94%

Chegámos a 12 de Março de 2005 em profunda decadência cívica. Quem se der ao trabalho de ler o que escrevem os publicistas desde meados dos anos 80, mas em espiral desvairada desde 2001, vai encontrar a repetição desta mensagem: os políticos são maus porque o povo não se envolve na política. Se interrogado, o povo usa a versão simétrica do mesmo argumento: não se envolve na política porque os políticos são maus. O consumismo provinciano que foge da cultura, a ignorância financeira que perpetua a pobreza, os baixíssimos índices de escolaridade que impedem o pensamento político, o generalizado anti-intelectualismo que impede o pensamento complexo, a enorme iliteracia que impede até o pensamento simples, mais o diabo a sete, fornecem ângulos sortidos para os diagnósticos. Mas esta visão fica inevitavelmente solta e quebradiça, por ser abstracta. Falta o cimento do concreto.

Na loucura do dia-a-dia, cada um de nós toma decisões lógicas, mesmo que a sua base e consequências possam revelar-se ilógicas. Até 2005, ser adulto implicava ter uma iniciação à fraude fiscal, entre outras disciplinas congéneres. Quando um cidadão se confrontava com um mecânico, pintor, electricista, pedreiro ou canalizador a oferecer-lhe um muito razoável desconto a troco da evaporação da factura, isso, com a repetição, passava a ser parte da normalidade. Afinal, é o que todos fazem, o que é suposto fazer-se. Porquê? Porque, lá está, todos o fazem, olha a estupidez da pergunta. A seguir, o cidadão convivia alegremente com empregados de restaurante que lhe davam molhos de facturas para entregar ao patrão que as usava para esconder remunerações. Este fenómeno, posto que sem vergonha e festivo, confortava-o, dizia-lhe que ele pertencia a uma comunidade tão popular que até incluía casas de pasto. Finalmente, calhando ao cidadão entrar num consultório médico, iria encontrar as mesmas vantagens: se fosse sem factura, a caríssima consulta privada ficava muito mais em conta. Este era o ponto em que o cidadão se tornava partidário do sistema, dado que até os aristocráticos e impolutos doutores o utilizavam às descaradas. Naturalmente, quando apareciam notícias de haver empresários organizados em cartel para roubarem o Estado em dezenas ou centenas de milhões de euros, havia uma certa indiferença misturada com simpatia. Eles teriam sido apanhados, coitados, por um qualquer azar, mas não merecendo castigo especial. Afinal, roubar o Estado era a norma, um sinal de inteligência e integração social. O cidadão optava por ganhar uns trocos, assim recheando a sua vida com um televisor maior, mais 100 quilos de roupa, um carrão, uma segunda casita, aquelas férias em grande. Em contrapartida, 31 mil milhões de euros por ano, o valor da economia paralela em 2005, deixavam de entrar no seu dia-a-dia. No seu e no da sua família, amigos, vizinhos e colegas.


Depois veio um Governo que teve a ideia de começar a recuperar este dinheiro roubado; o qual, caso passasse todo pelos cofres do Estado, nos poria com o nível de desenvolvimento da Finlândia. Causou muito mal-estar este zelo financeiro num país depauperado, claro, e a oposição acusou-o de estar a esmagar os portugueses através do fisco. Mais grave foi o que se passou com a segunda ideia do Governo: ASAE. Uma força especializada em controlar a actividade económica, e decisiva para a reforma cultural, económica, financeira e social a fazer. O choque causado pela mudança de paradigma, em que os agentes económicos foram confrontados com a existência do Estado, foi tão forte que até o Presidente da República se deixou filmar enquanto fazia uma piada sobre esta polícia. O que se escreveu, e continua a escrever, sobre os supostos malefícios da sua actuação, fica como atestado de imbecilidade para os seus autores. São aos milhares os exemplos de menoridade e perversão cívicas que a existência da ASAE directa e indirectamente revelou, tanto de ilustres anónimos como de celebridades, o que permite contemplar a estrutural dimensão da patologia. O cidadão não estava nada habituado a ter de se responsabilizar pela sua actividade económica, acreditando que tudo se limitava a uma simples operação aritmética: subtraia aos consumidores e ao Estado para somar à sua riqueza individual assim obtida à custa do empobrecimento geral. Não se tratava apenas de ser fácil, era também lindo, um novo milagre da multiplicação.

