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Sócrates e o culto da personalidade

Existe um culto da personalidade à volta de Sócrates, é indesmentível. Começou em 2006, com as corridinhas a assustarem os pançudos, as tareias no Parlamento a envergonharem os palonços e a evidência de que o homem ia mesmo tentar reformar alguma coisa. E o culto cresceu. Cresceu como nunca se tinha visto em Portugal. Até no PS há militantes e deputados que alimentam o culto da personalidade a Sócrates, veja-se o ponto a que isto chegou. O Alegre, por exemplo, é um deles. E outros que estão com ele, que até chegam a votar contra o partido na Assembleia da República ou sonham com a perda da maioria absoluta, não se cansam de falar em Sócrates. Mas onde o culto da personalidade atinge o seu histerismo é na oposição. À direita, o mais destacado cultor é o Pacheco, coadjuvado pelo Zé Manel e pasquim, a que se juntou o Sol, TVI e Correio de Manhã, pelo menos. À esquerda, PCP, BE e sindicatos amigos, vocacionados para cultos da personalidade desde o berço, não deixam os seus créditos por manipulações alheias. Todavia, nada se compara com o paroxismo que acaba de ser alcançado pelos professores:

Sou professor não voto em Sócrates

Os professores consideram que a governação de Portugal é matéria da exclusiva responsabilidade de um indivíduo. Não há partidos, não há militantes, não há programas, não há eleições, não há Parlamento, não há sociedade, não há comunidade, não há Pátria, não há nada para além de um nome, uma cara, um poder que se projecta absoluto, um monarca.

Espero que os professores não andem a ensinar estas porcarias aos seus alunos. Para isso, mais vale que ocupem o seu tempo em manifestações, onde podem dar largas ao culto da personalidade de Sócrates com aqueles cartazes tão giros que o procuram ofender, precisamente, na sua personalidade. Os alunos, assim livres da influência destes professores, terão até tempo para aprender alguma coisa de política.

Que nome vamos dar a quem foge do Parlamento?

O BE saiu do Parlamento porque o Chefe de Estado de Angola lá entrou. Pelas seguintes razões:

Fernando Rosas acusou ainda o regime angolano de ser “oligárquico, assente na corrupção e com chocantes desigualdades sociais”

E, súbito, a muitos, e a muitos até agora simpatizantes do Bloco ou em aproximação, caiu uma chuvada de lucidez: o BE é um bando de perigosos irresponsáveis. Porquê? Porque também representam o Estado português ao mais alto nível – ou ao mais fundamental nível – ao terem representação parlamentar. Estás de acordo? Tens de estar, tira agora o resto das conclusões: ao se recusar a receber o Presidente de Angola no Parlamento, o BE está a afirmar a ilegitimidade do poder político angolano. E que tipo de relações se pode ter com um Estado a cujos representantes não se reconhece o direito de representação? Se o BE não recebe Eduardo dos Santos no Parlamento, servindo-se de critérios tão vagos e ambíguos, como seriam as suas relações com a enorme maioria dos países mundiais, inevitavelmente abrangidos pelos mesmos critérios, caso fosse Governo? Os eleitores aguardam um rápido esclarecimento.

Entretanto, o papagaio-mor do partido, Daniel Oliveira, vendo-se à beira do abismo lógico, resolveu dar um passo em frente: afirmou que Eduardo dos Santos é um criminoso. Ter estado presente no Parlamento, então, significaria ter sido cúmplice dos crimes que o BE já averiguou e encaminhou para as autoridades nacionais e internacionais (presumo, fazendo fé na honestidade intelectual deste arauto da verdade). Fez muito bem o BE, canta o Daniel, e tal imbecilidade abre-nos o apetite para as seguintes perguntas: o BE aceita partilhar o Parlamento com deputados e partidos que foram ao beija-mão do criminoso?; o BE aceita ter um Presidente da República que convida criminosos para visitas de Estado?; o BE tem planos para alterar a política interna angolana? Os eleitores, e as autoridades angolanas, aguardam um rapidíssimo esclarecimento.

Para mim, é tudo muito mais simples. Sendo o Parlamento a sede da democracia, quem foge dele foge dela.

