Cineterapia


The Curious Case of Benjamin Button_David Fincher

Quero que vejas O Estranho Caso de Benjamin Button. E que digas que vais da minha parte. Não sofras com a ignorância feita onda sonora O quê? Da parte de quem? Hã?, nem esperes descontos. A tua primeira missão estará cumprida, dando a quem te ouvir um pequeno sobressalto, uma pequena surpresa, uma grande pista daquilo que mais importa (sim, funcionará exactamente da mesma maneira se disseres que vais da tua parte, até é capaz de funcionar melhor). Logo depois, engana-os. Troca dinheiro por luz. E entra na escuridão. Vais ver um filme imperfeito que se sabe e quer imperfeito. Ai dele se fosse perfeito, nada teria para revelar. É do David Fincher, um bacano que nos deu algum do cinema mais pop dos 90. Aqui assina um melodrama. E os melodramas são fodidos; como o amor; e como as histórias de amor. Só se salvam os acrobatas do arame, mas daqueles que fazem malabarismos sem rede. Caindo.

As categorias dos Óscares estão obsoletas desde o seu início. Falta, por exemplo, o Óscar para o filme mais popular. Para, por exemplo, o entregar ao Benjamin Button. O critério pelo qual um filme é popular não remete para a bilheteira, antes para o bilhete. Resulta numa alteração de consciência que sai connosco ao sairmos da sala, como se o real exterior fosse agora uma ficção, ecrã tridimensional onde a matéria se liquefez, é de brincadeira. Esse estado assinala o percurso da nossa alma, por metempsicose trasladada para o lado de lá do brilho. Nesse espaço há outro tempo, claro, claro, nem passado, nem futuro, nem presente. É antes um tempo do agora e nunca, universo paralelo onde a nossa sombra conseguiu livrar-se de nós, segue por outro caminho.

O conto de Scott Fitzgerald, donde veio o título e parte da ideia, em boa hora foi para o galheiro. É cínico e desesperado. O argumentista do filme preferiu tirar um lirismo branco e felpudo da cartola, ao qual Fincher acrescentou auto-ironia. Com mais olhos que barriga – a fita é bem longa e consegue acabar bem cedo demais –, segredos do princípio do mundo são servidos ao espectador com generosidade e paciência. 2009 é o ano ideal para ver este filme, tão admirável nisso de conseguir fazer as pazes com o Katrina como nisso de nos recordar que o furacão vem aí. Vem sempre aí. Por isso deves realizar os teus sonhos, ou dançar ao luar, ou contar a tua história àqueles que amas. É só para te ajudar, afinal, que o furacão vem aí.

9 thoughts on “Cineterapia”

  1. também gostei muito, e acho a tua perspectiva bem saudável,

    fico contente de o Sampaio estar a intervir no plano económico, haja alguém com coragem, ao menos o homem é culto e inteligente, só espero que deixe de gostar de touradas,

    o Euro que nem pense que escapa à retribuição, lembro-me muito bem quando vi que a moeda de 1 euro era igualzinha em dimensões à de 100$ embora valesse nominalmente 200$ pensei logo: quanto tempo demorará a valer metade?

    taxas de juro a 1%, não só financiar bancos mas Estados: comprar parcelas de dívida pública dos Estados e anulá-la proporcionalmente ou parecido, presidente do BCE confirmado e destituível pelo parlamento europeu, é uma instância política,

  2. Valupi,
    Não fui da tua parte ver o filme, até porque já tinha ido, mas sem a tua parte (estas inspiradissimas palavras, belas e tristes como uma praia no Inverno), a experiência de ver o Estranho Caso de Benjamin Button não teria ficado completa. Se é que alguma vez vai ficar. Mas afinal, de onde vem o fascínio deste longo filme? Será que vem do próprio tempo, de 1921, ano em que foi publicado o conto que lhe serviu de inspiração? Será que reside na constante evocação da magia do cinema, que neste (estranho) caso nos faz saltitar para dentro e para fora da tela, ora seguindo apaixonados as consequências crescentemente dramáticas do destino de Benjamin, ora admirando, momentaneamente de fora da história, a forma como os actores foram caracterizados nos seus diversos tempos, para de seguida mergulharmos nela ainda com mais crença? Será que resulta desta dança da luz com as sombras, da vida com a morte, que o cinema (máquina de produzir tempos) sabe mostrar como ninguém? Sempre nos contaram que o amor é o encontro de duas almas e dois corpos num mesmo espaço (de tempo). Mas aqui, as duas almas e os dois corpos estão condenados a desencontrar-se no tempo e no espaço. E, vivendo de desencontros nas duas coordenadas que orientam a vida, este podia ser o mais frágil dos amores. Mas é o mais forte: estes dois seres, que apenas terão a mesma idade a meio das suas vidas, experimentam um pelo outro todas as formas de amor: a de um velho avô por uma menina, a de um sexagenário por uma adolescente, a de uma mulher adulta por um jovem, a de uma idosa por um bebé. Acho que nunca, num filme, tive tanta vontade de que o tempo parasse, pois só nesse tempo eles poderiam ter lugar. Mas lançando um olhar com tempo sobre os 167 minutos do filme, percebo que isso era uma ilusão. O que interessa o aspecto exterior e a revelação do tempo na materialidade da pele, das rugas, das roupas e das idades de Daisy e Benjamin? Não será o corpo a veste que esconde o espírito do verdadeiro amor? Aquele que vence o tempo, porque não luta contra ele.

  3. j de joão, o teu texto é a resposta que procuras ou esperas. Quando o li pela primeira vez, e depois nas vezes seguintes, fiquei em silêncio. Um silêncio acompanhado, de sala de cinema. Nele projectas a tua alma e o teu coração. E o que se vê é belo. Apetece ficar em admiração.

    Quanto ao tempo e ao amor, encontros e desencontros, lembrar que o furação vem aí. Para nos ajudar, só para que consigamos contar a nossa história. Numa história, na história de cada um sem a qual não há uma história a dois, o tempo e o amor têm um encontro marcado. Para sempre.

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