O sector da educação é um dos mais importantes para a economia nacional. Pode mesmo ser visto como o mais importante, seja pelos custos, seja por ser aquele que forma continuamente a inteligência que entra na economia. O assunto, portanto, diz respeito a todos os cidadãos, não se trata apenas de questão relativa a uma classe profissional e seus representantes sindicais. Apesar das indignas, mas habituais, manipulações políticas que este conflito permite à esquerda e à direita, é inegável que a enorme maioria dos professores está barricada numa atitude defensiva. Estão a defender o que têm, finalmente unidos porque finalmente confrontados com a existência do Estado. Durante décadas, o Estado resumia-se aos conselhos directivos, às relações de amizade entre professores e às constantes fornadas de seres humanos que entravam e saíam das escolas. Era um destino ancestral, um cosmos previsível e deprimente, mas confortável. Este Governo veio ameaçar essa paz podre, mas não pode recorrer ao fisco ou à ASAE para resolver rapidamente o problema.

Se os números dos sindicatos forem verdadeiros, e não espantará que o sejam, temos que 94% dos professores reclama o direito de continuar a exercer a docência numa economia, simultaneamente, pública e paralela. Pública, porque a pagamos; paralela, porque nos rouba a qualidade no ensino, logo também no nosso futuro. Estes privilegiados profissionais estão amuados e prontos a despachar ministro atrás de ministro, até todos amocharem e deixarem-se dessas modernices das reformas – coisas muita beras, nascidas nas cabeças pérfidas dos incompetentes do Governo, que só causam problemas e complicações e chatices, que só pioram o que já era mau, dizem-nos eles como se estivessem a falar com os seus alunos. É que 94% é muita gente junta, tanta que não há ninguém que possa ignorar o que está realmente em causa; pelo que o paleio com que se despacha uma aula não chega, desculpem lá.

94%, fosga-se. Eis uma percentagem perfeitamente de acordo com o Portugal que chegou a 2005 através de avenidas paralelas à da liberdade.

38 thoughts on “94%”

  1. deixas-me banzo Valupi: és brilhante na escrita, e na partilha dos teus raciocínios, mas porquê esse comentário sempre tão negativo sobre a qualidade do ensino fornecido pelos professores públicos? Ainda por cima num tempo em que o programa, os manuais, e a internet se misturam numa forma que devia convidar à experimentação pedagógica, mas isso só é possível através de ambientes desopilados, descomprimidos,

    seja como fôr estamos em revolução, vê-se na Grécia, na Primavera deve ter um pico alto imagino que um pouco por todo o lado,

  2. Subscreve integralmente. Acrescentaria ainda que um outro factor que contribuiu para o inflacionamento dos números (dos quais duvido, não pela sua dimensão, mas por serem emitidos pelos sindicalistas menos sérios de que tenho memória), e que tem a ver com a solidariedade forçada pela cobardia. É óbvio que há muitos milhares de pofessores que diariamente fazem um bom trabalho nas escolas e tentam ir contra a gigantesca maré do conformismo e da defesa exclusiva dos interesses corporativos. E é também natural que entre os alegados 94% estejam muitos destes profissionais responsáveis. Mas porque têm então estes professores medo de uma avaliação quando a deveriam defender, para se destacarem dos outros colegas que se dedicam menos ao seu trabalho ? Por medo. Pura e simplesmente. Para evitar conflitos e continuar a viver o dia-a-dia da escola numa mediocridade consensual. Basta pensar como é a vida numa escola para perceber isto. E é assim que este extremar de posições acaba por nivelar o ensino por baixo, ao fazer valer a posição daqueles que não querem ser avaliados porque muito simplesmente não querem esforçar-se mais. E os carolas que ainda fazem alguma coisa começam a alinhar pela mesma bitola.

  3. Esta do Valupi merecia audiência nacional.Também me arrepio com esse número de 94%. Também fiquei espantado com o ataque à ASAE. O povo, apesar de aproveitar, como pode, a situação apodrecida, indo buscar também “algum”, alinhando com médicos, mecânicos e restaurantes sem factura, lá no fundo entende a necessidade das reformas. Se as sondagens baterem certo. Quem não entende são os profissionais da politica, que ALEGREmente cavalgam o descontentamento dos prevericadores acossados, na mira de algum protagonismo. Que a história não lhes perdoe! Nem o povo nas urnas.
    Força Valupi!

