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Para além de arrogante, mentiroso e corrupto, não esquecer que também é rabeta

O caso Freeport vai conhecer alguns dias de alívio, pelo que recomendo ao Sol, à TVI, ao Zé Manel e ao Pacheco que recuperem a não menos apelativa suspeita de paneleirice. Deixo aqui uma pista em forma de pergunta, inspirada na escola jornalística do Mário Crespo: existe algum DVD onde se veja Sócrates no truca-truca com o Diogo Infante? Se existe, queria pedir o favor de não mo mostrarem. Mantê-lo em segredo será um elementar acto de justiça; mas isto é apenas o meu critério, não quero ferir susceptibilidades. Aliás, se der para encontrar um outro DVD – ou mesmo VHS, que se lixe, a vizinha do 4º andar tem um leitor desses a funcionar ranhosamente, aproveito e vou lá a casa ver o filme; e ainda levo uma garrafa de ginja, é só do que ela bebe, a estouvada – com duas bifas, daquelas mesmo muito corruptas, bifas com fotos no Hi5 e cadastro na Praia da Oura, a dar à língua em zonas de protecção especial de bordas indefinidas, e pelo meio levantando a cabeça só para culpar Sócrates por não passar dum rabeta que as deixou ali abandonadas sem outro modo de ocupar o tempo, eu gostaria de pedir emprestada essa prova incriminatória por 2 ou 3 dias. Em nome da verdade nua e crua.

Os básicos

Noventa minutos distam entre dois emails que permitiram à oposição acreditar, por breves instantes, que existe e serve para alguma coisa. A tonteira alastrou, conseguindo envolver o Primeiro-Ministro. Fernanda Câncio explica.

Os que saíram à rua em ceroulas e entraram felizes no berreiro, protestando contra a mentira e propaganda miserável que nos oprime, devem ser louvados. Consciente, subconsciente, inconsciente ou asininamente, esta malta imagina que o Governo, ou parte dele, quis mesmo enganar a populaça. E que não teria encontrado melhor área para o fazer do que a da Educação, nem melhor forma do que através dum estudo que ficaria ao dispor de qualquer mariola para ser analisado e servir de prova condenatória. Parece que os estou a ver, os olhares malignos desses diabólicos governantes soltando fagulhas, a congeminar o genial plano. Primeiro, mandar um email onde se diga que o estudo é da OCDE. Depois, esperar hora e meia para enviar a versão corrigida. Pronto, ’tá feito. Mais uma brilhante manipulação do grande mentiroso – o qual, como é óbvio, óbvio e evidente, do que precisa é de repetidas situações onde se veja confrontado com insultos e ataques à sua imagem. Especialmente agora, particularmente na Educação e precisamente com peças propagandísticas com a tipologia do relatório em causa.

Parabéns, estais aptos a frequentar o ensino básico.

O tapete voador

Os mecanismos comunicacionais vivem da “novidade”. A lógica do seu desenvolvimento depende de haver novas informações todos os dias. Se não for assim, o caso Freeport (como qualquer outro) conhecerá um pico e depois cairá progressivamente no esquecimento, até ao dia em que as mesmas informações já esquecidas aparecerão como nova “novidade”, ou quando haja mesmo “novidades”. Este mecanismo pouco tem a ver com a substância da questão, quando esta existe fora da sua mediatização, como é o caso Freeport. O seu relançamento não se deveu a qualquer fuga processual para os jornais (como sugeriu falsamente o Primeiro-ministro), mas sim a um dia de buscas da PJ e às informações relevantes (declarações de familiares de José Sócrates) que se lhe seguiram. Agora, manter ou não a questão na agenda dos media, cada vez mais depende da orientação editorial desses mesmos media. O situacionismo ou a independência vão ser mais nítidos agora do que nos dias de brasa destes fins de semana, em que era impossível ocultar que havia um “caso” em curso (e mesmo assim a RTP nalguns noticiários e o Jornal de Notícias procederam assim). O que se sabe, informações, contradições, declarações, são de uma gravidade que não pode ser ignorada nem esquecida. No passado, em relação a muitos outros casos de menor importância, a comunicação social manteve-os como “escândalos”, dando-lhe sequência investigativa e persistência editorial, fazendo exigências de clarificação e não deixando que haja esquecimento. Este caso, talvez o que mais gravemente afecta o centro do poder (o único precedente idêntico foi o “caso Emáudio” e houve aí uma deliberada desvalorização para não atingir Mário Soares), não pode ser escondido debaixo de um tapete. Já se sabem coisas a mais para perceber que ele não cabe debaixo de um tapete.

