Todos os artigos de Valupi

Síndrome de Gaza

A Síndrome de Gaza é uma patologia mental caracterizada por sintomas de forte identificação com o Hamas, o qual aparece como a parte boa do conflito israelo-palestiniano. A psicose opera através da recuperação das matrizes bíblicas, projectando-se nos palestinianos as estruturas das narrativas judaicas onde se fala de um Povo Eleito. Concomitantemente, transformam-se os israelitas em romanos, real e simbolicamente vistos como o invasor.

Cá pela terrinha, a vítima mais conhecida deste distúrbio psíquico é o Daniel Oliveira. O que ele escreve aqui é apenas um pequeno exemplo da distorção habitual. No entanto, os comentários respectivos merecem leitura exaustiva, repondo sanidade naquele ambiente. Confrontam o autor com as suas incongruências, contradições e cumplicidades. Dizem que pouco lhe importa saber dos crimes cometidos pelo Hamas contra o seu próprio povo e os planos de extermínio do povo vizinho, pouco lhe importa saber das mentiras e manipulações que diabolizam o exército israelita, pouco lhe importa a existência de uma verdadeira democracia que permite protestos públicos contra a política de Israel dentro de Israel e confere direitos cívicos e políticos aos árabes, pouco lhe importa a tirania nascida da ignorância e alucinação de grupo em Gaza, pouco lhe importa que a demência seja o alimento da luta que apenas consegue aumentar os sofrimentos dos envolvidos.

Isso para nada importa. A Síndrome de Gaza reduz toda a complexidade do presente, e todos os nós cegos da História, a uma faixa de percepção demasiado estreita para que lá caiba a coerência.

Patrões e bispos conspiram para garantir nova maioria socialista

É o que podemos inferir destes protestos: um patrão a malhar em Sócrates e no Parlamento, e um bispo a cascar no PS e na sociedade. Qual a intenção? Apresentar Sócrates ao eleitorado num apelativo posicionamento de esquerda, de modo a conter uma eventual erosão para PC e BE nas legislativas. A estratégia não tem como falhar, até Alegre (se tiver um grama de coerência) correrá em defesa de Sócrates.

Também convém começar a aceitar uma singela explicação para o que preenche a espuma dos dias: muito do que passa por ideologia, ideário, ideal, ou meras ideias, é apenas o resultado de limitações cognitivas individuais e de grupo. Que as há.

PSD, quem te viu e quem te vê

O Gabinete de Estudos do PSD mandou-nos esta carta, intitulada Desafios para Portugal em 2009:

Ex.mos Sr.s,

A economia portuguesa tem tido um desempenho muito insatisfatório. Desde há cerca de dez anos que o crescimento económico se mantém muito abaixo do que seria possível e desejável. Os problemas avolumam-se, a prosperidade estagna, o atraso relativo do País aprofunda-se.

Os problemas da economia portuguesa são de carácter estrutural e resultam de uma política económica profundamente errada, baseada numa total incompreensão do que é uma economia moderna, aberta ao exterior e competitiva, num mundo global, cheio de oportunidades, mas também de riscos. A actual crise internacional veio demonstrar de forma ainda mais evidente a fragilidade da nossa economia e a inadequação da nossa política económica.

Não é possível concretizar o enorme potencial da economia portuguesa e restaurar a prosperidade e o dinamismo empresarial enquanto se persistir na ideia de que é o Estado que deve tudo controlar, orientar e financiar. Esta visão dirigista da política económica não é compatível com a inovação e o progresso tecnológico, com a recuperação das nossas empresas no contexto internacional, com a criação de emprego à medida das nossas necessidades. Conduz apenas a um endividamento cada vez mais preocupante do País, sem que se veja para que serviu afinal tanto crédito externo.

Em paralelo, assiste-se a uma perversa concentração de riqueza e de poder económico nas mãos de muito poucos, a um aumento do grau de controle das empresas pelo governo, a uma administração pública incapaz de se modernizar e de responder às necessidades dos portugueses.