7 Reasons Leaders Fail

Dilbert.com

Serão os filhos culpados pelas ignorâncias e limitações dos pais? Idem para os empregados em relação aos patrões. Em Portugal é raro encontrar um patrão inteligente, o que é diferente de encontrar um patrão com sucesso. O sucesso é um conceito fluido, adaptável à circunstância de cada um e à sorte que tudo rege. Mas a inteligência é uma capacidade que remete para o outro, para essa arte de criar comunidades. Aqui o sucesso não nasce da sorte, mas da atenção, da humildade e da coragem.

Os portugueses urbanos não sabem criar comunidades, são profundamente incultos, e isso leva a que sejam inevitáveis tiranetes, ou capatazes mesquinhos, no exercício das chefias. Donde, a necessidade de fazer uma revolução que comece por cima, pelas lideranças. E este artigo, tão elementar, chega e sobra para essa alquimia.

Queda livre

O programa Roda Livre, da TVI24 (ainda a anunciar Vital Moreira no elenco), reúne Vasco Pulido Valente, Rui Ramos, Correia de Campos e Henrique Garcia. O moderador está lá para garantir o festim de chicana contra o Governo, PS e Sócrates, não faz rigorosamente mais nada. O Vasco comporta-se com a senilidade que as palavras escritas escondem e a voz não disfarça. E o Rui Ramos revelou-se, ao vivo, uma surpreendente fraude intelectual.

Neste ambiente de hostilidade desbragada, Correia de Campos tenta apresentar factos, números e argumentos. Para nada. Do outro lado há opiniões, percepções e vitupérios, sem carência de base real ou imunes ao contraditório objectivo. Por isso, anteontem, ele acabava invariavelmente a rir-se da fantochada onde estava metido.

Mas o cúmulo atingiu-se quando Henrique Garcia introduziu o tema do computador Magalhães, o qual, nas suas palavras, estava cheio de erros gramaticais. É importante notar que esta ideia é transmitida publicamente no dia 12 de Março de 2009 pelo responsável editorial da TVI24. Ou seja, não se trata de um episódio de má informação ou falta dela, é antes a deliberada intenção de mentir. Pois foi isto que aconteceu: quando Correia de Campos começou a falar, os outros três começaram a vaiar, literalmente! Estavam em regime de pateada, boicotando o discurso do orador antes mesmo de ele ter conseguido ligar duas sentenças. Foi uma situação extraordinária, nisso em que ela revela, de modo obsceno, as actuais disfunções de tanta gente com que crescemos, ou amadurecemos, intelectual e jornalisticamente, e agora se apresenta alucinada, espumando a sua frustração e ressabiamento para cima dos telespectadores e interlocutores. Não têm a mínima noção do que assim revelam da sua intimidade, ou parece não se importarem com algum critério de aferição da honestidade. Supremo encanto da merenda, quando chegou a vez do Vasco e do Rui falarem das supostas desgraças linguísticas do Magalhães, nada se ouviu sobre o assunto. O Rui apenas reconheceu que o computador era um sucesso junto das crianças, e o Vasco queria cascar nos professores. Quer-se dizer: há idosos analfabetos em lares insalubres que teriam algo de mais valioso a dizer do que este par de jarras.

Estamos a assistir a um fenómeno colectivo onde há um efeito de contágio. O delírio de Pacheco Pereira, de que os outros são cópia, é a expressão mais acabada da patologia originada pelo desabamento da direita, tanto no plano partidário, como no plano ideológico. Mas as causas mais fundas do actual desespero e paranóia ligam-se à qualidade política do Governo, que promete levar o PS a vencer as eleições apesar da contestação artificial e das campanhas negras, e aos acontecimentos no BCP, BPN/SLN e BPP. Uma rede vastíssima de cumplicidades, de empresas a indivíduos, sente-se ameaçada, entrou em pânico e teme o pior das investigações. Sócrates tem de ser condicionado, ou afastado, a todo o custo, pois o que está em jogo são casos de polícia e prisão que atingem a elite nascida do cavaquismo e os negócios que ela alimentou nos últimos 20 anos.

Um aviso com 86 anos

Aviso por Causa da Moral

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim – exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor…

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más – boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível. Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.

Tudo o mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.

