Quando a crise chegar, vai ser o bom e o bonito. Bom, porque ela teria de chegar para se dar mais um salto evolutivo. A história da evolução é a história de crises sucessivas e respectivas respostas da pulsão vital. Bonito, porque finalmente a Humanidade se irá unir como ainda não o conseguiu fazer em 200.000 anos de existência neste planeta. A crise será ecológica ou nuclear-bio-terrorista, talvez as duas em simultâneo. A rapidez das alterações climáticas superando todos os cálculos dos imperfeitos modelos à disposição, e a proliferação de material nuclear, tecnologias biológicas e ideologias fundamentalistas, eis uma equação que permite antecipar como inevitável a ocorrência de desastres a uma escala de destruição e violência nunca antes conhecida.
Perante a ameaça de se pertencer à última geração de humanos, ou perante o desaparecimento de cidades, multidões e memória para satisfação da psicose de alguns, a civilização irá unir-se em inteligência e vontade. As diferenças de política, religião, epiderme, género, idade, condição social, sexualidade, profissão, nacionalidade, seja o que for, não desaparecem, mas serão postas no seu lugar: acidentes. Na essência, todos somos inteligências amantes, e amores inteligíveis, sem excepção. Ligamo-nos às coisas e aos outros através da razão, mesmo quando apenas as sentimos. Quem as sente é a consciência, não o corpo, não os sentidos. A consciência é racional, inteligente, volitiva, imaginadora, criativa. E daí percorre todos os tecidos e espaços, onda de liberdade. Ao que sabemos, demorou 13, 5 mil milhões de anos até aparecer no Universo, ou 4,5 mil milhões de anos a aparecer na Terra. Não se deixará destruir sem ir à luta, sem dar o melhor de si, sem cumprir a esperança.
Antes disso, na faustosa e luxuriante Europa, não me venhas falar de crise. Há irmãos nossos que se fazem ao mar sem qualquer garantia de chegarem vivos à costa de Espanha ou Itália, em actos desesperados para fugir da miséria secular onde calhou nascerem, e nós estamos em crise? Nós, que temos constituições democráticas, sistemas de justiça, instituições e serviços públicos em permanente e quase perfeito funcionamento, sistemas de ensino, universidades e organismos de investigação cada vez mais pujantes, liberdades variadas e crescentemente acrescidas, protecções e direitos legais de fazer inveja no Olimpo, desvairada oferta de produtos, bens e serviços especializados, estamos em crise? Só se for uma crise dentária, cercados por toneladas de nozes.




