Todos os artigos de Valupi

Clube das bolinhas

A partir de hoje, este blogue entra no clube dos que atingiram 1 milhão de visitas (atenção: contadas pelo Sitemeter). Tal deve-se a dois factores: ao extraordinário elenco de autores que por aqui passaram desde Novembro de 2005, onde se incluem algumas das maiores vedetas da blogosfera, e à atípica resistência ao efeito dissolvente das forças centrífugas, comuns num blogue colectivo.

Influenciado pela repto presidencial de Ano Novo para que se fale verdade, devo explicar que este milhão terá 90% de registos que não correspondem a leitores, apenas a buscas de toca e foge à procura de imagens e palavras. Sobram 100.000 visitas para 3 anos e 2 meses, e estou a ser generoso. Média de 33 mil por ano. Ou seja, pouco mais de 2700 por mês. Isto é, à volta de 80 pessoas por dia. Vamos ainda admitir que alguns utilizam o computador de casa e o do emprego, duplicando o seu registo de visita, e restam 40. Ou menos.

Sim, apertando as bolinhas, ficam 20 amigos que se encontram nesta tertúlia diariamente. Obrigadinho Al Gore.

Trânsitos solares

Interrogações que transitam de 2008 para 2009:

– Aquilo no BCP, quem é que roubou o quê a quem e quanto?
– António Marta continua incomunicável?
– Tirando Cavaco Silva, haverá algum português que tenha acreditado nas declarações do Dias Loureiro?
– Quem foram, afinal, os deputados do PSD que se baldaram à votação e que raspanete Ferreira Leite terá passado aos miúdos?
– Se Carlos Cruz for condenado por pedofilia continuará a aparecer na RTP Memória?
– Pinto da Costa é mesmo mais forte do que o Ministério Público?
Quo vadis Paulo Portas?
– Sem o Louçã, quantos minutos demora até o BE desaparecer em guerra civil?
– Se um militante do PCP entrar numa floresta, e ficar por lá até ter a certeza de não haver ninguém por perto, continuará a acreditar no comunismo?
– Há algum político português que consiga fazer-se respeitar pelo Jardim?
– As casas dadas pela Câmara Municipal de Lisboa, ao longo de décadas, para pagar favores políticos e pessoais vão permanecer com os beneficiários?
– A corrupção que grassa nas autarquias, seja nas licenças de construção ou nos concursos de admissão de pessoal, vai continuar impune e desavergonhada?
– Será que há alguém na TVI que convença alguém da TVI a nunca mais, mas nunca mais, convencer o Eduardo Moniz a entrar em brincadeiras promocionais da Gala de Natal?
– Apesar da merda toda que tem feito com disciplina e afinco, irá o Bento papar o título e ainda ficar a pensar que teve sempre razão?
– Assistiremos ao merecido despedimento de Scolari antes de acabar a sua primeira época no Chelsea?
– Quando é que veremos um preto retinto a singrar num qualquer cargo de responsabilidade na política portuguesa, ou na administração pública, ou no empresariado, ou na investigação?

Ir a votos

Votos de um 2009 com saúde, alegria e o dinheiro suficiente para serem clientes regulares da FNAC e da AMAZON, são os meus desejos para todos os que aqui passam. Especial saudação para os nossos amigos Nik, Z, ramalho santos, Marco Alberto Alves, M, Aires, zazie, claudia e MFerrer. (se esqueci alguma mensagem, mereço o inferno)

Votos para 3 eleições: europeias, legislativas e autárquicas. Vai ser um ano muito rápido, animado, divertido. Os milhões de portugueses que odeiam Sócrates poderão tirar a barriga de misérias e cascar forte e feio nesse tirano, correr com ele sem piedade. O meu desejo é o de que essas pessoas não falhem nenhuma das eleições, que se envolvam nas campanhas, conheçam os programas dos partidos, interessem-se pelas biografias e ideias dos candidatos e tentem convencer aqueles à sua volta da importância de ir votar. Também alimento a fantasia de Sócrates não se recandidatar e deixar o lugar vago no próximo congresso. Adoraria ver o PS entregue ao Alegre e ao Seguro, rodeados pela Ferreira Leite, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Paulo Portas. Que despautério, que alucinação. Que circo.