António Nogueira, Europa, 1923

Abre-me essa pestana

Primeiro, lê este. Demora 2 minutos, menos se não sabes inglês. Depois vai fazer um chá, passeia, fuma um cigarrito, dá comida ao gato, perde-te a olhar para quem passa. E volta para ler este.

É que temos de acabar com a tanga do dualismo razão-emoção. As emoções são racionais, mecânicas. E a razão tem sentimentos que o próprio coração desconhece.

Alguém do Bloco que vá dar uma ajuda ao homem, faxavor

O Daniel Oliveira está a ser reduzido a picado. Começou aqui a sangria, pelo Jairo Entrecosto, um nome que é um destino. Este amigo voltou à carga. E um outro trouxe este artigo.

Ora, a questão é veramente simples. O Bloco é populista, todos o sabem, e por isso é moralista, a lógica do seu extremismo, e por isso é antidemocrático, dado que a democracia é amoral, e por isso é imbecil, recusando-se a receber o Rei de Espanha porque… qualquer coisa, e por isso é cobarde, fugindo da afirmação da sua posição em relação a Angola dentro do Parlamento, e por isso não deve ser Governo, nem sequer em coligação. Isto é cristalino: até o PCP oferece mais confiança do que o BE. Se o PCP é um análogo da Igreja, simétrico antropológico, o BE é a exacta cópia de uma seita, daquelas que acreditam em naves espaciais a reboque de cometas onde todos os eleitos irão entrar em direcção ao Reino.

Peripateta

A real bosta que é a TVI foi a última estação a lançar um canal de notícias e, apesar do atraso, conseguiu o brilharete de não disponibilizar os vídeos dos programas. É o equivalente a lançar-se um novo telemóvel sem possibilidade de envio de SMS. Não se pode, assim, rever o Cara a Cara ontem emitido. Mas uma breve consideração preliminar: para se descobrir a honestidade e capacidades cognitivas de qualquer ser adulto falante de português, basta assistir a este programa com o indivíduo em causa. No final, interrogue-se o co-espectador acerca de Santos Silva. Qualquer resposta que não reconheça as suas superlativas capacidades analíticas, clareza discursiva e cultura política, será um atestado de menoridade intelectual e/ou má-fé. Porque o actual Ministro do Assuntos Parlamentares é um exemplo do melhor que a democracia pode criar, não tendo qualquer dificuldade em desmontar a retórica rançosa da oposição. Já Morais Sarmento é um exemplo do pior que o cavaquismo produziu, subindo ao ringue só para ser espancado sem piedade. O que o salva é um processo auto-anestesiante que lhe permite chegar ao fim do programa sem desmaiar.

Pois ontem viveu-se um momento de rara pureza liceal na televisão portuguesa. Nasceu na cabeça de Morais Sarmento, a qual usou de todos os seus poderes psicossomáticos para que se produzisse uma vibração no ar equivalente à sonoridade da palavra peripatético. E assim foi, ouviu-se dizer que o PS era, ou estava, muito peripatético em relação a uma dada questão. Santos Silva reagiu com surpresa – talvez medo, dada a novidade da utilização do conceito no léxico político – e tentou alertar o seu comparsa para o eventual engano. Debalde, pois Sarmento estava até entusiasmado com o efeito provocado no adversário. Na terceira tentativa de correcção, já com notas de compaixão e etimologia da palavra a ser ilustrada com gestos e dedinhos andarilhos, Sarmento disparou um olhar de indisfarçável e triunfante desprezo, aparecendo nos seus olhos a seguinte legenda: Fodi-te com o peripatético, não foi?… hehehe… Vens para aqui armado em doutor, mas agora levaste na corneta… Cabrão de merda! E lá partiu para a explicação. Que o PS estava… muito… [pausa para entrelaçar as mãos e exibir um esgar de dor] muito… peripatético!… porque… o Governo… [qualquer coisa, da qual nada se percebeu]. O programa acabou logo a seguir, e Santos Silva parecia resignado, abatido. Contemplava os próximos meses, e neles via obrigatórias reuniões semanais com um peripateta do tempo do outro senhor.

Umas palavrinhas para o Paulo Magalhães: atento, espartano e verdadeiro moderador. Promete. E faz uma boa dupla com Santos Silva, pois confronta-o com lhaneza, focando-se no interesse jornalístico.

