Cineterapia

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Coeurs_Alain Resnais

O cinema King devia fechar, e abrir noutro lado. Num lado onde não se ouvisse a sala do lado ou o Metro a poucos. Mas fui lá ver este filme com 84 anos, a idade do realizador ao tempo. É filme de puto. Surpreendente? Para quem tem Manoel de Oliveira na cinematografia nacional, inevitável. Quando Douro, Faina Fluvial foi estreado, Resnais tinha 9 anos. Um puto então; então, e agora?

Coisas horríveis podem acontecer a quem veja o filme. Como a de nunca ter estado em Paris. Fica o aviso.

Esta é uma obra onde se deve contar o fim. Cá vai: não acontece nada. O realizador filmou um final onde não acontece nada, e as cenas que o antecedem são a meticulosa preparação para esse fim que, por ser nada, pode acolher aquilo que tu queres. Claro, estou aqui a ser alucinadamente optimista, pressupondo que tu queres. Mas faz-me este favor: bate em quem te contar o começo. Se te contarem o começo, perdes o filme. É tão complicado quanto isto. Mas se bateres naquele que te contou o começo, bateres com força, nem tudo estará perdido. E é para isso que vamos ao cinema, para que alguma coisa se salve.

Não, não, não. Isso que se diz ser isto e aquilo, que se repete, não importa para nada. O quê? Isso? Não, não penses nisso. Não ligues a isso. Nem àquilo. Quão mais vale aqueloutro. Oh, muito mais!

Teatro.

A minha cena preferida é discutível. Eis o critério da preferência.

BnF (e podes bater-me com força).

22 thoughts on “Cineterapia”

  1. J’ ai pas compris grand chose à ce que tu as dit là, mais j’ai plutôt aimé le film, surtout lorsque le vieillard se mettait à déconner contra la fille: pauv’fiasse, le hareng, la gueuse, etc. Et puis le film aborde surtout la thématique des coeurs solitaires qui se réfugient dans des activités parallèles. Ce sont des fuites, des peurs privées justement et que l’on essaye de cacher en public. Le film est plutôt intéressant, mon cher Valupi.

  2. Claudine,

    Je ne suis pas entièrement d’accord. J’aime bien le soixante neuf, comme est normal parmi les vieux soixante-huitards, et non seulement par la seule raison d’avoir un penchant pour les choses salées…

    VALUPI,

    Sei que botaste ontem esse post sobre investimentos hebraicos na cultura celulóidica, mas a porra é que já é quase meio-dia e ainda não vi aqui nada a comemorar o grande dia judaico-comunista do Primeiro de Maio. Haja vergonha!

  3. Até era gajo para escrever algo sobre a efeméride mas estou cheio de trabalho. Primito: vergonhosamente, ainda não vi este filme.

  4. Nunca se deve contar o fim do filme, nem sequer o princípio. Eu nunca leio nada antes sobre um filme. Gosto de ir ao cinema sem saber pormenores. Recuso ver os trailers. Não gosto de ser condicionado pelo juízo dos outros. Agora vou ter de esperar seis meses para ver se esqueço os vossos comentários, tal como aconteceu com o Fitna. Basta-me o título (é inevitável), o realizador (não é indispensável), um ou dois actores, c’est tout. Um dos melhores filmes que vi na última década, um portento de ironia com um grãozinho de loucura, não mereceu sequer as honras de uma menção ou crítica nos jornais portugueses. O realizador era desconhecido. Um idiota limitou-se a dar-lhe uma estrela (filme dispensável). Esteve uma semana com salas quase vazias e depois desapareceu, pra nunca mais. Os “críticos” tugas (99,99 % dos quais são masculinos e horrivelmente chatos) só prestam atenção ao que vem “certificado” pelos big brothers lá de fora. As pessoas, por sua vez, precisam de aconselhamento, referências, classificações, estrelinhas, cotações, garantias, tutores. Ninguém arrisca nada de cabeça aberta ao que vier. Consumidores amestrados. Eventualmente protestam quando o produto não corresponde exactamente às informações detalhadas com que já entraram na sala. Se corresponder exactamente, põem um visto, um carimbo e vão para casa felizes. Claro que há sempre as passagens do filme que os treilas não mostram, de que os críticos não falaram, que os amigos não contaram. Esse é o grande susto do espectador amestrado, a parte de terrível incerteza, ainda que reduzida ao mínimo. Imagine-se alguém que só visse jogos de futebol em diferido e com a garantia do resultado sabido de antemão, a autoria dos golos, as histórias do jogo, etc. Só para confirmar e saborear o que já sabia.

