A era dos ciborgues

(Via Sullivan)

Como o intrigante documentário acima procura demonstrar, não deverá demorar muito tempo, talvez pouco mais que uma década, até a tecnologia prostética avançada começar a produzir membros artificiais superiores aos nossos. O estado da tecnologia e investigação, e os resultados, são surpreendentes já hoje. O que dará origem a fascinantes debates éticos sobre se será lícito, por exemplo, pedir a um médico que ampute pernas ou braços saudáveis para os substituir por máquinas mais eficientes, mais fortes ou mais rápidas. Em primeiro lugar, e estou a pôr-me a adivinhar, ao nível dos militares. Um dia, cada vez mais perto, teremos que discutir a outro nível uma velha questão: o que é um ser humano?

Mas essa questão, sem que tenhamos dado por ela, já existe hoje ao nível do cérebro. O que nos separa do mundo imaginado por William Gibson são apenas alguns detalhes. Estamos hoje rodeados de informação. Literalmente rodeados, já que são raros os sítios habitados que não estejam cobertos por redes digitais de telemóvel e de wi-fi, sendo apenas necessário um pequeno aparelho para lhes aceder, e com isso a quase todo o conhecimento humano. Estejas onde estiveres, tens acesso rápido a uma imensidão de dados – conhecimentos, notícias, trivialidades, imagens, mapas, videos, musica. Eu, pelo menos, já a trato como uma extensão natural do meu próprio cérebro. Não me lembro de alguma coisa, quem realizou este filme, quem escreveu aquele livro, e em que data? Click, click, click, está relembrada em segundos. Estou perdido numa estrada secundária no meio da serra? Não, não estou, o telemóvel e o Google sabem exactamente onde estou e como sair dali. O Valupi usa uma palavra que não conheço (o que acontece com frequência) ou uma referência grega (ainda mais frequente)? Click, click, clik, tenho as bases necessárias para pelo menos entender qual o sentido da frase, e ler mais se me interessar. E utilizar os meus recém-adquiridos conhecimentos para tentar comentar alguma coisa, participar numa discussão que me estaria vedada há uns meros anos atrás.  Enquanto o carro está no túnel de lavagem.

Isto faz de mim possivelmente uma fraude, no sentido em que passo por mais culto do que realmente sou sem ajuda externa. Sem a prótese electrónica que o meu cérebro utiliza cada vez com mais frequência, mais naturalmente. Mas entendo a internet como o meu disco rígido pessoal, a minha colecção de neurónios exteriores, sempre presentes desde que haja bateria. O resto, o que entendo por inteligência, é capacidade de processamento de toda essa informação numa linha de pensamento coerente, e mesmo aí temos exemplos quase ilimitados de gente muito acima do nosso nível que todos os dias demonstram online como se faz. Cultos já todos podemos ser sem grande esforço, quase instantaneamente. Sábios é apenas uma questão de aprendizagem. Cada vez mais rápida com ajuda de máquinas, como um bom ciborgue.

16 thoughts on “A era dos ciborgues”

  1. A fronteira entre o homem e máquina estará sempre balizada por três vectores: a capacidade de esquecer, a liberdade de escolha e a mortalidade.

    Nenhuma máquina terá estas características de forma inata. Uma máquina não esquece. Uma máquina não escolhe baseada em emoções (quando muito, poderá escolher pseudo-aleatoriamente de um conjunto de cenários calculados). Uma máquina não é mortal ou, pelo menos, não terá a consciência e o debate interno sobre essa mortalidade.

    Isaac Asimov descreveu a luta de um robot pela sua humanidade no livro “O Homem Positrónico”. Nesse livro, o robot era um caso único, uma impossibilidade técnica. No final do livro, o robot modifica o seu cérebro positrónico de modo a conseguir a capacidade de esquecer e de morrer – ganhando o reconhecimento do tribunal da sua humanidade.