Votos de que a democracia seja cada vez mais, e para mais, uma paixão e um destino. Está na altura de adaptar o celebérrimo dito de Churchill ao século XXI: A democracia é a melhor forma de governo, apesar de todas as outras que possam vir a ser testadas de tempos a tempos. Os elitistas servem-se da democracia, não a promovem nem protegem. Simulam desavenças entre si só para manterem secretos os mecanismos da repartição dos bens públicos, por isso não há renovação na classe política desde os anos 80. As mesmas caras rodam pelas mesmas cadeiras, é uma perfeita oligarquia que apenas altera os elencos pela morte, doença ou quezília pessoal insanável entre os artistas. Não há escândalos que tenham consequências, é um fartar vilanagem perante a monstruosa ineficácia da Justiça. Quem ama a democracia são os aristocratas. Estes podem ter estudos ou apenas instrução, mas comungam da mesma cultura e querem a mesma civilização. Eles sabem que a democracia é o mais difícil dos regimes porque é aquele onde a confiança tem maior valor. Os democratas confiam na inteligência alheia e seguem uma aritmética básica: aumentando o número de indivíduos inteligentes, aumenta a inteligência da comunidade. Essa inteligência que faz da ética a sua casa, e da coragem o seu caminho. É por isso que a democracia é o regime que depende dos aristocratas para poder nascer e crescer – porque um aristocrata é aquele cidadão que dá o melhor de si para ajudar qualquer outro a ser melhor.

Vamos a eles.

Melhor de 2008

Apareceu no Verão esta maravilha recolhida directamente de vacas alimentadas exclusivamente com chocolate belga (verdade verdadinha). Todos os dias começo o dia a virar de penalti um quarto no quarto. Agora é só esperar que apareça a versão chocolate preto, com mais cacau e menos açúcar. Se vier, Portugal fica na vanguarda da civilização (e cá com um vigor, ó pá…).

Pior de 2008

Pacheco Pereira representa aquilo que de pior aconteceu na sociedade portuguesa em 2008. Funciona como uma lente gravitacional, amplificando com a sua galáxia de opiniões os vícios, fraquezas e disfunções da classe política, da direita, do PSD, da oposição e da intervenção cívica profissional.

2007 tinha acabado muito bem para o Pacheco. Era a cara da resistência interna à gaia demência, a esperança de regeneração do PSD, e em Dezembro teve a coragem de publicar esta meia-denúncia sobre uma situação escabrosa. O silêncio geral que se seguiu confirma a dimensão do que deixou entrelinhas, poço sem fundo de cumplicidades que fazem parte do regime paralelo onde a corrupção e o crime ditam as leis. Infelizmente, 2008 veio desbaratar pecúlio tão promissor, num crescendo de fulanização, distorção e depressão.

O modo como este gabiru da análise política falhou o entendimento do papel histórico de Sócrates é, sob qualquer ponto de vista, espectacular. Em 2005, estava claro que Santana encerrava em desgraça o ciclo começado com a fuga de Cavaco, em 1995; primeira traição a Portugal por desresponsabilização após a entrada dos fundos europeus, e a qual levou a uma sucessão infame de governantes e líderes partidários. Não se poderia piorar, não havia nada mais radical do que a destituição de um Governo com apoio parlamentar, pelo que algo diferente começaria necessariamente após a inaudita decisão de Sampaio. E, de facto, o Governo PS saiu melhor do que a encomenda, obviamente com o contributo decisivo da maioria. Mas a grande, enorme, diferença estava na cultura altamente profissional daquele grupo governativo, apesar das naturais diferenças individuais entre ministros. A ambição reformista de Sócrates atacou um inimigo com décadas, ou séculos, de atavismo cultural e marasmo cívico, brilhantemente diagnosticado pelo José Gil pouco tempo antes. Ninguém sabia até onde se conseguiria chegar nem quais as consequências sociais das reformas. Apenas se tinha consciência, cheios de raiva e nojo, que não se podia esperar mais.

