Portuguesinhos valentes

Um outro aspecto, prenhe de ensinamentos, do ciclo Sócrates diz respeito à facilidade com que era atacado com a maior violência. Fizeram-se acusações alucinadas, literalmente, tendo sido comparado com Saddam, Drácula e Hitler. Mas para além deste frenesim demencial dos oligarcas, o propósito foi sempre o de insinuar, quando não caluniar e recorrendo a magistrados e jornalistas, que Sócrates era criminoso. Criminoso no presente e criminoso no passado; portanto, criminoso no futuro. Quem estivesse com ele, criminoso seria, por actos ou omissões. Esta foi a estratégia de Belém, cujo nome de código era uma jura de vingança: Política de Verdade.

Mas a violência antipolítica não foi só apanágio das figuras gradas da direita partidária, ou da extrema-esquerda que alinhou com ela, também se estendeu para dentro do próprio PS. Alegre, Carrilho, Neto, Ana Gomes, Narciso Miranda, Seguro e muitos outros, em diferentes momentos e em diferentes modos, deram igualmente expressão a este propósito de sugerir que Sócrates não se limitava a ter um projecto e valores que eles recusavam, havia mais. Havia um mal terrível, uma ameaça fatal. Sócrates era um tirano que tinha conseguido amordaçar o PS, acabando com a liberdade. A única solução era o seu derrube, não valia sequer a pena entrar em diálogo com ele.

Por fim, foi criado um ambiente de histerismo colectivo, de que as manifestações de professores são o mais paradigmático exemplo, em que a celebração do ódio não tinha qualquer reserva ou receio, antes aparecia como catarse politicamente correcta. Direita e esquerda uniam-se contra um inimigo comum, havia festa nas ruas e ânimo nas almas.

A singela conclusão é esta: quando o povo se sabe respeitado pelas instituições e protegido pelas autoridades, sente-se à-vontade para amaldiçoar os governantes num berreiro sem fim; quando o povo se sabe ameaçado pelas instituições e perseguido pelas autoridades, cala-se tremendo de medo.

Com Sócrates, registe-se para a posteridade da nossa cidadania, os portugueses foram uns valentões. Sinal de um certo tempo de plena confiança no Estado de direito.

31 thoughts on “Portuguesinhos valentes”

  1. Subscrevo e aplaudo de pé.
    Foi, verdadeiramente, um desvio colossal na prática da democracia. Ficou a lição, porque estas coisas deixam marcas profundas. Por exemplo, agora vemos os professores comandados por um Mário Nogueira cordeirinho e completamente desacreditado. E eles desenganados. Afinal…

  2. Meu querido Valupi,

    Por uma questão de delicadeza, bom senso e amor à vida sem problemas, o melhor é não intereferir demais com a tua imorredoira paixão. Mas, baseado na minha experiência de teatro e cavalaria rusticana no passado, prevejo diculdades enormes quando alguém que gosta de ti e adora o Sócrates se lançar ao infrutífero trabalho de descobrir nas tabernas de Lisboa um fadista à altura dos compositores russos para musicarem este Romeu e Julieta em bicos de pé.

    E nunca mais digas o que disseste no penúltimo parágrafo do teu post, senão tens a polícia à porta. É que nem sempre o povo treme e cala. Algumas revoluções, revoltas e sublevações, greves, protestos e manifestações do passado situam-se na área do genuíno não medroso. Tens é que saber distinguir entre a coisa espontânea e a que é organizada pelas cliques eliteiras que criaram os estados de Direito fantasma que andam por aí.

  3. sai mais uma dose de socrates !!! puuufff outra vez ? que enjoo. ai ,ai , não procures ajuda , não . e que tal ponderares a ideia de frequentar as reuniões dos SA , Socráticos Anónimos ?