Pacheco

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João Miranda aconselha longa memória para estes dias marcados pelo nevoeiro de guerra. Por razões contrárias às suas, dou-lhe absoluta razão. Quem dera que o caso Freeport permanecesse na memória de todos por muitos e bons anos. Porque, de facto, a sua gravidade pede consequências, pede responsáveis e pede castigos. Neste momento, eu sou um dos derrotados, porque assisto a um ataque ao regime democrático usando-se como arma o que o regime tem de melhor: a liberdade.

Constate-se o que um passarão do calibre de Pacheco Pereira se permite afirmar. No parágrafo citado encontramos as seguintes mensagens:

- O caso Freeport só sobrevive na comunicação social com recurso a "novidades".
- As verdadeiras "novidades", porém, ainda não apareceram.
- O caso Freeport existe para além dos mecanismos mediáticos.
- O que está na origem do caso Freeport é matéria de justiça e investigação policial.
- O Primeiro-Ministro mentiu quando referiu o papel da comunicação social.
- É naturalíssimo que algum jornalista conheça previamente, ou simultaneamente, as buscas efectuadas.
- O trabalho dos jornalistas não está sujeito a escrutínio, podendo-se confiar no que publicam (uma entrevista truncada, por exemplo).
- Entrámos numa fase em que cada órgão de comunicação social irá revelar as suas linhas editoriais.
- Os órgãos que deixarem cair o caso provarão a sua conivência com os interesses do Governo e do PS.
- Antes deste Governo PS, e em relação a outros casos, a comunicação social manteve certos casos como "escândalos", fazendo exigências e impedindo o esquecimento. Por isso, é o que deve voltar a acontecer, no mínimo.
- O que se sabe do caso Freeport impossibilita o seu silenciamento, como se tem feito noutros casos.

Ou seja, o Pacheco declara-se possuidor de conhecimentos e critérios que lhe conferem uma autoridade moral para julgar com radicalidade a conduta de toda a comunicação social. Quem não se conformar ao seu entendimento da questão, estará a servir os interesses do inimigo. Isto não é discurso de comentador, publicista, crítico, não. O que vemos e ouvimos é um militante, um agitador, uma cheerleader que puxa pela claque. Ele afirma que algo de muito grave aconteceu, algo que Sócrates, Governo e PS querem esconder. Daí a necessidade de lutar, lutar pela manutenção do caso na agenda diária. Estamos no reino do maniqueísmo, não se admitem neutralidades nem se fazem prisioneiros.

Ora, quem alinhar com o Pacheco precisa de ter consciência de que se está a alistar no exército dos pulhas e dos imbecis (é escolher). Porque, nesta altura, não pode haver ninguém mais interessado na completa investigação do caso do que o PS, os seus militantes, os seus eleitores e, foda-se!, todo e qualquer cidadão com um pingo de vergonha na cara. O pior que pode acontecer à democracia é retirar-se este caso da atenção mediática, pois isso levaria a que o mal espalhado não pudesse mais ser reparado. Pelo contrário, a investigação tem de bater célere no fundo e, sem uma pausa, continuar a escavar. Está a ser feito um assalto à dignidade do regime. E ver esta questão como um problema de segurança nacional não será exagerado. Das duas, uma: ou o Primeiro-Ministro – e sabe-se lá que outros altos quadros governativos, partidários e políticos – é culpado do mais grave caso de corrupção em Portugal, tendo de ser imediatamente exonerado; ou há portugueses (pelo menos estes) que se dispõem a destruir o Estado de direito, a Constituição e a democracia representativa através da infâmia sobre os seus legítimos representantes.

