Causas reais da crise da zona Euro

“The eurozone debt crisis is big enough that there’s plenty of blame to go around, and some of it certainly should go to the crisis countries themselves. But it must also be recognized that as soon as those countries adopted the euro, powerful forces were set in motion that made a financial crisis likely, and very possibly unavoidable, no matter what the governments of the peripheral euro countries did. Irresponsible behavior by the periphery countries did not set the stage for the eurozone crisis; the common currency itself did.”
Fonte

Este é o último parágrafo, e conclusão, de um artigo de Kash Mansori publicado ontem e para o qual Paul Krugman remete no New York Times de hoje. Vale a pena ler o artigo completo e olhar bem os gráficos. É que, na verdade, já cheira mal a propalada “irresponsabilidade” dos países da periferia. A partir do momento em que aderimos ao Euro, as regras clássicas alteraram-se e as explicações também clássicas chumbam constantemente o teste da realidade.
Politicamente, convém a certos países e forças políticas acusar Portugal, nomeadamente, de despesismo nos últimos anos (claro que, a nível interno, os penúltimos já não interessam). As coisas não são bem assim. E repare-se que, no artigo, os gráficos só vão até 2007. O que se passou a nível internacional desde 2008 só veio deitar mais lenha para a fogueira da Santa Inquisição, apesar de os inquisidores locais saberem perfeitamente que o governo português agiu, no aumento da dívida e do défice após a falência do Lehman Brothers, em concertação com a União Europeia, à qual prestava contas. A perda da maioria absoluta em 2009 e os boicotes sistemáticos às tentativas de redução das despesas também têm forte tendência a ser esquecidos pelos desonestos políticos e comentadores da nossa praça.
Há muito mais nesta crise do que pecadores e puros.

Perdeu-se um bom lavrador, ganhou-se um péssimo presidente

 

Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante. (…)
A poda é pouco sensível na anoneira, não é essencial”, explicou Leopoldo Vasconcelos Moniz, perante o olhar curioso de Cavaco Silva, que confessou fazer sempre a poda das anonas que tem no Algarve. “Mas, este ano vou experimentar e não vou podar algumas”, adiantou o chefe de Estado.
Setembro 2011

Na mesma altura, Firmino Cordeiro convidou o Presidente da República para membro honorário da AJAP, convite que Cavaco Silva aceitou e agradeceu com simpatia e satisfação: “Não é despropositado, porque também tenho alguma coisa de agricultor e prezo-me de ter uma das melhores laranjas do Algarve a que, ultimamente, juntei também uma pequena produção de anonas”
Junho 2011 (PDF)

A Cereja faz bem a tudo, até para os calos. (…) Isto trás-me ao meu tempo da juventude, em que eu gastava o dinheiro todo que tinha para o almoço a comprar cerejas, e depois ficava sem almoço. Porque no Algarve não existem cerejas,  mas expunham isto com este aspecto e era uma tentação. Eu chegava aqui, e comia a cereja.
Junho 2011

Cavaco Silva aproveitou ainda para confessar que ele próprio é considerado “o agricultor da família”, porque mantém “apenas para deleite pessoal” a produção de laranjas, anonas, abacates e outras frutas nas terras que herdou dos pais no Algarve.
Antes, numa passagem junto ao mercado da fruta das Caldas da Rainha, o candidato tinha também já falado sobre as suas preferências em termos de produtos hortícolas: “sou um consumidor em grande de couves”, disse a uma vendedora.
Janeiro 2011

“Fiquei surpreendido por ver como as vacas avançavam uma a uma e se encostavam ao robot, sentindo-se deliciadas enquanto este realizava a ordenha”, afirmou Cavaco Silva, numa referência a um robot inovador existente na exploração que visitou.
Outubro 2008

Aprender à nossa custa

Evidentemente que o presidente do GRA e o partido que o sustenta, o PS (no caso nem se faria a minima diferença entre “nacional” e “regional”) estaria simplesmente tão frito quanto fizeram com Sócrates. E com o BE e o PCP de braço dado com a direita que levou ao poder, alegremente, sabendo exctamente o que estavam a fazer.