  4. Muito bem, Val. Assino em baixo e aplaudo.

    Quando falas do nível de desenvolvimento da Finlândia e de nós podermos lá chegar, não te referes, porém, ao capítulo do civismo, da cidadania, da ética colectiva, em que esses povos do Norte estão (há séculos?) muitíssimo avançados em relação a nós. E não é só o desporto nacional da fuga ao fisco, não é só o pior lado do corporativismo que revelam o grande atraso de Portugal nesse domínio. Poderíamos falar também da maneira como as pessoas em geral encaram o Estado, os deveres de cidadania, as responsabilidades públicas, o equipamento colectivo, o património natural. O que se vê por todo o lado é individualismo predador, ausência de sentido cívico e de ética colectiva. O consenso nacional que às vezes se atinge é no futebol, igualmente revelador de atraso cultural e cívico. Mesmo com o PIB a subir 5% ao ano, não estou a ver como poderíamos algum dia atingir o desenvolvimento social e a maturidade cívica dos países do Norte.

  5. “O cidadão optava por ganhar uns trocos, assim recheando a sua vida com um televisor maior, mais 100 quilos de roupa, um carrão, uma segunda casita, aquelas férias em grande. Em contrapartida, 31 mil milhões de euros por ano, o valor da economia paralela em 2005, deixavam de entrar no seu dia-a-dia. No seu e no da sua família, amigos, vizinhos e colegas.”

    Bom , são opiniões quanto a economias paralelas. Para já todos esses produtos pagam iva e outros impostos , logo a fuga é relativa ; mesmo que ponham os tais trocos a render no banco , 20% dos juros são para o estado. O que o cidadão comum pensa , e alguns teóricos , é que vai aplicar melhor esse dinheiro ( qual ciganos da quinta da fonte , qual quê ; qual ordenado do constâncio , qual carapuça ). Não houvesse o evidente desperdicio de dinheiros públicos e talvez o cidadão não fosse tão relapso a pagar . Ninguém gosta de ver o fruto do seu trabalho mal empregue em estádios de futebol às moscas , por exemplo. Ou em deputados que não põem os pés no hemiciclo. Ou a salvar a “pobreza dos ricos “. Ou em carros topo da gama para os donos do estado ( andem de metro , como na Suécia , ora bolas ).
    E quanto ao fisco , só lembro que 40% da multa é para o fiscal multador. Esses 40% também podiam ser para o vizinho e colegas , não era?.

    Os profs é que já enjoam , e claro , se trabalham para o estado está bem que gramem com ele.

  6. Oh Valupi, estive quase a fazer como a carneirada e a impressionar-me com a forma e a ignorar o importante.

    Não percebi o que é que te incomoda se os 94% se a mobilização dos camaradas do PS contra o governo. Pois é, como sabes o PS tem um boa representatividade nos Funcionários Público (extrapolação a partir dos exemplos que conheço, pelo menos 60% dos FP que conheço são do PS).

    Valupi, um humanista como tu sabe certamente o que acontece a quem destila ódios. Oh homem escolhe outra cruzada, essa já deu o que tinha a dar. Lê o Sun Tzu, talvez ajude.

    Então “mourinha” já acabaste de fazer o caldinho de couves?

  7. Valupi, sem querer fazer disto uma encomenda de trabalho, ando aí a pensar naquele triângulo de valores da Revolução Francesa {liberdade, igualdade, fraternidade} e a pensar que andamos no meio da Revolução Digital, que sucede à Revolução Industrial (analógica) e então para que isto corresse bem, ou o melhor possível, deixo à tua consideração este enunciado:

    – no socialismo de Estado foi-se para o vértice da igualdade, sacrificando os outros – caiu o muro e implodiu

    – nesta fase do capitalismo do final do século XX foi-se para o vértice da liberdade, incluindo a liberdade de enganar os outros com armas de destruição maciça inexistentes e produtos financeiros vaporosos, caíram as bolsas e os bancos

    -então não se podia ensaiar agora o vértice da solidariedade? Sinceramente não sei o que poderá ser uma sociedade baseada no vértice da solidariedade, ficando a liberdade e a igualdade subsidiárias,

    mas por exemplo substituir a dominância do conceito de competição, competitividade, pelo de coopetição – não fui eu quem inventou esta palavra mas não sei quem é o autor – que mistura competição com cooperação parece boa idéia, não?

    em termos simbólicos é regressar do eucalipto ao carvalho, parece

  8. Muito bem, Valupi, como sempre. Bravo!

    Só acrescentaria outra grande maleita nacional, muito menos propalada do que a iliteracia mas, eventualmente, bastante mais danosa, e a que costumo chamar a inumeracia, isto é, a incapacidade para efectuar raciocínios lógicos e quantitativos elementares.

