Cineterapia

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Coeurs_Alain Resnais

O cinema King devia fechar, e abrir noutro lado. Num lado onde não se ouvisse a sala do lado ou o Metro a poucos. Mas fui lá ver este filme com 84 anos, a idade do realizador ao tempo. É filme de puto. Surpreendente? Para quem tem Manoel de Oliveira na cinematografia nacional, inevitável. Quando Douro, Faina Fluvial foi estreado, Resnais tinha 9 anos. Um puto então; então, e agora?

Coisas horríveis podem acontecer a quem veja o filme. Como a de nunca ter estado em Paris. Fica o aviso.

Esta é uma obra onde se deve contar o fim. Cá vai: não acontece nada. O realizador filmou um final onde não acontece nada, e as cenas que o antecedem são a meticulosa preparação para esse fim que, por ser nada, pode acolher aquilo que tu queres. Claro, estou aqui a ser alucinadamente optimista, pressupondo que tu queres. Mas faz-me este favor: bate em quem te contar o começo. Se te contarem o começo, perdes o filme. É tão complicado quanto isto. Mas se bateres naquele que te contou o começo, bateres com força, nem tudo estará perdido. E é para isso que vamos ao cinema, para que alguma coisa se salve.

Não, não, não. Isso que se diz ser isto e aquilo, que se repete, não importa para nada. O quê? Isso? Não, não penses nisso. Não ligues a isso. Nem àquilo. Quão mais vale aqueloutro. Oh, muito mais!

Teatro.

A minha cena preferida é discutível. Eis o critério da preferência.

BnF (e podes bater-me com força).

Fala do roupeiro Vítor Sério em 1997

Sou eu que tenho a chave deste espaço
Onde guardo os sonhos mais fagueiros
De quem faz desta equipa um abraço
Num mundo de caminhos traiçoeiros

Nas vitórias o vendaval é de euforia
Nas derrotas chuva de palavras feias
Custam como o duche de água fria
Ao lado das camisolas e das meias

Pela minha parte tenho a psicologia
Do resgate da sua tristeza neste lugar
Lembrando que amanhã é outro dia
E no sábado há outro jogo para jogar

Depois é um quadrado de marmelada
À espera que ele vá activar a insulina
Para que a equipa não fique cansada
E viva os sonhos fechados na cabina

favas com chouriço

Ontem um comentador que tudo faz para vir para a nossa montra, e por tanto fazer merece-o, escreveu que são os comentadores quem comanda o aspirina. Diz que nós ainda não o percebemos. Mas engana-se: nós sabemos dessa grande verdade. É o povo quem comanda os elevados desígnios do aspirina e nós somos apenas os agentes eleitos (por boletim divino) para intermediar essa vontade.
Por ser verdade, e em sinal de reconhecimento, proponho um slogan abrilino: o Aspirina a quem o trabalha. Faz todo o sentido uma reforma. Se for como a nossa agrária, comentadores como este são valiosos, porque dão grande ajuda no enchimento de chouriços. Juntando a amabilidade gastronómica de nos mandarem à fava.
A culpa é da liberdade e suas sequelas. Porque, convenhamos, se não fosse o 25 de Abril, nunca teríamos chegado ao 26. É sempre do 26 que se faz balanços.

Como se come bem no Palácio de Belém

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No último almoço com Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, neste domingo que passou, éramos apenas 5 convivas. Ele, eu e outros três. Calhou ficar a seu lado, mas costumo ficar de frente, prefiro. Começámos com Carpaccio de Atum Fresco Albardado com Coentros Regado com Vinagrete de Pimentos, o qual suscitou genuíno entusiasmo. Seguiu-se Peito de Pato Lacado com Mel Sobre Batata Gratinada com Queijo da Ilha, provocando polémica precisamente por causa do Queijo da Ilha. A paz aterrou sob a forma de Pastéis de Toucinho do Convento da Esperança. E foi por me ter recordado da conversa sobre o Queijo da Ilha com sabor a pato, e ainda com meio pastel na boca e perdigotos kamikaze prontos para levantar voo na direcção do pulôver amarelo do anfitrião, que me virei para ele e disse Olha lá, ó Cavaco, mas para que é que os jovens se hão-de interessar por política e por História de Portugal, e o camandro que para lá disseste na Assembleia, quando o seu Presidente vai à Madeira, leva bailinho dum merdas que só diz merda, e volta com o rabo entre as pernas? Ficou tudo a olhar para mim, atónitos, porque se davam conta de ter eu comido o último pastel. E foi então que Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, aparentemente imune à crise dos postres, me perguntou com oportuno sentido do meu estado, Cafezinho?