Continuar a lerPior de 2008

No president is an island

Por que é que a Assembleia da República não alterou o Estatuto apesar de vozes, vindas dos mais variados quadrantes, terem apelado para que o fizesse, considerando que as objecções do Presidente da República tinham toda a razão de ser?

Principalmente, quando a atenção dos agentes políticos devia estar concentrada na resolução dos graves problemas que afectam a vida das pessoas?

Foram várias as vozes que apontaram razões meramente partidárias para a decisão da Assembleia da República.

Pela análise dos comportamentos e das afirmações feitas ao longo do processo e pelas informações que em privado recolhi, restam poucas dúvidas quanto a isso.

A ser assim, a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés.

O problema do Estatuto dos Açores, relativo ao berbicacho que o paupérrimo discurso presidencial da noite passada vem mais uma vez confundir, entra directamente para o grupo das clássicas questões bizantinas. Os sábios bizantinos viviam bem, pachorrentos e anafados, pelo que tinham muito tempo livre. Discutiam problemas abstrusos como o de se encontrar a causa principal pelo facto de um homem ter sido atingido na cachimónia por um tijolo. Possibilidades: foi atingido porque ia a passar no momento em que o tijolo caiu ou teria sido atingido porque o tijolo caiu no momento em que ele ia a passar? E assim se divertiam e consolavam. No nosso caso, estamos perante uma querela jurídica, a qual na sua abstracção máxima dá razão à posição presidencial. Porém, caso a Assembleia da República anuísse, estaríamos, pela mesma lógica invocada pelo Presidente, a desequilibrar o regime a favor da Presidência – logo, em detrimento do parlamentarismo.

O Presidente da República não tem feito outra coisa senão errar neste processo, desde o começo. Até parece que foi de propósito, tanta a estupidez: não envia para o Tribunal Constitucional todas as passagens problemáticas; assusta o País em Julho com uma comunicação críptica que deixou meio Portugal perplexo e o outro meio estupefacto; não consegue expor convincentemente a sua posição nos 5 meses seguintes; promulga o Estatuto, mas exibe-se ressabiado a disparar em todas as direcções. Ao menos que o discurso fosse bom, mas nem medíocre conseguiu ser:

– Que cena é essa das vozes, vindas dos mais variados quadrantes? Vozes?! O Presidente anda a ouvir vozes ou acha que a política é o reino da vozearia?…
– Que maluquice é essa de sugerir que a atenção dos agentes políticos devia estar concentrada na resolução dos graves problemas que afectam a vida das pessoas? Quer dizer que não está? Então, que se digam os nomes e se apontem os prejuízos. Mas, vejamos, que se está a propor? Será uma reedição do deixem-me trabalhar agora em versão deixem-me ser eu a mandar? Esta passo arrisca-se a ser aviltante, transmite a ideia de uma desejada capitulação da vontade democrática face aos desígnios presidenciais.
– Que raio são razões meramente partidárias? Ou serão as razões meramente partidárias, para o Presidente, de si e em si, politicamente insuficientes e moralmente ilegítimas? Serão os próprios partidos demasiado partidários para o gosto do Presidente?
– O Presidente faz análise de comportamentos, o que faz dele um psicólogo ou um etólogo.
– O Presidente faz análise de afirmações, o que faz dele um linguista ou um hermeneuta.
– O Presidente recolhe informações em privado, o que faz dele um espião ou um coscuvilheiro.
– O Presidente admite ter poucas dúvidas quanto a isso. Tudo bem, mas quais são elas? Sabemos que serão pelo menos duas dúvidas, talvez três ou talvez trinta, mas se ainda tem dúvidas como é que pode vir falar ao País? Não seria melhor esclarecer totalmente o assunto em vez de despejar insinuações birrentas?
A ser assim, a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés. Dizes bem, Presidente, usando o condicional. Já quanto à tua prestação na ida à Madeira, onde foste humilhado, e no caso do Parlamento Regional da Madeira, onde a Constituição foi ofendida, não restam quaisquer dúvidas: a nossa democracia sofreu, e vai continuar a sofrer, um sério revés.