  4. Tal como o Mário, subscrevo e aplaudo de pé o teu post, Valupi.
    A história não deixará de lembrar os feitos do melhor político e PM que Portugal teve desde o 25 de Abril. Este sonso do Seguro não me convence, aliás nunca me convenceu.
    Pena é que a verdadeira oposição se faça apenas nos blogues como este e outros, como o Jumento e o CC.
    Parabéns Valupi…

  5. “A singela conclusão é esta: quando o povo se sabe respeitado pelas instituições e protegido pelas autoridades, sente-se à-vontade para amaldiçoar os governantes num berreiro sem fim; quando o povo se sabe ameaçado pelas instituições e perseguido pelas autoridades, cala-se tremendo de medo.” brilhante

    lembro-me de cavaco silva em que numa altura assinava fichas da pide “está integrado no actual regime político e que não exerce qualquer actividade política.”. Que bom que bão teve problemas a adaptar-se a esta coisa da democracia

  6. A propósito deste post do Valupi e referindo-me em particular à sintese contida na sua última frase não posso deixar aqui uma entre muitas das experiências por mim vivida quando jovem dos 20/23 anos. Passa-se o caso em finais da década de 60.

    Vivia então em Benfica e utilizava com frequência o comboio da linha de Sintra para me dirigir à faculdade. O comboio frequentemente chegava atrasado ao Rossio. Certo dia gerou-se um imenso burburinho quando algumas pessoas se dirigiram ao Chefe da Estação que por ali foi encontrado à mão, pedindo lhes passasse um documento justificativo do atraso para poderem apresentar nos empregos. Resposta do sujeito: Esses documentos só são passados pela Estação e Santa Apolónia!

    Perante o aberrante da situação as pessoas exasperadas pelos constantes atrasos entraram a manifestar-se um tanto agressivamente mas apenas no que ao tom de voz se referia.

    Interveio a polícia que imediatamente deitou a mão a um jovem que mais activamente se manifestava e que se pôs a jeito. Acontece que na minha inocência juvenil (alguns lhe chamarão parvoíce) eu, que me encontrava perto do jovem a que o policia deitara a mão não me contive e aproximei-me de um segundo polícia que entretanto chegara, dizendo-lhe querer ser testemunha do jovem a quem fora dada voz de prisão. Passou-se então o que nunca mais na minha vida esquecerei.

    Estavam dezenas e dezenas de pessoas rodeando-me a mim e ao polícia a quem me dirigira. Este lançou-me as mãos ao pescoço, voltou o casse-tête ao contrário, levantou-o no ar ameaçadoramente e só não o abateu sobre a minha cabeça …. porque terá tido um último lampejo de consciência!

    E agora chego ao ponto a que queria chegar! É que, ao mesmo tempo que vi levantar-se sobre a minha cabeça o chanfalho agressivo do polícia vi fugirem em todas as direcções as muitas e muitas pessoas que estavam à minha volta. Fiquei só à mercê do polícia e… lá fui para a esquadra … “prestar contas à justiça!” Digam lá se os portugueses não são uns valentões…. mas apenas quando podem!!!

  7. Como orgulhoso participante nos desacatos motards da ponte 25 de Abril, no final do primeiro reinado de Cavaco, não sei se concordo muito com o teu penúltimo parágrafo. Creio que quando a situação é como a descreves há menos manifestações e contestação, é certo, mas quando finalmente explodem são bastante mais violentas do que seriam normalmente. E na governação de Sócrates, que me lembre e apesar de atiçados até quase à demência, nunca se verificaram situações semelhantes.

  8. O caso da Grécia é exemplar. Manifestações de revolta extremas na “primeira fase”, a do plano de austeridade (PEC) do Governo; na segunda, com o FMI a dar-lhes forte e feio e sen terem a quem recorrer, atrofia geral da sociedade cívica, uma apatia quase patológica.

    Também é certo que, como diz o Vega, “(…) mas quando finalmente explodem são bastante mais violentas do que seriam normalmente.” A ver vamos, sou mais adepta da contestação lúcida, do que a perda de tino colectiva. Mas que estão a pedi-la, estão.

  9. Vega9000, a História aí está repleta de milhares e milhares de episódios de protestos e revoltas. Longe de mim estar a enunciar uma lei que arruinaria esta fama de cientista social que chega aos quatro cantos do mundo. Do que falo é de um certo ambiente.

