Arnaut, sexy motherfucker

António Arnaut tem 73 anos. Vista de fora, a sua vida tem sido admirável. Um exemplo de cidadania, coragem política, generosidade intelectual. Em 1983 abandona as lides partidárias, guardando o titânico rótulo de Pai do Serviço Nacional de Saúde. Andou mais de 20 anos desaparecido dos holofotes políticos, até que renasceu para os jornalistas em 2007. Discordava da reforma na Saúde, em especial, e achava que o PS estava a ser empurrado para a direita, em geral. Foi ficando a maldizer a governação desde aí, aparecendo colado a Alegre e outros notáveis elementos da quinta coluna socialista. Isto, sem necessidade de outros detalhes, quer dizer uma coisinha que até o Zé Manel da SONAE vai admitir sem ter de gastar um editorial: este mação dum cabrão tem malhado forte e feio no patife do Sócrates.


Ora, no passado dia 1 pudemos ouvir (ou ler) um espectacular testemunho. João Marcelino e Paulo Baldaia fornecem a mediocridade usual, epidérmicos e distraídos, mas Arnaut foi também igual a si próprio. E despachou a ocasião com honestidade e pedagogia. O que diz é tão lucidamente popular que qualquer patego que ainda não perceba o fenómeno das sondagens favoráveis ao PS e Sócrates, apesar das escabrosas campanhas, tem aqui uma ajuda misericordiosa. De facto, há uma dupla consistência em Sócrates: comportamento e atitude. Ele tanto afirma a sua inocência como afirma a sua justiça. Para a primeira afirmação, recorre à palavra. Apresenta factos, esclarece relações, rebate suspeitas. Para a segunda afirmação, utiliza o corpo. E o corpo não mente, eis o segredo. Pelo corpo, Sócrates comunica com o povo. O que fica involuntariamente manifesto nas constantes filmagens – e ainda mais forte será a impressão ao vivo – é fonte de credibilidade. O instinto diz que aquela pessoa não está a mentir no essencial, mesmo que, eventualmente, também não esteja a contar toda a verdade acidental. Como a finalidade das campanhas é levar a que o acidental se substitua ao essencial, ou que a calúnia abafe ou envenene o real, o antídoto pede a transparência que só a massa do corpo consegue dar. Arnaut revela, com pureza romântica, ter a mesma experiência de qualquer pessoa de boa-fé, confiando em Sócrates após rigorosa análise do que é público.

O PS tem muita gente desta cepa. Muitos anónimos com estas raízes e asas. Nos outros partidos, estes seres de sapiência tradicional são raros. São raros aqueles que carregam pedaços da História no currículo, e que nunca desistem do ideal de cumprir a Cidade, continuarem associados a cegueiras ideológicas ou a hipocrisias rapaces. No PSD, ocorre logo o nome de Miguel Veiga, um aristocrata no melhor sentido da palavra. Mas torna-se um berbicacho encontrar o segundo nome. Daí ser tão grave a crise geracional no PSD e CDS, partidos incapazes de se renovarem por não terem matéria-prima capaz de compreender o tempo presente e desenhar o tempo futuro. Apenas se vê entrar refugo, cujo único mérito é o de conseguir imitar os piores vícios dos mentirosos.

Enfim, não conheço nada mais sexy do que o pensamento livre. Mesmo num pedreiro.

24 thoughts on “Arnaut, sexy motherfucker”

  1. Não vou ler isto, porque tenho de ir comprar bacalhau. Mas a última linha está cheia do omega 3 que tanta falta nos faz. Volto mais tarde.

    Pois, abaixo os motherfarters and sons and daughters of bitches motherfuckers of all nations, parasite bankers, corrupt politicians, redundant lawyers, doctors and industrialists, fascist fertilizer and pharmaceutical company owners, nazi biochemists and racist eugenists!

    Power to the People, but only after a complete detox of every single brain on this planet! It is as bad as this, believe me.

    I know, the cleaning up is going to take ages. It could even be too late. That is THE problem.

  2. mas portanto Valupi, acho muita graça às tuas oposições aristotélicas: substancial vs acidental e universal vs particular.

    que o Socrates seja como pensas são os meus votos, mas mantenho reserva até que se esclareçam umas coisas.

    O que me chateou no congresso do PS, de que só vi uns relances, foi os vices, o escarninho Vitorino sempre lá, o Costa a caminho de texugo, a Estrela que já anda ali há milénios, a Belém de que mesmo assim tenho um fraquinho porque dizem que é boa doceira e quando era ministra da saúde era muito divertida: estava sempre tudo bem e já tinha mandado abrir um inquérito!

  3. Exemplos de renovação no PS:

    Edite Estrela;
    José Lellllllo;
    Mário Soares;
    Almeida Santos;
    Jaime Gama;
    o GRANDE augusto santos silva;



    Vital Moreira.