    Um pequeno exemplo, já do dia de hoje, com os burros todos chamados pelos nomes: no “Fórum TSF” (sim, essa grande demonstração diária da demo-incultura nacional…), um especialista convidado, o Professor Luís Bento, dá um exemplo ilustrativo da sua argumentação nestes moldes brilhantes (sic): “- Se a taxa de desemprego em Portugal subir até aos oito por cento, ou seja, cerca de 750 000 desempregados, isto multiplicado por quatro significa que serão afectadas directamente cerca de três milhões de pessoas, ou seja, 30% da população nacional!”.

    E prosseguiu impante no seu raciocínio, candidamente alheio à barbaridade que acabava de lançar para o éter. O mais revelador do inacreditável nível de inumeracia que ressalta deste pequeno exemplo não é somente o facto de ele ser emitido, ainda que ao vivo, numa rádio nacional, por um suposto “especialista”, neste caso, um “Professor” de qualquer coisa – no fundo, um membro da nossa “élite” intelectual!… -, nem o facto de não ter gerado de imediato qualquer tipo perplexidade por parte do entrevistador – o Dr. Manuel Acácio -, que papou e calou, mas sim a incapacidade de alguém, seguramente com mais do que a 4ª classe, não ter feito um exercício simples de aritmética, ao produzir tamanho disparate, que seria pensar “como é que a 8% de activos pode corresponder 30% da população?”.

    Ou então, para pôr as coisas mais simples, se 8% de taxa de desemprego afecta um terço da população, o que aconteceria se houvesse 24% ou mais de taxa de desemprego?…

    Viva Brutogal, vivam os Professores, viva o benfica e vivóvelho, claro…

  9. Pois se fosse 25% de desemprego afectava 104,15% da população os restantes 4,05 são os ucranianos da MFL!

    Por falar em INUMERACIA, gostaria de lhe lembrar que 1/3 não são 30% mas sim , é só fazer as contas :-) Sabe estamos a falar numa daquelas famosas divisões ….

    Ah se quer saber quanto é um terço faça assim, na caixa de pesquisa do google introduza o seguinte: 1/3 *100 Terá então a sua resposta.

    também não percebi qual a sua duvida relativamente à população activa e ás pessoas afectadas por 8% de desemprego, olhe eu acho que deve haver uma relação, não lhe parece. Sim porque a população activa ……….. julgo não ser necessário o resto da explicação, pois não?

  10. Então valupi por onde andas? Não me digas que tiveste uma overdose de ego inflamado.
    Olha que estes elogios alteram-te a percepção da realidade!

  11. shark, estragas-me com mimos. Ainda por cima, acho que estás cheio de razão.
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    claudia, também me apareces cheia de razão.
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    Z, não sou eu que estou contra a experimentação pedagógica com a Internet à mistura, são os professores que odeiam o Magalhães. Mas para além das semi-brincadeiras, são os próprios professores que se queixam da escola há anos e anos e anos. Portanto, quando aparece um Governo disposto a fazer reformas, eu protesto contra a reacção dos professores que é lesiva dos interesses da comunidade. Os professores não conseguem convencer ninguém porque eles nada querem alterar. A sua estratégia passa exclusivamente pela vitimização e pela diabolização do Ministra e do Governo. Isso, para alguém democrata, é intolerável.