Vinte Linhas 257

«Fia-te na Virgem e não corras, vais ver o tombo que levas…»

Esta tempestade num copo de água que por aqui passou no «aspirinab» a propósito dos «posts» sobre a dedicatória rasurada pelo Nobel 98 e o poema «Rosa Luz» leva-me a lembrar duas ou três coisas essenciais nesta matéria. É preciso olhar com distanciação para estas coisas e saber separar bem o percurso das margens. Alguns não perceberam nada e como não estão a par do assunto mas gostam de te opinião, tentaram ver na crítica ao gesto da rasura dos nomes do «Levantado do chão» uma guerra pessoal. Não preciso de dizer que a pessoa em causa não me interessa absolutamente nada. No poema «Rosa Luz» tentaram arranjar um problema sem perceber que eu nunca iria alterar um poema meu por causa da métrica ou das sílabas. Basta pensar que os professores universitários Clara Rocha, Silvina Rodrigues Lopes e António Cândido Franco não perderam nenhum tempo com isso quando discutiram a tese de mestrado sobre a minha obra. Falaram apenas de coisas substanciais e importantes que integram a tese de mestrado do escritor Ruy Ventura. Daniel de Sá apenas propôs uma nova redacção para uns versos, nada mais. Não é um drama. Eu naturalmente não a segui porque se a seguisse o poema já era outro. O azar foi ter havido entradas à margem das leis, como se diz no futebol. Mas ele já estava farto depois de incidentes anteriores. Aprendi com o Agostinho da Silva que as críticas ou os louvores são apenas opiniões; quem tem um caminho segue o seu caminho. A malta aqui no Bairro Alto diz de outra maneira: «Fia-te na Virgem e não corras, vais ver o tombo que levas…»

leve a Sete à Colômbia

As nossas amigas 8 e coisa 9 e tal precisam de levar uma das suas personalidades à Colômbia, para que possa defender tese de mestrado. Como não tem dinheiro para a viagem, as outras faces lembraram-se de dar uma ajudinha e pediram-me que colaborasse na divulgação da campanha. Um pouco de lirismo fica sempre bem e a boa-vontade nada custa. O tema da tese é nobre, o que ajuda à motivação. Tarde, mas ainda a tempo, aqui fica o apelo e toda a informação.

Fala de Leonel Pontes a Cristiano Ronaldo

Tu comias uma banana dentro de um pão
E nunca paravas de jogar em toda a Ilha
Nos torneios diários de futebol de salão
Dando às equipas um toque de maravilha

Nas férias eu já não era o teu treinador
Mas o amigo sempre atento e preocupado
Procurando que te alimentasses com rigor
E seguindo os teus passos por todo o lado

Em Lisboa eu era então o teu motorista
E pronto a ir buscar-te a qualquer hora
Tu ligavas mal o avião chegava à pista
E nós ficávamos a falar pela noite fora

Agora tu fazes anúncios de publicidade
Não tens tempo para o treinador antigo
Mas nada destrói a força duma amizade
E nunca deixei de ser muito teu amigo

o poente do meu girassol

As churinas têm pétalas finas e compridas, rosa vivo, que abrem ao sol, expondo anteras carregadas de pólen. Em tufos baixos formam um tapete refulgente, verdadeira ode à primavera. No choupal, até à beira do riacho, a vegetação está densa. É bom levantar os pés acima das ervas que chegam, algumas, à cintura, e deixá-los cair no desconhecido emaranhado. Há três ruídos nos passos: o som amortecido da terra forrada de verde, o crepitar das folhas secas e o requebro de galhos partidos. Acima, o rumor das copas e o ritmado piar dos pássaros, em que um cuco marca o ponto. Os choupos, em noites de luar convidativo, desenham traços claros para orientarem os nossos movimentos na escuridão.
Por todas estas razões, o fim-de-semana passado ficará marcado em mim por três acontecimentos, competindo entre si em importância ou gravidade. Primeiro, as notícias da nova crise alimentar, determinada pela escassez de cereais, e que ditam a urgência de novas políticas agrícolas mundiais. A este propósito, lembro que temos um ministro da agricultura, embora nestes três anos ninguém tenha dado por ele. Segundo, o verão instalou-se repentinamente, com grande transtorno daqueles que não sabem onde arrumaram os fatos-de-banho. Finalmente, Daniel de Sá, o meu girassol, abandonou o Aspirina B.
Continuar a lero poente do meu girassol

A tragédia de um homem ridículo

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Menezes não tem juízo e saiu do Conselho Nacional em lágrimas, há dias. Já tinha saído de um Congresso em lágrimas, há anos. O homem é um choramingas e consegue contagiar a assistência: a sua passagem pela presidência do PSD foi de ir às lágrimas, seis meses de cachinadas.

