Um livro por semana 251

«Mário Saa – Poesia e alguma prosa»

Com organização, notas e introdução de João Rui de Sousa, este volume de 388 páginas recolhe textos dispersos e poemas inéditos de Mário Saa (1893-1971). O poeta de Avis nasceu, afinal, nas Caldas da Rainha onde viveu até 1902 e foi amigo de grandes vultos das letras do seu tempo: Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Raúl Leal, António Botto e José Régio. Os seus textos forma publicados nas mais importantes revistas literárias como a Presença, a Athena, a Contemporânea e a Sudoeste. Colaborou também regularmente em jornais tanto de âmbito nacional (Diário de Lisboa, A Capital) como de influência regional (Gazeta das Caldas e Brados do Alentejo).

A sua poesia não teve grande visibilidade pública pois Mário Saa nunca publicou em vida um volume de poemas mas este livro vem revelar uma voz poética singular. João Villaret divulgou muito em recitais o poema «Xácara das mulheres amadas»: «Quem muitas mulheres tiver / em vez duma amada esposa / mais se afirma e se repousa / pera amar sua mulher; / quem isto não entender…/ em cousas d´amor não ousa / em cousas d´amor não quer!»

Em 1921 nas páginas de A Capital Mário Saa polemizou («Há duas grandes vergonhas neste mundo: não a ter e ser sócio nacional das Belas Artes!») e em 1930 assinou no catálogo do Salão dos Independentes este texto: «A obra de arte é uma maneira exterior de dar o interior, mostrar é uma necessidade tão imperiosa como a de ver. Ora a arte é o gostoso estendal das dores do artista – as suas descobertas. A arte é um refúgio como todos os vícios. É a sede que a si própria se sacia mostrando exactamente como tem sede». Este livro tem um grande mérito: vem pela primeira vez colocar toda a obra de Mário Saa num volume acessível ao grande público.

(Editora: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Organização, notas e introdução: João Rui de Sousa)

6 thoughts on “Um livro por semana 251”

  1. “Quem muitas mulheres tiver / em vez duma amada esposa”
    Gosto e estou d’acordo que a fidelidade foi chão que deu uvas:

    Fidelidade, que triste,
    foi algo de muito bom,
    ela hoje só existe
    nos aparelhos de som!

    “em cousas d´amor não ousa / em cousas d´amor não quer!”
    Realmente também acho que o amor é uma coisa boa, apenas com um senão…

    O amor faz-nos passar
    os dias, muito melhor,
    mas os dias ao voar
    fazem passar o amor!

    Com o tempo tudo passa, até o amor. Que chatice!

  2. O Mario de Saa foi um bom poeta e, talvez, melhor prosador e merece sem qualquer duvida esta colectânea muito cuidada e magnificamente organizada e anotada por JRS. Todavia, também foi o autor, por exemplo, de “A Invasão dos Judeus” (1925) – um livro-manifesto anti-semita bem ao estilo do que na época se fazia por essa Europa. Fica aqui o registo

  3. Bem, é oficial: eu acho o ADOLFO DIAS hilariante!…
    Aliás, ver um homossexual (o Saa) a falar com este entendimento do amor entre um homem e mulher(es) é sempre hilariante… Não que esteja errado, claro, mas porque cria um certo despropósito cómico, derivado do facto de todos pensarmos que ele tinha mais que fazer: por exemplo escrever do homoerotismo entre efebos. Adiante. A obra de Mário Saa é completamente desprezível no nosso contexto histórico e literário: não acrescenta nada, prima pela vulgaridade e pelo provincianismo, como bem o demonstram os versos escolhidos para ilutrar a suposta resenha… A Marquesa de Alorna escreveu mais e melhor, e não vejo essa euforia em a reeditar. Mas prontos: este dá-se ares de alternativo, e um dia destes ainda é publicado na Relógio D’Água ou numa coisa assim igualmente alternativa…

  4. Caro Amigo – este poema foi citado por ser o mais conhecido do poeta através dos recitais e dos discos de João Villaret.

  5. Obrigado JCFRANCISCO, ela neutralidade do seu comentário. Eu mantenho o tom: desprezo o João Villaret (tenho sempre dificuldade em respeitar pessoas obesas). Desprezo-o quase tanto como desprezo o LaFéria.

  6. esta ideia sobre o amor, a ideia do SAA, é cagona. está bem implicito, no poema, o medo do amor pelo uso do sexo. e para cagões, caganeira e meia. :-)

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