Este trabalho do Gabinete de Estudos do PSD documenta, para além de qualquer dúvida, o caminho desastroso que a nossa economia vem percorrendo, a injustiça gritante da distribuição de rendimentos, o peso crescente do endividamento externo. Os dados são objectivos e, na maior parte dos casos, de fonte independente.

Que cada um dos nossos concidadãos tire as suas conclusões.

Gabinete de Estudos PSD

Informações: gepsd@gepsd.org

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Vamos lá, então, tirar as nossas conclusões. Por exemplo, eu concluo pela impossibilidade de encontrar uma única proposta política nesta cacofonia de generalidades parcelares e adjectivação manhosa.

Obrigadinho, ó Crespo

O número dos que denunciam a opressão fascista em que vivemos não pára de aumentar. Eles estão em todo o lado: na comunicação social, na oposição, no PS, na bancada parlamentar socialista, nas escolas, nos blogues e na rua. Mário Crespo acaba de se juntar a esta maioria ruidosa, lançando o seu manifesto. E nele encontramos um elemento inovador. É que o costume estava a ser o da filha-da-putice rasteira. Esta modalidade, tão do agrado do filha-da-puta comum, consiste em fazer denúncias não explicitadas, vagas, apelando ao preenchimento perverso pela imaginação da audiência. Estes filhas-da-puta rasteiros expõem as suas teses conspirativas no curioso pressuposto da inexistência de autoridades: morais, políticas, judiciais ou policiais. Ao lê-los ficamos com a impressão de que vale tudo, de que se legalizou a infâmia, de que reina a impunidade nacional-porreirista. Mas com o Crespo, não. Veja-se:


Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por “onde é que eu ia começar” a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal.

Que temos aqui de anómalo? Não faço ideia. Pelo que está relatado, o Ministro interroga um jornalista quanto a uma interacção futura, o qual é livre de lhe responder como lhe der na gana. Para além disso, o Ministro pede profissionalismo no trato; o que se recomenda, aliás. Do que eu faço ideia, clara e distintamente, é da absoluta vantagem em saber o que foi dito, por contraste com a denúncia usual dos filhas-da-puta comuns quanto a esconsos, crípticos e tenebrosos telefonemas de ministros e autoridades variegadas…

Portantos, ó Crespo, obrigados pá. Também alinhaste na filha-da-putice reinante, apanágio dos pulhas, mas tiveste estilo. E o estilo faz o homem, ó Crespo.

Mulher feliz

O texto mais popular do José do Carmo Francisco, aqui no blogue, está quase a fazer dois anos: Coisas infelizes numa revista chamada Happy. É um pinga-pinga de comentários, ontem mais um, e isto sem qualquer envolvimento do autor no polémico ambiente.

Acontece que a revista tem mesmo problemas no que concerne à expressão escrita. Atente-se nalguns exemplos inclusos na edição de Fevereiro do corrente, no artigo SEXO: TUDO O QUE DEVE EXPERIMENTAR PELO MENOS UMA VEZ (com os seguintes subtítulos: Salto da fantasia para a realidade num baptismo erótico e Conheça a check list das experiências sexuais que nenhuma mulher deve perder). Comecemos por este:

Entre num bar, seduza os homens presentes e convide para ir consigo para a cama o mais atraente deles.

Se entrar num bar não merece reparo, já seduzir todos os homens presentes levanta alguns problemas morais e logísticos dignos de nota. Porém, o que escandaliza é a artificial construção convide para ir consigo para a cama em vez da natural versão convide para ir para a cama consigo ou a económica opção convide para a cama. Isso que publicaram, caras amigas, é mau português, é de evitar, tira a tesão.

Outro exemplo:

Faça o seu próprio filme erótico, com direito a striptease e masturbação, e envie-o por correio ao seu companheiro. Vai ser uma surpresa muito excitante.

Estamos perante um caso de léxico equívoco. Afinal, o termo correio a que se refere? A menos que esteja pressuposto o uso de película Super-8, raríssima e demasiado dispendiosa nos tempos que correm, a ideia de enviar um filme digital por envelope será realmente uma surpresa muito excitante, mas pelas mais anacrónicas razões.

