O folclórico (ensaio de) movimento que pretende colocar Marcelo Rebelo de Sousa na campanha das Europeias consagra o PS como o motor da política nacional; e Sócrates – e restante equipa de apoio, não esquecer, aspecto espantosamente ainda não tratado pelos publicistas – como um estratega de mão-cheia. O nome de Vital Moreira surpreendeu e, o que importa bem mais, assustou pelo acerto. É daquelas escolhas que tornam evidente o que estava completamente esquecido. É agora evidente que Vital transporta credibilidade pessoal, excelência intelectual e utilidade política para um combate que está revalorizado pelo calendário eleitoral português e contexto internacional de crise. E evidente é que alguns sociais-democratas entraram em modo de clonagem do adversário, querendo exibir anéis e pratas na esperança louca de que ninguém repare no solar em ruínas.
Todos os artigos de Valupi
Back to the Present
Bifes do Rabo de Peixe
Há muitas razões para ir aos Açores, a São Miguel, a Ribeira Grande, a Ponta Delgada, a Rabo de Peixe e a Santana, por esta exactíssima ordenação trajecto-administrativo-geográfica. Mas poucas tão grandes como os bifes da Associação Agrícola de São Miguel. O tour de force responde ao tautológico nome Bife de Lombo “à Associação”, sendo um agregado proteico capaz de saciar 3 pessoas por prato, ainda sobrando duas batatinhas para o dia seguinte. E o supremo encanto do opíparo e singelo repasto está nesta actual loucura de se ter transformado a milenar ingestão de um bife numa aventura reservada a atletas de alta competição com atestado médico e seguro contra todas as ementas. Pois que se reaja, que alguém pegue no garfo e faca e lute contra a apagada e vil tristeza das dietas, contra a tirania do dieteticamente correcto, contra a ignominiosa opressão hipocondríaca. Ide ao Açores, gastai o vosso dinheirinho em disparates e luxos, enchei o pessoal da Associação Agrícola de euros, elogios e abraços (enfim, isto dos abraços já é opcional). E dizei com orgulho que conseguiram comer aquela montanha de carne – apesar da corrupção dos governantes africanos, do imperialismo americano, do Freeport, daquele gajo do PSD que está à frente da CGD e dos malditos judeus.
Lembretes
– Marcelo Rebelo de Sousa na RTP, Vasco Pulido Valente na TVI e José Pacheco Pereira na SIC fazem o pleno no cerco televisivo a Sócrates. Como podem dizer e mostrar o que quiserem, e quando quiserem, vamos admitir que valem pelo que está à vista. Na imprensa, Sol, Expresso, Público e Correio da Manhã, idem, com equipas de dezenas de jornalistas e publicistas em regime de permanente campanha. Nesta paisagem há muita poeira no ar, cães raivosos e a imagem duma caravana já a desaparecer na curva.
– Se o PS encontrar um bom candidato presidencial (por exemplo, uma mulher; a coisa é tão simples quanto isso), Cavaco não será reeleito. Quem apregoa a necessidade de falar verdade, patrocinando campanhas contra o Governo, e depois mantém a confiança política em Dias Loureiro, para além de se deixar humilhar por Jardim, merece ser recambiado.
– Os professores deixaram as palhaçadas. O bigodes amochou. Os Magalhães são um sucesso. A escola portuguesa está muito melhor. Se a guerra civil no ensino acabar, temos muitas razões para ter esperança num futuro de riqueza humana e económica.
– Nenhum partido tem propostas para a reforma do sistema de Justiça. E não há novos partidos na calha. Entretanto, a legitimidade moral da corrupção está entranhada em todas as classes sociais, independentemente da escolaridade e da actividade profissional. De resto, o fenómeno não é nenhum exclusivo nacional, bem pelo contrário. Estão reunidas, pois, as condições para o aparecimento de uma nova geração de portugueses cuja sede de justiça seja a prova mesma da sua inteligência.
– 2009 já só tem 10 meses para dar cabo desta merda toda.
Febre laranja
À medida que Ferreira Leite continua a falar de improviso, vai aumentando a minha admiração e agrado. É um aumento proporcional à enormidade do que vai dizendo. A última é a da febre, onde é impossível resistir à sua fragilidade. Apetece abraçá-la e dizer Pronto, pronto… Já passou, vai lá para o quarto brincar… A senhora não tem a mínima vocação para o cargo e para a inerente responsabilidade, e por isso ressalta ainda mais admirável a coragem e o sacrifício que exibe. É agora óbvio que ela nunca desejou estar nesta posição, só a tendo aceitado por amor ao partido e genuína indignação com o destrambelhamento de Menezes, a ameaça de Santana e o vazio de Passos Coelho.
