Siga o baile

Jardim está queimado para além de qualquer recuperação, mesmo que volte a ganhar as eleições, pelo que Cavaco e Passos devem ter gastado as duas horas da reunião que tiveram na segunda-feira a pensar na maneira de aproveitar o melhor possível o novo cenário. E isso implica evitar qualquer possibilidade do caso escalar para a dimensão judicial enquanto se simula uma denúncia que pareça ir ao encontro do sentimento popular de indignação. Foi o que fizeram, e com eficácia, Cavaco e Passos neste dia.

Nos Açores, o Presidente da República foi pura e simplesmente magistral na bailinho da Madeira com que serviu os jornalistas. Atente-se nesta maravilha:

“Uma situação destas pode de facto afectar a credibilidade do nosso país na cena internacional”, reconheceu o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, em declarações aos jornalista em Vila do Porto, na ilha de Santa Maria, onde iniciou esta manhã uma visita ao arquipélago dos Açores.

Por isso, acrescentou, é que o Governo já anunciou que irá apresentar legislação para que “omissões” e situações similares não se possam repetir em outras entidades do “perímetro do sector público”, nomeadamente a administração central, regional, algumas empresas públicas, segurança social e autarquias.

“É necessário que se tomem medidas para que situações semelhantes não venham a repetir-se”, defendeu, admitindo mesmo que “talvez já devesse ter sido feito há mais tempo”.

Questionado sobre as declarações do presidente do Governo Regional dos Açores, que considerou que os principais responsáveis políticos tinham de ter conhecimento do que se passava na Madeira, o Presidente da República escusou-se a fazer qualquer comentário, argumentando que um chefe de Estado não fala sobre afirmações de outras entidades.

Além disso, acrescentou, o Presidente da República “deve medir muito bem as palavras, porque ele é factor de coesão nacional, factor de unidade nacional e de solidariedade entre os portugueses”.

Eis o que ele conseguiu passar de rajada:

– Apesar da credibilidade de Portugal já estar afectada, pois as notícias já foram dadas internacionalmente, Cavaco coloca a situação no condicional e limita-se a constatar a evidência de uma forma que serve igualmente como aparência de censura.

– Desloca a atenção para o futuro, prometendo trancas na porta depois da roubalheira, assim escapando a emitir juízo sobre o passado.

– Transporta o problema para um conjunto mais vasto, onde se incluem múltiplas entidades estatais, de imediato relativizando a situação da Madeira e acabando por a esconder na comparação.

– Sugere que no passado terão existido casos a merecer castigo, o que assinala estar a fazer uma muito provável referência ao Governo PS.

– Impede que os portugueses saibam qual tem sido o seu real conhecimento da situação, aplicando o contrário do que defende na sua usual retórica do falar verdade.

– Utiliza o tema da coesão nacional como protecção para não ter de emitir considerandos acerca do caso quando não lhe convém.

Isto mostra, pela milionésima vez, que Cavaco é um político altamente sofisticado. Tão poderoso que se permite ultrapassar os limites éticos de forma grotesca por vezes, pois até agora a vida sempre lhe correu bem e para ele a política são estas manobras e mais nada. É a figura principal do regime democrático pela sua influência ao longo de 30 anos, o que serve de espelho para quem quiser descobrir o país onde calhou nascer ou viver.

Passos, na entrevista, seguiu o mesmo guião. Apontou para o futuro, calou o passado e saboreou a oportunidade de simular um afastamento da infecta Madeira. Agora, será só esperar pela vitória de Jardim, de preferência com uma qualquer penalização eleitoral para a catarse ser completa, e aguardar que ele anuncie de seguida o abandono por questões de saúde.

Siga o baile.

4 thoughts on “Siga o baile”

  1. se investigam muito ainda descobrem uma coelheira na madeira. lembram-se de uns investimentos anunciados em visita conjunta do cavaco com o rei de espanha à madeira?

  2. Contributo para uma acta (fictícia?) da reunião do Conselho Nacional do PSD de 12.07.2011 (ou como afinal havia mais palavras para além de “desvio colossal”, mas não entre “desvio” e “colossal”, ou, ainda, como de uma penada se enganam a troika e o povo

    Pedro Passos Coelho (PPC): Companheiros e Companheiras, há um desvio colossal nas contas da Madeira, coisa perto de 1,6 mil milhões de euros.
    Conselheiros: AH! E agora?
    Conselheiro não identificado: É que isso pode dar chatices e a malta, estando fora do poder há muito, estava a contar com, pelo menos, 3 mandatos seguidos. Depois, não podemos perder a Madeira, que tem eleições regionais em Outubro.
    PPC: Não se preocupem. Já falei com o Cavaco, que também já sabia da coisa. Já cozinhámos a solução.
    Conselheiros em coro: E qual é?
    PPC: Vamos deixar cair nos nossos jornais, televisões e rádios a história de um desvio colossal, sem falar da Madeira, dando a entender que isto foi obra do Sócrates. Depois, e para tapar o buraco vamos tomar medidas extra, para além das da troika, impostos e coisa e tal, com a desculpa desse desvio colossal do Sócrates.
    Conselheiro Grilo Falante: Mas então, quando se descobrir que o buraco é na Madeira e não do Sócrates, vão poder dizer que, por causa das eleições na Madeira, o Primeiro Ministro e o Presidente da República foram cúmplices na ocultação de informação à troika e que, por isso, nos portamos como os Gregos. E vão poder dizer que o Primeiro Ministro e o Presidente da República mentiram ao povo, ocultando deliberadamente a origem do desvio, com a desculpa do Sócrates.
    PPC: Porra, mas de que lado estás tu afinal? Não te preocupes, eu e o Cavaco pensámos em tudo. Quanto à troika, quando souberem vão perceber que, com as medidas extra que vamos tomar, o caso da Madeira não vai ter grandes efeitos no défice e, por isso, não vão fazer muito alarido. Quanto à populaça, para que servem os nossos jornais, rádios e televisões? Hã, diz lá! Para que servem? Basta apenas embrulhar um pouco a coisa, dar a entender que as derrapagens do Sócrates e a aldrabice do Jardim são a mesma coisa e a populaça engole tudo!
    Conselheiros em coro: Muito bem! Apoiado!

  3. Há uma falha na citação que fazes da faladura da luminária de Boliqueime, caro Valupi. Sua Excelência não disse que “uma situação destas pode de facto afectar a credibilidade do nosso país”, mas sim “a CREDEBILIDADE do nosso país”. O homem anda há anos a repetir o mesmo “neologismo”, sem que lhe caiam os dentes ou alguém o alerte para a bojarda, o que mostra bem quão CREDÉVEL ele é!
    Houve em tempos um anúncio a uma pasta dentífrica em que o amigo de um tipo com mau hálito pensava para si próprio que devia alertá-lo para o facto e sugerir-lhe o uso de Pepsodent, Colgate ou lá o que era, para eliminar o problema. A frase-chave era: “Tenho que lhe dizer!”
    Infelizmente, na corte sabuja que rodeia Sua Excremência não há lugar para amigos e ninguém lhe diz, antes parece imperar o medo de perturbar o génio. Sabem todos eles e elas que as boas intenções do prevaricador seriam certamente relegadas para segundo plano e Sua Obsolescência Reverendíssima veria apenas a “ousadia” do lacaio que lhe apontava o erro. Rancoroso e vingativo como é, não tardaria a aplicar um par de patins ao ingénuo, privando-o da sua magnífica e luminosa convivência e benesses correlativas! Quem é que se arrisca voluntariamente a uma desgraça dessas?

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