Claro que esta esquerda que se faz de sonsa, agora não tem os microfones da direita a toda a hora e momento como tinha para malhar no PS. Agora tem o mínimo dos mínimos para esses sonsinhos pensarem que ainda há democracia. BE e PCP foram quase completamente silenciados e se-lo-ão cada vez mais pela comunicaçâo social soberanamente controlada pela direita. E eles sabiam que ia ser assim, quando se aliaram para derrubar o governo Sócrates. Mas o seu ódio pelo PS e o desprezo pelas pessoas que dizem defender foi mais forte.

Não sei até quando as pessoas que ainda dão o voto ao BE e PCP continuarão na ilusão. Mas penso que o que se está a passar é tão grave que vai forçar esses eleitores a abrir os olhos. Vão convencer-se que o PS, apesar das suas graves falhas, não tem nada a ver com a direita salazarenta que assaltou o poder com a colaboração total do BE e PCP. Finalmente vão rejeitar a trafulhice que lhes é martelada por estes partidos de que PS e Direita são a mesma coisa.

Os portugueses vão aprender à sua custa.

Infelizmente, neste momento, têm uma direcção PS do mais pobrezinho que eu me recordo. É caso para dizer que o país que clama justiça está órfão.

E como se fosse coisa pouca a desgraça partidária, o mesmo povo órfão assiste, impotente, ao desmoronar das instituições da república, a começar pela presidência da república, entregue a um “mísero professor”, como diz o próprio, e eu digo miserável economista.

Politizou-se a justiça e as policias. Arrebanhou-se a comunicaçâo social. Os senadores da nação acobardaram-se como sempre aconteceu ao longo de muitos séculos de história. Resta-nos o exército da revolta deste espaço silencioso das redes sociais.

Não calemos a revolta. Não paremos a denúncia.

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Oferta do nosso amigo Mário

Vinte Linhas 667

Quando Manuel da Fonseca nasceu S. Thiago do Cacém era Estremadura

Nos próximos dias 7,8 e 9 de Outubro vai realizar-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa o Congresso Internacional «Por todas as estradas do Mundo» para celebrar o centenário do nascimento do escritor Manuel da Fonseca.

As inscrições devem ser feitas até ao dia 23 de Setembro na Faculdade (Centro de Estudos Comparatistas) ao cuidado de Rita Correia ou pelo Email cec@fl.ul.pt. O pagamento de 30 euros (geral) ou 15 euros (estudantes) inclui transportes e almoço em Santiago do Cacém.

Terão intervenções entre outros grandes especialistas na obra de Manuel da Fonseca como Eduardo Lourenço, Manuel G. Simões, Fernando Guimarães, Cristina Almeida Ribeiro, Manuel Gusmão, Fernando J.B. Martinho, Vítor Pena Viçoso e Luís Filipe Rocha – autor do filme «Cerromaior» de 1980.

Integram a Comissão Organizadora deste Congresso Internacional as Câmaras Municipais de Vila Franca de Xira e Santiago do Cacém, o Museu do Neo-Realismo, o Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo.

Em vez de uma fotografia do escritor, esta «fotografia» de Portugal em 1911 tem a curiosidade de revelar uma Estremadura com limites entre Vila Nova de Ourém e Sines no tempo em que ainda não existia o distrito de Setúbal e, portanto, o distrito de Lisboa ia até perto de Vila Nova de Milfontes. E o nome de Espanha escrevia-se Hespanha.

Afinal cem anos passaram num instante tal como passou num instante uma noite de histórias do Manel no Seixal depois de uma reunião de um júrio do Prémio Maré Viva da Câmara local.

