A transparência vai nua

No discurso de encerramento do congresso, Seguro apresentou o combate à corrupção como uma das três prioridades do PS para a presente legislatura, a par das questões do emprego e do crescimento económico. Estamos perante um feito extraordinário. Que me recorde, nunca um partido tinha assumido na sua agenda ser o combate à corrupção algo tão importante como as problemáticas económicas. E não menos extraordinário é o facto de não ser a reforma da Justiça um objectivo ainda mais urgente e relevante, o que até pode dar azo a variados e sugestivos paradoxos.

Daqui se inferem alguns pressupostos fundamentais para o entendimento do que acaba de acontecer:

– O PS vai mobilizar os seus deputados, quadros e militantes para esta causa – se não o fizer, a promessa é pura demagogia.
– O PS já fez o diagnóstico do problema e as soluções apresentadas nasceram dessa análise e reflexão – se não o fez, a promessa é pura irresponsabilidade.
– O PS, ou o Secretário-Geral, ou alguém em nome do Secretário-Geral ou por ele indicado, será capaz de apresentar à sociedade uma definição exacta, no mínimo clara, do que seja a corrupção que pretendem diminuir ou erradicar – se não forem capazes, a promessa é pura demagogia irresponsável à mistura com pura irresponsabilidade demagógica.

Vejamos com mais atenção o que Seguro declarou em Braga:

Minhas amigas e meus amigos, meus caros camaradas, proponho-vos também uma forma diferente de fazer política. Com ética e com transparência.

Seguro tem mais de 25 anos de vida política. Liderou a JS, foi deputado, deputado europeu, líder de bancada, ministro e uma saraivada de outras coisas. Ei-lo aqui a confessar ter sido tudo isto num meio onde não havia ética nem transparência. Era a forma antiga de fazer política, mas isso acabou com a sua chegada ao topo da hierarquia do PS, proclama.

As palavras em política estão gastas. Os portugueses estão desiludidos com a forma como fazemos e dizemos a política.

Quando é que as palavras em política ficaram gastas, exactamente? Há 1 ano? 3? 5? 10? 100? 1000? Fascinante declaração. E com quem é que os portugueses estão desiludidos, com os políticos em geral ou com alguns políticos socialistas? É uma ambiguidade à Seguro.

Só ganharemos a confiança dos portugueses através do exemplo. E a política portuguesa está carenciada de bons exemplos.

Talvez tenha toda a razão. Mas sem conhecermos a lógica do seu raciocínio, isto é bullshit de 3ª categoria. Se fosse jornalista, na primeira oportunidade não o largaria até ele explicar o que leva a que a política portuguesa esteja carente de bons exemplos. Nomeadamente, quais os maus exemplos que tem para apontar.

Tomaremos muitas iniciativas neste domínio da transparência. E começo já por dar o exemplo no interior do PS.

Corolário: no interior do PS não reina a transparência. Quem o revela é o tal que conhece o partido de ginjeira vai para 30 anos. Como é que aguentou ficar tanto tempo nesse reino de trevas? Mistério.

O Partido Socialista vai adoptar um código de ética para o exercício de funções públicas. E começa já com todos os membros do Secretariado Nacional do PS que assinarão, tal como eu, um compromisso de honra que respeitarão esse código de ética. O mesmo acontecerá com todos os candidatos do PS às futuras eleições autárquicas, europeias e legislativas.

Vai ser de arrebimbomalho aferir da moralidade desse código de ética. Mas o ponto principal nesta pulsão hipócrita é o inerente manto de suspeição que lança sobre todos os elementos do partido, a que se juntam os independentes. Obviamente, e posto que Seguro reclama o protagonismo absoluto nesta medida, o que também está aqui implícito é um beija-mão por escrito à sua pessoa.

Por outro lado, gostaria de deixar claro que o combate à corrupção será uma prioridade da agenda política do Partido Socialista. A corrupção é inimiga do Estado de direito, está a enfraquecer o nosso regime democrático e a ameaçar o nosso desenvolvimento económico.

Não há verdade maior. A corrupção é bué da má. Mas de que corrupção estamos aqui a falar? A do fiscal da câmara? Do soldado da GNR? Do árbitro de futebol? Ou de outro tipo de corrupção, envolvendo governantes e agentes do Estado ao mais alto nível? Nesta última hipótese, Seguro estará a pensar em que casos, exactamente? Mistério.

Até ao final deste ano, apresentaremos um conjunto de iniciativas que acabe com o passa culpas entre o poder político e o poder judicial. Até ao final deste mês, iniciaremos um conjunto de reuniões com representantes do sector judiciário, forças políticas, investigadores e demais interessados, de modo a estabelecer um compromisso nacional, sério e eficiente de combate à corrupção.

Afirmações assombrosas. Nem uma vírgula é oferecida para percebermos a que se refere com a confrangedora imagem do “passa culpas entre o poder político e o poder judicial”, mas garante-se que bastarão umas reuniões com esta mesma malandragem do passa culpas para se fazerem as pazes e partirem todos juntos para a caça aos corruptos. Seguro, entre outras estimáveis qualidades, tem uma indisfarçável queda para a tragicomédia.