12 a 1 é melhor do que 7 a 1

Que o Bayern tenha varrido o Sporting do mapa europeu com o resultado de 12-1, é apenas uma das várias provas da falência da mecânica quântica e do acerto de Einstein quando resolveu chibar-se a respeito de Deus não jogar aos dados. 12 para 1 corresponde à proporção das diferenças entre a Alemanha e Portugal no que concerne ao PIB*, filósofos que saibam ler alemão** marcas de cerveja*** e gajas loiras****, factores estes, todos eles e cada um, críticos para qualquer equipa de alta, mesmo média, competição.

Falar no 7-1 é que não. Isso, por favor, é sagrado e só para recordação caseira. Também vendo um autógrafo do Manuel Fernandes, se insistirem muito e pagarem a pronto.

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* Sei lá.
** Mais coisa, menos coiso.
*** Hã?
**** Pois.

A lei de José Eduardo Martins

Paulo Ferreira diz que o Governo e o Estado são cúmplices de:

– [alinhar na] encenação que ditadores, protoditadores e governantes pouco escrupulosos gostam de se atribuir

– [receber] aqueles que se confundem com o Estado, que pensam que são donos dele

– [aceitar] aqueles que medem a sua importância, o seu poder e a sua influência pelo número de motas de polícia que abrem caminho nas ruas e avenidas, com absoluto desprezo pelos incómodos que esses caprichos causam a milhares de pessoas

mimar governantes sem credenciais democráticas ou humanistas

Também mostra ter informações que põem em causa a necessidade de tanta segurança:

Dir-se-á que é a segurança que motiva o aparato. Mas afinal que perigos ameaçam a vida de José Eduardo dos Santos? Teme-se um atentado da UNITA? Dos separatistas de Cabinda? De quem, afinal?

Termina com uma interrogação que nos leva para o cerne do problema:

Mas seria de esperar outra coisa de um país que hoje é governado por um primeiro-ministro que aceitou que fechassem a Praça Vermelha para fazer a sua mediática corrida matinal em Moscovo?

Concordo com o Paulo, é má-onda fechar a Praça Vermelha, seja lá para o que for. Nisso Sócrates fez cagada, não vale a pena tentar esconder (para mais tendo em conta o tamanho da puta da praça). E talvez explique por que razão ainda não conseguiu voltar à China. É que os chineses também têm praças, e são supersticiosos. Portanto, fixe, Ferreira, bem dezido. Não há dúvida de que à imprensa livre ninguém põe a pata em cima; apesar do PS e tal.

Ah, já me esquecia. Se porventura estás a insinuar, ou a declarar, que o Governo do meu país é cúmplice de criminosos, isso piaria muito fino. Claro que eu não acredito nisso, até porque tu escreves num jornal de referência. Mas se estivesses mesmo a querer dizer que os nossos governantes são criminosos por anuência, associação e promoção, vamos imaginar essa imbecilidade, era até caso para fazer uma pequena adaptação à lei de José Eduardo Martins – e convidar-te a resolver o assunto dentro do Parlamento.

trust me?

Diz-me o que lês, dir-te-ei em que me podes ajudar. Por exemplo, se lês o Design Observer podes ajudar-me em tudo e mais alguma coisa, porque estarás com a inteligência muito bem nutrida. Imagina que eu preciso de ajuda para compreender o meu trabalho. Seria a oportunidade para me recomendares este texto de Michael Bierut:

When I do a design project, I begin by listening carefully to you as you talk about your problem and read whatever background material I can find that relates to the issues you face. If you’re lucky, I have also accidentally acquired some firsthand experience with your situation. Somewhere along the way an idea for the design pops into my head from out of the blue. I can’t really explain that part; it’s like magic. Sometimes it even happens before you have a chance to tell me that much about your problem! Now, if it’s a good idea, I try to figure out some strategic justification for the solution so I can explain it to you without relying on good taste you may or may not have. Along the way, I may add some other ideas, either because you made me agree to do so at the outset, or because I’m not sure of the first idea. At any rate, in the earlier phases hopefully I will have gained your trust so that by this point you’re inclined to take my advice. I don’t have any clue how you’d go about proving that my advice is any good except that other people — at least the ones I’ve told you about — have taken my advice in the past and prospered. In other words, could you just sort of, you know… trust me?

