O apagão de Marcelo

O folclórico (ensaio de) movimento que pretende colocar Marcelo Rebelo de Sousa na campanha das Europeias consagra o PS como o motor da política nacional; e Sócrates – e restante equipa de apoio, não esquecer, aspecto espantosamente ainda não tratado pelos publicistas – como um estratega de mão-cheia. O nome de Vital Moreira surpreendeu e, o que importa bem mais, assustou pelo acerto. É daquelas escolhas que tornam evidente o que estava completamente esquecido. É agora evidente que Vital transporta credibilidade pessoal, excelência intelectual e utilidade política para um combate que está revalorizado pelo calendário eleitoral português e contexto internacional de crise. E evidente é que alguns sociais-democratas entraram em modo de clonagem do adversário, querendo exibir anéis e pratas na esperança louca de que ninguém repare no solar em ruínas.


Mas qual a cotação de Marcelo? Pegando na sua última lição na RTP, ficamos com um pantomineiro entre mãos. O registo é de permanente leviandade, mesmo displicência, nascendo da osmose entre o discurso e o meio. Está aí, nisso da mensagem política se subalternizar ao meio televisivo bufão, o sucesso de Marcelo; pois ele entretém e ficciona, dramatiza e caricatura – mas não pensa, nem age. Atente-se:

Acabou-se a impunidade dos gestores públicos, […] numa espécie de bloco central de gestores PS-PSD, que se vão sucedendo sem serem responsabilizados.
[…]
O Governo tem de dar uma explicação. E das duas uma: ou José Sócrates concorda, ele que falou forte e grosso contra os gestores (bem prega Frei Tomás) – ou concorda com o que foi feito, pela administração anterior e por esta; e então nós percebemos que aquilo é só palavras da boca para fora, os gestores podem fazer o que quiserem – ou não concorda e responsabiliza os gestores, os anteriores ou os actuais.

Eis um dos mais batidos números das putas velhas do sistema. Quando se toca nos pilares e corredores ocultos do regime (corporativismo, oligarquia, amiguismos, conivências, corrupção), elas encostam-se para trás, entrelaçam as mãos na base do pescoço, abrem um largo sorriso e dizem maviosamente, quase cantando, Tens toda a razão, muito bem, apoiado, mas… agora há que denunciar, perseguir, apanhar essa malta que anda a gamar… Vá, força, vai-te a eles!… E nunca ninguém vai, ’tá quieto. Já temos 35 anos de Estado Menos Novo, há partidos à direita e à esquerda, há polícias e tribunais, e não apareceram valentes capazes de repetir alto o que ouvem baixo, capazes de sistemática e eficazmente fazerem oposição à incompetência pública e/ou corrupção.

Gabirus com a rodagem de Marcelo, ou Júdice, ou Anacoreta, entre milhares de nomes que fizeram as suas carreiras neste ecossistema onde os predadores são as estrelas dos documentários, conhecem quase tudo de quase toda a gente que importa conhecer. Frequentam-se, fazem negócios, casam os filhos e os netos, vão de férias, exibem babados os novos carros, barcos e quintas, encornam-se à descarada, desprezam-se pela surra, cruzam-se nas inaugurações, cobiçam as secretárias atrevidas, vão juntos a Londres e Nova Iorque fazer compras, têm os mesmos médicos e fazem os mesmos exames, produzem festas de aniversário bovinamente caras, funcionam como centrais de cunhas para familiares, amigos e cavalheiros de indústria, sabem-se dependentes uns dos outros, brincam com a tropa. Os tais gestores públicos que Marcelo, sem um pingo de vergonha, finge querer punir são seus amigos de longa data, amigos de partido, amigos de copo, amigos dos seus amigos, clientes e aliados. E é por achar inconcebível que alguém consiga mudar o sistema por dentro que faz o bluff da alteração das regras do jogo, mas apenas no intento de sitiar um Sócrates cuja independência pode ser medida pela fúria e extensão das campanhas de que é alvo. Ora, vejamos: nos seus 60 anos de vida, alguém recorda um dia, sequer uma hora, em que o hiperactivo Professor tenha atacado o bloco central de gestores PSD-PS? Mas como, se Marcelo vive dele e para ele?!… Não há nesta constatação um protesto, esclareço, mas um fastio. É óbvio que Portugal é em 2009 uma democracia que enriqueceu a sua classe política e os altos financeiros, com mais dois ou três empresários e alguma arraia-miúda pelo meio, e esse processo implicou uma conivência secreta, tácita, entre o PSD, PS e CDS, os garantes e estabilizadores do regime – e ainda contou com uma inexplicável passividade cívica do PCP e BE, os quais, dados os recursos humanos, legais e monetários à disposição, e tendo em conta que são forças políticas de dimensão nacional e com representação parlamentar, nada de nada fizeram; nem sequer para a retórica foram aí buscar munição que fizesse estrago ou sequer ameaçasse. Vir, então, um passarão como Marcelo com posturas circenses e picardias de pátio de escola, como aqueles putos cobardolas que se enfurecem com a coragem dos outros e passam a querer castigá-los, atiçando-os para a asneira na esperança de que se aleijem e nunca mais repitam a bravura ou também se acobardem, já cansa. O deboche e o despautério, nas nossas fuças e à hora do jantar, por esta gentalha que levou vidas de favorecido conforto e segurança, já cansa.