    Quanto à tua ideia da solidariedade, creio que estamos a caminhar para isso, sim. Por exemplo, as redes sociais na Internet têm essa componente muito marcada…
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    Jeronimo, concordo a 120% contigo: entre os manifestantes e grevistas há professores competentes, cidadãos exemplares, pessoas excelentes. Pois há. Mas o que criticamos é uma certa reacção de grupo. Uma reacção corporativa, defensiva, estagnante e injusta – ou seja, um reacção reaccionária.
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    Mario, também penso o mesmo. Há uma consciência geral da necessidade das reformas. E os professores têm o mesmo anseio, apenas não admitem perder privilégios ou terem de se esforçar para atingir objectivos. Depois inventam perseguições e acreditam nelas. Humano, demasiado humano.
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    Nik, pois, é tal e qual como dizes. Terá a ver com o catolicismo, que deixou o povo sem cultura financeira, económica e capitalista. Isso gerou várias perversões, pois a ignorância é mãe de irracionalidades várias. Passámos a roubar o Estado, a destruir a riqueza da comunidade. Mas isso pode ser mudado, porque a matéria-prima é a mesma da dos amigos escandinavos.
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    a. moura pinto, está sempre tudo bem com a mistura dos alhos com os bugalhos. Isto é uma festa, é para nos alegrarmos.
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    opiniões, a fuga é real. A Segurança Social recebe menos dinheiro, o Estado não cobra IVA nos casos de fraude, há contrabando que leva empresas à falência, há branqueamento de capitais, e sei lá que mais. Agora, se é verdade que devem vir exemplos de cima, não menos verdade é a noção de que os erros dos outros não chegam para legitimar ou justificar os meus.
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    BOM-BOM, larga o vinho.
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    Ibn, fizeste bem em largar a carneirada. Isto de ter de andar com borregos atrás só atrasa a malta.
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    Marco Alberto Alves, tens absoluta razão: inumeracia. Muito bem apontado. Devíamos fazer cursos regulares de reciclagem. Voltar a fazer o exame da 4ª classe a cada 10 anos.

  12. os prof.s estão contra o magalhães? que estupidez, isso é uma batalha desde já perdida e que atesta um conservadorismo perverso, não sei exactamente como mas a internet tem que passar a fazer parte das aulas, também não deve passar a ocupar toda a aula, claro

    a mim quem me tirava uma demonstração feita no quadro, dantes com giz agora com marcador, de um desses bonitos resultados matemáticos, ou de um esquemas, tira muito,

  13. Venho atrasado e o meu comentario é mais sobre o diagnostico geral do que sobre a questão da educação (sobre a qual concordo com a posição do Valupi). Para o quadro ficar completo, acho que faltou um exemplo recente, triste, e perfeitamente esclarecedor acerca do estado de espirito que referes.

    Ha semanas, um dirigente de uma associação de PME veio à televisão dizer que se houvesse aumento do salario minimo (aumento relativamente baixo de um salario minimo que esta longe do salario médio e que é dos mais baixos na Europa em termos comparativos), os pequenos empresarios reagiriam não renovando os contratos a prazo…

    Um contrato a prazo sendo, em principio, um instrumento excepcional que não tem vocação para ser renovado, o tal dirigente estava a partir do principio que achamos normal a utilização fraudulenta dos CDD para postos de trabalho permanentes o que ja, de si, tem que se lhe diga (e claro que a alma do jronalista não se lembrou de fazer notar esse ponto).

    Mas sobretudo, o salario minimo em Portugal não chega para pagar o preço da renovação da força de trabalho ! Portanto quando um responsavel das PME faz esta triste figura, esta ao mesmo tempo a assumir publicamente que o nosso tecido empresarial (o unico que interessa, porque não podemos esperar que o Pais seja desenvolvido à custa da General Motors ou da Alcatel…) vive à mama do resto da sociedade e que so emprega trabalhadores se eles tiverem outra fonte de rendimento : a familia, a horta, a fraude fiscal etc.

    Isto não pode continuar. Isto não é viavel.

    Venham mais postes como estes e mais reacções como a do Valupi. E sobretudo, venham actos, comportamentos concretos, porque não vamos la com conversas.

  14. Valupi: não trouxe o jornal, mas ontem tinha lá um artigo de página inteira no Público daquela senhora da Infanta D. Maria, que era esclarecedor de umas tantas coisas. O modelo de avaliação já simplex e tudo, ainda está cheio de ruído – que vergonha se eu fosse ministro duma coisa destas ao fim de dois anos ou tinha uma coisa a funcionar ou demitia-me – não podiam fazer melhor para esticar o tacho dir-se-ia,

  15. Z,
    eu também vi esse artigo mas não o li, porque assisti à prestação dessa Sra. no Prós e Contras. Foi confrangedor perceber que ela, à semelhança da maioria dos contestatários, nem sequer conheciam devidamente os contornos do processo de avaliação. Veio isto a propósito sobre o desconhecimento evidente da lei sobre a questão da separação das quotas entre avaliadores e avaliados. Faz impressão que alguém dedique tantas horas a este assunto, nomeadamente a contestar a avaliação de todas as formas e feitios, e nem se dê ao trabalho de se preparar e documentar minimamente sobre aquilo que falo. É bastante elucidativo sobre a honestidade intelectual da referida Sra. Por isso acha que vale a pena perder um só segundo a ler o que quer que seja que ela escreva ?

