Amo-te, Chalana

chalana1.jpg

[Nota prévia: tenho mais de 25 anos como sócio do Sporting e as quotas em dia]

No jogo da Taça, em Alvalade, a câmara apanhou Chalana a festejar o segundo golo com movimentos labiais que me sugeriram a expressão Toma lá!, simultâneos com gesto castiço dos braços esticados junto ao corpo, mãos fechadas, na direcção do Shéu. Fiquei contente por ele, comovi-me com a sua juvenil alegria. Também eu celebrei com os lampiões a surpresa do 2-0 no meio da selva. E a coisa ameaçava o terceiro, a caminho do intervalo, o que teria sido, literalmente, espectacular.

Dias antes, jogo com a Académica, Chalana tinha estado na conferência de imprensa onde falou dos 3-0 como quem anuncia o desastre do Titanic aos familiares das vítimas, aos investidores arruinados e aos jornalistas incrédulos. E não era para menos: tal como com esse paquete de luxo, provando que a História se pode repetir duas vezes como tragédia, também o caríssimo Benfica tinha erros na estrutura, materiais de fraca qualidade e uma quantidade ridícula de botes de salvação. O afogamento era certo, marejava-se o coração da Nação Benfiquista.


Na conferência de imprensa pós-5-3, Chalana estava pré-catatónico. Não sabia o que dizer. Era penoso assistir à sua derrelicção em directo, situação de tal crueldade que deve ter originado telefonemas para a Sociedade Protectora dos Animais. Num automatismo que não passaria despercebido ao Gabriel Alves, levava a mão à gravata, entre cada resposta, e rodava impulsivo o nó gordo. Depois voltava à consciência de ser o mais solitário, o mais desamparado, o mais miserável dos treinadores de futebol na Via Láctea. Foi aí que me enchi de amor pelo homem. Um homem que nasceu no Barreiro nos anos 50, e que jogou futebol no último período do amor à camisola, merece ser amado por qualquer uma destas duas circunstâncias. Veio à existência para correr desvairadamente atrás de uma bola nos anos 70 e 80, não para explicar resultados aleatórios de uma equipa cujo maior talento, Rui Costa, tinha regressado ao clube com 12 anos de atraso.

Futebolistas, dirigentes, jornalistas e populares perguntavam-se qual tinha sido o segredo da reviravolta leonina. É que o futebol pede racionalizações últimas e decisivas, absolutas e despóticas, daí o entusiasmo celerado nos discursos analíticos. Surgiram várias explicações, uma para cada um dos rivais: o erro nas substituições e a conversa ao intervalo. Estas figuras são recorrentes na mitologia desportiva, investindo o treinador de conhecimentos técnicos congéneres com os da física, engenharia e estratégia militar ou de poderes demiúrgicos, xamânicos e místicos. Do lado do Benfica, crucificou-se o banco. Até os jogadores se permitiram chamar nomes à direcção técnica. Do lado do Sporting, cometeu-se o pecado da húbris, endeusou-se o treinador, o qual teve imediata factura: 4-1 em Leiria contra o último classificado, num jogo que devia ter sido uma final e que, afinal, acabou por ser um jogo de exibição: da total falta de profissionalismo, ou de inteligência, ou de ranço, daquela gente.

O que virou o jogo em Alvalade foi o momento em que Vukcevic finge que vai para o interior da área e foge para a linha, donde passa a bola para o primeiro golo da partida. Foi esta espontaneidade a alquimia da vitória, o tal ânimo que lhe tem dado golos repentinos, inusitados e de sorte. Como aquele que acabou por marcar, num pontapé contra a lógica. Enquanto todos os outros jogadores optariam por avançar mais uns metros e passar, ele resolveu resolver. Tenho a certeza de que Chalana, ele mais do que todos, se encantou com estas pequenas genialidades.

20 thoughts on “Amo-te, Chalana”

  1. “cota” = distância ortogonal de um ponto ao plano horizontal de projecção

    ou então: vestimenta que os antigos usavam sobre a armadura; espécie de gibão; espécie de corpete que usavam as damas.

    Não estará a confundir com “quotas”? Isso é que é o tipo de coisas que se costuma ter em atraso ou em dia

  2. Será que não existe uma alma que seja à volta do homem que foi um dos génios do futebol português e merece ser respeitado e recordado por isso, que faça a caridade de não o expor a entrevistas e encontre uma alternativa para voz do treinador do benfica.
    Mete dó e até eu que sou Sportinguista me sinto envergonhado e solidário!
    O reduzido vocabulário, a incapacidade para interpretar as perguntas que lhe fazem, uma simplicidade que faz chorar as pedras da calçada, o olhar moribundo e sofredor, talvez o único realmente verdadeiro entre os benfiquistas, não haverá alguém no benfica com coragem para não deixar aquele homem falar?
    O homem foi um grande jogador e é um símbolo do benfica, de resto, ponto final!
    Dá-me pena, para não dizer que é anedótico.