TGV Lisboa – Atenas

Uma das promessas mais sonantes de Passos Coelho durante a campanha foi a da suspensão do projecto do TGV. Não havia dinheiro para grandes obras e o projecto era para esquecer, rasgava-se e não se falava mais nisso. Foi nisto que votaram muitos dos eleitores que lhe deram a vitória nas eleições. Mas, chegado ao poder, já não é bem assim, descobriu com grande espanto que há compromissos assumidos e, em vez do silêncio esperado, todos os dias temos novidades acerca do assunto. A obra, maior ou mais pequena, afinal, é mesmo para avançar. Com algumas diferenças, é certo, as mercadorias são agora a grande prioridade. É que já temos turistas mais do que suficientes, e a última coisa que este Governo quer é que nos entrem mais pelo País adentro ainda por cima em alta velocidade. Corria-se o risco de dinamizar o sector do Turismo e isso não pode ser. Como o Governo está cheio de ideias para impulsionar o crescimento da economia, o Turismo pode muito bem continuar a crescer devagarinho ou parado.
Mas para que não se pense que Passos tem aversão à alta velocidade, e que não tem visão de futuro, foi vê-lo, na última entrevista, a ligar-nos à Grécia a uma velocidade verdadeiramente estonteante. Curiosamente, sem mostrar quaisquer preocupações com os custos que tal ligação acarreta. Se calhar, o problema estava no destino. Linha de alta velocidade sim, mas directa a Atenas.

Levar Medina Carreira mesmo a sério

O comentador compulsivo Medina Carreira sabe que os Governantes dos últimos 10 anos deviam ser julgados.
Que interessa a Madeira?
São dez anos. Tudo para julgamento. Isto assim, dito com a sua histórica parcialidade na cara.
Ora aqui está a solução: todos os Governantes, no verbo de Medina já feitos arguidos, culpados e condenados, essas bestas que alguém louco elegeu, estão limitadas por esse período que safa tanta gente, esse número redondo, ouviram? São dez anos. Para trás, ninguém vai a julgamento.
Um alívio.
Para Medina Carreira, por exemplo. É bom dez anos não chegarem a 1975, quando foi subsecretário de Estado do Orçamento e logo a seguir Ministro das Finanças.
É bom que o homem que hoje chama loucura, estupidez, anormalidade à Expo´98 tenha sido vogal do Conselho da Administração da Expo` 98 há mais de dez anos.
É bom para o puro e impoluto comentador que Cavaco Silva não entre na categoria de Governantes, esse Presidente que ele apoiou com unhas e dentes em 2006 e que se revelou um cancro no nosso sistema político.
Mas já agora, Medina, diga-nos lá: só levava governantes a julgamento? E dos últimos 10 anos? Não deu por nada de estranho em Belém, essa sua luta?
Julgue, julgue, julgue…
Nós vamos tomando nota, pois.

Patos com laranja

Para além de ser um dos maiores produtores de inteligência e sensibilidade na blogosfera portuguesa, João Lopes defende uma causa à qual me quero associar: acabar com a vexante bolinha vermelha nas televisões.

De facto, vivemos num espaço televisivo todos os dias marcado pelo moralismo medíocre das telenovelas, pela demagogia cultural de muitos concursos, enfim, por uma vaga de publicidade que pinta quase toda a gente (a começar pelos mais jovens) como tarados sexuais… E, no entanto, tudo isso passa como coisa “natural”. Que defendo, então? Mais bolinhas vermelhas a enxamear os nossos ecrãs? Nada disso. Apenas um pouco mais de crença na inteligência dos espectadores. E, sobretudo, um pouco menos de hipocrisia.

Televisão com bolinha vermelha

1 – Entre outras agressões e obscenidades, a publicidade de rua da nova edição da Casa dos Segredos (TVI) está a utilizar um cartaz em que alguém, supostamente um concorrente, faz saber que teve “um caso com um ministro”. Dito de outro modo: em nome do divertimento, continua a promover-se a grosseria e o vazio mental, formatando-se as sensibilidades da população com uma pornografia de palavras e imagens que reduz o factor humano a coisa ridícula, irrelevante, sempre descartável.

2 – É aqui que estão as grandes questões culturais, mais do que na passagem de obras-primas do cinema (e não só) com bolinha vermelha no canto do ecrã… Aos moralistas que se chocam cada vez que a televisão difunde algo de genuinamente adulto, vale a pena colocar uma questão muito cândida: como encaram o facto de uma criança (qualquer uma) deparar com cartazes e máximas deste teor a poluir o seu quotidiano visual?