Eis a suprema ironia: admitindo a hipótese de ter razão, e Sócrates ser culpado, Pacheco continuará a ter agido como uma reles figura. Porque para ele não há presunção de inocência, bastam as percepções, boatos e suspeitas para fazer campanha contra a honra de alguém. As suas afirmações repetem a ideia de que o interesse de Sócrates está em que nada se investigue para além das questões legais (entretanto dilucidadas publicamente ao mais ínfimo pormenor, como talvez nenhuma outra decisão governativa na contemporaneidade); adivinhando-se a sua desilusão por nada de errado ter sido descoberto nesse plano, até apareceu uma autoridade como Freitas do Amaral a validar o processo. Nenhuma prova abonatória o satisfaz ou sossega, e não se coíbe de envolver centenas, e milhares, de pessoas nessa cumplicidade que denuncia impiedoso – jornalistas, deputados, comentadores, militantes, cidadãos. Todos a trabalharem para o encobrimento, o esquecimento, a mentira. Todos contra o Pacheco, pairando por cima de nós no seu tapete voador.

Demasiado Crespo

De um lado tínhamos um dos ministros mais irritantes do Governo, rival em agrado público do apatetado Pinho, protótipo de amanuense governativo e clone de Sócrates. Não se lhe conhece uma ideia política, filosófica ou artística, nem isso parece fazer falta para o cumprimento das suas funções. Do outro tínhamos a coqueluche do jornalismo português, ícone e figura de culto que congrega simpatias transversais. O destino estava traçado, o Ministro perfilava-se na parede de fuzilamento enfrentando espingardas, metralhadoras, granadas e morteiros. Antes mesmo da primeira questão, entravam na entrevista com o resultado em 10 a 0 a favor do jornalista.

Depois, as supostas fraquezas dum e forças doutro intensificaram as forças daquele e as fraquezas deste. Pedro Silva Pereira esteve impecável, até na pequena parte em que se deixou tomar pela natural emoção. E Mário Crespo falhou espectacularmente, até nas partes que lhe correram melhor. E porquê? Porque enquanto o Pedro se manteve dentro da responsabilidade institucional e política que se exige no seu cargo, o Mário foi para a entrevista como se fosse juiz num tribunal sem advogados. A informação ao seu dispor, a sua lista, não lhe deixava dúvidas: havia merda da grossa. A quantidade de escabrosas suspeitas, fundadas em semanas de crescente pressão na comunicação social que culminaram com declarações de familiares e intervenção policial e judicial, tinham atingido um volume que tornava inaceitável qualquer outro desfecho que não fosse o de uma confissão em directo. Daí veio o permanente acinte, o contínuo preconceito, que se transformou em ofensa na famigerada pergunta: Era possível, no ambiente governativo que se vivia, obter favores por dinheiro?

Mas que filha da puta de pergunta! Que se pode responder? Vamos imaginar que o interrogado respondia com Ora, deixa cá ver… bom… Agora que penso nisso… sim… Acho que sim! Esta seria a ocasião para o interrogador poder gritar Ah! Eu não disse? Apanhei-te! Posturas primárias e infantilóides à parte, o que a pergunta de Mário Crespo pretende é desqualificar a resposta negativa. De facto, responder negativamente é sempre tautológico quando se reclamou previamente a inocência. Para se inquirir da possibilidade de corrupção é necessária uma de duas intenções: ou sair do contexto e circunscrever a pergunta a uma abstracção (do género: Acha que os sistemas políticos são imunes à corrupção?); ou disfarçar uma tese dando-lhe a forma de interrogação (passando a mensagem de que o visado detém informação relativa ao tópico, logo aumentando a probabilidade tanto da possibilidade da corrupção como de o interrogado ter sido cúmplice no caso em discussão). Este sofisma, onde se introduz um subtexto inextricavelmente ligado ao contexto, é particularmente canalha, tóxico, e não se distingue de um ataque que ultrapassa todos os limites deontológicos do jornalismo.