    O exemplo que trazes, as convulsões na ponte no tempo do Cavaquismo, são a confirmação disso mesmo que reflecti: teve de existir uma acção com essa espectacularidade para se romper o atrofio que marcava toda a sociedade, exceptuando os profissionais da política e do sindicalismo. E, mesmo assim, nunca se ousaram os ataques de carácter a Cavaco como aqueles que vimos nos últimos 4 anos.

    Com Sócrates, porque a comunicação social estava quase, quase, quase toda em campanha de difamação e calúnia, a expressão do ódio foi levada ao paroxismo. A elite da direita era a primeira a mostrar que valia literalmente tudo, menos apresentar ideias políticas alternativas e que valesse a pena discutir.

  10. Valupi,
    Uma coisa boa que se retirou da sórdida campanha dos media contra Sócrates, foi o termos,agora, conhecimento de experiência feito(de ginjeira) de quem são todos os trafulhas que pululam pelas redacções de tv e jornais e enchem os gabinetes dos ministros, como prémio-pagamento dos fretes lacaios de subservientes da desonestidade e falsidade.

  11. Valupi, está certo, mas isso reflecte se calhar apenas uma questão de fluxo de informação, não de coragem em si, que é o que me parece detectar no teu post. As pessoas têm tendência a seguir os outros, a responder a chamamentos. Se isso não existe agora, nem nos tempos mais próximos, graças ao facto da direita controlar em grande medida esses fluxos de informação, imputar isso a aspectos de coragem ou medo por parte dos cidadãos não me agrada muito. Se calhar a palavra certa é “incentivos”.
    Quanto à estratégia de direita, concordo absolutamente, com a ressalva de que essa campanha foi feita por necessidade, dada a absoluta falta de opções e alternativas melhores. Como o Pacheco bem sabe. E concordo com o adolfo contreiras, estes últimos anos vieram revelar muita coisa, o que não deixa de ter a sua utilidade.

  12. Val,totalmente de acordo e mais não digo.
    Vender a Madeira?Será que vale 40milhões?Para mim nem de borla.

  13. A Madeira deve ser urgentemente entregue a quem a queira por um cêntimo simbólico. Se nem assim houver comprador, abandone-se simplesmente. Faça-se uma declaração nos jornais, à moda antiga: “A República Portuguesa vem por este meio declarar que, a partir de hoje, deixa de ser responsável pelas despesas contraídas pelo sr. Alberto João Jardim”. Mas antes mande-se regressar a tropa com todo o equipamento, não vá o Jardim botar a manápula a qualquer coisa. Os madeirenses que resolvam o embroglio, que já são crescidinhos. Já me delicio a imaginar o vociferador do Funchal a negociar com uma troika do FMI.

  14. Tirando talvez meia dúzia de deputados e dois ou três governantes socialistas, não me lembro de ninguém que, fora da blogosfera, tivesse defendido publicamente José Sócrates e o seu governo. Nas TVs, alguém que o fizesse, não mais era convidado a opinar. Os colunistas dos jornais e semanários eram cuidadosamente escolhidos entre os críticos do governo e os maledicentes profissionais. Gerou-se assim um clima em que era imediatamente olhado de soslaio quem elogiasse publicamente uma medida do governo. “Foste pago para pensares assim?” “Tens algum tacho?” “Que interesses é que te movem?” “Deves ser um agente do governo!” – lia-se em muitos olhares perplexos. Se por acaso alguém estivesse intimamente de acordo com o elogio, calava-se muito caladinho ou exibia um sorriso comprometido. Não fosse alguém perceber…

    Duas eleições, a segunda delas já em plena crise, deram realmente a vitória a Sócrates, mas parece que isso só aconteceu porque o sufrágio era secreto. Os apoiantes do governo, tímidos e temerosos, receavam vir a público defendê-lo e elogiá-lo no meio daquele clima de intimidação maciça criado pela comunicação social lacaia da direita e pelos opinantes de esquerda por ela recrutados.

