Peripateta

A real bosta que é a TVI foi a última estação a lançar um canal de notícias e, apesar do atraso, conseguiu o brilharete de não disponibilizar os vídeos dos programas. É o equivalente a lançar-se um novo telemóvel sem possibilidade de envio de SMS. Não se pode, assim, rever o Cara a Cara ontem emitido. Mas uma breve consideração preliminar: para se descobrir a honestidade e capacidades cognitivas de qualquer ser adulto falante de português, basta assistir a este programa com o indivíduo em causa. No final, interrogue-se o co-espectador acerca de Santos Silva. Qualquer resposta que não reconheça as suas superlativas capacidades analíticas, clareza discursiva e cultura política, será um atestado de menoridade intelectual e/ou má-fé. Porque o actual Ministro do Assuntos Parlamentares é um exemplo do melhor que a democracia pode criar, não tendo qualquer dificuldade em desmontar a retórica rançosa da oposição. Já Morais Sarmento é um exemplo do pior que o cavaquismo produziu, subindo ao ringue só para ser espancado sem piedade. O que o salva é um processo auto-anestesiante que lhe permite chegar ao fim do programa sem desmaiar.

Pois ontem viveu-se um momento de rara pureza liceal na televisão portuguesa. Nasceu na cabeça de Morais Sarmento, a qual usou de todos os seus poderes psicossomáticos para que se produzisse uma vibração no ar equivalente à sonoridade da palavra peripatético. E assim foi, ouviu-se dizer que o PS era, ou estava, muito peripatético em relação a uma dada questão. Santos Silva reagiu com surpresa – talvez medo, dada a novidade da utilização do conceito no léxico político – e tentou alertar o seu comparsa para o eventual engano. Debalde, pois Sarmento estava até entusiasmado com o efeito provocado no adversário. Na terceira tentativa de correcção, já com notas de compaixão e etimologia da palavra a ser ilustrada com gestos e dedinhos andarilhos, Sarmento disparou um olhar de indisfarçável e triunfante desprezo, aparecendo nos seus olhos a seguinte legenda: Fodi-te com o peripatético, não foi?… hehehe… Vens para aqui armado em doutor, mas agora levaste na corneta… Cabrão de merda! E lá partiu para a explicação. Que o PS estava… muito… [pausa para entrelaçar as mãos e exibir um esgar de dor] muito… peripatético!… porque… o Governo… [qualquer coisa, da qual nada se percebeu]. O programa acabou logo a seguir, e Santos Silva parecia resignado, abatido. Contemplava os próximos meses, e neles via obrigatórias reuniões semanais com um peripateta do tempo do outro senhor.

Umas palavrinhas para o Paulo Magalhães: atento, espartano e verdadeiro moderador. Promete. E faz uma boa dupla com Santos Silva, pois confronta-o com lhaneza, focando-se no interesse jornalístico.

23 thoughts on “Peripateta”

  1. Se pensarmos na ordem: Sócrates – Platão e Aristóteles, sendo Aristóteles discípulo de Sócrates por intermédio de Platão e Valupi um cego discípulo de Sócrates. Então Valupi é peripatético. Um andarilho da cegueira socrática.

  2. A TVI tem que disponibilizar essas imagens, são historicas.

    Vivam os Peripatéticos.

    Ninguém leva o Morais Sarmento a sério.

    Coitadinho.

  3. É pá isso faz lembrar o outro que dizia que um presidente se pode vender como uma margarina. Safa! Não se lembram de esse mesmo ter posto uma cadeira vazia para o Sampaio e depois o Sampaio ganhou as eleições???

  4. como figura estílistica o “confronta-o com lhaneza” não ficaria mais escorreito se fosse “pega-lhes de cernelha”?
    é que de facto são 2 bichos, cotados ambos no Bilderberg (o careca em 2006, o judoca em 2005) e devem valer para cima de 500 kilos por unidade em palha para adubar comentadores

  5. Como é que vocês com CSI e Mentes Criminosas , para não falar do House , se põem a ver filmes de vómito , é coisa que nunca vou perceber. Homem é mesmo bicho esquisito. Ao menos vejam aquilo da fashion TV, mete bué rabos. E mamas. Aposto que ficam mais bem dispostos , e o resultado no mundo real é o mesmo.

  6. A mf tem uma certa razão. Vejo muito frequentemente a fashion tv e posso confirmar que de vez em quando aquilo mete de facto rabos e mamas.

  7. “o actual Ministro do Assuntos Parlamentares é um exemplo do melhor que a democracia pode criar”

    fónix, espero que não. É o mesmo gajo que hoje de manhã na TSF dizia que até admite que o governo tivesse cometido alguns erros, mas que era à oposição que competia apontá-los. “Não quero imiscuir-me nas atribuições da oposição”, dizia o gajo.

  8. ainda bem que tens pachorra de ver estas coisas, Valupi, assim ainda me chegam uns ecos. Está um tempo magnífico. Com quantos grres andava o Sarmento? Ou melhor: estava muito grrre ou só grre? Mas apetece-me pouco disso agora.

  9. Mogais Sagmento, o peguipateta.

    Com exemplares destes a representá-lo, o PSD nem daqui a oito anos regressa ao poder.

  10. Eh pá! Não me venham com esse gajo que ainda não recebi a reforma. Já abdiquei dos livros, dos CD’s. É peripatético ! Mas voltando ao registo filosófico. O maior partido da oposição e os seus militantes são muito dados a “piquenas” metáforas tendo como fundo os concertos para violino de Chopin. Olha Valupi vou “catrapiscar” as velhinhas para o jardim que o tempo está de feição!

