Homogeneidade

O debate, ontem, no Prós e Contras foi um belo momento político, cívico e cultural. Os que se opõem ao casamento homossexual (ou entre pessoas do mesmo sexo, satisfazendo o preciosismo jurídico) entraram vencidos e saíram derrotados. Nem de outra forma poderia ser; tanto pela profundidade e complexidade da questão, que não dominavam, como pelo ar do tempo, que os domina. As declarações finais, de Isabel Moreira e de Miguel Vale de Almeida, foram particularmente felizes e complementares, num composto de intencionalidade emocional e assertividade intelectual – e até taxativas nisso de apelarem àquele mínimo de bom senso que suporta a existência mesma de uma dada comunidade. Posto que a homossexualidade não é crime nem doença, como o século XX ocidental acabou por estabelecer, decorre que a igualdade antropológica obriga à igualdade de direitos.

Não há nenhuma clivagem na sociedade a este respeito. O individualismo tem feito o seu caminho e não podem ser os mais fragilizados pela ignorância, ou pela decadência mental, a moldar o futuro. É por isso que o argumento de a questão não se justificar face à premência de outros problemas, ou que ela não passa de manobra de diversão do Governo por pérfidas razões, é especialmente velhaco e canalha. Quem foi por aí passou um atestado de imbecilidade a si mesmo ou assumiu que não é pessoa de bem. A verdade irrompe simetricamente oposta: é por existirem outros problemas que não sabemos ainda como resolver, ou que exigem maior esforço e colaboração, que temos de tratar daqueles que já só esperam uma decisão política, uma instituição legal. Porque tudo está ligado, tudo tem uma origem comum, como sabe qualquer amante da sabedoria ou mero leitor de Darwin. E contribuir para nos acolhermos nas nossas diferenças foi sempre apanágio do melhor que a Humanidade criou nos seus 150.000 anos de crescimento em direcção ao infinito.

33 thoughts on “Homogeneidade”

  1. Apoiado! Abaixo os canalhas e velhacos, esses velhos do Restelo que tentam impedir o país de andar para a frente… tantos problemas complexos que o governo, coitadinho, tem para resolver, daqueles que não são fáceis e exigem elevada competência. Por exemplo, só para citar alguns desses avultados problemas:

    -como continuar a encher a pança depois de regular os mercados financeiros ou de averiguar o que se passa com as tarifas dos fornecedores de telecomunicações?

    – como arranjar tachos aos amigos se os critérios de selecção para a entrada nas equipas socráticas e afins passarem a ser baseados na competência?

    – como desviar a atenção da opinião pública do caos bancário sem parecer que o governo está a favorecer uma pandilha de canalhas e velhacos?

    Partindo do brilhante princípio que “não podem ser os mais fragilizados pela ignorância ou pela decadência mental a moldar o futuro”, folgo em saber que o governo vai deixar esses problemas bicudos para quem vier depois.

    No entretanto, deram início, com frontalidade, a debates frondosos em que os que estão do contra “entraram vencidos e saíram derrotados”. Ou seja, não-debates, coisas inúteis, lutas vencidas antes de serem travadas, vento. Como diria o meu pai: “vão mas é trabalhar!”

  2. Alguém me explica o quer dizer esta frase – ” O individualismo tem feito o seu caminho e não podem ser os mais fragilizados pela ignorância, ou pela decadência mental, a moldar o futuro. ” ???

    É de mim, ou esta frase é de difícil compreensão ?

    Obrigado.

    Melhores cumprimentos,
    Joao Castro

  3. O Eng.º Sidónio Paes, além de cidadão empenhado e resistente à ditadura, ligado aos católicos progressistas, foi, durante largos anos, um dos mais exemplares críticos musicais do nosso País.
    Era neto daquele a quem Pessoa chamou “Presidente-Rei” e faleceu há cerca de um ano.
    Dos seus vários filhos, nenhum leva o seu nome, Sidónio. Um deles é, aliás, uma figura destacada (e de alta qualidade) da música nacional: Bernardo Sassetti.
    Isto para referir que é muito abusiva a utilização do seu nome (ainda que com grafia alterada) em contextos que não dignificam ninguém.

    Obrigado pela atenção.