Acontece que não é crível que Mário Crespo seja um canalha. A explicação para o seu erro será antes do foro cognitivo, pois ele revelou ter ido para a entrevista genuinamente convencido do sentido do que ia ouvir; a entrevista era uma mera formalidade e o entrevistado não tinha como escapar aos factos. A sua taça estava cheia, o que viesse de novo iria escorrer para fora. E não seria um badameco dum ministro de terceira categoria, industriado para vir mentir ao público, que lhe iria dar a volta. Logo a ele, o grande Crespo! Por isso perdeu por completo o pé, na sequência do justíssimo protesto pela sua perfídia, e deu neste diálogo:

– O tio era, ou não, tio do Primeiro-Ministro?
– O tio era… Está-me perguntar se o tio era, ou não, tio do Primeiro-Ministro?!
– Era ou não? Ou não? É?…
– Ó Mário Crespo… Está-me a desiludir profundamente…
– Temos casos… Desculpe, desculpe…
– Está-me a perguntar se o tio era tio, e se a prima era prima…
– Não, não… Não brinque com palavras comigo que eu não brinco com certeza.

Este jornalista que não brinca com palavras chegou ao fim da entrevista cabisbaixo, nervoso e a falar em realidades que são matéria de investigação. E, last but not least, ainda levou a estocada final – terminou com voz de falsete a agradecer a entrevista, dizendo que esta tinha sido um prazer. Do outro lado veio uma resposta que me obriga a colocar Pedro Silva Pereira no pódio dos ministros favoritos: Foi uma obrigação.

Espada ou pistola?

No jornalismo, em casos como o do Freeport (ou do BPN), há quem valorize o que acusa e há quem valorize o que iliba. O que não se pode fazer é, em casos como o Freeport (no que diz respeito a Sócrates por exemplo) valorizar o que iliba, e no caso do BPN (no que diz respeito a Dias Loureiro por exemplo) valorizar o que acusa. Como não se pode exigir responsabilização ética (para além da legal) nuns casos e noutros não. No comentário passa-se o mesmo, mas o comentário é opinativo, enquanto que se supõe que o jornalismo é informativo.

Pacheco

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Não há comparação entre os casos Freeport e BPN. No primeiro, estamos perante uma suspeita que cruza um Ministro, vários Secretários de Estado, inúmeros técnicos, autarcas, advogados e familiares de políticos. A gravidade do que está aqui suposto, envolvendo de forma cúmplice as figuras do Conselho de Ministros e a do Presidente da República, é inaudita e incomensurável. A ter acontecido o duplo chumbo ambiental do projecto de modo a que os promotores aceitassem pagar fosse o que fosse, as implicações atingem os próprios fundamentos do regime. E mais: a ter acontecido neste caso, presume-se que tenha acontecido em muitos outros. No segundo, trata-se de uma suspeita que recai sobre um administrador de uma entidade privada. De resto, foi o próprio que aumentou o peso da dúvida ao revelar bovinamente o modus operandi interno: ninguém reunia com ninguém, e Oliveira e Costa reunia com cada um em separado. Isto que foi dito publicamente já é assunção de corrupção, mesmo que mais nada seja apurado que incrimine Dias Loureiro. E se a logística da corrupção no Freeport parece inverosímil pela quantidade e perfil dos políticos responsáveis, já no BPN ninguém estranha que os negócios conduzidos por Dias Loureiro possam encobrir falcatruas.

Pacheco Pereira nivela os casos, equipara-os, diz que é farinha da mesma saca. É uma espantosa ofensa, mais uma, de alguém que afirma não acreditar na palavra de Sócrates – logo, que também não acreditará na palavra de Rui Gonçalves, Pedro Silva Pereira e seja quem for que diga alguma coisa que desmonte a suspeita-certeza que o desvaira. Em tempos idos, tal afronta seria imediatamente resolvida com um duelo.