Menezes não acertou uma. É um feito extraordinário. Contraria a lei das probabilidades, impondo a evidência: é preciso ter talento, e ser-se altamente disciplinado, para conseguir falhar cada uma das inúmeras ocasiões de comunicação com o País. A miséria começou logo no confronto eleitoral com Marques Mendes, onde exibiu o vazio que transportava entre as orelhas. Daí para a frente, só piorou, piorou, piorou. No pináculo do caso BCP, Dezembro, já estava enterrado. Tinham passado três meses, 12 semanas, e faziam-se apostas para a data de saída. Nos três meses seguintes, o PSD iria entregar ao PCP a liderança da oposição; e de forma inimaginável: sendo conivente com a demagogia da rua, com a retórica da luta. Naquele que foi o período mais difícil para Sócrates em toda a legislatura, quiçá o mais instável para a Nação desde a morte de Sá Carneiro, e que não se voltará a repetir nos próximos 20 anos, o estouvado dirigente dava tiros no pé, no próprio partido e na cabeça. Mas pior ainda era possível, e Vasco Pulido Valente e Pacheco Pereira, de repente e em maluqueira, acordaram para a possibilidade do moribundo PSD acabar às mãos de um gaio Kevorkian.

Menezes não prova que o PSD bateu no fundo, ou que os políticos são uma corja desprezível. Bem pelo contrário. A rapidez com que se conseguiu expulsar este traste é um dos mais optimistas sinais de saúde política. É cada vez mais difícil vender banha da cobra, e cada vez mais insuportável testemunhar o ódio à comunidade que esguicha dos partidos que não alcançam ser mais do que clubes de interesses ou hospícios para esquizóides ideologias, eis a boa lição do esdrúxulo fenómeno que levou um retinto incompetente para a ribalta. Recuperando o narcísico lema, se hoje somos muitos, amanhã seremos milhões a deixar de ligar aos tribalismos partidários, às barricadas, e barracadas, do maniqueísmo esquerda-direita. Em vez dessa forma rudimentar, porque ainda animal, de fazer política, passaremos a querer a coragem e a inteligência. Venham elas de onde vierem, estejam onde estiverem, é nelas que iremos votar. E é com elas que vamos ficar um bocadinho mais responsáveis, um bocadinho mais humanos.

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Menezes não realizou La tragedia di un uomo ridicolo em 1981, ao contrário do que defenderam publicamente Marco António Costa e Ribau Esteves nos últimos dias, isso deve-se a Bernardo Bertolucci. Quando vi o filme, alguns anos depois, não percebi nada daquilo, feliz ignorante das temáticas em causa. Mas a minha adolescência guardou a cena em que Laura Morante tira a camisola vermelha e oferece ao celulóide a imagem das suas gloriosas mamas. Como somos todos, por igual, homens e mulheres, apreciadores de um bom par destas fascinantes glândulas, desde que na sua versão feminina, e sendo daquelas predilecções que não carecem de explicação, partilho o meu entusiasmo de outrora agora. O filme demora muito a carregar, e a cena é lá para o final. O que significa três coisas: um prémio para a paciência, a oportunidade de ver um filme que nos acrescenta e um aplauso para a China, esse império capitalista que nos disponibiliza a raridade cinéfila na Internet e por inteiro.