Se todos nós quisermos, poder político e judicial, temos condições para enfrentar com determinação o fenómeno da corrupção e dar um exemplo ao País num momento em que tantos sacrifícios se pedem aos portugueses. Estou certo que os portugueses nos respeitarão mais se assim agirmos.

É isto que está em causa e só isto: dar um exemplo. Seguro tem exemplos para dar ao povo e imagina o povo ansiosamente à espera dos seus exemplos. Por isso andou tão macambúzio durante os últimos anos, estava também a dar um exemplo. Aliás, o percurso de Seguro tem sido exemplar, não lhe peçam para parar agora.

Agiremos com determinação para acabar com o sistema opaco que apenas contribui para suspeições generalizadas sobre a vida pública, colocando respectivos interesses individuais à frente da causa pública. A transparência é a chave para esta reforma. Iremos alargar a transparência externa e interna das actividades do Partido Socialista, num sinal de amadurecimento da vida partidária no seio da sociedade.

Pelos vistos, sendo um tema recorrente, o actual Secretário-Geral do PS tem graves acusações a fazer ao seu próprio partido. Nesta passagem, insinua sem pudor que o PS tem sido parte de um “sistema opaco que apenas contribui para suspeições generalizadas sobre a vida pública, colocando respectivos interesses individuais à frente da causa pública”. Ana Gomes, uma das suas mais entusiasmadas apoiantes, não diria melhor. Para lá da forma sonsa como faz difamações, quiçá calúnias, se eu fosse jornalista não o largaria enquanto não revelasse a que “interesses individuais” se estava a referir. Porque ele não está a inventar, certo? Algures terá descoberto que a causa pública foi prejudicada, e, embora ninguém recorde alguma denúncia que tenha feito, talvez agora, nestas novas responsabilidades, já possa contar à malta o que o viu.

E o PS não desistirá de encontrar uma solução respeitadora das garantias constitucionais que sancione acréscimos patrimoniais injustificados. A corrupção não se combate com balas de prata, que apenas servem o brilho mediático. A corrupção combate-se com uma abordagem global que não menospreze aperfeiçoamentos legais e seja clara na dotação de meios eficazes e operacionais para o cumprimento da actual legislação de combate à criminalidade económica e financeira.

Sim, senhor. Este passo do discurso foi cuidadosamente redigido para que se possa interpretar tudo e o seu contrário. Os corruptos devem ter ficado aliviados por verem as balas de prata substituídas por alhos pendurados no sótão.

Em conclusão, ou como introdução, temos de lembrar Sócrates. Lembrar que ele nunca perdeu uma caloria com o tema da corrupção. Certamente, não por falta de opinião, assunto onde cada português é especialista, mas por ser desonesto explorar uma área em que se sabe não ser possível intervir para além do âmbito parlamentar, policial e judicial. Em contrapartida, apostou tudo no desenvolvimento de uma sociedade onde se tivesse mais escolaridade, mais meios de comunicação pessoal, mais investigação científica, mais igualdade de direitos. Ter sido diabolizado como o maior corrupto de Portugal não foi uma coincidência, antes a prova de que o remédio era amargo e estava a fazer efeito.

27 thoughts on “A transparência vai nua”

  1. “Que me lembre, nunca um partido tinha assumido na sua agenda ser o combate à corrupção algo tão importante como as problemáticas económicas”.

    Tens que te acostumar às novas ideias, meu caro Valupi. E evidentemente que não te podes lembrar porque pràticamente todos os governos têm esta tendência nos tomates ideológicos para se apoiarem à corrupção. Sem corrupção não há bordão. E os poucos homens honestos que levantaram as frontes e disseram, vamos a isto!, levaram as cabeças cortadas. Assim de memória lembro-me de três, todos em “acidentes” envolvendo aviões, um sueco, um italiano e um português.

    E pois, quando vês bicho na maçã não dás prioridade a extirpar o mal e a comer o resto são: ou deitas a maçã fora porque és rico ou come-la com bicho e tudo porque és cego. Estilos de vida…

  2. arrebimbomalho, gostei mesmo desta intuitiva e vou amadrinhá-la, será quando no limite dessa luta que não deixará de ser apenas – não em curso – discurso ele for, finalmente, o robin de frosques. :-)

  3. Caramuru, Valupi. Distinta e cristalina homenagem ao viés de Sócrates por puro delineamento do que assombra no discurso de Seguro.

  4. Pois é Kalimatanos, ao Sócrates não cortaram a cabeça mas assaram-no na grelha durante sete anos, num espectaculo publico inominável, que manchou esta democracia como não há memória. A inquisiçâo foi ressuscitada pelos corruptos porque, como bem nota o Valupi, o dedo estava a ser espetado na ferida de uma forma inesperada e eficaz: a aposta no desenvolvimento do povo como forma de sair do lamaçal.
    Este Seguro aparece com a triste figura do Dom Quixote, montado na pileca de um partido anémico, apontando a lança da demagogia barata aos todo-poderosos moinhos da corrupção.
    Triste figura de Seguro, tâo bem descrita pelo Cervantes aspirina Valupi.