    Tomaz Simão Azedo

  4. susana, e eu contigo.
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    ramalho, mas sabes no que deu a aventura governativa de Platão, não sabes?…
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    Sidónio, Pais (filho), é essa a ideia: podermos ir trabalhar, e trabalhar cada vez melhor. Para tal, há que mandar fora a tralha que impede a produtividade.
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    Bem lembrado, Nik.
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    Joao Castro, é de ti e é da frase, talvez mais da frase do que de ti. Mas cá vai uma explicação:

    – “O individualismo tem feito o seu caminho” -> A moral e a jurisprudência foram-se moldando segundo os desenvolvimentos científicos, levando a que a homossexualidade fosse cada vez mais, e cada vez melhor, aceite como legítima expressão pessoal, um direito. E isto independentemente da problemática relativa à sua origem (questão que continua em aberto, de resto). Ou seja, a homossexualidade acedeu ao estatuto de sexualidade normal; portanto, a noção de normalidade sexual alargou-se e passou a incluir um leque maior de opções homo e heterossexuais. Esta caminhada é paralela à do individualismo, conceito tomado aqui como sinónimo de autonomia individual, independente das narrativas religiosas, étnicas e ideológicas.

    – “os mais fragilizados pela ignorância” -> Os que são vítimas de preconceitos de que foram involuntários depositários, fruto das circunstâncias históricas e sociais em que se deu a sua formação. Estes agentes de homofobia, ou de oposição não esclarecida, merecem respeito, mas não pelas suas ideias.

    – “decadência mental” -> Desde o vasto leque de patologias que convivem não diagnosticadas e não tratadas na praça pública até aos processos degenerativos que se consideram naturais pela idade. Estes agentes de homofobia, ou de oposição não esclarecida, merecem respeito, mas não pelas suas ideias.

    – “moldar o futuro” -> O futuro pede mais inteligência, mais humanismo, mais liberdade. Pode ser difícil, mas é simples.
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    Tomaz Simão Azedo, muito obrigado pela informação.

  5. “Casamento de pessoas do mesmo sexo” – a fórmula justifica-se totalmente, pois não se pode fechar a porta do casamento de pessoas do mesmo sexo a quem não for “homossexual”. O Estado não tem nada a ver com os hábitos sexuais de cada um, por isso só pode legislar para “pessoas do mesmo sexo”, não para homossexuais. Se um par de mulheres ou homens hetero (ou até homófobos) quiser casar, tem tanto direito de o fazer como um par de homo, se a lei o permitisse.

    Dito isto, eu nunca senti qualquer necessidade de ir à Conservatória, acho absurdo que pessoas do mesmo sexo queiram casar com o objectivo de conseguirem um mirífico reconhecimento social da sua ligação. O reconhecimento social deve resultar daquilo que as pessoas são e fazem, não do acto jurídico que os une. Ninguém é mais respeitável só por se casar, seja hetero ou homo. O casamento hetero ou homo confere um tipo de reconhecimento social totalmente ilusório. Qualquer bandido, hetero ou homo, se pode casar, maltratar o cônjugue, violar os menores que estão ao seu cuidado, etc. Qualquer casamento pode durar umas semanas. Reconhecimento social do casamento? Qual reconhecimento?

    Se é para conseguir certos benefícios e direitos que são concedidos aos casais hetero, acho que pares do mesmo sexo poderiam conseguir isso com um estatuto semelhante ao britânico. Mas não é isso que aqui querem, mas sim o reconhecimento da homossexualidade pela via do direito matrimonial. Querem mudar as mentalidades de maneira errada. O resultado vai ser o oposto do que pretendem. Se a maioria não estiver preparada para aceitar plenamente a homossexualidade e reconhecer socialmente os homossexuais por aquilo que eles realmente valem como pessoas, vai forçosamente achar o casamento de pessoas do mesmo sexo uma aberração. Quer dizer: as pessoas que antes desaprovavam só a homossexualidade, de futuro irão desaprovar também (se calhar, mais!) o casamento de pessoas do mesmo sexo. Em lugar de uma “aberração”, duas!

    Muitos homossexuais proclamam o “direito à diferença”, coisa e tal, mas depois querem figurinos jurídicos iguais aos dos casais hetero. Parece que são os maiores defensores do casamento. Afinal são tradicionalistas, conservadores e gostam muito de formalidades.

  6. Obrigado pela explicação. A dúvida subsiste no entanto, pois se não podem ser os mais fragilizados pela ignorância, etc , será quem então ? Seguindo esta linha de pensamento, e pressupondo que entendi a sua explicação, posso dizer que o nossos políticos são vítimas de preconceitos, e involuntários depositários dos mesmos ? E sendo assim, quem poderá então moldar o futuro ? Teremos de arranjar alguém sem preconceitos e que ainda tenha 99,8% dos neurónios em estado óptimo. Vai ser difícil… acho eu….