Não afastes teus olhos dos meus

sungani.jpgTenho uma coisa muito importante a dizer sobre as recentes saídas do Fernando Venâncio e do Daniel Sá do Aspirina B e que, porventura, irá abalar as fundações da blogosfera: os Animal Collective vão dar dois concertos em Portugal no mês de Maio – dia 27 no Porto (cinema Batalha) e dia 28 em Lisboa (Lux). Como foi muito bem referido pelo Fernando Venâncio antes de abandonar o Aspirina, os Animal Collective são a maior banda do planeta e, por isso, se quiserem evitar a criação de uma imagem de vós próprios à qual não estão habituados (o que é uma verdadeira chatice, perguntem ao Daniel Sá), vejam lá se compram bilhetes antes que os mesmos esgotem (os bilhetes, não o Fernando Venâncio e o Daniel Sá, que são inesgotáveis). Mas eu não conheço a banda, exclamarão alguns (entre os quais julgo vislumbrar o tom pouco cuidado nas sílabas e na acentuação do José do Carmo Francisco) – não se preocupem, caralho: não estou eu aqui para outra coisa. Começo por este singelo «Leaf House», uma cançoneta sobre gatinhos, que é suficientemente estranha e genial para separar o trigo dos mais preguiçosos. Ah, ao contrário do Daniel Sá, que, pelos vistos, está alojado nas antípodas do Venâncio, direi que não vou dizer se gostei ou não de não estar aqui. Se dissesse o que não disse sobre o quanto gostei de não estar, continuaria a não estar, né. Desejo-vos, sinceramente, a ausência de qualquer problema pancreático.

LEAF HOUSE (Animal Collective, 2004)

This house is sad
Because he’s not
Inside it

Where does he hide
When someone comes?
To the front door

There’s no one to say: Meow, kitties!

Adeus

Criei, ou criaram de mim, uma imagem a que não estou habituado. Talvez esta seja a verdadeira. Tanto pior se o for, e tanta mais razão para que eu deixe o espaço por conta apenas dos puros de coração. Ao contrário do Fernando Venâncio, não direi que gostei de estar aqui. Se gostasse, continuaria. Desejo-vos, sinceramente, o melhor na vida.

Rosa Luz

Há uma rosa a arder. Já não é lume
Apenas foco de luz sem combustão
No fósforo mal aceso deste ciúme
Só sobejaram os sinais da tua mão

A tua boca foi o botão anunciado
Os teus dedos o que ficou da haste
Procurei a tua voz em todo o lado
Mas foi na rosa ardida que ficaste

Trezentas e quarenta palavras

TREZENTAS E QUARENTA PALAVRAS
(Em memória do Capitão Salgueiro Maia e do cantor José Afonso)
Conheces o gosto da anona? E o cheiro do incenso em flor nas noites húmidas? Talvez.
Mas com certeza não serás capaz de os explicar. Nem eu nem ninguém.
Existem coisas assim: os sabores, os cheiros, as cores, os sentimentos… Há muitos milhares de palavras, mas nenhumas são suficientes para dizer aquilo que só quando se sente se sabe como é.
Eu gostaria de inventar as palavras que faltam à nossa Língua, a todas as línguas do Mundo, para falar de Abril. Em Portugal. Num dia com cravos a florir nas espingardas, porque ninguém queria usá-Ias para matar.
Estavam cansados da guerra, uma guerra má como todas as guerras. Em Angola e em Moçambique e na Guiné. Era o medo em Portugal. Havia verdades que era proibido dizer. Havia muita gente que mal tinha que comer. Havia muita gente sem casa onde morar.
Foi na madrugada de 25 de Abril de 1974. Os homens que mandavam neste país, e que não queriam que ele mudasse, talvez dormissem àquela hora sem sonhar com o que ia acontecer. No rádio, uma canção começou: “Grândola, Vila Morena”. (Uma revolta que começa com uma canção, sobretudo uma canção como aquela, tem de ser uma revolta boa). Era o sinal combinado. Os militares saíram dos quartéis para dizer ao governo que não o suportavam mais, mas ainda não se sabia quantos portugueses estavam no mesmo lado. Logo se percebeu que eram quase todos, afinal.
E a revolução tornou-se numa festa tão bonita que esse dia foi um dos mais belos da História de Portugal. Foi uma alegria tão grande que se chegou a pensar ter valido a pena tanto tempo de sofrimento e medo para que ela acontecesse…
Mas não! A água mais apetecida é a que se bebe depois de uma longa e penosa sede, e ninguém se deixa estar dois ou três dias sem beber só para ter um gosto enorme ao beber…
Se eu pudesse inventar as palavras que faltam à nossa Língua para dizer isto melhor, nunca mais haveria alguém capaz de duvidar de como foi lindo aquele dia, nunca mais ninguém haveria de permitir que alguma coisa, neste país, se parecesse com as coisas ruins de antes. E muito depressa se mudaria o que ainda não houve tempo de mudar.

de fazer parar o trânsito

A rua é sossegada e o sentido único. Desisti de atravessar, na passadeira, ao ver que o automóvel vinha demasiado depressa. À última hora estacou. Seguiu-se ruidosa travagem de quem vinha atrás. Enquanto atravessava, o velhinho ao volante do primeiro carro dirigiu-me um sorriso apologético e baixou os olhos, envergonhado. Devolvi-lho, acenei que não, encolhi os ombros.
Atrás dele, de janela aberta, o homem novo meneia a cabeça, não e não, reprovador. Duas pregas fundas encimam-lhe a cana do nariz quando explode em direcção a mim:
A promover acidentes!