As qualidades intelectuais, técnicas e políticas que se dizia possuir não desapareceram, vamos acreditar sem dificuldade. Estão é sujeitas ao Princípio de Peter, devendo ser recolocadas no seu devido lugar na primeira oportunidade. A Manela dá uma excelente terceira linha, falando desbocadamente em reuniões internas e aparecendo perante os jornalistas com uma pose hierática e a fluência verbal das pitonisas. Só que agora já sabemos do que a casa gasta, e o totem foi derrubado. Pelo que a senhora tem de encontrar outra carreira, e eu proponho a via da política-espectáculo, onde facilmente arrumaria em popularidade com o Pulido Valente, Pacheco Pereira e Rebelo de Sousa. Porque na Manela há uma fúria destruidora que só uma fêmea consegue apropriadamente representar. É a pulsão genesíaca que tanto pode criar a luz como instaurar o caos, e isto com segundos de diferença. É assim que devemos entender a referência à interrupção da democracia, essa imagem radical que em poucas palavras une a melhor das intenções com o pior dos propósitos. Ou o tau-tau aos deputados, num responso tão sincero como pífio. Ou agora a febre, falhando por completo a razoabilidade e sensatez do que estava em causa, mas transmitindo essa alucinação maternal que faz do Estado e do Governo um assunto de moral doméstica para vizinho não poder botar defeito.
Obviamente, a chefia do PSD é vítima dos males próprios, ninguém na Comissão Política ajudando a senhora nem querendo saber do que lhe acontece. Depois dá nisto: a postura de atacar o Governo, e Sócrates, a propósito de tudo e de nada surge como verdadeira patologia mental. Todos os outros partidos da oposição fazem o mesmo, todos são uma fraude cívica, sim, mas tal decadência generalizada bem que poderia ter sido aproveitada pelo PSD para se regenerar. Portugal teria ficado a ganhar com a existência de uma alternativa ao PS, e com a existência de um terreno de unidade nacional para as grandes reformas.
Também pode acontecer que o PSD seja incapaz de encontrar cura para a febre laranja. Neste momento, não se conhece nenhum remédio. E o delírio vai aumentando.
Cineterapia

The Curious Case of Benjamin Button_David Fincher
Quero que vejas O Estranho Caso de Benjamin Button. E que digas que vais da minha parte. Não sofras com a ignorância feita onda sonora O quê? Da parte de quem? Hã?, nem esperes descontos. A tua primeira missão estará cumprida, dando a quem te ouvir um pequeno sobressalto, uma pequena surpresa, uma grande pista daquilo que mais importa (sim, funcionará exactamente da mesma maneira se disseres que vais da tua parte, até é capaz de funcionar melhor). Logo depois, engana-os. Troca dinheiro por luz. E entra na escuridão. Vais ver um filme imperfeito que se sabe e quer imperfeito. Ai dele se fosse perfeito, nada teria para revelar. É do David Fincher, um bacano que nos deu algum do cinema mais pop dos 90. Aqui assina um melodrama. E os melodramas são fodidos; como o amor; e como as histórias de amor. Só se salvam os acrobatas do arame, mas daqueles que fazem malabarismos sem rede. Caindo.
As categorias dos Óscares estão obsoletas desde o seu início. Falta, por exemplo, o Óscar para o filme mais popular. Para, por exemplo, o entregar ao Benjamin Button. O critério pelo qual um filme é popular não remete para a bilheteira, antes para o bilhete. Resulta numa alteração de consciência que sai connosco ao sairmos da sala, como se o real exterior fosse agora uma ficção, ecrã tridimensional onde a matéria se liquefez, é de brincadeira. Esse estado assinala o percurso da nossa alma, por metempsicose trasladada para o lado de lá do brilho. Nesse espaço há outro tempo, claro, claro, nem passado, nem futuro, nem presente. É antes um tempo do agora e nunca, universo paralelo onde a nossa sombra conseguiu livrar-se de nós, segue por outro caminho.
O conto de Scott Fitzgerald, donde veio o título e parte da ideia, em boa hora foi para o galheiro. É cínico e desesperado. O argumentista do filme preferiu tirar um lirismo branco e felpudo da cartola, ao qual Fincher acrescentou auto-ironia. Com mais olhos que barriga – a fita é bem longa e consegue acabar bem cedo demais –, segredos do princípio do mundo são servidos ao espectador com generosidade e paciência. 2009 é o ano ideal para ver este filme, tão admirável nisso de conseguir fazer as pazes com o Katrina como nisso de nos recordar que o furacão vem aí. Vem sempre aí. Por isso deves realizar os teus sonhos, ou dançar ao luar, ou contar a tua história àqueles que amas. É só para te ajudar, afinal, que o furacão vem aí.