    Ou será que entendi tudo mal ? ( espero bem que não )

  7. Nik, estás a cair num reducionismo que te faz perder o essencial da questão. O que está em causa não é a liberdade individual para assumir um casamento civil, domínio inviolável e que a Lei não limita, antes o reconhecimento desse direito. Trata-se de erradicar a discriminação do próprio corpo legal, assim cumprindo a Constituição.

    O tema do “direito à diferença” liga-se com o direito ao casamento, obviamente. A diferença que reclamaram era precisamente essa relativa à historicamente consagrada na polaridade heterossexual. Os homossexuais querem ser vistos como cidadãos com o direito a estabelecerem relações matrimoniais reconhecidas como tal pelo Estado. Daqui não decorre que os homossexuais, tomados individualmente, queiram casar, ou que o venham a fazer de forma sociologicamente relevante. Até podia não haver registo de qualquer casamento, a lei continuaria a ser bondosa e a cumprir a sua função: acabar com a injustiça.

    Quanto a ficarmos reféns de pessoas que desaprovam a homossexualidade, só por isso vale bem a pena vir esta regulamentação. Quem desaprova a sexualidade alheia não ilegal está a precisar de uns abanões cívicos.
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    Joao Castro, acho que entendes tudo cada vez melhor. É óbvio que podes considerar qualquer como vítima de preconceito, e daí a fertilidade do debate político e multiplicidade de propostas resultantes. As pessoas que temos de arranjar, contudo, já cá estão. São os governantes, os representantes, os votantes, os cidadãos. O futuro molda-se nestes moldes.

  8. Caro Tomaz,

    Sou filho do Sidónio Pais da Covilhã, saudoso pastor e afamado criador de cães da raça Serra da Estrela (que vendia com 5 anos de garantia). Tenho o maior orgulho nisso e não estou a usurpar o nome de ninguém. Ou será que o amigo Tomaz está a usurpar o nome do meu primo Tomás lá de cima, ainda que com grafia alterada? Bem me queria parecer que não.

  9. obrigado Valupi, arranjaste maneira de eu poder ver estas coisas a desoras,

    hoje veio um ouriço cacheiro direito à minha bota para eu lhe fazer festas, imagina ao que isto chegou, vá lá que com cuidado não pica e lá esticou o focinhito todo dengoso,

    sobre isto falo amanhã, o problema é sempre só um: hipocrisia e dissimulação na lógica do poder das instituições, afinal não entra pelos olhos de qualquer um que Jesus andava com homens, e João era o preferido?

  10. Valupi, o debate de ontem, no meu modesto entender, e tirando meia dúzia de intervenções. Salva-se o mais que suspeito padre, o Miguel de Almeida e um pouco o Patto e o Rui Tavares, quanto ao resto foi de uma pobreza a toda a prova tanto de um lodo como do outro.

    A rapariga esganiçada que procurar protagonismo a todo o custo tenta reduzir a vida a um compêndio de direito, também não podia esperar mais. A Fernanda Câncoa não percebi o que fazia lá, para além das piadolas muito pobres nada fica. O DO acha que continua a fazer comícios independentemente de onde está. Do lado do Não ainda se aproveita menos.

    Em suma, se aquilo é o melhor que se arranja para esgrimir argumentos mal vão os lésbicos, as gays e os conservadores!

    Agora tu valupi, não te estiques não tarda nada cais em contradição!

  11. Numa sociedade democrática se, por qualquer razão irónica, passar a haver 3% ou mais de coxos, disseminados por todas os grupos etários e profissões, incluído juristas, políticos, etc, serão certamente aprovadas leis que conferem estatuto de normalidade aos coxos, a pedido deles. Isto é, é-lhes retirado o estatuto de deficientes, com força de lei. Isso não quer dizer que eles não sejam objectivamente deficientes, e não quer dizer que, quando passam na rua as pessoas não digam de si para consigo, vai ali um coxo.
    O programa Prós e Contras de ontem só me fez lembrar a história de “O rei vai nu”.