    Outra visão do “ser culto instantaneamente” pode ser encontrada em 3001 – Odisseia Final, de Arthur C. Clarke, com o “braincap”, no que seria uma extensão revista e melhorada dos nossos smartphones.

    De qualquer forma, e mesmo que as máquinas um dia consigam emular a nossa criatividade e intuição, com a “cultura” instantânea que nunca teremos, nunca serão capazes de fazer disparates deliberadamente como nós conseguimos.

    Em suma, temos a liberdade de fazer merda, a capacidade de nos esquecermos da merda que fizemos e nos fizeram porque, afinal, o nosso tempo por cá é demasiado curto para nos pormos com merdas.

    (como aparte, estamos muito, muito longe das máquinas se poderem passar por seres humanos – nenhuma máquina passou no teste de Turing, nem sequer anda lá perto)

  2. este conceito será o de reengenharia do, e pelo, humano. não vejo o ser humano, a humanidade, como uma braçada de informação e conhecimento e inteligência em espiral crescente – isso será, sim, o que nos diferencia dos outros animais mas que sem a responsabilidade acrescida do seu usufruto para um mundo melhor não faz qualquer sentido. estou convencida que os animais, os outros, não desejaram desenvolver o lado lunar e por isso se mantiveram a matar para sobreviver, a foder por instinto. e não é à toa que os bebés choram quando nascem – e quando não o fazem são induzidos ao choro para verificação que estão bem-: eles choram porque vão sair da protecção e da vida de amor que possuem dentro da mãe por saberem que a outra, a mãe terra, lhes dará cada vez mais e melhor informação, conhecimento, recursos, apenas para colocá-los à prova de serem – de merecerem ser humanos; de merecerem sair, tal como chegaram, nus e inocentes e livres. e ser livre é ser do coração: do coração da emoção, do coração da razão, do coração da intuição. ser humano é ser animal-gente, animal que pode dizer e expressar o que sente e pensa para fazer do mundo um sítio, tal como no líquido amniótico, feliz e contente. :-)

  3. Valupi, terias arranjado um título muito melhor. Se calhar em grego ;)
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    Marco, tens razão mas estás a falar de outra coisa, a máquina autónoma e inteligente. Aí concordo que ainda estamos muito distantes. Estou a falar de utilizar máquinas como extensões do corpo humano. Extras, se quiseres, para ficarmos mais rápidos, mas fortes e sobretudo mais inteligentes.
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    Sinhã, belo texto, mas discordo. Acho que não passamos de informação e conhecimento em espiral crescente, e um mundo feliz e contente inclui sempre a insatisfação, pelo que é uma contradição em si mesmo. Somos um bicho irrequieto, e gostamos de ser.
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    :)), dependerá, suponho, do nível da bateria. Mas já hoje é assim, né?

  4. Vega9000, prevês, quase no início, o levantamento da discussão sobre a definição de humanidade – era a isso que estava a responder. Os limites da humanidade são esses. Nunca uma máquina poderá passar para o lado de cá, nunca um ser humano poderá passar para o lado de lá (porque esquece, porque escolhe – sobretudo, porque escolhe mal, em consciência – e porque morre).

    Por mais “apêndices” que venhamos a ter, é essa a inultrapassável linha na areia.

  5. Marco, a questão da humanidade vai pôr-se, nos primeiros tempos, ao nível de considerar um ser humano “melhorado” como “superior” aos outros. É antes de mais uma discussão entre nós, não entre nós e as máquinas.
    Por exemplo, puxando um pouco pela imaginação, será lícito um futuro empregador dar preferência a uma pessoa em detrimento de outra porque tem olhos artificiais, por exemplo, que lhe dão vantagem? Essa pessoa é “superior” às outras? É menos humana? É mais?
    No caso dos militares, será correcto existirem unidades de forças especiais com braços biónicos, sem os quais não te qualificas, apesar de estares no máximo da tua forma meramente humana?
    É mais por aí que vejo a discussão em primeiro lugar.