  5. nik, e que filme era esse, não nos queres contar?
    lembras-me um filme que também vi, há muitos anos, por mero acaso, e acabei por ver três vezes. nesse dia fui ao cinema sem saber o que havia e calhou já ter visto todos os filmes com algumas referências dessas que elencas. acabei numa sala com pouca gente, a ver «la lectrice» (com a miou-miou, se não me engano). e era um filme belíssimo, visualmente, e com uma alegria e uma curiosidade pelos outros deliciosas. tudo, as pequenas ficções vividas pelos personagens, a história condutora que com elas se articulava, sempre num conceito «o quadro dentro do quadro», tornavam o filme muito sedutor. havia uma personagem que citava constantemente uma frase de montaigne que se manteve na minha memória durante anos. a terceira vez, vi-o porque achei que outra pessoa, que não é consumidora de cinema francês, tinha que o ver. e também ficou rendida. às tantas as recomendações de quem nos conhece serão aquelas que melhores indicações nos dão.

  6. claudia, concordo contigo. E a intenção é essa mesma de não ser preciso entender grande coisa, ou alguma, do que escrevi. Mas que é de ver, descobrir aqueles corações a ferver de frio.
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    CRÓTALO, nessa temática do calendário, deverás saber que no que diz respeito ao respeito, já não há respeito nenhum.
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    Raquel, comboios! Sim, acho que tens toda a razão.

    Quanto ao espaço, nunca me convenceu. Não tem o carisma do Quarteto e ficou sempre numa ambiguidade entre a popularidade do alternativo e o pedantismo do intelectual.

    Já lá ias quando Vox?
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    Primo, há quem não goste. Mas isso é mais uma razão para curtir a peça. O teatro.
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    Nik, a crítica é útil, tanto para despertar interesse como para o aumentar. O desporto não é um espectáculo análogo, pois é uma experiência que ganha significado através do resultado. Num filme, o resultado é o todo da experiência de visionamento.

    E o caso de alguém que esteja a limitar as suas opções por causa da “submissão” aos críticos será anedótico. Provavelmente, essa pessoa continuaria a ser submissa à opinião dos pares na ausência de crítica especializada. De resto, estar disponível para receber influências de opinião é factor crítico de sucesso para se ter a melhor opinião possível, seja sobre o que for. O que está em causa é sempre o mesmo: ter experiências e pensar.
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    Jonas, tens toda a razão.
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    susana, essa ideia de recebermos as melhores recomendações de quem nos conheça, parece óbvia. Mas só na condição de se dar uma sincronia no gosto cinéfilo…

  7. depende, valupi. por vezes, como acontecia no caso referido, pode acontecer ser uma ocasião para se sair do gosto habitual e, afinal, gostar muito.

  8. Não, Valupi. Fui conferir datas e não… nem pensar… ainda não o conhecia nessa altura. Razões que os pais comandam…

    Não concordo que tenha menor carisma que o Quarteto, onde os filmes até são mais “acessíveis” ainda que de qualidade. (Reporto-me ao passado pois não tenho lá ido).

    “o pedantismo do intelectual”… não ligo muito a isso… mas curiosamente um dia destes era para ver se o café estava aberto para levar lá uma companhia mas depois achei que me apetecia uma coisita mais “reles” tipo café de esquina. Ahah.

  9. Susana, o filme era Double Whammy, qualquer coisa como Azar Duplo ou Um Mal Nunca Vem Só. Em Portugal chamou-se, em tradução não muito literal, Remédio Santo… Um filmezito independente feito com orçamento à portuguesa e actores amigos do realizador. Resultado: melhor do que Tarantino, que trabalhava com orçamentos de Hollywood e super stars. Excelente comédia negra. Em lugar de super meios, Tom Di Cillo trabalhou com super ironia e super argumento, além de alguns bons actores a trabalhar por amizade. Felizmente sei reconhecer a diferença entre o que vale muito e o que custa muito.

  10. Raquel, o Vox esteve aberto até aos anos 80. Depois fechou, fizeram uma discoteca, o Voxmanias, um dos sócios era o Carlos Cruz. Aqui o menino andou por lá a servir copos. Fechou, abriu o King. Se moras nas redondezas, e tens mais de 20 anos, podias estar a par.