    Depois actuou contra Sócrates o eterno complexo do contra, patologia endémica em toda a esquerda portuguesa e arredores desde pelo menos a I República, que transforma qualquer governo em bombo da festa obrigatório. Apoiar um governo ou um ministro é coisa sempre muito mal vista pelos tugas de esquerda, que só se imaginam no papel de opositores. Entre os professores de esquerda a doença é particularmente perniciosa e maligna: desde 1974 ainda não disseram bem de um único ministro da Educação.

    Nos blogues e, em particular, na caixa de comentários do Aspirina, era bem flagrante a troça de que era fatalmente alvo alguém (aqui o Valupi, por exemplo) que tivesse o desplante de defender o governo de Sócrates ou, muito simplesmente, de o não atacar. Ainda hoje esses labregos troçam de quem evoque o governo de Sócrates. O ódio que lhe têm é tal que nem o nome suportam ler.

    Essa chicana permanente, permeada de vis insinuações sobre o alegado mercenarismo dos apoiantes do governo ou do anterior PM, não vinha só de direitistas ou de bufos e provocadores da blogosfera, do tipo do Pacheco e tantos outros. Quem se dê ao trabalho de consultar o arquivo dos blogues encontrará milhares de comentários alarves, vindos de quadrantes da esquerda ou da extrema-esquerda, lançando sobre os autores dos posts o terrível anátema de defenderem ou não atacarem Sócrates.

  15. Júlio, duas palavras: na mouche. Vou tomar licença para citar o teu comento a algumas pessoas que, não querendo dar o braço a torcer, vêm agora com o cliché de que é tudo a mesma treta.

    E,os portuguesinhos valentes, têm, por vezes de ser acordados. Como diz o Zeca, “quando dizem que é tudo a mesma treat, o que faz falta…” (é acordar a malta).
    Cá vai com letra e vídeo
    http://letras.terra.com.br/zeca-afonso/749116/

  16. adolfo contreiras, certíssimo.

    __

    Vega9000, não sei o que se irá passar com este Governo acabado de formar, apenas sei o que se passou com os anteriores. Realcei foi o curioso e simétrico facto da dualidade constituída pela exploração do tema da “asfixia democrática” e a diabolização de Sócrates e pelo usufruto de todas as liberdades e garantias, diria que de uma forma exemplar. Pura e simplesmente – e, de facto, por excelentes razões – ninguém tinha medo do Governo socialista e qualquer um se sentia capaz de lançar as atoardas mais escabrosas. Este clima não existia com o Cavaquismo, apesar da acção do “Independente” e da sempre igual retórica do PCP e sindicatos ao tempo.

    Assim, independentemente da coragem que resida em cada português, foi uma cobardia o que se fez a Sócrates. Uma cobardia nascida da segurança, eis o ponto.

  17. Pois a mim cheira-me que, apesar de toda a imprevisibilidade de reacção do português, depois de aturarem merdas do piorio, quando vier uma ridicularia de medida, uma pequena gota de água sem importância, podem fazer um “buzinão” daqueles que derrubam governos com maioria absoluta. Posso estar a confundir desejo com realidade, mas não me parece que este chegue ao fim.

  18. Acredito que uma grande parte dos portugueses tenha emprenhado pelos ouvidos e agora, que se viram enrabados a sangue frio, tenham vergonha de admitir que foram enganados, para mim, além do silencio cúmplice, existe apenas silêncio envergonhado. Uma coisa é certa juntando alguns dos membros do governo sem o mínimo de vergonha na cara com estes prostitutos otorrinolaringológicos envergonhados temos no País um potencial orgiástico silencioso brutal, resta saber até quando…

  19. “Os homens devem ser adulados ou destruídos, pois podem vingar-se das ofensas leves, não das graves, de modo que a ofensa que se faz ao homem deve ser de tal ordem que não se tema a vingança” Se valeu pró Sócrates, não haveria agora de valer pró povão, sô?

  20. Acho que Sócrates foi prejudicado, pelo menos na blogosfera, por uma parte do seu apoio andar de cara tapada e, pela outra parte, no palanque jugular trampolim para uma parte da bancada do PS, ter fomentado uma leitura política e social do país a preto e branco, de maneira algo encarniçada.

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