    Ou seja, tudo exemplo de ideias e politicas novas, vindas de gente com menos de 50 anos LOLOLOLOLOL!

    o único renovador do PS desapareceu e chama-se Tino!

  4. Valupi, mas então em 1989 caiu o Muro e disparou o capitalismo, money, yupis, espertos, já em 2000 houve um grande solavanco no dow jones e veio por aí abaixo mas foi sustido com a guerra ao Iraque e subsequente aceleração, até que começou a cavitação subprime agravada pela política do BCE e deu no flop de Outubro. Nesse gráfico põe no from 1980 e é muito ilustrativo.

    Portanto agora volta aí o socialismo, é o efeito inevitável da ária que temos de aprender, que seja com música e liberdade são os meus votos.

  5. eu gosto do Silva Lopes, mas também tem direito a não ter estas dores de cabeça. Ainda há o homem do tribunal de contas, não? E o Vitorino?

  6. Valupi,

    Escolheste as declarações dum conhecido “mação dum cabrão” para curares as dores lumbares pouco lancinantes do teu primeiro-ministro, e se o fizeste é porque tens a certeza que o aventalado venerável tem”sapiência tradicional” para manter essa botija numa temperatura considerada terapêutica. Não haverá ninguém por aqui ninguém que te diga: como está enganado sr encarregado da secção 1b da propaganda!

    As declarações do homem tresundam a oportunismo (bem oleado apesar da velhice) que só se vê em gente da margem esquerda do Mondego. Que necessidade tens de desperdiçar munições se já temos os noventa e tantos por cento que convencem muito melhor que tu? Não me digas que queres os 100 por cento da perfeição de beija–cu a sua Majestade? Será que fecharias as portas à loja da propaganda mesmo que o PS votasse unanimemente na moção pro- Sócrates? Acho que não.

    O teu panegírico em bandeja ao Arnaud – e por carambola ao outro chefe – só não será premiado com o óscar da futilidade se não quizeres convencer quem te lê que estás convencido que a oposição ao Sócrates no rebanho PS corresponde percentualmente à oposição que ele enfrenta por parte doutras forças políticas super-patéticas e barulhentas – e, já agora, a do povo que ninguém o ouve, coitadinho.

    E o teu campião de bom senso já não anda na barra, mas é um barra. Repara neste mimo de devoção partidária:

    “Quando critico, é por amor”.

    E isto é ele, que confessa não ser “capaz de dizer o mundo numa palavra” porque não é Poeta. Tenho a certeza que se o Alegre – que é poeta e sabe dizer o mundo numa palavra, às vezes em meia, ou num simples ditongo – tivesse o atrevimento de largar na via pública que gostava do Sócrates para secretário do PS mas não para primeiro-ministro, ou vice versa, havia logo uma alma caridosa que pegava no telemóvel para chamar a ambulância para o levarem ao Júlio de Matos.

    Encosta-te a outro, é o meu conselho.

  7. Meu caro Valupi segue o conselho do teu, “nosso amigo” ESTACA, pois só quer o teu bem, e nós gostamos de ti mesmo “tonto”. Em delírio não, é muito perigoso, podes ficar mal na foto se o flash der o “berro”. Tinhas mais graça quando opinavas sobre os teus fiéis e assíduos “compagnons”.Salvos sejam.
    Faz um estudo dos rapazes do avental, claro que nada deves recear é tudo gente filhos de boas famílias, não há raia miúda para te importunar. Imagino.
    Dá noticias.
    O Z dá sinais de alerta, não percas um devoto muito útil.

  8. O Arnaut mente descaradamente quando diz que nunca foi pela colectivização dos principais meios de produção. Sofre de uma doença chamada amnésia pós-queda do muro de Berlim. Em 1974-75 ele foi dos socialistas que queriam nacionalizar quase tudo e que queriam uma ‘reforma agarra’ de Norte a Sul do país. O Ferro Rodrigues em 1975 até queria nacionalizar a medicina privada, mas era então dirigente do MES. O Alegre nunca se opôs às nacionalizações selvagens. Que se saiba, no PS só o Soares e alguns seus amigos anti-marxistas, como o Vítor da Cunha Rego, é que se opuseram tenazmente a que o Estado ficasse patrão de tudo. O Zenha, grande amigo do Arnaut, era um fence sitter, ambíguo e indeciso. E muito invejoso do Soares.

  9. Ramalho Santos,

    segue então a seguinte declaração política:

    1. Gosto mais do Tenório do que do Ramirez apesar do z, mas em tempo de crise até me sabe a sável com açorda de ovas.

    2. Sou devoto do Valupi sim, é o único comentador político que gosto muito de ler, tudo o resto me enjôa, até o Tavares agora prestou-se a ser o capacho ou o motôr de pôpa da candidatura do Bloco, não sei bem.

