Vinte Linhas 661

Saudades da Estremadura 45 anos depois

Há 45 anos cheguei a Lisboa com o olhar cheio de sonhos mas também de dúvidas e de angústias. Comecei a trabalhar em 9-9-66 e quase não reparei que Lisboa era a capital da Estremadura. Tinha vivido em Santa Catarina, Montijo e Vila Franca de Xira, tinha o diploma do Curso Comercial, estava habilitado a trabalhar segundo os padrões da época mas não tinha tido tempo para aprender a amar a Estremadura.

Sabia de D. Dinis mais do pinhal do que das trovas, sabia de Afonso Domingues, de Mateus Fernandes e dos Arrudas que arquitectaram sonhos de pedra, sabia dos amores de Pedro e Inês, sabia dos rios Lis e Lena, Alcoa e Baça, sabia as serras – Aire, Candeeiros, Montejunto. Sabia de alguns pintores – Josefa de Óbidos, José Malhoa, Guilherme Fiipe, Abilio Mattos e Silva, sabia das peças e da arte de Bordalo Pinheiro e começava a saber dos autores da região: Rodrigues Lobo, Afonso Lopes Vieira, Frei Agostinho da Cruz, Júlio César Machado, Eça de Queirós, Ruy Belo e Armando Silva Carvalho mas ainda não sabia que Miguel Torga tinha chamado à Estremadura «uma grande oficina de imaginários».

A Estremadura é esse mistério de história e geografia, algures entre o Mondego e o Sado: entre o vento forte do Pinhal do Rei e a espuma fina da Nazaré, entre o som do silêncio de Alcobaça e a força da pedra da Batalha, entre o esplendor da luz em Porto de Mós e a catedral esquecida de Óbidos sem esquecer a grande planície de vinho em flor de Palmela.

Em 1966, nos meus tempos de jovem, os moinhos de vento enchiam de luz os montes e os outeiros da minha terra. Hoje apetece de novo ser D. Quixote para ver neles os gigantes que abrem as portas mágicas aos grande sonhos do Mundo.

14 thoughts on “Vinte Linhas 661”

  1. oh xico! bota aí cópia do diploma do curso comercial, tendo em conta os atropelos à gramática, se calhar nem a quarta classe tens e a carta de condução é falsa.

  2. Caro Adolfo -e havia a Linha do Oeste que vai acabar também porque não dá lucro. Havia a automotora das 17h 20m que chegava às Caldas da Rainha às 19h 20m mesmo a tempo de apanhar a carreira para Santa Catarina. Daí a expressão «serviço combinado com a CP». Ai que saudades dessa linha…

  3. reumático nostálgico da outra senhora pago com reformas não contribuídas, não tarda dás vivas ao botas e dedicas um poema ao silva pais

  4. Ó travesti desaparece daqui, vai-te multiplicar para outro lado, ninguém quer saber de ti para nada. Tu não és nada, és menos que zero, um zero à esquerda!

  5. Que comentários tão estúpidos para um texto tão bonito… Aquilo que Miguel Torga disse, não se escreve: quem diz que ama Coimbra não pode ser sensato. Mas numa coisa até tinha razão: a oficina de imaginários. Desde o “mata-sete” ao Rei Ghob, passando por Diogo Alves e o estripador de Lisboa, imaginários é o que de facto não escasseia na Estremadura. Eu gosto da Estremadura, mas mais da zona de Peniche: aquelas terras não têm nada a ver com nada, e as pessoas, conhecidas por “saloios”, são na sua maioria alcoólicas, ou deprimidas, ou as duas coisas. Mas recebem bem, e cozinham melhor (nas suas casas, porque nos restaurantes é uma pobreza de paladares). A Estremadura – e não o Douro ou a Serra da Estrela – é o território mais trágico de Portugal, como o demonstra a sua paigagem incerta, abandonada, inóspita, triste.

  6. Há um texto muito belo do Cesário Verde, numa carta ao conde Monsaraz, sobre a Estremadura. Não o tenho aqui à mão para citar mas obrigado pelo seu contributo! Estremadura é sinónimo de Portugal – praias de ido, planícies de fruta e vinho, montanhas de vento e pedra. Província-resumo de tudo o que somos…

  7. gosto do texto do JCF e gosto da Estremadura, a região a que pertenço, mesmo que a cidade onde viva esteja a 120 quilómetros da bonita terra onde nasci.

    o Oeste então é das zonas mais bonitas do país. o tríângulo feito entre Peniche, Caldas e Nazaré, tem lugares únicos…

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