O país gripado


Este filme publicitário do medicamento Ilvico N tem passado na RTP Memória (pelo menos), e esteve disponível durante uns dias no YouTube, algures no início de Dezembro. Começa por mostrar um homem de cama, ao telefone. Este informa um colega de que vai ficar em casa por estar doente. O colega diz-lhe que, nesse caso, tratará ele das entrevistas, mostrando-se muito satisfeito com a situação. De seguida a câmara foca as coxas nuas de uma jovem mulher (na imagem). Essa mulher, ao levantar-se, exibe úbere regaço em generoso decote. O filme termina com a mulher avançando dengosa para o entrevistador, estando duas outras candidatas à espera.

Assim por alto, umas 20 pessoas terão tido influência no anúncio supra, entre pessoal do marketing, da publicidade e da produção vídeo. De acordo com uma anedota recorrente no meio publicitário, as campanhas acabam por ser aprovadas pelas esposas dos directores de marketing. Eles chegam a casa, jantam, vêem o Malato e depois mostram as propostas da agência às madames. Os directores de marketing – segundo a sabedoria forjada pelos publicitários nos anos 60, 70 e 80 (quando ainda não havia mulheres em cargos de direcção nas empresas em Portugal) – não se preocupam muito com os consumidores e a inteligência das agências, querem é ter um reclame que não os deixe ficar mal perante a esposa, filhos e amigos. Não estão para levar raspanetes ao deitar durante o período da campanha. No fundo, eles pensam (mal, muito mal) que qualquer ideia acaba por ter o mesmo efeito desde que esteja no ar o tempo suficiente (no que têm razão, mas não a razão toda). E também sabem que ainda não se inventou a máquina que consiga medir a eficácia das ideias de comunicação antes de chegarem aos consumidores (é aqui que entra o valor da agência), pelo que vale tudo (é aqui que ele é desprezado). Ora, se tal ausência de certezas acaba invariavelmente por ser colmatada pelo gosto de alguém, porque não o da esposa?

Continuar a lerO país gripado

Anfibologia da crise

Desde 2000 que é consensual a ideia de não haver no Planeta recursos que cheguem para os consumos que se prevêem na China, Índia e outras potências emergentes onde a classe média cresce dramaticamente. Na alta do preço do petróleo, na Primavera de 2008, uma das teses explicativas do fenómeno sugeria estar a China a comprar desenfreadamente para garantir os consumos próprios no futuro de médio e longo prazo. Para agravar, os especialistas antecipavam o esgotamento das reservas em poucas décadas, tanto por causa da ausência de novas descobertas significativas, como por causa do aumento do consumo global.

Desde 1988 que é consensual a ideia de não ser possível evitar catástrofes ecológicas inimagináveis se continuarmos a emitir para a atmosfera poluentes nas quantidades registadas, quanto mais nas previstas. A questão da origem do aquecimento global é já secundária, pois está em causa conseguir aplicar todo e qualquer meio para conseguir adiar, reduzir ou anular os efeitos nocivos (a maior parte deles completamente imprevisíveis) da alteração das temperaturas.