  16. ah, eu não vi isso do Prós e Contras, então mas eu pensava que a senhora era a directora, ou foi, da escola que teve os melhores resultados do país há dois e três anos, ou coisa assim, ainda antes do relaxe deste último ano

    além disso a senhora ontem deixou tudo por escrito, só faz isso quem não tem medo de ser avaliado no que escreve, porque sobre uma coisa escrita incidem milhões de olhares à caça dos deslizes e erros,

    desafio a ministra a escrever um artigo a responder por escrito, porque nunca lhe vi nada escrito essa é que é,

    mas eu disto estou farto, agora como o Valupi vai trazendo,

  17. o que vc está a fazer é a desqualificação a priori de uma pessoa com base numa prestação televisiva, Jerónimo, não conte comigo para isso,

    venha o escrito

  18. Caro Ibn Erriq,

    agradeço os seus préstimos, mas por ora passo bem sem eles, obrigado. Não preciso de ir ao “google” (??!) para fazer contas de aritmética. Sei muito bem que um terço corresponde apenas por aproximação (por defeito e à dezena) à percentagem de 30% (e, também, que se a 104,15 subtrairmos 100 não dá 4,05, como você afirma…). Mas tudo isto é irrelevante para o essencial da questão.

    O que estava em causa no meu exemplo era apenas a relação entre o número de desempregados e a população afectada directamente pelo fenómeno, que o tal Professor Luís Bento presumiu ser uma relação de um para quatro.

    Como você muito bem diz, nem preciso de lhe dizer mais nada, pois se 8% de taxa de desemprego afectasse directamente 30% da população, isso significaria simplesmente que teria que haver mais activos do que população! Percebe agora o absurdo do raciocínio?

    Se não, faça o seguinte exercício (Aviso: se não tem ainda a 4ª Classe, ou se reprovou na renovação dos últimos dez anos, como alvitra o Valupi, então não vale a pena ler mais): suponha que existem cinco milhões de activos em Portugal (isto é um mero exercício teórico, não uma afirmação certificada pelo I. N. E.), para uma população de dez milhões (facilita o cálculo mental, para não ter de ir ao “google”…). Nesta hipotética situação, a 8% de taxa de desemprego corresponderiam 450 000 desempregados. Admitindo que cada desempregado sustenta o máximo fisicamente possível, que seria de duas pessoas (já que a relação activos/população seria de um para dois), isto corresponderia a 900 000 portugueses afectados pelo fenómeno do desemprego, ou seja, claro, 8% da população. Conclusão: nunca poderia ser uma taxa superior, terá que ser sempre INFERIOR OU IGUAL!

    Como é que, sendo assim, se pode “rebentar com a escala” de modo tão grosseiro? Só por efeito da inumeracia, que leva as pessoas a não terem qualquer espécie de sentido crítico quando se fala de números. Os exemplos pululam, a começar pelo famoso e triste espectáculo do ex-Primeiro-Ministro Ant.º Guterres, Engenheiro, em directo para a tv, a calcular de cabeça 15% do P. I. B. nacional, ou coisa que o valha…

    Mais a sério: um Povo que não sabe efectuar cálculos elementares é como um Povo que não saiba exprimir-se na sua própria língua! Daí que eu considere a inumeracia nacional, no mínimo, tão grave como a famosa e batida iliteracia…

  19. z,

    não é a questão da prestação televisiva. É a questão de ter uma opinião formada e contestar vivamente uma questão sobre a qual não se preparou devidamente. A escola dela pode ser a melhor a nível mundial. E pode até ter escrito os Lusíadas (embora eu tenha alguma dificuldade em entender esse raciocinio do: se escreveu, é porque não tem medo, logo tem razão). É inaceitável que a Sra, com a posição que tem, com as inúmeras vezes em que já apareceu na comunicação social a falar sobre o tema, com as posições veementes de ataque à posição contrária, nem tenha tido a preocupação de ler devidamente a lei que contesta. E vir atacá-la por razões inválidas.