  3. A equipa do Sporting jogou em Leiria como tem jogado quase todos os jogos depois da segunda jornada no Porto: sem lateral direito e sem guarda-redes. Quando Paulo Bento disse a frase assassina «em caso de dúvida devia ter pontapeado» fez o frete a quem encomendou o golpe pois as leis são claras – só é falta se a bola for deliberadamente atrasada para o guarda-redes pelo defesa. O guarda-redes da selecção da Sérvia foi afastado assim e o resultado está à vista.

  4. (ora bolas, o corrector já me lixou a correcção, por isso vou ter de falar no Chalana)

    quando era muito miúda, melhor ainda, quando era mais miúda, vi num jogo de futebol um tipo com uma luva que não era guarda redes e um outro, magro e feio, que lhe fez perder um golo porque, naquele momento, não estava onde tinha de estar. acho que foi nesse dia que comecei a gostar de futebol, me apaixonei pelo Chalana e fiquei a detestar o Carlos Manuel. e se, ainda hoje, tem dias em que sou benfiquista, ao Chalana o devo ou agradeço.

  5. maravilha. o pé de obra especializado vem sempre de leste.

    (corrector, cota também está correcto, uma vez que engloba a derivação latina de «quota».)

  6. acho que é quase assim, Valupi, são os fogachos e os golpes de sorte que determinam os jogos, pelo menos em equipas medianas como as do Benfica e Sporting…

    durante o tempo de jogo, são poucos os treinadores que conseguem realmente mudar alguma coisa.

    para a maioria deles, as próprias substituições, são uma lotaria…

    mas que é bonito ouvi-los quando ganham, é sim senhor. até enchem o peito…

    o chalana não sabe muito bem o que é isso, têm-se dedicado mais a apontar o dedo aos árbitros, a mando de quem pensa que é o patrão, e que o Benfica é uma oficina onde se vendem pneus…

  7. Sim Valupi, o luvas pretas não é o Chalana, eu sei, mas naquele jogo que vi, não me perguntem porquê que não faço ideia, o Chalana jogou com uma luva calçada. E pode vir o mundo inteiro dizer que não, que desta memória não abdico – um tipo com uma luva e um magrito qualquer chamado Carlos Manuel. Acho que as nossas memórias se fazem assim, daquilo que nos fica e passamos a ter como realidade.
    Anos mais tarde, quando me mudei para Lisboa, vivia no prédio ao lado do Chalana e da Anabela (deve ser o único jogador de futebol de quem sei o nome da mulher) e por várias vezes me senti tentada a ir ter com ele e, naifemente, contar-lhe que ele era um dos meus heróis de menina.

    (o das luvas era Alves? )

  8. O Chalana dá a cara pelo Glorioso porque o nosso outro grande orador (Eusébio) teve um problema cardíaco e o nosso outro grande orador (LF Vieira) anda ocupado a chutar as derrotas para canto (as denúncias do “sistema” e outras prioridades de um grande líder).
    Mas ao menos o Chalana não enterra os jogadores de cada vez que perde, como aquele palerma de risco ao meio que vos (des)orienta os putos.

  9. Aqui estão 3 grandes oradores Chalana, Eusébio e LF Vieira.
    O Paulo Bento é certo que fala arrastando-se e com vírgulas a mais como se tivesse tido um AVC, mas tem cura… Basta começar a ler em voz alta as letras do Sérgio Godinho.
    Já aqueles 3…. É urgente um peditório para contratar um porta-voz!

  10. O importante não é a fluência, mas a convicção. Vejam este exemplo: “não há três sem quatro”. O quarto, como já perceberam, é o Belenenses.

  11. luis eme, pois é. Quem ganha tem sempre razão…
    __

    teresa, não duvido. Aliás, qualquer jogador pode usar luvas, por qualquer razão (frio, muito comum). Mas foi o João Alves que se colou a essa imagem, como sabemos.
    __

    shark, e que tal é ser cota?

  12. Bem, para começar, ser cota é impossível a um tubarão, como a qualquer de nós… Bem como ser quota.

    Volta, corrector ortográfico, e explica-nos caridosamente o significado em português de “kota”, palavra de uma língua africana (Quimbundo)…

  13. A. Castanho
    Não fui eu o interrogado, mas “kota” serviria bem para traduzir a Bíblia quando esta fala da sabedoria do “ancião”.

  14. Tem sido porreiro, pá.
    Sobretudo porque ainda não se fez sentir na totalidade do equipamento e é fascinante uma pessoa não precisar de dizer “se eu soubesse o que sei hoje quando tinha 20 anos”.

  15. Isto porque se eu soubesse o que sei hoje quando tinha 20 anos não sabia o que fazer com esse conhecimento todo.
    E hoje sei. Sem prejuízo das bitolas quantitativas, até ver e para meu pasmo (que um gajo ouve-os e ouve-as chorarem-se da pdi e seus efeitos na… no raciocínio e fica num stress danado ao mínimo atraso na formatura).
    Mas o que é que a malta tem a ver com isto, dirão alguns?
    Boa pergunta…

    Chamem-lhe uma mensagem de esperança. Tenho quase 43.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.