Após a 2ª Guerra Mundial, a Europa Ocidental e os Estados Unidos desfrutaram de 5 décadas de prosperidade sem paralelo na História. Bem cedo se criticaram as assimetrias económicas entre esse mundo da abastança e desenvolvimento e a pobreza e subdesenvolvimento circundantes. O que um cidadão médio europeu ou americano consome individualmente é escandaloso, aberrante mesmo, quando comparado com a média individual do Terceiro Mundo. Para além disso, temos riqueza espalhada em vias de comunicação, estruturas públicas e privadas, instituições políticas democráticas, órgãos de justiça, forças de segurança, conhecimentos científicos e tecnológicos. Esta qualidade de vida foi obtida à custa dos recursos e ecossistemas globais, ao longo de séculos, e serve agora de meta para quase todos os indivíduos no Mundo.

Então, a crise não é apenas financeira e económica, é civilizacional. Na etimologia da palavra grega krisis está a ideia de separação e decisão, krinein, cujo étimo também se encontra no termo crítica. Mais tarde ou mais cedo, teríamos de tomar decisões quanto ao que vamos fazer com esta Terra perdida nos subúrbios duma Galáxia à deriva na imensidão do Universo visível. Se for mais cedo, talvez não venha a ser tarde demais. Precisamos de encontrar e apoiar os dirigentes que saibam montar este tigre.

Casamento homossexual segundo Jon Stewart

Jon Stewart é um fenómeno de popularidade porque defende ideias, não se limitando aos oportunismos, clichés e palhaçadas do contra-poder. O seu humor apela à cidadania, à assunção de causas, à responsabilidade política que é nossa por direito inalienável nas democracias. 8 anos de Bush ofereceram-lhe um estrelato merecido e cada vez mais relevante nos EUA e fora.

Em todos os programas há uma entrevista que dura à volta de 15 minutos, para menos. É o caso desta com Mike Huckabee, peso-pesado dos Republicanos e do conservadorismo norte-americano. E é notável o empenho, até entusiasmo, com que o nosso humorista aproveita este segmento de 7 minutinhos para escavacar a posição do outro senhor. Posição essa que, sem um pressuposto religioso, se torna indefensável; como até sem legendas dá para perceber.

Jon Stewart não é de esquerda nem de direita. É do centro, aquele território onde se faz política com a inteligência no máximo e o tribalismo no mínimo.

A pistola de plástico do Sr. Nogueira

Há brincadeiras que, pura e simplesmente, não são admissíveis. Os professores não estão nas aulas para brincar e os alunos também não podem estar.

Mário Nogueira não quer alunos a brincar nas aulas. As aulas são um assunto muito sério e só para gente séria. Os alunos, se quiserem brincar, podem sempre participar nas manifestações dos sindicatos, carregando cartazes durante três horas, porque isto da luta contra o fascismo toca a todos e os que começam ainda novinhos tornam-se nos grandes dirigentes sindicais e partidários do futuro. Outra excelente brincadeira consiste em agredir com palavrões e ovos os responsáveis ministeriais e as autoridades escolares; que é tão giro e a malta nos bares dos sindicatos ri-se tanto a ver na televisão eles a fugirem dos ovos, ó pá que galhofa, é um espectáculo enquanto se bebe mais uma e depois outra, só rir pá. Mário Nogueira também autoriza os alunos a fechar escolas a cadeado e a dizer mal do Governo aos papás, porque as eleições estão à porta e o filha da puta do Sócrates vai perder a maioria, o cabrão. Ai vai, vai. O cabrão.

Continuar a lerA pistola de plástico do Sr. Nogueira

Amo-te, Fernando Mendes!

Rara lição na arte do improviso. Eis o único cómico, actualmente em actividade, que gosta do povo. Eis o único herdeiro de Vasco Santana, consegue fazer humor de empatia. Esta cepa está em extinção. E por isso o povo ama-o. Por isso o povo merecia que lhe dessem mais Fernando Mendes.