O meu 31

Rui Castro, um dos autores do 31 da Armada — blogue onde escreve Rodrigo Moita de Deus, que já por aqui passou — convidou-me para um poste. O resultado foi este.

O Rui desafiou um conjunto de personalidades seguindo o seu estrito critério de gosto na leitura, daí o convite. Começou a série com José Tolentino de Mendonça, seguindo-se Ana Cláudia Vicente, Pedro Correia, Filipe Nunes Vicente, Jacinto Lucas Pires, Pedro Picoito e Pedro Rolo Duarte, até agora. Perante o alto perfil desta lista, e tendo em conta que o Rui e eu trocámos os primeiros emails por causa do seu desafio, a minha surpresa, e estulta vaidade, não pára de aumentar.

Excelente iniciativa, num excelente blogue. Mas só para quem gosta da direita inteligente, atenção.

Amo-te, Chalana

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[Nota prévia: tenho mais de 25 anos como sócio do Sporting e as quotas em dia]

No jogo da Taça, em Alvalade, a câmara apanhou Chalana a festejar o segundo golo com movimentos labiais que me sugeriram a expressão Toma lá!, simultâneos com gesto castiço dos braços esticados junto ao corpo, mãos fechadas, na direcção do Shéu. Fiquei contente por ele, comovi-me com a sua juvenil alegria. Também eu celebrei com os lampiões a surpresa do 2-0 no meio da selva. E a coisa ameaçava o terceiro, a caminho do intervalo, o que teria sido, literalmente, espectacular.

Dias antes, jogo com a Académica, Chalana tinha estado na conferência de imprensa onde falou dos 3-0 como quem anuncia o desastre do Titanic aos familiares das vítimas, aos investidores arruinados e aos jornalistas incrédulos. E não era para menos: tal como com esse paquete de luxo, provando que a História se pode repetir duas vezes como tragédia, também o caríssimo Benfica tinha erros na estrutura, materiais de fraca qualidade e uma quantidade ridícula de botes de salvação. O afogamento era certo, marejava-se o coração da Nação Benfiquista.

Continuar a lerAmo-te, Chalana

Vinte Linhas 256

Com que então «Digna-se estar presente» o Nobel

A Secretaria Geral do Ministério da Cultura enviou-me um convite no qual José António Pinto Ribeiro, o ministro da cultura, me convida para a inauguração da exposição «José Saramago – A consistência dos sonhos» organizada por Fernando Gomez Aguilera. Até aqui tudo normal. Mas a segunda parte do convite contém uma frase estranha «Digna-se estar presente o escritor José Saramago.» E digo estranha porque assim até parece que ele está num céu demasiado azul e demasiado alto de tal modo que se digna descer até nós. Vindo deste ministro que aparece a defender o acordo ortográfico como se dependesse dele a salvação do Mundo e que ainda há dias vi numa cerimónia protocolar na Biblioteca Nacional a impedir de modo hostil que um fotógrafo trabalhasse (fotografando o ministro) na entrega do espólio de José Cardoso Pires ao Estado Português, cheira um bocado a esturro. Ainda se o Nobel se dignasse estar presente para explicar porque fez desaparecer depois de 1992 os nomes das pessoas do Lavre que lhe contaram as histórias do livro «Levantado do Chão» e sem as quais o livro nunca teria sido escrito por uma pessoa que nunca viveu no campo mas sim na Penha de França… Além do nome da Isabel da Nóbrega, são estes os nomes suprimidos na dedicatória: João Domingos Serra, João Basuga, Mariana Amália Basuga, Elvira Basuga, Herculano António Redondo, António Joaquim Cabecinha, Maria João Mogarro, João Machado, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António Catarro, José Francisco Curraleira, Maria Saraiva, António Vinagre, Bernardino Barbas Pires e Ernesto Pinto Ângelo. Mas não. Ele não se digna fazer isso. Tal como eu não vou lá pôr os pés. Safa!