As grandes questões culturais

Declarado o meu apoio, reconheço a utilidade da bolinha vermelha para a vida hormonal púbere e adolescente de milhões de concidadãos, particularmente num tempo ainda sem Internet e sua oferta gratuita de todo o tipo de erotismo e pornografia. Realmente, a bolinha vermelha tinha a grande vantagem de avisar a malta para a iminência de um par de mamas a chegar ao ecrã. Isso foi um inestimável serviço nunca devidamente reconhecido e agraciado. Está ao nível da estratégia de marketing da TV Cabo, que durante anos serviu pornografia às boas e cristãs famílias das classes média e alta violando tranquilamente a lei e sem cobrar um tusto, no celebérrimo canal 18. São os operadores de TV a contribuírem para uma sociedade com mais orgasmos, missão com os seus méritos.

Porém, contudo, todavia, há uma nada sexy consequência quando se reduz a moralidade às partes pudendas e suas funcionalidades, ou à linguagem vernacular, ou até às imagens de violência física e morte. Ao se assinalar um qualquer problema temático, verbal ou imagético, está-se a perverter a obra e a perverter o espectador. A obra fica subjugada por um elemento censório absolutamente arbitrário, invariavelmente absurdo, definitivamente inútil. O espectador é tratado como um ser acrítico que deve confiar numa bolinha vermelha para afastar terceiros, ou afastar-se a si, de uma qualquer experiência intelectual. Caso continue a assistir ao programa, decorre da lógica do aviso que o espectador deverá preparar-se para alguma coisa que não pode saber o que é, e que tanto pode ser fonte de prazer ou de dor, mas que será sempre algo excessivo, incorrecto ou perigoso.

O que este código pressupõe é a autoridade da comunicação social para decidir por nós o que nos convém sentir e pensar. Obscenidade maior não existe.

Vinte Linhas 666

Bairro Alto a terra queimada ou o deslize do brasileiro

João Correia Filho, jornalista brasileiro, escreveu o livro «Lisboa em Pessoa» – Guia turístico da Capital Portuguesa. Teve a sorte de visitar a Livraria «Fábula Urbis» ali à Sé. Historiador, livreiro e editor, João Pimentel ajudou o autor do livro a conhecer melhor a cidade de Lisboa sugerindo roteiros e elaborando listas de livros a descobrir. Na página 175 do livro aparece uma nota sobre o Miradouro de S. Pedro de Alcântara: «Quando o sol se vai embora, o miradouro vira um grande salão de encontros, tomado por jovens que enchem os seus quiosques-bar (abertos todos os dias. Entre quinta e sábado organizam-se aí concertos e actuações de DJ) e fazem do lugar o ponto de partida para a divertida noite do Bairro Alto.» Ora a verdade é muito diferente. Não só a realidade cujo mau cheiro a urina sai da Travessa de São Pedro (ali em frente) mas todo o espectáculo do lixo, das garrafas de litro e dos copos de plástico. Quanto à música e seu barulho existe uma carta do Departamento Camarário responsável que determina a cessação das actividades musicais à uma da manhã desde que a mesma não afecte residentes e vizinhos. Mas a Polícia Municipal, chamada por um morador cujo filho pequeno não conseguia dormir às duas da manhã, referiu que os senhores do Bar possuem uma carta do vereador Sá Fernandes (esse mesmo) a permitir barulho até às duas da manhã. Mas na Net são anunciadas actividades até às 3 da matina. Pois… O vereador, conhecido pelas providências cautelares e por integrar a comissão liquidatária dos jardins de Lisboa, terá assinado uma autorização sem saber da decisão anterior do Serviço respectivo. Sem saber, tal como o jornalista brasileiro. É o que faz escrever sobre uma realidade que não se conhece pois só quem vive no Bairro Alto percebe o sentido da expressão terra queimada.

Arte da guerra

Não sou militante nem simpatizante de nenhum partido, não frequento os mentideros de jornalistas e sou muito distraído e desmemoriado. Estes os ingredientes óptimos para manter uma saudável e fértil ingenuidade que me protege contra o cinismo. Foi por isso uma revelação ter tropeçado nesta passagem de Paulo Pedroso:

O PS tem uma linha estratégica definida. Caberá à nova direcção dar os sinais adequados e escolher os protagonistas certos. Recordo que deve evitar-se o erro das exclusões cirúrgicas. Disse-o no momento próprio e não agora, a exclusão de António José Seguro de uma pasta ministerial é um exemplo de má gestão dos recursos políticos do partido. Um erro que espero que Seguro não repita agora.