Vês? A inteligência mede-se sempre pelas vantagens obtidas. Neste caso, para além de se esclarecer em poucas palavras o processo criativo, ainda se recolhe uma lição sobre relações humanas que tem aplicação para lá do ambiente profissional. Sem confiança o criativo não consegue fazer aprovar a sua promessa; ora, pelas mesmíssimas razões, sem confiança também os filhos não acreditam nos pais, os alunos não aprendem com os professores, os cidadãos não se comprometem com a Cidade. E sem confiança não se ama, pois não? Para que quereria eu (ou tu) entregar a vida a quem não amo? Ou porque dizes tu (ou eu) que não amas a quem entregas a vida? A confiança é uma necessidade de que se pode fugir, mas só para admitir que fomos parar a um deserto.

É disso que nos fala este testemunho do Bierut, escondendo-o na aparente futilidade da aprovação de uma peça de comunicação comercial. Porque também os clientes entregam a sua vida ao comprarem ideias, arriscando a reputação, o emprego e a confiança em si próprios. Tal como um amigo entrega a sua vida quando acredita no que ouve do seu amigo, ou no que o seu amigo lhe mostra, dirias ainda com santa paciência, só para me ajudar. Os amigos arriscam o sentido da sua existência, e o tempo que é cada vez mais precioso, ao confiarem. Achas que se pode ser amigo sem confiar?

E assim, apontando para o que está próximo, continuarias a aumentar o meu entendimento do mundo com farta inteligência, agora mandando-me ler On (Design) Bullshit, um texto que aprofunda o anterior e o leva para os pressupostos filosóficos (mas tão fáceis de perceber que até eu iria perceber o que é tão fácil de perceber). Finalmente, porque sabias que eu já tinha visto 12, ou 13, episódios do Mad Men, oferecias-me este presente.

Tortos à direita

A estreia do A Torto e a Direito, na TVI 24, confirma 3 ideias e oferece um bónus:

1ª – A TVI é pirosa. Há um mau gosto estético que é o exacto reflexo de um mau gosto intelectual e de uma completa falta de gosto ético. Os cenários são feios, os programas de produção própria celebram o subúrbio, as notícias são deturpadas à má-fila, as opções editoriais têm como missão satisfazer as exigências do sistema cognitivo de um taxista iracundo e sócio do Benfica. Constança Cunha e Sá encarna na perfeição esta tipologia, apresentando-se ao serviço na edição inaugural não como jornalista, ou moderadora do debate, mas como mais uma alma que tem algo para desabafar sobre os malandros do PS e a tirania em que vivemos. O problema não está em ter opiniões, antes na chatice de, quando questionada sobre os pressupostos objectivos do que despeja, ficar sem saber o que dizer. Porque, de facto, tudo se resume à sua cabecinha, ela nem o TPC tinha feito.

2ª – A direita portuguesa vive a sua travessia do deserto. João Pereira Coutinho, se visto como representante da nova geração de talentos, dá vontade de desligar o televisor e ir lavar a loiça. O seu histerismo, para espectador ver, é pegajoso e tem cheiro. Não é por aí, não é assim, que vamos conseguir introduzir inteligência de direita no debate político. Já temos ressabiados que cheguem, ó Coutinho.

3ª – Fernanda Câncio é uma das personalidades mais úteis na comunicação social actual. É mulher, é jornalista, é íntima de Sócrates e tem no bom-senso a sua principal arma. Sendo mulher, fica como apelativo exemplo que pode inspirar outras mulheres para a intervenção cívica. E nós precisamos muito, mas muito, de mais mulheres com poder político e influência social. Sendo jornalista, tem uma deontologia que promove a sua honestidade intelectual; tendo revelado, ao longo da sua carreira, especial zelo com as questões deontológicas. Sendo íntima de Sócrates, humaniza a figura do político, combate as distorções inerentes ao exercício do poder e contrabalança a onda de paranóia que nasce do descalabro do PSD. E, last but not least, com o recurso ao bom-senso consegue desarmar as imbecilidades à sua volta. Foi assim neste programa, onde perguntas básicas chegavam para exibir a inanidade dos discursos dos seus parceiros de pseudo-debate.