Feliz Natalidade

Quando for eu a mandar na cristandade (situação que estará por horas, senão minutos), as celebrações de Natal serão alteradas. Em vez do imoral e hipócrita desperdício consumista, que precisou de uma crise financeira global nunca antes vista para ser finalmente reduzido, a quadra terá como propósito levar o maior número possível de pessoas a dançar. Dançarem umas com as outras, com a família, com os amigos e com quem calhar. Para isso se reunirão os indivíduos e as comunidades. A dança começará exactamente no primeiro segundo do dia 25 de Dezembro. E durará até ao último segundo desse mesmo dia, para quem quiser e aguentar. Sim, pode-se ir dormir e voltar a entrar na dança. Haverá mais feliz celebração de um nascimento do que ter toda a nossa gente a dançar?

A Igreja actual nem sonha com o diamante que permanece por lapidar. Falta corpo, sangue, sexo no Natal. Falta nudez e luz para que se reaprenda o que é a santidade, o que é a pureza. A visão gloriosa do parto, dos corpos que precisam de se separar para se poderem conhecer e reunir, é a mais católica das experiências humanas. Caminho, verdade e vida que nos chamam para dançar. A todos, humanos, animais e plantas. Sempre a dançar, a renascer.

Mas porquê com os jornalistas?

Paulo Querido destacou 4 conselhos de Anita Bruzzese, convidada de Crish Borgan. Vale bem a pena ler o artigo todo para melhor discordar do que se diz na síntese do Paulo.

O sempre útil e entusiasta (e nosso!) Paulo é enfático, refere-se a: todos os bloggers portugueses que eu conheço — and I mean todos. Eis o berbicacho: este conjunto corresponderá à nata da classe, aferida por critérios de popularidade. É um subgrupo que inclui jornalistas e pretendentes a jornalistas ou a comentadores oficiais, mais os outros que mimetizam estes. Para estes produtores de conteúdos, o nome é importante, porque está em causa constituir, ou enriquecer, o currículo. É a lógica do Daniel Oliveira e do Rui Tavares, para ir buscar um exemplo paradigmático, onde a passagem para os meios de comunicação profissionais (e de referência) aparece como prémio de consagração pelo tirocínio na blogosfera no momento da sua novidade mediática como canal agregador de elites. A enorme maioria dos bloggers almeja desfecho semelhante, sonha com ele, ufana-se sempre que recebe a atenção de um jornal, rádio ou TV. No entanto, a pirâmide continua a ter a base desvairadamente mais larga do que o topo, o que torna rarefeitos os lugares vagos na mesa dos publicistas profissionais. É o que leva muitos outros a disfarçarem a ambição frustrada, mas obtendo recompensas variadas pelo lado do convívio nas comunidades de autores, de leitores e da rede social própria – onde ainda é sinal de modernidade e sofisticação anunciar a presença em blogues.

É mais do que provável que este ramo da blogosfera já siga os conselhos da senhora. Aliás, o que ela escreve é básico, um registo tão elementar que poderia ser intitulado Anita e a blogosfera. Está a dirigir-se a um público inculto, que só agora entra no meio e que chega sem competências de comunicação. Só isso explica que tenha de botar discurso sobre a importância da gramática, da consulta de dicionários e da veracidade das informações. Ou que apele à procura de fontes de conteúdos fora da Internet, fazendo da novidade um fim em si mesmo numa lógica concorrencial, quando a quantidade incomensurável de informação disponível na Internet pede urgente tratamento de interpretação, correlação e reflexão. Mas o ponto interessante, onde a Anita e o Paulo se cruzam (não, não se trata de outro potencial título), é o da tese subjacente: If you want to be taken seriously by those outside the blogosphere, you’re going to have to verify your facts 100 percent of the time. O que está em causa é inequívoco, trata-se de convencer e encantar esses que não estão na blogosfera. Quem serão? E ainda mais trágico, se não estão na blogosfera, como é que alguma vez iremos conseguir despertar a sua misericórdia e obter as migalhas da sua atenção? Ou teremos de escrever um livro, como a autora não se cansa de recordar (referindo-se ao seu) nos 10 conselhos esgalhados?