Mais um:

Experimente a dupla penetração com dois homens desconhecidos. A excitação será ainda maior.

Este é um exercício de escrita formalmente irrepreensível, mas com graves falhas informativas. Às leitoras não é revelado que a prometida maior excitação assim obtida resulta, afinal, de um inevitável desastre – aquele que advém de se tentar proeza tão técnica, tão carente de longo treino e especial cuidado, logo à primeira e logo com dois desconhecidos. Por favor, não enganem as senhoras em matérias tão sensíveis.

E finalmente:


Ofereça ao seu parceiro um vibrador. E quando ele lhe disser que o vai usar para lhe dar prazer, surpreenda-o dizendo-lhe que o brinquedo é para ser utilizado nele.

Ora bem, não sei quem é que manda mesmo na revista, no sentido de ter o poder para dar uns berros e ameaçar com despedimentos, mas importa que essa pessoa, seja mulher ou homem, tenha maior respeito por uma indústria em franco crescimento e capaz de, por si só, vencer a crise financeira internacional. É que se esta moda pega, isto das mulheres forçarem os amantes a utilizar os vibradores em si mesmos, o negócio pode entrar em colapso. Estou a avisar.

Em suma, continuam a escrever-se coisas infelizes numa revista chamada Happy.

As vacas também têm sentimentos

É o que este estudo sugere. As vacas a que se dá nome, e com as quais se estabelece uma relação personalizada, produzem mais leite. E a quem interessará a notícia, para além dos produtores leiteiros? A todos nós, inevitável resposta. A maior parte dos problemas na vida são o resultado do esquecimento do nome próprio e do nome de família. Algo que até uma inteligência bovina percebe.

Problemas na mente


Na foto, professora exibe as suas competências pedagógicas em prol da elevação do debate político e do respeito pela honorabilidade alheia.

Manuela Ferreira Leite aprovou uma campanha da JSD que chama mentiroso ao Primeiro-Ministro. Disse que era uma expressão da irreverência. E uma forma de fazer oposição. Ora, a senhora está a mentir. Por um lado, mente porque a campanha da JSD apenas pretende suavizar o discurso da líder, tentando que ela conceda abandonar o radicalismo de expressões como coveiro da Pátria ou as bem esgalhadas teses sobre a honra dos profissionais da LUSA, entre outros exemplos da verdadeira irreverência. É que esse estilo talvez seja ineficaz, suspeitam os miúdos da JSD; mas não há motivo para alarme, desde que se evite dar alguma importância às sondagens, explica o povo. A estratégia dos jotinhas passará, então, pela imitação das infantilidades favoritas dos comunas, entretanto validadas pela classe docente. Por outro lado, a senhora mente porque esta não é uma, antes a única forma do PSD fazer oposição: indo a reboque do folclore da esquerda imbecil e chafurdando na política acéfala.

Facto é que o consulado da Manela tem inovado em duas áreas decisivas, a gestão do silêncio e a protecção das propostas. Os analistas confirmam a supremacia da táctica, pois nunca antes se tinha visto esse fenómeno de um chefe partidário ser mais popular calado e sem propostas do que a comunicar e com ideias. Os laranjinhas vêm agora consagrar a originalidade, provando que podem ser tão broncos como os adultos (ou seja, estão prontos para ocuparem uns lugares no Parlamento; já a sabem toda, os maganos).

Tem razão o cada vez melhor Santos Silva. O problema mental da oposição pede malho.

Brevíssima história do Aspirina B

Era uma vez o Blogue de Esquerda, é assim que começa a história do Aspirina B. O BdE foi um dos mais importantes blogues na História da blogosfera portuguesa; mas não tenho nem a memória, nem a autoridade, para lhe fazer aqui justiça. Quando acabou, uma das suas notáveis figuras, o Luis Rainha, agregou novo grupo: João Pedro da Costa, José Mário Silva, Júlio Roriz, Luis Rainha, Nuno Ramos de Almeida e Valupi. Era um dream team de consagrados bloggers e pujantes intelectos, se excluirmos a minha humilde e estreante pessoa. A recepção foi a melhor possível, tanto dos leitores como dos críticos.