O que eu acho mais negativo, quando um dia se fizer o balanço deste Governo olhando para trás, foi a descredibilização das instituições e da imagem dos políticos.

Esta ideia é extraordinária, mas não pelo que significa, antes pelo que representa. O seu conteúdo fica como uma retinta estupidez, uma grotesca mentira. A verdade é a de que, no pós-25 de Abril, nunca a imagem dos políticos foi tão descredibilizada como na traição de Barroso e desgoverno de Santana. O executivo de Sócrates, rigorosamente ao contrário, devolveu credibilidade à classe política através de um quase sempre conseguido profissionalismo e sólida cultura política. Quanto à Justiça, para além do Ministério Público ser um poder absolutamente independente, está descredibilizada por razões que envolvem tudo e todos, com as suas disfunções a moldarem a sociedade desde que há memória. Não, o que é extraordinário é a desfaçatez com que Marcelo alinha na sórdida manigância de maldizer as autoridades reguladoras, fiscalizadoras e punitivas, negando-se à responsabilização pelos crimes da sua família política, social e cultural. BCP, BPP e SLN, três facetas do mesmo paradigma que radica no cavaquismo e no PSD, revelaram-se antros de bandidos, mas o nosso professor não tem uma palavra para dar aos portugueses sobre este terramoto na sociologia, axiologia e ética social-democrata. Vale tudo para não ter de enfrentar a cruel realidade: os senhores que ocuparam cargos de poder no PSD, mais os que os apoiaram financeiramente a partir da banca, não passavam de carroceiros ao volante de Ferraris, não tinham outro projecto que não fosse o do enriquecimento pessoal por qualquer meio e contra todo e qualquer código da estrada.

E mesmo o apagão, que foi um pequeno percalço, deu jeito.

Marcelo desenvolveu a tese de que o apagão teria sido intencional e preparado ao milímetro. De seguida, dissecou o cérebro de Sócrates, expondo as misérias actuais e os podres futuros. Conseguiu também reforçar o ridículo boato de haver um computador de um procurador do caso Freeport invadido devido a pirataria informática. Terminou a ofender Vital Moreira com o chiste da Causa Nostra, e ainda arranjou tempo para ser corrigido numa calinada basilar sobre Pacheco Pereira e para levar nas orelhas quanto ao estatuto informal da Cimeira Europeia.

Donde vem tanto disparate? Marcelo não é o imbecil comum, que dirige a sua frustração existencial para os representantes do poder, sejam eles quem forem. Também não é o imbecil da esquerda imbecil, destinado a ser contra-poder até ao eventual dia em que poderá mandar em alguém e logo fará saltar o tirano de dentro do armário. A imbecilidade de Marcelo é de outro campeonato, é ilustrada. E, lá no fundinho, ele sabe muitíssimo bem donde lhe vem a azia – é que Sócrates é o líder político que o PSD adoraria ter, exactamente como ele é na postura, no discurso e na paixão. Exactamente. E daí o ódio irreprimível, esse actual culto obsessivo, que vai apanhando cada vez mais comentadores exasperados, militantes deserdados e simpatizantes desesperados pelas contínuas guerras intestinas desde a fuga de Barroso.