  20. olhe, sabe que mais, cada um que fique com a sua, que somos livres e iguais.

    Acontece que ontem a senhora Maria do Rosário assina um artigo de página inteira no Público em que num total de, creio, 9 itens numerados expõe a sua posição, e diz qual é a posição do ME, tudo sob escrutínio público.

    Enquanto vi a ministra no Parlamento a reconhecer que o ‘modelo’ estava muito burocratizado, etc e tal, e que acedia a modificá-lo

    Pelos vistos você gosta da ministra e da sua equipa, reconhece-lhes legitimidade e idoneidade. Eu não. E espero que a ministra responda por escrito, que é coisa que não lhe conheço, sobre aqueles aspectos técnicos referidos ou que se demita, coisa que qualquer pessoa minimamente honesta já teria feito depois de tanto malogro.

    Discordo radicalmente do Valupi, a ministra é macaca. E quanto à inumeracia que dizer de uma ministra que diz que 100 000 pessoas na rua é irrelevante?

  21. joão viegas, não posso concordar mais: o nosso empresariado é miserável, ainda vai demorar largos anos a transformar as mentalidades. Mas na altura a crítica a essa posição promotora do miserabilismo no trabalho foi unânime, esquecendo a tonta da Manela.

    Entretanto, é um prato cheio acompanhar a série na TSF onde apresentam empresas de sucesso nacional e internacional, totalmente apostadas na inovação pela tecnologia e qualificação dos recursos. Isto muda, mesmo que devagar… ou na mecha, como tem sido procurado pelo Governo.
    __

    Z, qualquer modelo de avaliação que levasse a uma diferença de estatuto entre os professores, com consequências na carreira, iria ser alvo dos mais fortes ataques que fosse possível organizar. Por aí, não pode haver surpresa nem incómodo. Tal como não deveria haver surpresa nem incómodo pelo facto de se fazerem alterações num qualquer modelo. Errado, e muito grave, seria não as fazer quando se constata que têm de ser feitas. Essa sempre foi a lógica do Ministério, desde o princípio – e por razões científicas, metodológicas e de mero bom-senso. Qualquer modelo de avaliação que, de facto, permita aferir uma qualquer objectividade na avaliação de professores tem de ser validado pela experiência dos envolvidos. É tal e qual como com o software, sendo bondoso e benéfico que as alterações venham como resultado da sua aplicação. Aliás, é óbvio que introduzir uma mudança cultural e técnica com este melindre e complexidade, num sistema de ensino caduco e português, é algo a merecer um Nobel de Gestão ou de Paciência.

    Quanto ao sentido da declaração da Ministra sobre os 100.000, é o mesmo do que disse Sócrates aos deputados do PS: “Lamento, mas não podemos estar todos de acordo.” É que o Governo responsabiliza-se sobre todos, os 10 milhões…

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    Marco Alberto Alves, sem qualquer dúvida: a inumeracia é falha gravíssima, com vastas consequências psicológicas e sociais.

  22. mas Valupi sempre houve diferenciação na carreira docente, quando eu era aluno do secundário havia professores eventuais, agregados, não-sei-quê, e efectivos. Aliás um prof. só deixava de ser eventual depois de um estágio e exame de Estado, agora não sei como é, mas não acredito que não haja categorias.

    o que eu acho uma vergonha é os prof.s concordarem que tem de haver uma avaliação, como é óbvio que tem de ser, e não se ter saído disto numa base acertada entre tutela e classe já lá vão uns anos, três pelo menos, que fosse objectiva e credível e transparente, porque as manobras de bastidores em que a oligarquia se protege e promove é que algo que, ou não conheces, como se fosses inocente nesse domínio, ou que conhecendo achas natural tipo é a vida, do Socras.

  23. Marco Alberto Alves,
    as suas pseudo ofensas de pouco valem, não percebi a de 4ª classe, mas isso pouco importa.
    Aliás, tentar indexar a capacidade para o calculo aritmético à escolaridade não abona muito a seu favor.

    Não é necessário sequer ter a segunda classe para perceber que o seu raciocínio é muito pouco consistente. Ou seja acusa os outros de “inumeracia” e depois Vexa reproduz tão grosseira falta de rigor. Seguindo a lógica dos dados fornecidos por Vexa 3,33333333% corresponderia a um magote de gente não lhe parece?