Participar num blogue colectivo é uma experiência de cidadania, aconselho-te a passar por esse curso rápido de iniciação ao mistério humano. Especialmente se não existirem laços pessoais anteriores, como foi o meu caso. Muito mais do que da tertúlia, é do kibutz que um blogue colectivo é análogo. Escrever é lavrar a terra, a blogosfera o território da identidade e conquista. Começa-se com um espírito comunitário de cariz religioso, a tal paixão dos inícios onde reina a fraternidade e se simula a confiança. Um por todos e todos por um, vamos a eles. Esta fase durará entre duas a quatro semanas. Depois regressa a normalidade do quotidiano dos normais.

Em Janeiro de 2006 mexeu-se na equipa. Entraram ainda mais, e mais desvairadas, vedetas: Daniel Oliveira (com o Rui Tavares às cavalitas), Fernando Venâncio, Jorge Mateus, António Figueira, Vanessa Amaro, Afixe, Rodrigo Moita de Deus, Gibel. Foi o período de maior popularidade do blogue, porém destinado a uma efémera existência nesse pico de fama. Em Março e Abril a debandada estava consumada, a equipa reduzida ao Fernando, eu, Jorge Mateus, um Rainha semi-demissionário e um Zé Mário ausente. Em Junho entraram o Jorge Carvalheira e o TT. Em Outubro começou a colaboração do José do Carmo Francisco. Em Dezembro regressou o João Pedro, ausente desde Fevereiro. Em Janeiro de 2007 saem, definitivamente, o Rainha, Mateus, Gibel e Afixe. Em Março entra a Soledade Martinho Costa. Em Julho entrou a Susana e saiu a Soledade. Em Setembro entra o Daniel de Sá. Em Outubro mudámos para a rede Tubarão Esquilo, deixando cair aqueles que nunca mais deram notícia nem responderam aos apelos, o Zé Mário e o TT. Em Janeiro de 2008 entra a Isabel. Em Março saiu o Fernando. Em Abril saiu o Daniel. Em Novembro saíram a Susana e a Isabel. Em Dezembro saiu o João Pedro. Restam dois autores no activo.

O Aspirina B já devia ter acabado há muito tempo, logo em 2006, a mando da lógica centrífuga reinante nos blogues colectivos. E assim teria sido se o Rainha, que era o líder tácito por ter tido a iniciativa e ter assumido o comando moral, não tivesse saltado fora com o comboio em andamento. Isso gerou uma situação de vazio de poder, o qual foi naturalmente preenchido por quem ficou. Serve esta resenha para fazer um especial agradecimento ao Fernando e à Susana, cada um a seu modo foram inexcedíveis na generosidade e entusiasmo com que participaram no espectáculo e no trabalho de bastidores. É que preparar as refeições e lavar a roupa é tão importante como semear e colher. Num blogue, num kibutz ou em qualquer lugar onde duas pessoas se encontrem e queiram estar juntas.

Vale a pena continuar a anotar o que acontece ao Pacheco

Pacheco Pereira está em alta. Conseguiu revitalizar a sua imagem de polemista através de um triplo estratagema: primeiro, estigmatizou a comunicação social no seu conjunto; segundo, criou uma classificação lúdica e provocadora; terceiro, explora vilmente o ritmo e perversão da campanha contra Sócrates. A lógica é a da política-espectáculo, o ganho mede-se em notoriedade para o artista. Pacheco investe em si, na sua marca, sabendo muito bem que esse é o único lugar onde quer estar. No campeonato particular com Marcelo Rebelo de Sousa e Vasco Pulido Valente, leva destacada vantagem.

