Arte da guerra

Não sou militante nem simpatizante de nenhum partido, não frequento os mentideros de jornalistas e sou muito distraído e desmemoriado. Estes os ingredientes óptimos para manter uma saudável e fértil ingenuidade que me protege contra o cinismo. Foi por isso uma revelação ter tropeçado nesta passagem de Paulo Pedroso:

O PS tem uma linha estratégica definida. Caberá à nova direcção dar os sinais adequados e escolher os protagonistas certos. Recordo que deve evitar-se o erro das exclusões cirúrgicas. Disse-o no momento próprio e não agora, a exclusão de António José Seguro de uma pasta ministerial é um exemplo de má gestão dos recursos políticos do partido. Um erro que espero que Seguro não repita agora.

Os desafios actuais do PS. O que eu quis dizer na Comissão Nacional.

De repente, tudo fazia sentido. Seguro teria ficado com o orgulho ferido porque não chegou a ministro de Sócrates. A partir daí, jurou vingança e começou a minar o terreno (minar, no sentido de esburacar mas também no de pôr minas). Por isso não tinha nada para dizer – e ainda hoje não tem nada para dizer – posto que não podia revelar a dor de corno que o assolava. Mas podia destruir, e deixar que destruíssem. Foi o que fez com pleno êxito.

A ser verdadeira esta interpretação, e há 357% de probabilidade de ser, estamos perante algo normal. Será até um monumento à normalidade. Os partidos são grupos que se organizam hierarquicamente, assim causando conflitos inevitáveis que decorrem das diferenças de estatuto entre os seus membros. Acresce que as lideranças partidárias são inerentemente voláteis nos partidos que disputam a governação, pois há diversos factores de desgaste fora do controlo dos chefes. Sendo a razão humana uma faculdade encapsulada no corpo de instintos e paixões onde radica a nossa identidade, nada mais natural que a motivação de Seguro para derrubar Sócrates fosse do foro estritamente afectivo.

Colhe também reflectir sobre o conselho do Paulo para que não se cometa o mesmo erro. Mas, porquê considerar a exclusão cirúrgica como algo a evitar? É que os factos defendem a tese oposta: o que Seguro fez a posteriori confirma o critério do seu afastamento a priori. Talvez o que se tenha passado, então, seja do domínio da capacidade de escolher aqueles com quem se quer estar lado a lado no combate. Esse talento que se perde na noite dos tempos. Esse fruto de uma sapiência. Essa arte da guerra.

6 thoughts on “Arte da guerra”

  1. Esta questão encaixa numa célebre resposta de Raúl Brandão em 1908 a um jovem jornalista. P – Porque é que eles não se entendem? R – Porque todos querem comer e não chega para todos.

  2. Então o que é que querias, Valupi? Olho por olho, dente por dente. Vá lá, vá lá que não mete guilhotina, nem garrrote, na melhor tradição jacobinista tão perto do coração dos grandes homens do socialismo republicano. Vocês também ofendem-se por tudo e por nada. Mesmo com a independência e verticalidade que te conhecemos e que de ora em quando nos lembras para não esquecermos, começo a desconfiar que ainda não compreendes bem os altos princípios de lealdade que acompanham um pontapé às partes no sport da política.

  3. Quando eu um dia chegar a primeiro-ministro (se a ideia de financiamento dos défices pelo BCE for por diante qualquer um – incluindo eu – pode ser primiro-ministro e seria bom que em vez de eleições o lugar fosse de preenchimento rotativo pelos portugueses com mais de 16 anos, cabendo a cada um umas horas para desempenhar a função, publicar leis e reunir o conselho de ministro) o Valupi será nomeado meu ministro de Estado. Faremos um blog onde ele, disfarçado anonimamente, dará total e pleno apoio ao nosso governo. Não o quero ter como inimigo e quero que ele seja feliz.

  4. Eu acho o José Seguro um homem doente, com os lábios grossos demais. Gente assim acaba sempre mal (lembrem-se pf do Guterres). Um político deve ter lábios finos, mas não tanto como Passos Coelho, que os tem quase inexistentes (sinal de mentiroso compulsivo). Eu sei que me devem achar patético neste comentários, mas acreditem que não outorgo mais seriedade para mim próprio do que para o Cavaco (animal!). Segundo a Isabel Moreira, o Valupi diz aquilo que aqui escreve em qualquer ocasião. Bem, se isso for assim… continua tudo na mesma. Nada daquilo que li dele me surpreendeu, e acho que está à altura (nula) da classe política deste país. Manso e incompetente.

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