É a família, estúpido

A brigada dos imbecis exultou com um facto que nem os deuses podem alterar: a família é a família é a família e volta a ser a família. Quem é que, uma única vez que fosse, não se serviu da família, ou serviu a família, em matéria de favores? Estranho, impiedoso, cruel seria aquele que recusasse ajudar um familiar em Portugal. Afinal, vegetamos numa sociedade pobre, de extremos de poder e estatuto, onde as instituições são disfuncionais, a cultura é provinciana, a cunha vale mais do que o carácter. Os que já concluíram pela culpa de Sócrates, pois, foram rápidos a transportarem-se para uma situação análoga onde se aproveitariam ao máximo das oportunidades. Ter um sobrinho ministro numa área que interfere em negócios milionários de terrenos? Ui, ui, só um acabado taralhouco é que não trataria da vidinha. E quem seria o político tão otário que recusasse 4 milhões? É óbvio que os aceitou, concluem os imbecis explicando como teriam eles feito a coisa. A projecção egóica corre solta, pintam o apetecido bode expiatório com as troca-tintas que guardam em casa.

Ora, as relações familiares distinguem-se de todas as outras pelo facto de serem apriorísticas e necessárias. Ninguém escolhe a família, à excepção dos cônjuges. E a família implica, ou suscita, as mais melindrosas promiscuidades. Não há função onde a família possa ser mais perigosa do que no exercício de cargos políticos. Quão maior a responsabilidade do cargo, maior a carga explosiva potencial. Neste caso, um tio e um primo arrivistas chegam e sobram para salpicarem de nódoas indeléveis o Primeiro-Ministro. Vários serão aqueles que, perante os factos já conhecidos, não precisarão da verdade para nada, pouco importando que Sócrates esteja completamente inocente. Esses irão até ficar indispostos e violentos calhando a investigação confirmar que o suspeito não passa de uma vítima. Dirão que a declaração de inocência é prova da sua culpa. A inocência será vista como a prova que faltava, a prova final. Esta patarata patologia já tem nome: Síndrome Pacheco Pereira. Caracteriza-se por uma alternância de estados eufóricos com estados depressivos sendo, tecnicamente, um distúrbio bipolar de origem ideológica. É o que justifica, por exemplo, um completo apagamento da ofensa de Manuela Ferreira Leite a um jornalista, a uma empresa e ao Governo. Estes são os sintomas de uma funda depressão. Simetricamente, considerar que as autoridades policiais, judiciais e autárquicas que investigaram (ou investigam) os casos da licenciatura e casas de Sócrates, juntamente com os responsáveis académicos e técnicos respectivos, e ainda o próprio, estejam todos a mentir, eis um sintoma de euforia. O entusiasmo com que se desabona a honra de tanta gente, e de tantas instituições, exprime um napoleónico delírio de grandeza.

Seja como for, pelo menos de uma coisa Sócrates não vai conseguir escapar: aquele tio e aquele primo não podem ser demitidos nem despedidos. É ter esperança que voltem a atacar.

Nem Alá sabe como é que ele se safa a trabalhar em Inglaterra

Cruzam-se os maus tratos recebidos no Porto (onde não ensinam inglês aos jogadores, tomamos conhecimento chocados) com o convívio com o Cristiano Ronaldo (um jogador de futebol que, para desgosto colectivo, não é simultaneamente bolseiro da Gulbenkian).

Entretanto, um pergunta relativa a um assunto, este sim, da maior urgência: para quê estar a ouvir os treinadores no final dos jogos? Um treinador não devia ter de falar por obrigação, só quando lhe apetecesse. Se querem declarações no final dos jogos, contratem porta-vozes, pessoal com formação para botar discurso, dizendo coisas com alguma elegância e variedade. Até pode ser o mesmo a falar em nome de vários cubes. Ficava mais barato e ninguém ia reparar.

Only you*

Disco pedido pelo nosso querido ESTACA, aqui em versão karaoke para ele poder cantar em frente ao monitor.

1955. Os brancos americanos queriam que os seus filhos só ouvissem música dos brancos. O Ku Klux Klan fazia ameaças com a conivência de muitos. Foi só há 50 anitos.

* Ciclo das festividades em honra de Obama, um preto que veio encher a política de cores e luz.