  6. e eu, Vega, além de discordar das tuas vírgulas, também discordo de ti. ser humano é também – mas não só nem muito menos apenas – isso. será isso que nos diferencia dos outros animais mas não é, de todo, a essência da humanidade. ou, pelo menos, eu não quero que seja e recuso-me a ver isso no espelho porque efectivamente não vejo. o teu avô, que talvez não use o computador, é menos humano do que tu por isso? a mãe do teu avô foi menos humana do que tu por não ter conhecido a máquina de lavar roupa? e o pai dela, foi menos humano do que tu por andar de burro ao invés de andar de carro? assim como não é uma prótese que torna alguém menos humano do que tu. aí está: o que nos define enquanto gente, na sua essência, não é nada disso. é, sim, a insatisfação da positiva – daquela que nos faz querer ver sorrisos nos outros e em nós. e os sorrisos, que também podem ser líquidos, vêm de dentro para fora e não de fora para dentro. vêm do que só se pode sentir que é, bem visto, o que nos faz andar. e é por isso que o mundo está todo fodido: os humanos teimam em ser, cada vez mais, não ser. :-)

  7. Essa discussão já se põe – ou melhor, essa discussão já nem se põe.

    No caso dos militares, não te qualificas se não fores mais forte, mais rápido e mais ágil do que os restantes. É para isso que servem as provas de acesso. Tens umas pernas artificiais (olá, Pistorius) que te fazem mais rápido, e isso serve o interesse* das forças armadas? Passas à frente. Não há aqui dúvida nenhuma.

    No caso dos empregos comuns, ainda mais fácil. Vês muitas gordas nas lojas Zara? Desdentadas às secretárias de consultórios de dentistas? Cabeleireiras de cabelo baço? And so on, and so on…

    No futuro, pessoas tecnologicamente ou geneticamente modificadas não serão “superiores” às outras, na sua cidadania e humanidade. No entanto, tal como já acontece hoje, possuem uma ou mais características que as fazem melhores para determinados objectivos, tendo preferência profissional. Nada de errado aqui. Já dizia a minha avozinha, para cada testo, há uma panela.

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    * Há sempre uma avaliação – assim como, hoje em dia, o ingresso nas FA depende de vários testes, nomeadamente psicotécnicos (de nada serve um tipo que parece um armário, mas que também tenha a inteligência deste), também o interesse das próteses deverá obedecer a vários parâmetros: Pistorius, por exemplo, de pouco serviria, porque o que aquelas próteses lhe dão em velocidade, tiram-lhe em resistência estática.

  8. Sinhã, ora, eu gosto de vírgulas, e o wordpress tem um stock bem recheado delas. Se não as usar, estragam-se.
    Tirando este aparte, o que nos torna humanos e nos distingue dos restantes animais é sobretudo uma consciência a um nível superior. E o polegar oposto, que também dá imenso jeito. E o que é a consciência senão conhecimento e informação transformados em pensamento? Daí que quem possuir estas duas em maior quantidade pode não ser mais humano, ou fazer dos outros menos, mas está certamente em vantagem. O que nos torna humanos se calhar não é a quantidade de informação que possuímos, aí dou-te razão, mas o potencial que temos de absorver e tratar essa informação. E quem a absorve mais que os outros realiza se calhar melhor todo o seu potencial. Eu sei que é frio, e nem sequer trato do amor, mas está bem assim?
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    Marco, aí está precisamente o foco da questão. É que podes ser mais forte, mais rápido e mais ágil do que os outros, mas nesta altura partes pelo menos com as mesmas armas que os outros, e só depende de ti. A questão então é semelhante à manipulação genética, a infame eugénia. Só que feita à posteriori, e envolvendo chips, hidráulica e baterias. Por isso, a minha questão sobre se é licito haver posições exclusivas para “humanos melhorados” mantém-se.