Quais ideias reformadoras quais quê, ninguém lhas conhece. Qual projecto político e qual futuro do País, deixa-te disso ó pá. Quer ele lá saber da Manela para alguma coisa, era só o que mais faltava. Os chefes vêm e vão, esta lapa fica e fica. Aliás, gorada a possibilidade de fazer da senhora alguma coisa com pés e cabeça à frente do partido, Pacheco já só trabalha para garantir um poiso em Bruxelas, no bem-bom. A reforma quer-se dourada, platinada, e a vida de eurodeputado tem encantos irresistíveis para quem não suporta a choldra nacional.

O Índice do Situacionismo funciona através de um sofisma primário: sendo inevitável o acompanhamento da actualidade e a reciclagem dos conteúdos noticiosos, Pacheco infecta essa mudança com o vírus da conivência. Se algum órgão de comunicação social não corresponder ao farisaico critério que só se encontra definido na sua carola, passa a ser denunciado com factos: capas, títulos, textos, fotos, alinhamentos, minutos, segundos. Ninguém pode escapar. Ou melhor, só o Avante, no saudoso ódio contra Sá Carneiro, estaria conforme ao zelo com que chicoteia a deontologia e honestidade intelectual alheias. A inevitável ambiguidade do real, mediado segundo as idiossincrasias individuais e de grupo, é a matéria do labéu. Não contas a história à minha maneira? Então, não prestas, és filho da puta e estás feito com eles, com a situação.

Esta manha de vendedor de atoalhados funciona, porque é tóxica, terrorista. Mas o antídoto tem de ser encontrado no veneno. O que alimenta o demónio do Pacheco não é o amor à cidade, a qual está cheia de gentalha com quem ele não quer perder uma caloria. O que diz dos blogues é o exacto espelho do que pensa da comunidade, onde 99% dos seus concidadãos são do piorio. Naaa. O que faz correr o Pacheco é o pavor da responsabilidade. Por isso há muito que ele desistiu de vir a chefiar o PSD, quanto mais a governar o rectângulo. Quão melhor não é ficar na plateia, ou no camarote, mandando bocas, pateando, aplaudindo por capricho e vingança. E depois adormecer alucinando-se com a missão cumprida.

Enquanto Sócrates vai para a frente do exército, dando o coiro ao manifesto, Pacheco barafusta e agita as perninhas de longe, ao largo. Ninguém o pode atingir. Afinal, ele não assume qualquer responsabilidade pela situação.

Freeport começa finalmente a dar lucro

Terminado o Prós e Contras, eis o lucro do caso Freeport até agora:

– Os viciados em teorias da conspiração saltaram da toca assanhados e agora sabemos melhor quem eles são e do que são capazes. O problema desta gente não está no levantamento do problema, está no boicote da solução.

– Apenas para o País ter ficado a conhecer a qualidade técnica e política de Rui Gonçalves já tudo valeu a pena, passe a boutade. Como ele há milhares e milhares de portugueses. E é com eles que nos queremos governar.

– Cresce a fervura social que pode levar à reforma da Justiça, a mais importante das reformas a fazer, sob qualquer ponto de vista. Só por uma funda ignorância cultural e cívica, essência do salazarismo estrutural que tanto demora a passar, o povo não tem exigido aos partidos um decidido e transparente investimento no sistema judicial. O povo tem tido medo, tem sido cobarde, é miserável. Mas o poder continua na sua mão. Assim ele acredite na superioridade da democracia. Assim cada um acredite em si e queira viver com honra.

Lembretes

– Mesmo que apareçam emails a revelar que Sócrates planeou o 11 de Setembro, fez a cabeça aos Távoras e foi uma muito má influência para Judas Iscariotes, Manuela Ferreira Leite continuará a ser um desastre.

– Dias Loureiro voltou a ser desacreditado por António Marta, desta vez com peso institucional máximo. Escusado será dizer que Dias Loureiro deve estar convencido de que nunca cairá sozinho, se é que alguma vez cairá. E é óbvio que este caso de corrupção, o da SLN, é só o mais grave no pós-25 de Abril, pela extensão do que está suposto – atingindo o centro executivo e ideológico do cavaquismo, mas também todo o tecido político e bancário pelas debilidades sistémicas expostas.