Os desafios actuais do PS. O que eu quis dizer na Comissão Nacional.

De repente, tudo fazia sentido. Seguro teria ficado com o orgulho ferido porque não chegou a ministro de Sócrates. A partir daí, jurou vingança e começou a minar o terreno (minar, no sentido de esburacar mas também no de pôr minas). Por isso não tinha nada para dizer – e ainda hoje não tem nada para dizer – posto que não podia revelar a dor de corno que o assolava. Mas podia destruir, e deixar que destruíssem. Foi o que fez com pleno êxito.

A ser verdadeira esta interpretação, e há 357% de probabilidade de ser, estamos perante algo normal. Será até um monumento à normalidade. Os partidos são grupos que se organizam hierarquicamente, assim causando conflitos inevitáveis que decorrem das diferenças de estatuto entre os seus membros. Acresce que as lideranças partidárias são inerentemente voláteis nos partidos que disputam a governação, pois há diversos factores de desgaste fora do controlo dos chefes. Sendo a razão humana uma faculdade encapsulada no corpo de instintos e paixões onde radica a nossa identidade, nada mais natural que a motivação de Seguro para derrubar Sócrates fosse do foro estritamente afectivo.

Colhe também reflectir sobre o conselho do Paulo para que não se cometa o mesmo erro. Mas, porquê considerar a exclusão cirúrgica como algo a evitar? É que os factos defendem a tese oposta: o que Seguro fez a posteriori confirma o critério do seu afastamento a priori. Talvez o que se tenha passado, então, seja do domínio da capacidade de escolher aqueles com quem se quer estar lado a lado no combate. Esse talento que se perde na noite dos tempos. Esse fruto de uma sapiência. Essa arte da guerra.

Porque insiste a RTP?

Vítor Gonçalves tem ar de ser excelente pessoa. Como correspondente em Washington, fazia um bom trabalho. Como entrevistador da RTP1 não tem competência. Já diversas vezes o demonstrou – entrevista a Sócrates; entrevista aos dois principais candidatos nas recentes eleições.
Vi a entrevista a Passos Coelho intermitentemente, mas julgo ter visto as partes principais, complementadas com excertos passados nos canais de cabo. As perguntas mais óbvias na sequência do que dizia o entrevistado ficaram sistematicamente por fazer.

Exemplos: “O senhor continua a viajar em económica?” “Claro,[bla, bla] Nova Iorque em económica [bla, bla…], a comitiva também [bla,bla…], acto simbólico [etc.]”.
Pergunta que se impunha: “E a TAP continua a não cobrar as viagens aos governantes?” Vítor Gonçalves ZERO.

TGV: “O TGV sempre vai avançar?” “Não! Está suspenso, o que se está a estudar é um comboio “de alta prestação” [bla,bla…].
Pergunta que se impunha: “Mas o seu ministro referiu-se hoje mesmo ao factor de competitividade que tal linha representa”; ou “E essa via só será construída em Portugal?”.
ZERO.

Madeira: Passo directamente à pergunta que se impunha. “Mas o senhor acha ou não acha que foram cometidas infracções graves à face da lei, confessadas pelo próprio? Dizer que é grave e até muito grave e nada fazer não é pactuar com práticas fraudulentas, que tiveram como consequência o agravamento da austeridade para todos os portugueses?”

Redução de cargos dirigentes e organismos da função pública: Diz Passos: “Nunca um governo foi tão longe no corte da despesa”. Ora, sabendo-se que isto é mentira, porque não contrapôs Vítor Gonçalves que o governo anterior reduziu muitos mais?

Tudo isto e muito mais transformou aquela entrevista numa espécie de verborreia sem contraditório, à laia do Professor Marcelo. Mesmo assim, Passos bate Marcelo por muitos pontos na arte da representação.

Siga o baile

Jardim está queimado para além de qualquer recuperação, mesmo que volte a ganhar as eleições, pelo que Cavaco e Passos devem ter gastado as duas horas da reunião que tiveram na segunda-feira a pensar na maneira de aproveitar o melhor possível o novo cenário. E isso implica evitar qualquer possibilidade do caso escalar para a dimensão judicial enquanto se simula uma denúncia que pareça ir ao encontro do sentimento popular de indignação. Foi o que fizeram, e com eficácia, Cavaco e Passos neste dia.