    Por facilidade argumentativa fazum exercício pouco, aliás, muito pouco rigoroso, ou seja, primeiro falou de afectar agora mudou para depender. Pois em meu entender por cada desempregado são afectado mais do que 2 pessoas, será toda a família (descendentes, cônjuges, e por vezes ascendentes) não lhe parece? Ah, mas dois desempregados podem, em extremo, afectar directamente o mesmo número de pessoas ;-)

    Viva a “numeracia”, ciência só à altura professores catedráticos!! Oh pobres e infelizes almas.

  24. Eu percebo o que dizes , V. Mas tu partes dum pressuposto falso , ” o estado é uma pessoa de bem ” . Não é , é chulo e ladrão , pois os donos do estado são parasitas , míseros e medíocres militantes de partidos ( e eu conheço vários , a ganhar do que pago , sem outro atributo que não a fidelidade ao partido ) , e que , na maior parte , não produziram um cêntimo de riqueza , só papéis burocráticos , e a gente percebe. E ficamos a sentir-nos uns tolos ao dar-lhe alimento. Queremos que definhe até procurar uma dieta e uma organização que não nos prejudique . Por exemplo , a multa que vai recair em 200 mil pessoas a recibos verdes ( sem que sejam faltosos em pagamentos , só em declarações que já tinham sido feitas noutros lados ) dá vontade de quê? mandá-los à uva , não é? Querem esse dinheiro indevido para quê ? para receberem , os fiscais multadores , os 40% da multa , e os outros 60% para acudir aos banqueiros ? Temos o direito à desobediência civil , ou não ? è um dever não pagar impostos com um estado como este , que malbarata os nossos recursos , nada menos que 50% .

    Chula-nos com os profs e a sua carreira idílica também.

  25. Z, nunca houve avaliação, não te iludas. O que havia era uma simulação de avaliação, a qual consistia em ter de fazer umas acções de formação, mais nada.

    Quanto à denúncia da oligarquia, é demasiado perigoso fazer acusações sem prova. Uma das consequências desse tipo de discurso é a recusa de todo e qualquer Governo, sempre atacado por ser a “oligarquia” – isto é, sempre atacado por aplicar o poder que legitimamente lhe foi outorgado. Isso equivale à decadência do regime democrático, atenção…
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    Ibn, tens a resposta no próprio texto. Boa sorte.
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    opiniões, tens razão, mas não a razão toda. A fraca qualidade das pessoas que exercem o poder resulta da inércia e alheamento, e também medo, dos restantes cidadãos que abdicam de concorrer aos cargos. A isto acresce que a enorme maioria da população não acompanha a actividade dos políticos nem se serve dos instrumentos, direitos e organizações que poderiam melhorar a situação. Assim, o teu discurso é impotente se te limitares à queixa. A Constituição, o Estado e a sociedade oferecem-te muitas oportunidades para teres uma real influência na qualidade política da comunidade.

    Quanto à actuação censurável do fisco, já aconteceu no passado terem voltado atrás. Talvez aconteça também aqui, ou talvez a situação seja melhor explicada.

  26. Pois , acontece que partidos é que está mal agora ( foram necessários , evidente , num estádio inferior ) Temos de evoluir , e aqui a net e as novas facilidades de comunicação podem ter um papel importante ( abençoado magalhães , pode ter um efeito perverso bué da fixe ) e passar a votar em Pessoas nas quais confiamos que reúnam pessoas competentes e não fieis ao poder para formar governo.
    Não sei como isso vai acontecer , mas lá que vai , podes escrever, O sistema partidário tem os días contados , já não presta. Tu sabes , o post esquerda / direita o confirma. Adorava durar o suficiente para ver.

  27. vou ficar a pensar nisto, Valupi, mereces que eu esquente os neurónios à procura de limiares de significância:

    «Quanto à denúncia da oligarquia, é demasiado perigoso fazer acusações sem prova. Uma das consequências desse tipo de discurso é a recusa de todo e qualquer Governo, sempre atacado por ser a “oligarquia” – isto é, sempre atacado por aplicar o poder que legitimamente lhe foi outorgado. Isso equivale à decadência do regime democrático, atenção…»

    nós vamos a caminho de uma democracia digital, eu não sei bem o que isso é aliás será um processo logo em permanente mutação, tem a ver com o que fala o opiniões, vamos vendo

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