  12. cá para mim deviam era abolir o casamento, fosse para quem fosse, das leis que nos regem. quem quisesse formalidades que fosse à igreja. um contrato que fica sem efeito caso não se cumpram as obrigações sexuais é um passo para a legitimidade da prostituição. é certo que na origem casamento e prostituição não se diferenciavam muito, mas actualmente vê-se na prostituição um mal das sociedades em que os direitos dos indivíduos se revelam na matéria individual por excelência: o corpo. o debate realmente necessário é entre os prós e contras do casamento. a minha posição é clara: quem é o estado para me dizer de quem gosto, como gosto e quando gosto? porque é que os que têm um papel a dizer que gostam um do outro têm mais direitos que nós que nos gostamos tanto e partilhamos todos os nossos afectos, economias, habitação, carro, etc.? LIVRE CUMPRIMENTO, ABAIXO O CASAMENTO! (palavras de ordem mais inspiradas precisam-se)

  13. O casamento está a cair em desuso, Maria, não precisa de ser abolido. Nem o Estado se deveria meter nisso, deveria deixar apodrecer. De resto, estou de acordo contigo. Mas não digo: abaixo o casamento! Digo: não preciso do casamento para nada. Cada um sabe de si.

    Val, os gays e as lésbicas que querem formalizar a sua ligação através do velho casório (dizes “matrimónio”, mas isso obviamente não se aplica a dois homens) são uns conservadorões, uns tradicionalistas, uns reaccionarões disfarçados de lutadores pelo “direito à diferença”. Vão bugiar. Se querem quebrar as regras ancestrais da sociedade – que, se calhar, são obsoletas – para que exigem agora adoptar os ritos jurássicos do casamento heterossexual, que estão a cair em desuso? Vão bugiar. São ridículos.

  14. porra, vamos lá ver! Eu próprio só fiquei a favor do casamento homo há dois ou três anos, já não me lembro bem, depois de ter conhecido a história de um puto de 19 anos que se suicidou por aqui. E sim, acontece muito, o exemplo paradigmático é o Alan Turing nos anos cinquenta em Inglaterra, o homem a quem devemos a descodificação da Enigma alemã na II Guerra e uma série de conceitos algoritmicos que nos permitem estar aqui no paleio. Conheci colegas de curso que se mataram também.

    a adopção do casamento homo permite duas coisas: mais um passo na banalização do casamento civil como junção de esforços para construir um poiso, uma casa, numa etapa da vida, e a diminuição da legitimidade homofóbica que continua aí, e é sobretudo alimentada por quem tem descompensações a esse nível, convertidas em ódio por quem as pratica. Aliás homofobia quer dizer medo do mesmo, medo de si.

    quanto a mim nunca gostei dessa mimetização hetero, eu gosto é como os gregos, amigus, e ainda há os quatro sexos triangulares,

    mas dada a reacção da igreja, depois logo cobardemente reconvertida em nova dissimulação, vou ter de escrever sobre isso não tarda muito

  15. portanto acho que devemos aos jovens, o facto provado de que todos os caminhos estão abertos por igual, sejam como são e descubram-se,

    o Milk é um bom filme, muito bom para recordar a figura da Anita, que “ama” (diz ela) os homossexuais e por isso quer impedi-los de o ser, despedindo-os, impedindo-os de ser quem são,

    também há as Salomé que exigem as cabeças do Joões Baptistas,

  16. já agora ohNuno, desculpa lá incomodar-te no repouso, mas chama-te à liça e não fui eu, a gente sabe como é isso das guerras e dos conventos, um gajo depois precisa de descansar como se fora um ouriço cacheiro, portanto se puderes manda lá uma estocada no teu patrono que eu estou farto da hipocrisia e dissimulação e também vou à guerra,

  17. Olha o Nik começa a dar os primeiros sinais de juizo desde que anda a escrever aqui as suas crónicas pro-capitalo já quase há dois anos. Dever ter andado a desintoxicar-se nalguma clínica. Força, pá, rebenta com esses hipócritas dos larilas casamenteiros e essas meninas de peitos chatos e cursos superiores.

    Bom, lá vai o Valupi ter de amanhar-se só com a ajuda do Posidónio Pais (filho), e De Puta Madre, também, já me estava a esquecer.

    Saudações, e o meu ombro, para os inimigos do costume do Valupi, os velhacos, canalhas e imbecis.

  18. Z, essa de Jesus andar com homens, e de João ser o preferido, não tem de ser assunto de cueca. Aliás, estranho seria se o fosse.
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    Ibn, mas qual contradição?
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    Manolo Heredia, pode ser. Mas se até um coxo pode votar e casar, qual é o problema? É que é só em relação aos direitos que se pretende igualdade, não em relação à existência.
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    maria, essa correlação entre casamento e prostituição, na dita “origem”, donde vem?
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    Nik, estava a usar “matrimónio” como conceito sinónimo de casamento, mas, como apontas, poderá ter a sua ironia. Quanto ao teu protesto contra a figura mesma do casamento, isso é outra conversa. Neste caso, apenas estava em causa a igualdade de acesso ao estatuto (e demais implicações legais).

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