Nos Açores, o Presidente da República foi pura e simplesmente magistral na bailinho da Madeira com que serviu os jornalistas. Atente-se nesta maravilha:

“Uma situação destas pode de facto afectar a credibilidade do nosso país na cena internacional”, reconheceu o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, em declarações aos jornalista em Vila do Porto, na ilha de Santa Maria, onde iniciou esta manhã uma visita ao arquipélago dos Açores.

Por isso, acrescentou, é que o Governo já anunciou que irá apresentar legislação para que “omissões” e situações similares não se possam repetir em outras entidades do “perímetro do sector público”, nomeadamente a administração central, regional, algumas empresas públicas, segurança social e autarquias.

“É necessário que se tomem medidas para que situações semelhantes não venham a repetir-se”, defendeu, admitindo mesmo que “talvez já devesse ter sido feito há mais tempo”.

Questionado sobre as declarações do presidente do Governo Regional dos Açores, que considerou que os principais responsáveis políticos tinham de ter conhecimento do que se passava na Madeira, o Presidente da República escusou-se a fazer qualquer comentário, argumentando que um chefe de Estado não fala sobre afirmações de outras entidades.

Além disso, acrescentou, o Presidente da República “deve medir muito bem as palavras, porque ele é factor de coesão nacional, factor de unidade nacional e de solidariedade entre os portugueses”.

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Viva a diferença que nasce da igualdade

O Aspirina B tem carregado uma grave falha desde o início, e especialmente grave nos seus primeiros tempos: a discriminação sexual. Começámos como um clube do bolinha e demorou quase dois anos até conseguirmos ter um elemento do sexo feminino com a camisola vestida, a Susana (e veio apenas porque o blogue onde escrevia na altura tinha acabado, sendo essa perda a nossa grande sorte). Com a sua saída voltámos ao deserto anterior, uma seca que durou até à chegada da Isabel. Outra vez um golpe de grande sorte para nossa honra e prazer. E, recentemente, a Penélope aceitou engrandecer a equipa de autores e a qualidade do serviço aqui prestado aos fregueses. Mesmo assim, o desequilíbrio sexual permanecia, o que muito nos penalizava ideologicamente. Dos 26 autores que já escrevinharam neste espaço, 20 tinham pilinha (ou assim parecia, que não confirmei). Um cheiro a balneário sufocante.

Pois bem, atingimos a paridade: a nossa amiga guida vai começar a participar no palco principal, assim permitindo que este blogue concorra aos prémios da blogosfera politicamente correcta e seja o modelo civilizacional que o Mundo, que dizem também ser esférico, tanto procura e até agora não tinha encontrado.

Somos uns sortudos.

Paradoxos irmãos

A crise grega coloca um paradoxo bastante interessante, para mim pelo menos. Está mais que visto que a continuar com o plano delineado pela UE e o FMI, o único resultado será a bancarrota e a saída do Euro, e possivelmente da UE. Não há maneira de dar a volta a isto: a economia grega caiu mais de 5% apenas este ano e a recessão não tem fim à vista, enquanto o peso da dívida e respectivos juros se tornam por isso mesmo insustentáveis. A austeridade imposta está a destruir completamente a economia, o que quase todos concordam não ser a maneira ideal de conseguir honrar os seus compromissos.

Mas vendo as coisas pelo outro lado, a alternativa seria qual? A famosa “solidariedade europeia”, ou seja, os restantes países da Europa com capacidade, sobretudo nórdicos, iriam sustentar um país que mentiu, abusou e se aproveitou da credibilidade dada pelas contas certas dos restantes para se endividar de uma maneira totalmente irresponsável, apenas para satisfazer as várias corporações e sindicatos nacionais? Os gregos, para resumir, usaram o acesso ao crédito barato para se comprarem uns aos outros, revelaram-se totalmente incapazes de cobrar impostos, têm uma economia pouco competitiva, pouco preparada, e um sector publico pesado e ineficiente. Em Corinto, por exemplo, as finanças locais cobraram apenas 18.000 Euros de IVA. Em seis meses. Dá 3.000 Euros/mês numa zona de casinos e empresas. O Pingo Doce do meu bairro deve pagar mais do que isso por dia. Por isso, solidariedade europeia ou não, é preciso primeiro reconhecer que a Grécia, como está, é a própria definição de “choldra ingovernável”. Conceder crédito para quê, exactamente?