“Eu Acho” que ele tem razão

Este comentário de um leitor que assina “Eu Acho” resume, quanto a mim, a situação de uma sociedade que perdeu completamente a noção de que há valores que devem prevalecer sobre os instintos. Por isso o transcrevo para aqui. Assumo a responsabilidade de todas as suas palavras, mas de modo algum o mérito de lhe ter dado mais visibilidade..
Daniel de Sá:
Quando os “residentes” não querem perceber, são os comentadores que passam por não terem percebido. Pois eu acho que percebi muito bem. O Daniel tem apenas razão quando refere a “vulvização” – à qual eu acrescento “vaginação”, “clitorização” e tudo o que diz respeito ao sexo dito sem tabus. Trata-se de uma moda – e de um negócio – a indicar-nos que estamos na Era do Sexo. Muitos dos que escrevem em blogs e noutros locais entendem que para além desse tema não existe mais nada com interesse. Que não há inspiração que suplante o sexo. É o sexo que vende. É o sexo que chama o leitor e, ao que parece, o comprador de “arte”. É moda e é um modo de estar na vida. Quanto mais chocante e desbragado, melhor
Eu acho que com um pouco mais de decoro, de respeito, daquela “reserva” de outros tempos, ainda recentes, todos ficaríamos a ganhar. O sexo tornar-se-ia mais apetecível, quer figurado, quer descrito por palavras. Assim, a tocar pública e abertamente as raias do promíscuo, do chocante, do obsceno, do provocante, do indecente, do sem-regras, vamos de mal a pior. Não havia, por exemplo, tantos casos de mães com 11 ou 12 anos de idade e pais com 13 ou 14 anos. Vamos chamar a isso “evolução” de costumes”? Tudo o que ultrapassa os limites é exagero. Lésbicas e homossexuais sempre os houve. Aberrações também. Não será daí que vem maior mal ao Mundo. Mas não a falta de decoro a que se assiste actualmente, o exibicionismo barato, ostensivo e chocante, que nos bate à porta todos os dias.
Outra coisa: não utilize tantas vezes a palavra «ironia» para tapar buracos. Nem sempre o leitor está à altura de detectar as suas “ironias” nos seus comentários. Chamar, em certos casos, a “ironia” para resolver situações mais controversas, é quase como dar o dito por não dito.
Susana:
Pois terá sido a moral «que impediu representações belíssimas do sexo e do corpo de virem a público». Estou de acordo. Não vem daí novidade. Mas como vamos nós incutir nos nossos filhos a moral que não temos? Os princípios que não nos regem? Que desplante será o nosso ao exigir-lhes condutas que não seguimos? Mesmo que o corpo não seja tabu entre pais e filhos? Sim, porque isso é outra coisa.
O sexo sempre foi tema na arte: pintura, escultura, literatura. Mas não atirado de qualquer maneira à cara de cada um! Hoje, qualquer bicho-careta aborda o tema, quer figurado, quer pela escrita, com grosseria, sem qualidade, sem beleza. Antes com obscenidade, sem pudor, sem preconceitos, como pseudo-arte. Porque é moda? Porque toda a gente o faz? Por dinheiro? É essa a liberdade de expressão artística de que usufruímos hoje?
Poderá dizer que o meu ponto de vista pertence a um passado conservador. Pergunto: passa a evolução das sociedades pelo arrasar de preconceitos lógicos, estéticos e morais? Não vamos, certamente, comparar, na pintura, um cesto de morangos com a representação de uma vagina. O pintor pode ser o mesmo e a sua arte também. Mas ir tão longe, mesmo tendo em conta o «impedimento moral de vir a público» – com as consequências que se entendem por morais ou de bom-senso – poderá tornar-se imoral, ou não?

Livros, gravuras, postais antigos

A porta que se abre na manhã fria
Vai revelar o mundo concentrado
Na altura das estantes da livraria
É possível viajar por todo o lado

Entre autores e títulos há viagens
Num mundo interior que perdura
Outros querem a luz das paisagens
Entre a cor e a sombra da gravura

Entre um livro raro e outro antigo
Entre a segunda mão e a novidade
Acabo por encontrar o que persigo
Para um texto sobre a minha cidade

Há muitos anos que Lisboa é minha
Quarenta e dois para ser mais exacto
Na livraria na estante mais sozinha
O teu olhar faz comigo um contrato

Sem notário ou registo de escritura
Sem cartório e testemunhas a assinar
No tempo de ansiedade e de procura
O teu olhar acende a bússola do lugar