  9. sem qualquer ironia da minha parte, talvez em resposta a uma pontinha da tua, não sei bem, aqui vai:

    se quiseres absorver mais informação sobre vírgulas, que eu também adoro, para melhor (re)tratares dela no teu potencial – envia-me um email. :-)

    de acordo – transformados em pensamento e em acção também. e o resto. e o que potencia isso não é o amor, no seu sentido mais abrangente possível, o bem querer que envolve tantas emoções – senão pelos outros também – em primeira instância por nós próprios?

    e não foi o que eu disse – que é o que e como nos expressamos que nos distingue dos outros animais? somos superiores por sermos humanos? não creio. vou contar-te uma coisa: a minha cadela na primeira vez que lhe desceu o sangue, não soube explicar-me e eu não estava suficientemente atenta para ter percebido o porquê das suas reacções estranhas. queres saber? ela estava envergonhada, a sentir-se suja e com medo de que alguma pinga vermelha viesse a cair no chão e, por isso, agiu completamente diferente do habitual. e eu só descobri pelo constante lamber e pelas lágrimas que verteu quando reparei na almofada toda molhada e na tristeza dos seus olhos. e é só isso: ela não sabe expressar-se com voz oral e escrita o que pensa e o que sente. e não lê coisas. de resto, é igualzinha a mim e eu não sou melhor do que ela em nada só porque inventaram os pensos e os tampões. também outras já usaram toalhas e foram humanas.

    (e, se queres saber, quem me dera poder lamber-me, ter menos umas costelas, para dispensar os pensos e os tampões) :-)

  10. ai , vega , achas mesmo que um dildo substitui um homem inteirinho de pele macia e sangue quente nas veias ? só em dias de emergência ou de aborrecimento. essa fixação fálica ainda vos há-de matar-
    quanto a humano , é qiualquer coisa como um bicho que anda erecto (!!) e tem uns polegares xpto que lhe permite fazer artefactos como os ciborgues . dizem que tb é qualquer coisa como racional , mas duvido. por exemplo ,quem é que quer humanos melhorados se para comer beber dormir e amar e fornicar nem é preciso ser humano ?

  11. e olha , a verdade é que quando a utilidade do ser humano melhorado é associada aos marines e fuzileiros e cruzadas , acho mesmo o animal racional não bate bem da bola. se calhar até secretamente estavam a pensar quanto o sporting lucrava com um ciborguezinho , não ? tristeza de humanidade.

  12. ao menos associassem o humano melhorado ao super homem ou ao homem elástico ( o meu héroi preferido , sério , deve ser pela sua fantástica capacidade de adaptação… esse e o mandrake ) ou assim uma coisa de castigar os maus pontuais que chateiam gente concreta. justiceiros independentes , não guerreiros ao serviço do poder.
    e vou-me , tranquilo.

  13. Em relação ao texto, há a lembrar que a cultura, e logo em sentido antropológico, é o resultado da “ajuda externa”. Que tal apenas acabe por justificar ser a Humanidade uma “fraude” é algo que muito boa gente tem dito ao longo de muito tempo…

  14. Os “fascinantes (adjectivo muitas vezes utilizado pelo Valupi para descrever coisas como a simples transformação da castanha fresca em castanha pilada) debates éticos sobre se será lícito, por exemplo, pedir a um médico que ampute pernas ou braços saudáveis para os substituir por máquinas mais eficientes” deverão, se acontecerem (mas não acontecem porque isto é só para dat tesão os meninos que querem ir passear à lua) ser travados de certeza entre gajos destravados das córnias ou então necessitados de provar salários que não merecem.

    Estranho que os admiradores da ciborgaria que promete e deseja coisas parvas a dez anos de distância ainda não reparou que o motor a jacto e o microscópio electrónico inventados há mais de oitenta anos ainda andam por aí fresquinhos sem ter havido ningúém capaz, pelo menos oficialmente, de os ter melhorado.

    I Robot me confesso a Deus…

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