À medida que Ferreira Leite continua a falar de improviso, vai aumentando a minha admiração e agrado. É um aumento proporcional à enormidade do que vai dizendo. A última é a da febre, onde é impossível resistir à sua fragilidade. Apetece abraçá-la e dizer Pronto, pronto… Já passou, vai lá para o quarto brincar… A senhora não tem a mínima vocação para o cargo e para a inerente responsabilidade, e por isso ressalta ainda mais admirável a coragem e o sacrifício que exibe. É agora óbvio que ela nunca desejou estar nesta posição, só a tendo aceitado por amor ao partido e genuína indignação com o destrambelhamento de Menezes, a ameaça de Santana e o vazio de Passos Coelho.
As qualidades intelectuais, técnicas e políticas que se dizia possuir não desapareceram, vamos acreditar sem dificuldade. Estão é sujeitas ao Princípio de Peter, devendo ser recolocadas no seu devido lugar na primeira oportunidade. A Manela dá uma excelente terceira linha, falando desbocadamente em reuniões internas e aparecendo perante os jornalistas com uma pose hierática e a fluência verbal das pitonisas. Só que agora já sabemos do que a casa gasta, e o totem foi derrubado. Pelo que a senhora tem de encontrar outra carreira, e eu proponho a via da política-espectáculo, onde facilmente arrumaria em popularidade com o Pulido Valente, Pacheco Pereira e Rebelo de Sousa. Porque na Manela há uma fúria destruidora que só uma fêmea consegue apropriadamente representar. É a pulsão genesíaca que tanto pode criar a luz como instaurar o caos, e isto com segundos de diferença. É assim que devemos entender a referência à interrupção da democracia, essa imagem radical que em poucas palavras une a melhor das intenções com o pior dos propósitos. Ou o tau-tau aos deputados, num responso tão sincero como pífio. Ou agora a febre, falhando por completo a razoabilidade e sensatez do que estava em causa, mas transmitindo essa alucinação maternal que faz do Estado e do Governo um assunto de moral doméstica para vizinho não poder botar defeito.
Obviamente, a chefia do PSD é vítima dos males próprios, ninguém na Comissão Política ajudando a senhora nem querendo saber do que lhe acontece. Depois dá nisto: a postura de atacar o Governo, e Sócrates, a propósito de tudo e de nada surge como verdadeira patologia mental. Todos os outros partidos da oposição fazem o mesmo, todos são uma fraude cívica, sim, mas tal decadência generalizada bem que poderia ter sido aproveitada pelo PSD para se regenerar. Portugal teria ficado a ganhar com a existência de uma alternativa ao PS, e com a existência de um terreno de unidade nacional para as grandes reformas.
Também pode acontecer que o PSD seja incapaz de encontrar cura para a febre laranja. Neste momento, não se conhece nenhum remédio. E o delírio vai aumentando.