A questão no entanto, para desespero dos alemães e franceses, é que a Grécia está no Euro, os seus bancos são responsáveis por grande parte da dívida (já que estamos a falar em irresponsabilidade) e a situação criada ameaça todos os outros países da zona Euro. Os tais que estão a maldizer o dia em que aceitaram os gregos na moeda única. Não só as suas finanças estão sobre pressão, mas também o crescimento, numa espiral infernal que neste ponto, se alimenta a si própria de dúvidas, suspeitas, rumores e breves períodos de pânico. A continuar neste caminho, estamos apenas a uma falência bancária de distância da crise financeira catastrófica a que se seguirá uma segunda grande depressão.

Há, portanto, que resolver o problema grego. Continuar a lerParadoxos irmãos

Um sonho para o Cavaquismo

“A coesão nacional é um bem precioso de Portugal em particular nestes tempos difíceis que nós atravessamos. Estes tempos são de dificuldades e devem ser tempos de coesão, não tempos de divisão ou de querelas estéreis”, afirmou hoje o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, numa declaração de “saudação” aos açorianos à chegada à ilha de Santa Maria, uma das chamadas “ilhas da coesão”.

Fonte

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Cavaco, o Presidente da República que intencionalmente deixou o País à beira de um ataque de nervos só para mostrar o seu asco pelos Açores e pelo Parlamento, que é directo beneficiário do poder e dinheiro do BPN ao tempo dos crimes em julgamento, que congelou o Conselho de Estado para proteger Dias Loureiro, que fugiu a representar a Pátria no funeral de Saramago, que alimentou uma conspiração com vista a perverter actos eleitorais criada na sua Casa Civil e acabou a premiar o seu mentor ou testa-de-ferro, que se fez eleger em nome da estabilidade e que na própria noite eleitoral despejou uma chuva de ódio para cima de todos os adversários, que se serviu do acto da tomada de posse para fazer um comício onde exigiu o derrube do Governo pela rua, que foi instrumental para a golpada do chumbo do PEC IV, é o mesmo que não quer barulho acerca do que se passa na Madeira.

Confesso o meu sonho: que Cavaco seja o primeiro Presidente da República a ser apupado pelo Povo.

Os broncos e os canalhas

Sócrates nunca foi sequer arguido nos casos onde o seu nome apareceu envolvido. E os casos surgiram sempre no contexto de conspirações políticas ou vinganças. Porém, a ausência de qualquer indício válido, muito menos prova, não impede que broncos e canalhas continuem a repetir as calúnias então lançadas.

Portugal fez em 2009 o que a Europa decidiu que seria a resposta à crise económica; e fez bem, com bons resultados. Isso aumentou o défice e a dívida. Portugal fez em 2010 o que a Europa decidiu que seria a resposta à crise da Zona Euro; e fez bem, com resultados que estavam a recolher apoios e elogios dos parceiros europeus. Isso levou ao pedido de ajuda externa por exclusiva decisão do PSD, o qual viu vantagem em interromper esse processo de ajustamento através de uma crise política. Os broncos e os canalhas contam apenas a última parte desta história.

Jardim decidiu violar as suas obrigações para com o Estado português, induzindo em erro diversas instituições nacionais e internacionais e acumulando dívidas num registo de irresponsabilidade autocrática. As declarações que ele e os seus representantes têm feito para explicar a situação não são apenas confrangedoramente impostoras, igualmente revelam que estamos a lidar com desmiolados. Assim, quando os broncos e os canalhas vêm defender estas criaturas, dizendo que o Governo PS fez igual ou pior, estão apenas a fazer um favor à comunidade: avisam-nos que podemos respirar de alívio. O alívio nascido de não precisarmos mais de lhes dar atenção – a menos que sejamos tão desmiolados quanto eles.