Vamos meter a Ana em trabalhos

A nossa amiga Ana Cristina Leonardo fez um pedido. Parece sério, a avaliar pelo modo semi-envergonhado, mas ela esclarecerá. Para o que agora interessa, vou levá-lo a sério. E a quaestio é esta: não haverá neste País um lugar onde a inteligência da Ana ajude a criar riqueza? A pergunta pede esclarecimentos curriculares, complementos de competências, adendas do foro pessoal da pretendente, pois sim, mas para mim só o tema da inteligência aqui e agora interessa. Diga-se que um blogue é um portfolio por inerência. E não só para aqueles cuja vocação se realiza nas belle-lettres, qualquer exposição pública do pensamento revela tipologias psicológicas e traços de carácter relevantes para uma selecção laboral. Portanto, boa ideia e boa sorte.

Os empresários não sabem como aproveitar a inteligência, por isso produzimos tão pouco. Não sabem porque ninguém os ensinou e essa alquimia pede aprendizagem. A escola também não sabe, por isso os alunos saem de lá menos inteligentes do que eram ao entrar. Assim, é muito provável que o mercado de trabalho não saiba o que fazer com uma especialista em recensões literárias, autora de literatura infantil e autora de blogues com crescente interesse (to say the very least). Mas eu vou ajudar oferecendo sugestões óbvias:

Leitora – Ler, ser paga para ler. O cliente pagaria para ouvir leituras de livros escolhidos pelo próprio ou escolhidos pela Ana (a melhor opção, juntando-se a estética à pedagogia ou psicoterapia). As sessões poderiam ser individuais ou de grupo. Escuso de elencar todos os benefícios para a saúde mental, e boa forma da alma, que tais sessões promoveriam, pois estás com pressa.

Redactora dos discursos de Cavaco – É um dos maiores problemas do actual Presidente, a miséria que nos anda a ler. Alguém na Presidência que contrate a Ana urgentemente, faxavor.

Eixo do Mal – Falta lá mais uma mulher para que os níveis de estrogénio ponham alguma contenção na pesporrência da testosterona.

Directora do Público – Qualquer português maior de 18 anos, com ou sem carta de condução, daria um melhor director do que o actual.

Directora do Expresso – Idem, mutatis mutandis, com a vantagem de conhecer a casa.

Presidente do PSD – Idem, mutatis mutandis, com a vantagem de não conhecer a casa.

Presidente do CDS – Idem, mutatis mutandis, só com vantagens.

Obamapatia

Da esquerda à direita, mas mais à direita, ontem foi dia para se avisarem os incautos. Que Obama não vai cumprir, porque nunca ninguém cumpre. Que Obama não é Deus, logo não fará milagres. Que Obama é igual aos outros, se não acabar por ser pior. Mas para quem é que estiveram a falar? Para um grupo de alucinados que, por o serem, jamais os iriam escutar, quanto mais entender? Não, estavam a falar para si próprios. É a actividade favorita dos cínicos, o solipsismo.

Vir com essa conversa num dia de esperançosa e feliz celebração é apenas mais um egoísmo. Equivale a entrar numa festa de aniversário à socapa e, na altura em que a miúda de 8 anos avança para o bolo, puxá-la por um braço e dizer Olha lá, não penses que a vida vai ser sempre uma festa. Daqui a nada estarás a sofrer com o período, depois vais assustar-te com os rapazes, invejar as raparigas, ficar triste com os homens, irritada com as mulheres, odiar os maridos, dizer mal das vizinhas. Terás doenças, pânicos e depressões. Irás enterrar os teus pais, familiares e amigos. A solidão irá cercar-te, invadir as células, uma a uma. Até que a morte comece a aparecer no espelho. Morte branca, rugosa, manchada. Aí, só te restará um consolo: entrar nas festas de aniversário, de miúdas como tu, e vingares-te nelas da miséria e absurdo dos teus últimos dias. Vai lá agora apagar as velas, vai.

Esta gente, os cínicos, há quanto tempo não dançam?

Pulp Fiction*

O filme que é a década de 90, e a cena que é o filme. O cinema foi sempre amigo das minorias, mas não dos minorcas. No ecrã, um gigante executa o nosso medo.

* Ciclo das festividades em honra de Obama, um preto que veio encher a política de cores e luz.

