Patos com laranja

Para além de ser um dos maiores produtores de inteligência e sensibilidade na blogosfera portuguesa, João Lopes defende uma causa à qual me quero associar: acabar com a vexante bolinha vermelha nas televisões.

De facto, vivemos num espaço televisivo todos os dias marcado pelo moralismo medíocre das telenovelas, pela demagogia cultural de muitos concursos, enfim, por uma vaga de publicidade que pinta quase toda a gente (a começar pelos mais jovens) como tarados sexuais… E, no entanto, tudo isso passa como coisa “natural”. Que defendo, então? Mais bolinhas vermelhas a enxamear os nossos ecrãs? Nada disso. Apenas um pouco mais de crença na inteligência dos espectadores. E, sobretudo, um pouco menos de hipocrisia.

Televisão com bolinha vermelha

1 – Entre outras agressões e obscenidades, a publicidade de rua da nova edição da Casa dos Segredos (TVI) está a utilizar um cartaz em que alguém, supostamente um concorrente, faz saber que teve “um caso com um ministro”. Dito de outro modo: em nome do divertimento, continua a promover-se a grosseria e o vazio mental, formatando-se as sensibilidades da população com uma pornografia de palavras e imagens que reduz o factor humano a coisa ridícula, irrelevante, sempre descartável.

2 – É aqui que estão as grandes questões culturais, mais do que na passagem de obras-primas do cinema (e não só) com bolinha vermelha no canto do ecrã… Aos moralistas que se chocam cada vez que a televisão difunde algo de genuinamente adulto, vale a pena colocar uma questão muito cândida: como encaram o facto de uma criança (qualquer uma) deparar com cartazes e máximas deste teor a poluir o seu quotidiano visual?

As grandes questões culturais

Declarado o meu apoio, reconheço a utilidade da bolinha vermelha para a vida hormonal púbere e adolescente de milhões de concidadãos, particularmente num tempo ainda sem Internet e sua oferta gratuita de todo o tipo de erotismo e pornografia. Realmente, a bolinha vermelha tinha a grande vantagem de avisar a malta para a iminência de um par de mamas a chegar ao ecrã. Isso foi um inestimável serviço nunca devidamente reconhecido e agraciado. Está ao nível da estratégia de marketing da TV Cabo, que durante anos serviu pornografia às boas e cristãs famílias das classes média e alta violando tranquilamente a lei e sem cobrar um tusto, no celebérrimo canal 18. São os operadores de TV a contribuírem para uma sociedade com mais orgasmos, missão com os seus méritos.

Porém, contudo, todavia, há uma nada sexy consequência quando se reduz a moralidade às partes pudendas e suas funcionalidades, ou à linguagem vernacular, ou até às imagens de violência física e morte. Ao se assinalar um qualquer problema temático, verbal ou imagético, está-se a perverter a obra e a perverter o espectador. A obra fica subjugada por um elemento censório absolutamente arbitrário, invariavelmente absurdo, definitivamente inútil. O espectador é tratado como um ser acrítico que deve confiar numa bolinha vermelha para afastar terceiros, ou afastar-se a si, de uma qualquer experiência intelectual. Caso continue a assistir ao programa, decorre da lógica do aviso que o espectador deverá preparar-se para alguma coisa que não pode saber o que é, e que tanto pode ser fonte de prazer ou de dor, mas que será sempre algo excessivo, incorrecto ou perigoso.

O que este código pressupõe é a autoridade da comunicação social para decidir por nós o que nos convém sentir e pensar. Obscenidade maior não existe.

15 thoughts on “Patos com laranja”

  1. há uma grande fatia que gosta, não de escolher, que lhe faça escolhas e a comunicação social vive para agradar a maiorias. aos pais, por exemplo, é-lhes prestado um serviço público, o da bolinha, de grande mérito porque assim já podem afirmar com convicção que a culpa de todos os desvios dos filhos está na escola e nas más companhias – é que em casa rola tudo sobre bolinhas. :-)

    (por outro lado, uma e só bolinha, no canto, é a imagem perfeita para traduzir deficiência intelectual. queremos bolas, bem tesudas, ao centro) :-)

  2. Excelente tentativa, maravilhoso esforço, Valupi, mas não passavas se eu fosse o presidente da comissão examinadora dos melhores estudantes do ano em Psicologia. Pelo seguinte: a bolinha pode ter, e tem, entre outras coisas a função do fruto proibido da Tradição e Escritura. Porque, ao desaconselhar algo contrário a certas normas de decência moralista, tal bolinha espevita nos adultos insatisfeitos e adolescentes de fraldas a curiosa necessidade de submeterem as cabeças ao chuveiro cultural desenhado por certas elites.
    Se nãso fosse assim, como é que entenderíamos o verdadeiro propósito duma sociedade que promove e facilita a indústria da imoralidade e da violência no grande futebol do entretenimento e depois à noite na TV e nos cinemas põe restrições em forma de avisos e conselhos para “proteger” o povo inocente de más influências? Hipocrisia a rodos. Saber convencer usando a ciência dos cágados para dominar e controlar a percepção de gente não vacinada tem destas coisas boas: parece bem, rende juros a longo prazo e nem sequer há necessidade de usar violência para “ensinar”.
    De modo que pedires a abolição da bolinha não aquece nem arrefece o processo, crias é em certos fulanos a falsa ideia de que andas a imaginar que andas interessado na suprema liberdade. O que não é o caso, como tu e eu sabemos.