Falta de homem
Pedro Duarte ainda não tinha 1 ano de idade aquando do 25 de Abril. É possível que esta circunstância permita vê-lo como um representante da juventude social-democrata, ele que até foi presidente da JSD.
O episódio com o seu Twitter é delicioso. E não vale a pena perder tempo com o caso, apenas o suficiente para registar: o maior problema do PSD é esse mesmo da falta de homem.
Saber perder
Saber perder é um dom. Porque liberta. Esta mal-amada sabedoria não consiste numa passividade, numa resignação face ao desaire ou infortúnio. Isso não seria mais do que atrofiamento, e nova derrota para cima dos derrotados. Nadinha de nada disso. Saber perder é, antes, um movimento de abertura. Começa pelos olhos. Uns olhos que tudo querem ver, olhos desavergonhados, luciferinos. Depois vai para a inteligência, atiça-a à realidade. E ela agarra-se à crina, não a larga. Por mais pinotes e coices que dê, a inteligência acompanha a realidade desembestada até aos confins do mundo ou até aceitar ser montada. Por fim, saber perder é conseguir abrir os portões do coração. E lá dentro fazer um banquete. Estão convidados os que não têm a boa sorte de se saberem vencidos da vida. Os únicos que merecem compaixão.
Sonho com uma época em que os estádios aplaudam os adversários à entrada e à saída, sejam eles quem forem e seja qual for o resultado. Sonho com adeptos que saibam que o desporto não é um divertimento, mas uma alegria, uma iniciação aos mistérios. Sonho com equipas onde todos os jogadores tenham a sorte de amar a camisola. Enquanto isso não acontece, consolava-me que não existissem treinadores nesta galáxia (nem na galáxia de Andrómeda, a qual irá marrar de cornos com a nossa não tarda) que deixassem um jogador como Vukcevic no banco. E por esta singela razão: é que os deuses também gostam de ir à bola, e quando se deparam com imbecilidades desse calibre ficam chateados, com toda a razão, podendo-lhes dar para castigos de 5-0 e cenas foleiras dessas assim.
Snowfakes 2
Snowfakes
Tenho um primo genial, e nem sequer somos família.
Para os gordos não há crise, estão mais bonitos
É tudo relativo, como descobriu Einstein.
Lusco-fusco
Grande português, o nosso Maltez. É de uma outra estirpe, cada vez mais rara. E só a miséria anti-franciscana da actual direita explica a reduzida influência da tradição que ele representa e exprime. Claro, é também um romântico, para além de erudito, o que devia ser visto como vantagem; escusado será dizer.
ESTACA, não faço ideia se és cliente deste senhor, mas ele é uma leitura que tem o que é preciso para te deixar a babar para cima do teclado, todo o santo dia.
Aviso à navegação
De vez em quando, mas raramente, acontecem acidentes aos comentários que, por diferentes razões, ficam retidos para aprovação. O mais frequente é ficarem retidos por terem links, mas pode ser também por qualquer outra razão que o sistema anti-spam tenha como critério.
Acaba de perder-se um, salvo erro do Salão Ramalho, apenas por distracção da minha parte. As minhas desculpas, espero que repitas o envio.
Epílogo: problema resolvido, comentário recuperado.
It’s all about power
Mas do bom. Speak inglês?
Homogeneidade
O debate, ontem, no Prós e Contras foi um belo momento político, cívico e cultural. Os que se opõem ao casamento homossexual (ou entre pessoas do mesmo sexo, satisfazendo o preciosismo jurídico) entraram vencidos e saíram derrotados. Nem de outra forma poderia ser; tanto pela profundidade e complexidade da questão, que não dominavam, como pelo ar do tempo, que os domina. As declarações finais, de Isabel Moreira e de Miguel Vale de Almeida, foram particularmente felizes e complementares, num composto de intencionalidade emocional e assertividade intelectual – e até taxativas nisso de apelarem àquele mínimo de bom senso que suporta a existência mesma de uma dada comunidade. Posto que a homossexualidade não é crime nem doença, como o século XX ocidental acabou por estabelecer, decorre que a igualdade antropológica obriga à igualdade de direitos.