  11. valupi,
    vou e venho e torno a ir e o teu feitio não melhora, caríssimo. E a tua prosa não piora, nunca. É reconfortante saber que algumas coisas não mudam na vida da gente, já peripatética que baste. Estás bemzinho, presumo?

  12. “(Santos Silva) é um exemplo do melhor que a democracia pode criar”

    Tirando o outro lá da propaganda do Hitler, de que não me consigo lembrar o nome, mas isso deve ser da tal menoridade. Venha de lá o atestado.

  13. Carlos Santos, és aquela máquina.
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    JVC, confirmo: sou peripatético.
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    Homem Absurdo, o Morais Sarmento ainda há pouco tempo era falado como possível candidato a presidente do PSD. Enfim, se calhar até fazia muito melhor figura do que o Menezes e Manela.
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    jcfrancisco, faz?… Curioso.
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    xatoo, és um privilegiado: conseguiste reduzir a complexidade do mundo ao maniqueísmo bilderberguiano. Adivinho-te feliz.
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    mf, mamas e rabos são fonte de boa disposição, mas com critério.
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    Pedro, e qual foi o problema que descobriste na declaração do nosso malhador?
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    Z, a Primavera já se está a instalar, é a hora.
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    Nik, exactamente. É mesmo um zerinho que ali está.
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    jafonso, estás autorizado a catrapiscar à-vontade.
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    formigas, é teu. Agora peço-te que te arrependas publicamente, em nome da tua dignidade, por estares a comparar um qualquer nazi com o Santos Silva. É que, parecendo inconsequente e legitimamente leviano, o que escreveste faz-te mal. Mesmo muito mal.

  14. Valupi, é um problema de lógica: se compete à oposição apontar erros, e se o governo, quando a oposição faz isso, a acusa de ser destrutiva (isto aconteceu tudo mais ou menos na mesma frase do malhadinhas), temos aqui um problema mais dificil de resolver do que aquele teorema de que não me lembro agora o nome. Mas podes sempre argumentar que o homem é pago para confundir e eu calo-me resignado. Mas é um problema, lá isso…

  15. Valupi, não estou no negócio de passar atestados, mas se estivesse aqui fica afirmado e confirmado que não passei nem passaria nenhum atestado de nazi a Santos Silva. A comparação, que fiz era com os dotes de “Ministro da Propaganda”.
    Dotes que não me comovem nem ponta de corno, entendido? O que é aquele paleio de trauliteiro sofista tem a ver com a democracia? Para mim nada, niente, coisa nenhuma.
    Aristes

  16. Maria Bolacha, estou cada vez melhor. E tu? Por onde te passeias quando sais daqui?
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    Pedro, se é um problema de lógica, estamos no bom caminho. Creio que a tua dificuldade está a nascer da fulanização. De facto, se o problema é de lógica, irás pacificamente reconhecer que Santos Silva não esgota as respostas do Governo à oposição. Aliás, o Governo a cada 15 dias está a ser julgado publicamente pela oposição no Parlamento, fora todas as solicitações para que o Governo responda por tudo e mais alguma coisa, tanto nos locais institucionais como na comunicação social. E é assim mesmo, o Governo tem a obrigação de explicitar a governação e esclarecer a população.

    Que está em causa, então? Uma declaração, entre milhares, onde Santos Silva diz uma evidência, uma banalidade: a oposição que faça o seu trabalho. Ficaste confuso com as palavras do senhor? Confuso deves antes ficar com o desaparecimento da oposição. Onde estão os projectos, e chefes, alternativos aos do Governo?
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    formigas, também achei que não passaste. Mas, nesse caso, para quê ires ofender a memória das vítimas do nazismo só para convocares o conceito de propaganda? Achas que a propaganda é um exclusivo dos nazis ou é um instrumento nazi?

    A democracia tem tudo a ver com o Santos Silva. Primeiro, está a fazer uso da liberdade de expressão. Depois, revela o seu pensamento com clareza. E, finalmente, pede aos opositores que assumam as suas responsabilidades. É esta atitude que se espera dos democratas.

  17. Estava a brincar Valupi, eu quero é mesmo fulanizar. Fulanizemos ambos. Dizes tu que o tipo é um democrata. Eu acho que ele é parvo. Ó Valupi, se o governo admite cometer erros, tem a obrigação de os explicitar, não endossa o assunto para os outros. Qual liberdade de expressão, qual carapuça? o gajo foi eleito para comentar em blogs, ou quê? Se é assim ,mais vale arranjar também um nick à maneira. Malhadinhas está fixe.

  18. Pedro, ser parvo não obsta a que se seja democrata. Mas estar a ver numa resposta informal aos jornalistas a assunção de erros governativos que ficariam por nomear é estúpido. Vou explicar: é estúpido porque sai fora do contexto, alterando-se assim o significado e o sentido. Afinal, estás zangado com a escolha das palavras, com a construção sintáctica, com isso de os políticos fazerem declarações orais espontâneas? Tem juízo.

    E que se passa com a liberdade de expressão? Não existe? Um cidadão fica impedido de se expressar livremente quando vai para o Governo? Tem juízo.

    Comentar em blogs?! O nosso malhadinhas? Tem juízo, ó pá.

  19. Ah pois, é o contexto e tal. O contexto, eu explico: é um ministro que diz que o governo cometeu erros, mas que não tem nada que dizer quais são esses erros. Saiu-lhe espontâneamente, foi? Eu, que sou um chato (um chato quando bebe, que são dos piores…) acho que a espontaneidade nos governantes terá, sei lá, de ter os seus limites e que a linha deve ser traçada antes de declarações desse tipo. Mas resolve-se isso: coloca-se na constituição uma cláusula de inimputabilidade intermitente dos governantes. Que dá mais colorido a este país, lá isso…

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