Efeito Einstellung e oposição

Abraham S. Luchins (March 8, 1914 – December 27, 2005) was one of the most important American Gestalt Psychologists and a pioneer of group therapy. He was born in Brooklyn, New York and died in Albany, assim começa (e a modos que acaba) o wikipeido actualmente à disposição dos ouvintes. Acontece que este amigo nos interessa pelo que fez em 1942. Pegou num magote de gente, distribuiu jarros com água e observou como a própria inteligência gera a imbecilidade. Estava descoberto o Efeito Einstellung. Quer-se dizer, estava claro que ter uma solução pode ser impeditivo de adquirir outra para o mesmo problema. E é isto um problema, valha-me Santa Engrácia? É, nos casos em que a nova solução, para o tal problema, seria mais eficiente ou eficaz do que a velha.

O problema da oposição clássica, comum, é não estar a governar. Só este e mais nenhum. Mais nenhum. Com a maioria PS, e o Governo Sócrates, esse problema tornou-se particularmente dramático, e mesmo trágico. Neste momento regista-se que o PSD acabou, o PCP está cada vez mais igual a si próprio, o CDS é estéril, o BE entrou em modo de guerrilha urbana e ainda não apareceu novo projecto politico credível. Até Cavaco se estatelou numa senda imparável de disparates e falhas de responsabilidade. À volta dos partidos, na comunicação social, a oposição explora a chicana e o populismo: Público, Sol, Expresso, Correio da Manhã, 24 Horas, TVI, SIC, Rádio Clube. Os blogues de maior audiência, onde a oposição é um exercício constante, pícaro, resfolegam inconsequências; quando não infantilidades e psicoses. Segundo o Blogómetro, no Top 25 estão 7 blogues de crítica política: Blasfémias, A Educação do meu Umbigo, Abrupto, Arrastão, 5Dias, O Insurgente e 31 da Armada – e ainda se poderia juntar o recentemente encerrado Atlântico, também prolixo e azougado no bota-abaixo. A obsessão paranóica do Pacheco, RTP, acolhe uma super-vedeta como Marcelo Rebelo de Sousa, os Gato Fedorento (2007), os Contemporâneos, Prós e Contras, Corredor do Poder, Grande Entrevista, Sociedade Civil, Parlamento, pelo menos. Não faltam ocasiões, só à pala da estação da 5 de Outubro, para desmascarar essa corja de ladrões que se governam à nossa custa. Porque será, então, que os tão inteligentes, brilhantes!, opositores continuam sem conseguir passar a mensagem?

Há conforto em reduzir a incompetência da oposição a vícios ideológicos e morais. Tanto à esquerda como à direita, na sua generalidade, os quadros políticos são confrangedores, mistela de videirismo com ignorância, ou de informação com oportunismo. Mas o conforto é preguiçoso. Melhor será partir para a explicação literal: não existe mensagem alternativa, concorrente, oposta. Não existe. E é por isso que não passa, não chega, não nada. Todos se assumem como oposição extremista, comungando da mesmíssima fórmula: se vem do Governo, ou do PS, é mau, é péssimo, é pessimamente mau. Inevitável será constatarmos que, com esta postura primária e odiosa, a oposição não sabe fazer oposição. Limita-se a repetir velhas soluções em novos tempos. A oposição ainda não percebeu que fazer oposição no século XXI, num Portugal com a liderança de Sócrates, deve consistir em apoiar a governação. É isso que a comunidade espera e está pronta para premiar, a promessa de se superar o actual Governo pela qualidade das propostas, não pelo histerismo e má-fé das denúncias.

Ora, estamos a falar de muita gente junta reunida nos partidos e comunicação social opositores, mole onde aparecem jornalistas, professores universitários, investigadores e especialistas das mais desvairadas proveniências e estatutos. Ou seja, trata-se de um caudal insano de inteligência diariamente desperdiçada, freneticamente gasta a produzir peças de comunicação cuja memória se esgota no círculo dos acólitos e comensais. O seu destino é a inconsequência, o povo não lhes liga – prefere participar em sondagens a favor do Governo.

Então, vamos combinar o seguinte: a oposição pode ficar assim, é lá com ela, mas tu vais pontapear o Efeito Einstellung para fora da tua vida. Não tem graça continuares a ser imbecil sem um partido, jornal ou blogue para te apoiar.