  3. Aqui vai acompanhamento musical (sambinha):

    “Se liga na moral,
    abre o olho,
    quem vai pela cabeça dos outros, meu bem,
    é piolho” :):):)

  4. KALIMATANOS, excelente resposta (como sempre). Aliás, os seus comentários vão sempre para além de uma inteligência fútil, e portanto moderada, como parece ser uso aqui por estas bandas. Além de escrever melhor que o Valupi (uma proeza nada difícil), não se esforça por demonstrá-lo, e isso, para mim, é genialidade natural. Feito o elogia, sigamos para a bolinha…

    —————————————-

    Portanto, a bolinha é para sexo, ó Valupi? Eu sou bastante liberal em termos de pornografia, e tenho pena que não passe incessantemente na nossa TV, em vez da parvoíce do TVShop. É que, por muito que doa à patética elite cultural deste país aculturado, há mais gente que aprecia porno que Manoel de Oliveira. Contudo, sou extremamente sensível a filmes de terror: fico com pesadelos, revejo cada pormenor terrífico das imagens, e reajo emocionalmente em conformidade. Por que carga de água não deve um produto desses ser sinalizado? A casa dos segredos, é como um beijo gay: pode não agradar, mas não traumatiza (se traumatizar é porque agradou). Ver alguém decepado, ou os miolos de alguém sugados, não me parece que seja “matéria de consumo não sinalizável”. Estou a imaginar o que seria alguém começar a ver ou apanhar o Hostel na TV, e atento ao desenrolar da história, muitas vezes com cenários incólumes, subitamente ser brindado com uma sessão de tortura em tempo real. É isto que o Valupi defende? É isto que chama liberdade? Será que não está a confundir “liberdade de mercados” com “liberdade humana”? Pense nisso, antes de se defender com Aristóteles.

  5. Abrupta, pt

    Digo eu que isso não são coisas que se digam ao NAS, porque não são nem ai nem ui. O homem é sempre interessante e original nos seus comentários. A repetição não é a marca dele. Já o mesmo não se pode dizer de ti que escreves muitíssimo pouco para quem tem duas licenciaturas e uns trocos desconhecidos. Vejo farpela de “anonimo” no teu estilo. Tás com medo de revelar alguma coisa que ninguém está interessado em saber?

    Escreve coisas bonitas como o NAS, mesmo que não façam sentido. Tens medo, não é? Não gostas de balbúrdias, tens o tacho arrumado, adoras futebol, só tens um partido e não queres outro nem que te matem. OK, comprendo, jóia, mas não estejas à espera que eu te proponha para um óscar.

  6. estava aqui a pensar, NAS, que tens feito constantemente uma defesa laudatória ao beijo gay. ora por aqui ou acolá, pela internet, essa experiência que tanto anseias experimentar, ou repetir, será um grito no escuro – será sempre, bem visto, um beijo negro tal e qual como já explicaste em outros dias, um beijo de merda. :-)

  7. Cara Olinda, agradeço a leitura atenta que tem feito dos meus comentários (agradeço mesmo). Encontrou o elemento do beijo gay comum entre os meus comentários? Obrigado pela análise. Que lhe posso dizer? Olhe, acontece. Nunca tinha pensado nisso. Se a senhora considera um beijo negro um beijo de m***a, tenho pena, mas não a posso condenar pela sua falta de sensualidade. Devo dizer-lhe, no entanto, que nos meus comentários aparecem muito mais vezes as palavras “liberdade”, “seca”, “mediocridade” e “inteligência”. Por que motivo não reparou nisso? Talvez que os seus próprios fantasmas tenham contribuído para essa análise semântica, grosseira e apressada, bem ao gosto de quem não percebe nada de nada, mas gosta de opinar sobre tudo. Que lhe parece? (a pergunta é categórica; guarde a resposta para si porque só a si lhe pode interessar). Fique bem. E longe.

  8. Caro KALIMATANOS, o respeito é mútuo.
    Os mal-educados e os nada-originais que se aguentem.
    É a vida: a mediocridade não leva óscares.

  9. parece-me mal. mas também me parece bem que releias e refaças a tua análise semântica, grosseira e apressada do que eu disse para, finalmente, engolires e fazeres o quilo. :-)

    (quanto aos fantasmas lá terás de ficar tu com eles visto que prefiro, de facto, personagens sensuais por perto) :-)

  10. A Olinda imita lindamente a Sinhã, de quem aliás gosto muito pela maneira críptica de escrever e que adoro ainda mais porque é uma matrona que não vai em certas modernices. Gostará a Olinda tanto dela como eu?

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