    3. Mas não sou devoto incondicional e ele sabe. É inteligente, lúcido e corajoso, e faz uma coisa difícil: não tem medo de dizer bem de quem está no poder o que em Portugal é sinónimo de vendido, coisa a evitar a todo o custo por aqueles que se querem vender mais caro – depois, claro, vão a saldos.

    4. Mas por exemplo temos um diferendo em relação à ministra da Educação. Ele aplaude-a e até vê na cara dela o contrário do que vejo: eu acho-a incompetente a fazer render um testo até ao limite; se eu fosse ministro da coisa e não tivesse arranjado uma solução de avaliação que funcionasse ao fim de dois anos, demitia-me.

    5. Gosto da Ana Gomes, sendo supostamente diplomata parte a loiça toda se lhe dá para aí, é frontal, espécie rara em Portugal, rara mesmo.

  10. ESTACA, conseguiste nada dizer que configure uma qualquer questão, mas fizeste-lo com graça – e é isso que, no final dos tempos, será avaliado: a graça que se espalhou entre os irmãos, tantos os de avental como os outros. Parabéns, ó pázinho.
    __

    Ibn, és um aluno aplicado.
    __

    Z, não se trata de Sócrates ser como eu penso (quero eu lá saber do que ele é), trata-se de eu pensar no que Sócrates seja. Tendo só o que é público à disposição, interessa-me tanto o meu processo de reflexão como o fenómeno da interpretação colectiva do que se vai publicando. Assim, é da minha responsabilidade ter um veredicto quanto à sua legitimidade moral para estar no Governo – porque eu sou cidadão.

    Quanto ao que Sócrates é ou deixa de ser, nos bastidores, a investigação irá esclarecer alguma coisa. É esperar mais um bocadinho.
    __

    Abel Gomes, andas muito distraído. Para começar, tens um primeiro-ministro que é já de uma segunda geração da democracia. Depois, ele rodeia-se de sangue novo. E, finalmente, a oposição fica completamente jurássica na comparação.
    __

    ramalho santos, trocaste-me as voltas com o teu comentário. Tens de me dar uma ajudinha e esclarecer a que assuntos te referes. Quanto ao pessoal do avental, é como o outro, o do fato-de-macaco: há de tudo como na farmácia.
    __

    Nik, mas ele diz ter mudado. Também terá caminhado para a direita, vai na volta.

  11. “faz uma coisa difícil: não tem medo de dizer bem de quem está no poder o que em Portugal é sinónimo de vendido,”

    Essa é uma visão, mas há mais, aliás, muitas mais.
    Por exemplo:

    1 – Tenta aproveitar a migalhas que caem da mesa do banquete;

    2 – É um astroturfer.

  12. está bem colocada essa enunciação Valupi, seria um guia para qualquer cidadão.

    Agora vêm aí os submarinos do Portas, vamos atravessar um período de tantas suspeitas de corrupção que o que fica em causa é a natureza da democracia, a partir do seu vínculo mais fraco e que deveria ser o mais forte: a Justiça, como bem colocaste noutro post.

  13. Valupi,então é fizeste-lo que se diz?Não será antes:fizeste-o.A acrescentar às tuas socretinices,temos agora erros de português.Para um devoto da Santa Maria de Lurdes,não mereces excelente na avaliação.Sugeria-te rapidamente um explicador de português.Se quiseres,eu estou livre mas,a um socretino,levo muito dinheiro.

  14. Valupi, mas não esquecendo a leviandade que se permite nas afirmações dos políticos, vale a pena ler o comentário sobre o horizonte temporal da sustentabilidade da segurança social que um leitor põe nesta notícia e creio que foi mesmo assim, 100, 50, e agora 20 a 50%.

    Como dizes que vem aí o furacão para nos ajudar esp ero que limpe muita coisa, aliás só nos tempos que se sucedem imediatamente a uma revolução é que a esperança se sobrepõe ao estabelecido.

    Correram-me umas lágrimas ao ver o Adeus Lenine, era o remate perfeito para a perversão de um sonho bonito, não contava com salut again mr. Marx.

  15. Valupi,

    Foste dar uma curva ao prontuário e agora a minha multiplicidade é que paga as favas. Vá, vai lá dar um beijinho muito bem repuxado à Fernanda porque andam por aí uns zunzuns que ela está à espera de menino.

    E é como diz o Coimbra:O teu português é uma desgraça, ainda não aprendeste a diferença entre um fize-o terapista e um fi-lo socratista.

  16. Z, é a velha história: a criação é também destruição.
    __

    ESTACA, concordo: o meu português é uma desgraça. Mas não aproveites para enganar o pagode: tu és múltiplo, és a Legião.

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