúde da democracia. Sem jornalismo sério e acima de tudo credível não existe uma democracia verdadeira

  3. É pasquim que quer em papel quer na net nunca tive curiosidade em visitar. Portanto, não posso dizer mal nem bem, mas parece que fiz bem em não perder tempo com eles.

  4. No princípio parecia uma alternativa ao estrume. Comprei diáriamente durante meses até que a coisa começou a ter um ar de pouca seriedade. Compreendi então as manobras que haviam por ali. Até hoje nunca mais lhe pus a vista em cima a não ser algum título quando passo nos supermercados do Belmiro para comprar um vinhito.

  5. O jornal i, que ninguém compra, foi um projecto inovador enquanto lá andou o Avilez, que era uma pessoa séria. Com o actual director, Ribeiro Ferreira, nome de um célebre quadro da PIDE de antanho, aquilo vai descer ao nível mais baixo da escumalha jornalística, vai fazer concorrência a O Diabo. Se não fosse a oferta online do jornal, ninguém o lia. Mas só lá vai quem quer.

  6. Porra, Algarvio, precisaste dum princípio de seis meses para notares o cheiro da pocilga? Trata-me desse nariz, pàzito. Imagina a eternidade que vais precisar para acordares do letargo, com pinga ou sem ela.

  7. Quando penso em jornalistas vem-me sempre à cabeça o seguinte verso de “Paranoid Android” (Radiohead): “When I am King, you will be first against the wall”

  8. O Kalimatanos não tem estofo para insultar a filosofia. Sabe lá ele o que isso é.
    A Edie falou curto e grosso. Gostei desse desabafo. Também valia um peido sonoro e fedorento, que é o que os caluniadores merecem. Pena que o cheiro ainda nâo seja transmissivel e nâo seja exalado, espontaneamente, da mentira e da calunia. Entâo se veria quem fedia mais. Para poder dizer como na publicidade: o fedor não engana.

  9. Tens razão Mairinho, eu não sei o que é a filosofia, conta-me lá, jóia, sou todo oubidos. Podes começar pelo Sócrates para atalhares.

  10. eu não estou nem i , mas o senhor vetado do ps para a refer não é um tipo do aparelho do partido , popularmente designados por boys ? e as obras do parque escolar não foram parar às grandes construtoras , particularmente à do coelhone antigo boy ?
    não ?! e os tipos do i atrevem-se assim a publicar mentiras ? ai jesus , como o mundo anda !!

  11. o i foi uma indeia dos lena boys para chantagear o governo do sócrates a dar obra com os resultados que estão à vista, falência do i e dos indeotas, o entretanto são necrófagos que andam ao papel e comissão liquidatária.
    deves tar a confundir o parque escolar com a venda do bpn, que foi por adjudicação directa.

  12. Tiago, precisamente. A minha questão passa não pela existência deste tipo de jornalistas que abusam da sua posição, que existem em todo o mundo, mas pela total impunidade, e até encorajamento, com que por cá operam, dando cabo da reputação de todos os outros.
    ___

    :)), se gostas desse tipo de jornalismo, enfrasca-te à vontade, é um país livre. Só te pergunto: os tipos do aparelho dos partidos têm agora esse título oficial, e devem ser impedidos de trabalhar no estado? Não vi a publicação do decreto em DR. Podemos, pela mesma bitola, passar a designar os militantes comunistas que venham a ser objecto de notícia, por exemplo, como “comunas”? Tipo, “o arqº Fulano, um comuna que trabalha na câmara, disse ao i que…”.
    No segundo caso, não sei como transformas o facto de a maioria das obras do PE não terem sido ganhas por grandes construtoras em “entrega à do coelhone antigo boy”. A não ser que as grandes construtoras estivessem impedidas de concorrer. Mais uma vez, não vi o decreto.

  13. Apenas uma achega à questão do Parque Escolar; acredito que mais por desconhecimento que por mero prazer de malhar nas grandes construtores, na Mota-engil principalmente, cada vez que se aborda o tema da requalificação das escolas públicas, convém lembrar, enfim, esclarecer, que não há em Portugal pequenas ou médias empresas com capacidade para levar a cabo uma construção/remodelação de uma escola tamanho médio. Acresce o facto de a Parque Escolar ter lançado a concurso vários lotes de escolas. Mas este facto não indica que as PMe´s não tenham participado nestas empreitadas. Mesmo não estando dentro do sector, basta pensar para entender que as grandes cosntrutores ganham grandes empreitadas e depois subempreitam 90% dos trabalhos. Por norma da construtora fazem parte dessas empreitadas a direcção e coordenação de obra. O resto é/foi feito, imagine-se, por pequenas e médias empresas, que numa escala de tamanho tambem subempreitam “partes” da empreitada que lhes são adjudicadas. É assim que funciona a economia.
    Mas seja em blogs, seja noutros meios de difusão de opiniões fica sempre bem malhar nos boys e na Mota-Engil

  14. eu não gosto nem deixo de gostar. do i nunca gostei até , comprei um quando saiu , mas aquilo parecia uma revista. e revista é revista , jornal é jornal. aliás , a ideia do público de imitar o i ao domingo este verão lixou-me. espero que acabem com a cena depressa.
    de resto , não achei nada de particularmente escandaloso nos artigos que lincaste.
    E quanto aos boys ? eu espero que acabem depressa com cargos de nomeação política. nunca viste o “yes minister” : tudo funciona na mesma. e acho inacreditável que pertencer á nomenklatura seja passaporte para cargos que não servem para nada mas que são pagos a peso de ouro , como a cena dos governadores civis.

    o tipo de jornalismo que adoro é o Inimigo Público , já agora. Sou fã há anos , desde miúda , de uma cena parecida , melhor , espanhola ” el jueves “. aquela da caricatura de felipe y letizia follando?

  15. Kalimatanos, o que eu te poderia dizer da filosofia não é para entrar pelos teus oubidos. Só poderia sair dos teus miolos. Por isso é que disse que “nem sabes o que isso é”. E se reconheceres esta tua ignorancia estarás a ir no caminho certo.

  16. Ó Leitor, esse Ribeiro Ferreira de que falas é um tal ANTÓNIO RIBEIRO FERREIRA?! Se é, pelo que dele conheço, pergunto-me como é que um jornal com peneiras de isento tem a desvergonha, a soberana lata de convidar um tal sujeito para Director!

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