Se a ideia for a de utilizar um blogue como meio de promoção para a obtenção de um lugarzinho nos meios de comunicação profissionais, os conselhos que o Paulo Querido em boa hora divulgou são válidos para exercícios padronizados e limitados pelos códigos sócio-profissionais dos jornalistas. Na prática, trata-se de anular a rebeldia e liberdade da blogosfera, uniformizando os discursos pela bitola politicamente correcta, industrial. Para quem não se interessar por esta cenoura, os modelos de referência podem e devem ser procurados noutras áreas da criatividade: literatura, poesia, universidade, tertúlia, teatro, política e happening. Sei lá. É contigo.

O Papa não alinha em paneleirices

Ao arrepio do berreiro que imediatamente se levantou, as declarações de Bento XVI onde se reafirma a posição da Igreja contra o casamento homossexual – aliás, contra os actos homossexuais, o que é ainda mais radical – são lógicas. Estranho seria que a Igreja não definisse com esta clareza o território que ocupa. E, quando muito, devíamos era aplaudir – todos, heteros e homos – o desempoeiramento papal de aproveitar a quadra natalícia para deixar os moralistas anti-católicos à beira da síncope politicamente correcta.

Deus, segundo os católicos, não gosta de homossexuais sexualmente satisfeitos. Que têm os não-católicos a ver com isso? Se os não-católicos não admitem aos católicos que se metam nas suas vidas, porque caralho andam sempre a tentar meter-se nas vidas dos católicos? É que já farta de tanto complexo de inferioridade perante uma Igreja que está reduzida a ser museu folclórico e garante dos feriados religiosos que nenhum ateu quer perder.

Bendita cocaína

Uma das patranhas mais comuns é a da efemeridade da paixão. A paixão passa rápido e, com sorte, depois vem o amor. Dizem-nos, dizemos, como quem se conforma com um último Inverno sem Primavera. São duas, ou três, mentiras seguidas: (i) a paixão pode ser longa; (ii) o que se segue pode não ser o amor; (iii) se passa rápido, talvez nem paixão tenha chegado a ser. É a ciência que o diz, para convencer os tristes e calar os cínicos. Estudando casais que testemunhavam estar apaixonados pela mesma pessoa após 20 anos, descobriram-se estes pequenos-nadas:

A paixão mantém-se no mesmo nível de intensidade inicial.
As áreas do cérebro relacionadas com estados de calma e supressão da dor têm mais actividade nas pessoas com paixões de longa duração.
Pessoas incapazes de paixões longas exibem maior actividade em áreas do cérebro relacionadas com estados de ansiedade e obsessão.

Estás a ver bem o que está em causa? Pessoas apaixonadas vivem com menos ansiedade, menos desgaste, menos problemas de saúde e nos relacionamentos. Vou dizer-te de outro modo: pessoas apaixonadas durante muito tempo vivem muito tempo e, ainda por cima, apaixonadas.

E a cocaína? Larga a fruta ou nem a experimentes. A área do cérebro que a cocaína estimula é precisamente a mesma que está activada na paixão. Se não tens vocação para aspirador, mas sentes curiosidade quanto à experiência, basta que recordes uma paixão e ficas a saber tudo. A cocaína oferece uma versão fatela da paixão, e ainda te deixa paranóico, cardíaco e com muito menos dinheiro. Ah, e também não te voltarás a apaixonar, suprema maldição.

Concerteza, Dr. Hortelão

Rui Hortelão, Director-Adjunto do Diário de Notícias, está certo da legitimidade de concerteza. Os revisores do DN, se os houver, concordaram com o chefe ou abafaram a incerteza. No Público, alguém achou por bem validar o neologismo. E os revisores do Público, se os houver, não quiseram provocar um conflito diplomático ao corrigirem o trabalho da concorrência. Maneiras que, após a consagração por estes dois jornais de referência [hahaha!], é fartar vilanagem.

Concertezamania: I, II, III