Bónus – Luís Salgado Matos, convidado para comentar o negócio da CGD com Manuel Fino, é indescritível e inimputável. Confundia-se com as paredes da casa.

Arnaut, sexy motherfucker

António Arnaut tem 73 anos. Vista de fora, a sua vida tem sido admirável. Um exemplo de cidadania, coragem política, generosidade intelectual. Em 1983 abandona as lides partidárias, guardando o titânico rótulo de Pai do Serviço Nacional de Saúde. Andou mais de 20 anos desaparecido dos holofotes políticos, até que renasceu para os jornalistas em 2007. Discordava da reforma na Saúde, em especial, e achava que o PS estava a ser empurrado para a direita, em geral. Foi ficando a maldizer a governação desde aí, aparecendo colado a Alegre e outros notáveis elementos da quinta coluna socialista. Isto, sem necessidade de outros detalhes, quer dizer uma coisinha que até o Zé Manel da SONAE vai admitir sem ter de gastar um editorial: este mação dum cabrão tem malhado forte e feio no patife do Sócrates.

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Currespondência

No dia 17 de Fevereiro, recebemos cá na casa um email que reza assim:

Companheiro(a),

Segundo uma análise do Expresso aos valores das sondagens do PSD e dos seus líderes desde 2005, a actual liderança é, segundo o Expresso, a pior desde 2005.
Curiosamente, esta liderança que tanto criticou e exasperou a anterior liderança tem que engolir as palavras do Expresso que mostram que Luís Filipe Menezes nunca teve valores negativos na apreciação da sua pessoa.

Convém relembrar que durante a presidência de Luís Filipe Menezes ainda não se ouvia falar de crise, Portugal presidiu, durante 6 meses, à União Europeia, os professores ainda não tinham realizado duas mega-manifestações, não havia o caso Freeport. Agora, com todo o descontentamento que existe na sociedade portuguesa, o PSD não consegue subir na opinião dos portugueses. E para cúmulo, temos que ouvir o Miguel Portas, do Bloco de Esquerda, afirmar que as hipóteses do PSD ganhar as eleições são iguais às do BE.

É caso para reflectir e alguns fazerem um “mea culpa”.

Saudações Sociais Democratas.
A Causa!

Ontem recebemos um email assinado por D. Duarte de Bragança; cuja qualidade política, intelectual e literária pode ser aferida, com grande economia de caracteres, recorrendo ao seguinte excerto:

Para ultrapassarmos as dificuldades, precisamos de todos os nossos
recursos humanos em direcção a uma economia mais “real”, mais
sustentada, mais equitativa, uma economia em que respirem todas as
regiões a um mesmo “pulmão”.

E hoje recebemos esta coisa:

Curso de Astrologia em Lisboa
Dias 3 e 10 de Fevereiro, das 20H às 00H00

Ainda se aceitam inscrições

Um aprofundamento da teoria dos Arquétipos de Carl Gustav Jung, bem como das dinâmicas entre o consciente e o inconsciente – Sombra, Animah, Animus, Self, Individuação, Imago Dei – é desenvolvido ao longo do curso.

O Novo Ser, em incubação em todos nós hoje, é fruto não apenas da evolução psicológica e psicoafectiva, o amadurecimento integral das diferentes partes do ser, tal como descrito nos 12 trabalhos de Hércules e na tradição astrológica, mas principalmente fruto da Graça operando de dentro para fora, de cima para baixo, em contínua NEOGÉNESE libertadora.

As funções hoje conscientes – correspondendo aos planetas pessoais – tornam-se gradualmente subconscientes e o foco do Ser Consciente transfere-se gradualmente para o nível intuitivo e, em certos casos, para o nível espiritual – níveis regidos por planetas suprapessoais ou mesmo por corpos celestes ainda por revelar no nosso sistema estelar.

Este novo ser – o ser gnóstico – encontra-se representado pelo centro do Zodíaco, o centro do mapa astrológico, pelo 13º signo, o Unicórnio, o Atman.

© André Louro de Almeida

Alguns, mais apressados, não relacionarão estes três emails, sendo incapazes de estabelecer nexos e proximidades em matérias aparentemente tão díspares. Não sabem o que perdem.