– Enquanto o PS tem várias figuras prontas para substituir Sócrates imediatamente, sem espinhas para o eleitorado, até capazes de recolher o apoio das franjas irritadas, o PSD não tem ninguém que prometa mais do que estancar a hemorragia. E à volta vegetam o Portas, Louçã e Jerónimo, três tristes tipos. É este o único problema da política nacional.

– A histeria dos ataques contra Sócrates, logo desde 2006, não se explica só pela política reformista do Governo. Mais fundo se encontra o casus foederis (tradução: aquilo que os fode): é uma luta entre gerações, modelos de conhecimento, práxis politica, estilos de vida. Os pançudos não perdoam a boa forma do corredor, e farão de tudo para lhe reduzir a passada.

– O desfecho do caso Casa Pia vem aí e será um importantíssimo momento de reflexão para a Nação, seja qual for o resultado.

– 2009 já só tem 11 meses para dar cabo desta merda toda.

Manel, larga o vinho

Manuel Monteiro é uma personagem trágico-cómica, como qualquer português very typical. O seu maior desejo era voltar ao CDS, regressar ao vaidoso corrupio dos jornalistas, ter poiso garantido na Assembleia, receber convites para brunches e almoços em hotéis de luxo, atravessar feiras com passo seguro e olhar confiante, desfrutar de momentos em que até ele acreditaria no que estivesse a dizer. O sonho é lindo, e nessa visão adormece embalado há anos, mas não teve Portas por onde entrar. Assim, arrastou-se pelo PND até ao dia em que a filial da Madeira introduziu a suástica na gesta do parlamentarismo insular. Esse foi precisamente o dia, horas depois, em que fugiu do hospício.

Ontem discursou no 4ª Congresso do PND. Aproveitou a ocasião para mostrar o que Portugal está a perder ao ignorar as suas ideias. Eis o raciocínio: os partidos com representação em São Bento são corruptos e/ou incompetentes, o Primeiro-Ministro é suspeito de crimes vários, o Presidente da República está a ser irresponsável, os militares só não fazem um golpe de Estado por carência de recursos não especificados (munições? gasóil?) e, algures em 2009, os patrícios irão para a rua fazer mal uns aos outros. Que fazer? Demitir o Governo, diz ele. E para quê, se tudo à volta é uma desgraça e ninguém irá escapar? Isso já não explicou, talvez por falta de tempo.

O Manel faz parte da legião dos zangados, a qual vive com a certeza de que alguma coisa no seu quotidiano está completamente errada. Mas que será? O sentimento de confusão e insegurança aumenta com o declínio cognitivo, a ansiedade torna-se angústia, desespero. Algo está errado, e alguém tem culpa, mas nunca os zangados. Claro. A zanga só é possível num estado de narcisismo e projecção, não em abertura e renovo. A intensidade deste rancor justiceiro é a exacta medida da sua impotência política. O verbo solta-se cristalizado, lancinante, e substitui a acção. Aparecem as matrizes do social, os emblemas do poder, as forças coercivas a prometer a salvação. Quando o seu mundo parece ruir, os zangados acabam invariavelmente a chamar pela tropa. A tropa-fandanga.

Saturday Press Fever

Sol, Expresso, Público, Correio da Manhã, 24 Horas, Visão, Sábado, TVI e SIC dão trabalho a profissionais responsáveis pelas notícias, editoriais, direcção e administração. Toda essa minha gente tem nome e família (isto é um supónhamos). Não será também exagerado antecipar que possuam algumas noções básicas de moral, ética, deontologia, direito, jurisprudência, cidadania, civismo, dignidade e bem comum. Estas são as minhas suspeitas, pelo que me permito elaborar a hipótese de este pessoal saber o que faz e achar bem que se faça assim. Já tenho menos suspeitas (aliás, nem uma) de que eles se consigam aguentar à bomboca caso a sua privacidade entre em regime de devassa pública.

Entregar a chefia da investigação aos noticiários, como advoga o Pacheco, corresponde à anulação do Estado de direito. Quero só lembrar que estamos perante um dos principais temas tratados por Ésquilo, um gajo que escrevia tragédias.