Marcelo, afinal, é mais um que atravessa a idade das trevas da social-democracia à portuguesa. Mais um que sente apagar-se a luz própria – e que se deixa encandear pelo brilho do desejo.

26 thoughts on “O apagão de Marcelo”

  1. Bom artigo, reflectido e exaustivo na analise de como estas coisas mexem ou tentam atingir objectivos.

    Marcelo é um entertainer perigoso porque inteligente e sem principios morais.

    O PSD-BPN precisa destes agitadores de aguas turvas

    em ordem a recuperar dos danos que muitos anos de monopolização da actividade economica, politica e de controle dos meios comunicação permitiram,

    a coberto dum corporativismo atavico, mediocre que Socrates com persistencia tem, apesar de tudo, tentado desconstruir…

    E caímos nos srs. magistrados, nos sindicatos, nos professores, forças de segurança, todos potenciados pelas actuais forças do imobilismo politico e social, que não se esgota no dito PSD-BPN.

    Genial assim a escolha de VM, que faz estrebuchar PSD na sua desunião de facto, dos seus multiplos pequenos grupos de pressão

    dos Marcelos, Cavacos, Angelos, Pereiras, Mendes, Sarmentos

    nenhum deles disposto a avançar, e nisso honra a PSL, unico, que se guia pelos ditames das estrelas …

    abraço Valupi e parabens

  2. O Valupi é que o topa! Desconstruíu completamente a postura da sinistra figura. Mas vai ver que alguém ainda vai apanhar os cacos!

  3. Gostei da grande premiere do verbo encornar-se neste blogue, e do resto, evidentemente.

    E, finalmente, o João Pedro perdeu a paciência. Era de esperar. Bem haja, que isto aqui estava a ficar mui mortito, mesmo com o estímulo do Obama.

  4. és o meu comentador político favorito Valupi, aliás o único que me surpreende, agora e para sempre mesmo que deixes de escrever amanhã. No entanto não me apetece votar nas europeias, mas pode ser que ainda me convençam.

  5. oh tricheur pá, está-se mesmo a ver que devias pôr as taxas a 1% para surpreender positivamente, mas como já sei que és torcido imagino que vá a 1,25%; se deixas a 1,5% é um erro, olha o céu em cima da cabeça.

    Isto é tudo à memória do meu pai que era um gajo porreiro.

  6. Concordo com o essencial que foi explanado neste texto! É perfeitamente visível que alguns cérebros da cena política portuguesa, tal como o professor Marcelo, estão de cabeça perdida! Principalmente pela dor de corno, porque já sabem que Sócrates vai figurar na história como o primeiro ministro português a sério! Andam doidos, porque lhes custa reconhecer que falharam redondamente na escolha do seu líder e candidato a primeiro ministro nas próximas eleições! Comparar Sócrates com Manuela Ferreira Leite é o mesmo que comparar um pastel de nata com um monte de merda! Perante os seus alunos Marcelo está a ficar muito mal na fotografia, porque está a descer perigosamente de nível!

  7. este tricheur não aprende, mas enfim lá vamos indo a caminho do Um,

    Milu: a prestação já baixou que se visse, não?

    agora vou esticar as patas, aos espirrosss mas paciência.

  8. Z
    Desgraçadamente ainda não fui bafejada com nenhuma das apregoadas descidas de juros! Pelo contrário! No mês passado ia-me dando uma sulipampa! A minha prestação subiu cerca de 20,00 euros, saí de casa disparada como um tiro e fui ao banco saber o que se passava! Afinal, foi a bonificação, que sendo decrescente, foi objecto de actualização, vim de lá triste e com o rabo entre as pernas, até metia dó! Porém, conto com boas notícias para este mês de Março, creio ser agora na próxima prestação que vou poder, finalmente, abrir um sorriso rasgado! Tenho uma colega cujo valor da prestação ao ser actualizado baixou cerca de 100,00 euros! Era assim uma coisa destas que me convinha! :D