  5. Sinhã estive a falar para o boneco, neste caso, para a boneca. A maluquice continua. O que é que disseste? Troca lá isso por miúdos a ver se a gente entende.

  6. Já disse aqui que nunca fui muito pró-seguro.O discurso parece-me muito idêntico ao de Passos. Andaram na mesma escola? Se dizemos mal dum, claro que não podemos dizer bem do outro. Sempre me pareceu que Seguro tal como Alegre era um pouco pró-esquerdalho. E se há gente com quem eu não posso é com esse tipo de políticos. Como usa dizer o povo: MUITA PARRA E POUCA UVA. Eu digo por outras palavras: conversa de chacha.
    Fiquei abismado com a falta de transparência, com a corrupção que desde sempre tem andado dentro dos partidos. Vejam lá, quem diria, que o Mário Soares andou metido nisso.

  7. “Não considero que investimento no Magalhães fosse necessário. Foi um desígnio político. Era mais importante a aposta nos conteúdos”, afirmou o comentador político, acrescentando que as políticas públicas devem concentrar esforços “no conhecimento e na informação”.
    (In Jornal de Negócios 14-09-11)

    Esta brilhante ideia foi dita por esse ser da Lua que dá pelo nome de Antonio Barreto, o Sociologo.

    Ironico, não é!… Precisamente o Sociologo a fazer este tipo de analise…

  8. O Vital Moreira no Causa Nossa diz sobre o discurso do Seguro: “A única inovação doutrinária relevante é a insistência numa acentuada dimensão “personalista” (“as pessoas primeiro” é o lema do Congresso), numa clara invocação de Guterres, conhecida referência do novo líder. Em certo sentido, Seguro encarna uma espécie de “neoguterrismo”.”
    E eu a julgar que o Seguro estava a andar para a frente e afinal está a regredir. Volta ao tempo do Guterres. Com um pouco mais de tempo e paciência ainda chega ao Gonçalvismo.

  9. O Barreto está cada vez mais lélé da cuca e mais sectário, a ponto de só dizer disparates de cada vez que abre a boca. Tenho pena, o homem teve tempos de grande lucidez sociológica, mas agora é um lambe-botas do patrão. Deprimente.

  10. mais meios de comunicação pessoal ? tu passas-te , com certeza . no país com maior nº de teleles por cabeça “apostar” nisso é de vendedor pago de e por teleles , só pode. e de pessoa que não sabe o que é o círculo vicioso da pobreza. de espírito , sobretudo.

  11. ou seja pelos vossos posts, portugal é um pais transparente,sem corrupção nenhuma e nepotismo.é isso? é so uma pergunta lol

  12. Eu, por mim, acho que nem vale muito a pena escrutinar, ao pormenor, Seguro e o seu tacticismo !
    Que seja, rápido, o PM de Portugal, é o meu desejo contra os interesses e a canalha.
    Duvidam ?
    Jnascimento
    PS
    E viva Assis. claro, o seu passado e o seu futuro.

  13. A corrupção que já se vislumbra em algumas medidas tomadas pelo coelhismo (nomeações para a CGD, decisões sobre o BPN) e a que se avizinha em consequência das medidas anunciadas pelo governo, sobretudo privatizações, justifica bem uma atenção redobrada do principal partido da oposição ao problema da corrupção.

    Conhecendo-se a tendência intrínseca do PSD para a alta corrupção e para a promiscuidade dos seus políticos com os potentados económicos, conhecendo-se o banditismo inato e compulsivo dos banqueiros laranja e atentando na irresponsablidade, se não cumplicidade revelada no passado pelo próprio PR nessa matéria, toda a atenção votada ao mega-problema da corrupção será pouca. Dito isto, o paleio de Seguro sobre as “palavras gastas” e a “desilusão” dos portugueses é, ele próprio, um discurso estafado e gerador de desilusão, desta vez em relação a ele próprio.

  14. Mais indícios da alta corrupção que nos espera nos próximos tempos (basta olhar os jornais): alienação das participações do Estado na EDP, Galp, etc, por… ajuste directo! Já há uma providência cautelar contra tal decisão do coelhismo. Em relação à EDP, o Coelho-mór declarou muito curiosamente que “a participação do Estado será vendida pelo melhor preço para a EDP, não forçosamente para o Estado”. E eu a pensar que a tarefa do mangas era assegurar o melhor preço para o Estado… O “melhor preço para a EDP” é uma coisa misteriosa e subjectiva que só ele poderá explicar, bem como os seus capangas ou algum banqueiro chupista do universo laranja.

  15. Amigos,leio-vos há tempo através de amigos(este artigo de hoje foi através do Marinho Osório) e de grupos a que pertenço.gosto bastante da análise que fazem,concordando quase sempre com as vossas opiniões.
    Abraço,luz

  16. só para chatear : os amigos do socrátes , o vara e o antónio josé morais já botaram assinatura? fica clarinho a idiotice da medida , né?

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