Não há nenhuma clivagem na sociedade a este respeito. O individualismo tem feito o seu caminho e não podem ser os mais fragilizados pela ignorância, ou pela decadência mental, a moldar o futuro. É por isso que o argumento de a questão não se justificar face à premência de outros problemas, ou que ela não passa de manobra de diversão do Governo por pérfidas razões, é especialmente velhaco e canalha. Quem foi por aí passou um atestado de imbecilidade a si mesmo ou assumiu que não é pessoa de bem. A verdade irrompe simetricamente oposta: é por existirem outros problemas que não sabemos ainda como resolver, ou que exigem maior esforço e colaboração, que temos de tratar daqueles que já só esperam uma decisão política, uma instituição legal. Porque tudo está ligado, tudo tem uma origem comum, como sabe qualquer amante da sabedoria ou mero leitor de Darwin. E contribuir para nos acolhermos nas nossas diferenças foi sempre apanágio do melhor que a Humanidade criou nos seus 150.000 anos de crescimento em direcção ao infinito.
A certeza da incerteza
Vukcevic é um jogador quântico. O maioria dos golos que marca são o resultado de singularidades, pontapés repentistas, tabelas manhosas, efeitos marados. A esta capacidade acrescenta-se o lado artístico, o modo como resolve desafios com súbitas fintas e simulações brilhantes, ou passes geniais. Como no célebre Sporting-Benfica para a Taça, em Abril de 2008, onde é Vukcevic a virar o jogo aos 67 minutos, precisamente por se ter virado de modo completamente imprevisto. Ou como neste exemplo com o Belenenses, que até recolheu o favor dos deuses e levou Postiga a acertar com donaire.
Enquanto que Derlei gera incerteza destrutiva, e já devia ter abandonado os relvados há 2 anos, Vuk gera incerteza criadora. Durante alguns meses, Bento abdicou deste poder, mas logo que reintegrou o jogador ele começou a marcar golos, alguns decisivos. E para a glória ser completa, a sua atitude é sempre de entrega heróica. Por isso é amado pelos adeptos, é um exemplar da raça do Sá Pinto.
Resta saber se Bento aprendeu a lição. E se consegue reconhecer a química da dupla Vuk-Postiga.
Não é um exclusivo da esquerda imbecil: o fanatismo foi sempre alérgico à inteligência
A nossa amiga De Puta Madre deixou-nos uma excelente sugestão relativa ao conflito israelo-palestiniano, convite para ouvir alguém com a autoridade da terra e do sangue. Uma hora passada na companhia de Amos Oz, eis a oferta. De caminho, explica-se o fenómeno que leva os imbecis da esquerda imbecil a escolher o lado do Hamas: fanatismo.
Anti-cunha
Mais 3 minutinhos de higiene profissional e cívica graças à TSF e à Controlvelt. O que se ouve nesta peça é de bradar aos céus, mas em agradecimento. Chamo a tua atenção para os critérios de selecção, mais a respectiva explicação. É um raciocínio tão simples e óbvio que até os pêlos do cu batem palmas. Se fosse a norma em Portugal, há muito que estaríamos todos ricos.
How gay is Twitter?

Para além do relativo interesse da pergunta, tem absoluto interesse o artigo que a aproveita para falar da construção do conhecimento científico e da opinião pública através de questionários.
Síndrome do Gozo
A Selecção com Queiroz é um festival, sim, mas da risota. O desconchavo táctico só é ultrapassado pela mímica desesperada e desesperante do treinador no banco de suplentes. Embora seja certinho que alcançaremos o apuramento para a África do Sul, dando uma desvairada alegria à diáspora lusitana, e permitindo uma eventual vingança do Professor caso nos calhe a equipa da casa, esse caminho será feito com as mãos na barriga e o coração na boca. É que não vamos ter uma equipa, vamos ter uma rapaziada que vai jogar à fuçanga e ter sorte, muita sorte. De resto, o futebol não passa da sorte, o mais sendo aparato e contingência. Pode é haver equipas que facilitem a sua chegada e outras que a dificultam. Neste jogo com a Finlândia, voltámos a ver uma equipa que jogou à antiga portuguesa, tudo fazendo para enxotar a sorte. Que ninguém se iluda: falhar golos de baliza aberta não se consegue apenas por um qualquer tipo de inépcia ou inércia, é preciso ter a deliberada intenção de alterar a probabilidade natural desse tipo de eventos. Ora, quem consegue tais feitos mirabolantes, poderá também conseguir o seu contrário. Basta que se esforcem menos, que sejam menos criativos na altura da finalização. É só.