    Já o Quarteto, fechou em 2007, e morreu recentemente o Pedro Bandeira Freire, fundador, havendo agora quem proponha conservar o espaço sob gestão da Câmara. O seu carisma vem do passado, dos anos 80. Não é, pois, reproduzível. Mas teria sido possível ao Paulo Branco recolher algumas lições do sucesso (perdido há muito) do Quarteto.

  11. Valupi, mudei para mais perto exactamente no início dos anos oitenta se não me falha a memória.
    Teria uns onze ou doze anitos… e era escola, casa, casa, escola…
    Ainda mais a miudagem daqui tinha os Alfa Triplex (desaparecidos), ou um nadinha “ao lado” o Londres que para mim tem um carisma também especial, ou talvez seja toda esta zona que o tenha.
    AH! E o Império (que observo sempre com alguma tristeza).
    Por razões que só às ditas razões interessam ando afastada dos cinemas embora adore um bom filme e quando se menciona os King e o Quarteto (até teve lá um espaço Manga numa determinada altura) recuo alguns anos…

  12. Ler sobre Coeurs lembrou-me:

    Jogos para depois do cinema:

    Quais as coisas que mudava no filme?

    Quais as coisas que não mudava no filme?

    Qual a coisa que me deu vontade de dizer “Não assim, não brinco”

    Qual a coisa que deu vontade de repetir o sentir cá dentro vezes e vezes (como aquelas musicas que não conseguimos parar de ouvir)?

    Jogo do silêncio (esta é especial para um amigo meu que me relembrou que têm de passar algum tempo para a experiência se complete).

    Jogo do que vamos ver da próxima vez?

  13. Valupi, o Quarteto foi um grande fenómeno de cinefilia sem censura desde 1975 ou 1976, prolongado pelos anos 80. Quase tudo o que valia a pena ver ia para lá. Eram as quatro salas mais acanhadas e incómodas de Lisboa, mas estavam sempre cheias. Bom, havia umas sessões de tarde mais recatadas, onde quase se faziam filhos.

  14. Raquel, também fazia meias-noites nos Alfas. O Londres era beto demais, só muito raramente, à tarde. O Império… pois… que nostalgia das grandes salas…
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    dina, depreendo que gostaste. Mas do filme ou do jogo?
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    Nik, sei bem. Foi o centro cinematográfico nacional durante anos e anos; excluindo a cinemateca, bem entendido. E tinham ideias que podiam ser recuperadas, como as sessões duplas com filmes de série B à mistura com clássicos e seres indistintos e esquivos.

  15. Pela diferença de idades que depreendo existir nunca nos cruzámos, mas fiquei a recordar os Alfas… as suas intermináveis filas, quando à segunda feira os bilhetes começaram a ser mais baratos… a livraria… e as cabines telefónicas que me safavam quando não queria ligar de casa…
    Agora estão ali apartamentos…

  16. Hum…. gosto dos jogos porque nos lançam na conversa… uma especie de xadrez de palavras sem tabuleiro. e, como não dá para jogar com todas as pessoas, gosto também disso.

    Do filme…. é estranho mas dizer que gostei ou que não gostei não parece fazer uma avaliação correcta de como o filme me assenta… Se pressionada acho que diria que não gostei… mas fico logo com vontade de corrigir e dizer que gostei da neve

    Ficaram-me bocadinhos de imagens cá dentro. Outras coisas que não me ficaram, qualquer coisa de não conseguido sobre tudo na relação de casal em conflicto. Mas se calhar é o meu interior – qualquer coisa de conseguido na relação de casal em conflito.

  17. Filme generoso e conseguido nas metáforas da cretinice in-consequente amorosa masculina e da amorosa estupidez peregrina feminina. Charlotte face à causa perdida ( amor) é símbolo do masoquismo emocional curado pela perversidade posta em prática: ora esmagando o ego masculino; ora dando livre curso à sua libido – como uma aranha – até à “morte” do seu objecto sexual … Linda a Charlotte! Digamos: “De Puta Madre!”

    Só o que não tem tempo para o amor ( barman) se despede neste filme, com uma “pura” e crédula aptência para seguir um caminho do qual todos ficam exaustos! derrotados! conformados. Ou seja, o do Amor. … e a Charlotte? Imune? Porque será? Talvez algum estúpido ( homem) se ilumine e descubra a resposta …dúvido.! Mas enfim …

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