  9. Já tinha lido algures esta notícia e até fiquei espantada! Claro que os eurodeputados deviam auferir um ordenado de acordo com o poder económico de cada País! A Alemanha, por exemplo, por muito que a crise grasse por lá, tem um poderio económico em nada comparável ao de Portugal! Logo é perfeitamente aceitável, que um eurodeputado alemão tenha um ordenado superior a um eurodeputado português, mau grado para este, mas que fazer? Nasceu num país pobre, pronto! Com isto a minha alma anda parva! De onde é que o governo anda a tirar tanto dinheiro! Ainda há pouco tempo não havia dinheiro para nada! Era a tanga e pouco mais! Agora só se fala em milhões! Para aqui para acolá, o governo a acudir a tudo! Querem ver que desenterraram algum tesouro?

  10. Calma Milu, o JPC é brincalhão: aos gajos morde mas às gajas acho que não. É porque tu falas sempre com !, excepto quando eu pensava que eras a M.

    Pois espero bem que desça a alguém o raio da prestação que eu não tenho isso e ando aqui a rosnar e ladrar afinal para quê?

    mas tou gripado

  11. O terceiro naco de prosa do Valupi, que começa em “Gabirus com a rodagem, etc.” é definitivo. Bota na moldura o retrato feito por um retrateiro como deve ser.
    E faz-me pensar num paradoxo: no tipo de sociedade em que estamos a viver, é virtual aquilo que tomamos como real..
    A verdade, como disse Soares do Jaime Gama, é um peixe de águas profundas.

    João Coelho

  12. Vital Moreira…meu Deus…mais valia terem ido buscar o Freitas Júnior que apresentou uma moção ao congresso e nem o deixaram falar…Dizem que é o próximo “menino de ouro”!

  13. Z :D
    É um facto! Na verdade utilizo frequentemente, no meu discurso, o ponto de exclamação. Penso que seja porque quando transmito as minhas ideias faço-o plena de convicção, portanto, é a minha forma de destacar isso mesmo, não digo as coisas por dizer, digo-as, porque as sinto! Além de que sou muito expressiva. No entanto quando interpelei JPC não foi tanto porque me exasperei, melhor dizendo, por me sentir amesquinhada, nada disso! Foi tão-só levada pelo desejo de fazer uma tentativa de pôr as coisas no seu devido lugar, melhor dizendo, gostaria de voltar aqui com prazer e de participar trocando ideias ou até, porque não, esclarecer algumas das minhas dúvidas! Não tenho pejo, nem sinto que me caiam os pergaminhos na lama, se vos disser, que tenho aprendido mais um pouco nestas minhas viagens pela blogosfera! Oh, se tenho! E inveja também tenho sentido muita! De não ter sido eu a autora de alguns trabalhos dignos de admiração que por aqui vão sendo criados! Todavia, gosto de ser levada a sério e também gosto imenso de brincar quando a comunhão entre os comentadores a isso conduz!

  14. eu não posso falar pelo JPC que nem conheço pessoalmente (que eu saiba) mas acho que aquele comentário é porque ele gosta de ti, e estava a meter conversa contigo; só que ele depois é tímido e fica enrascado excepto se é para a porrada com gajos,

    desde que essa inveja seja benigna, como penso que é o caso, nada a apontar, eu também é assim, derreto-me todo com o Valupi e ainda por cima discordo umas poucas de vezes, mas é o meu peludão blogosférico forever,

    e também ainda tenho ali de lado o Fernão Mendes Pinto e os portulanos e a peregrinaçam mas como ando a vender a casa isto agora é tudo geometria variável num tempo fora do tempo,

    atchum!

  15. ora eis um caso que faz perceber porque é que o PS, e Socras manda, não aprovou o crime de enriquecimento ilícito,

    entretanto o Cravinho já não faz parte da CN mas andou a dizer que o Rendeiro era boa pessoa,

  16. Valupi, não terás querido dizer Estado Mais Novo?

    De resto, acho tudo bem e julgo que o prof Martrelo merece ainda mais porrada. O maior fala-barato da Península Ibérica, insuportavelmente presumido, sempre dando-se ares professorais de opinião isenta e certeira, que nunca foi nem uma coisa nem outra. É um dos mitos paspalhos deste Portugal paspalho dos últimos 30 anos.

    JPC, estás em forma.

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