Que nome vamos dar a quem foge do Parlamento?

O BE saiu do Parlamento porque o Chefe de Estado de Angola lá entrou. Pelas seguintes razões:

Fernando Rosas acusou ainda o regime angolano de ser “oligárquico, assente na corrupção e com chocantes desigualdades sociais”

E, súbito, a muitos, e a muitos até agora simpatizantes do Bloco ou em aproximação, caiu uma chuvada de lucidez: o BE é um bando de perigosos irresponsáveis. Porquê? Porque também representam o Estado português ao mais alto nível – ou ao mais fundamental nível – ao terem representação parlamentar. Estás de acordo? Tens de estar, tira agora o resto das conclusões: ao se recusar a receber o Presidente de Angola no Parlamento, o BE está a afirmar a ilegitimidade do poder político angolano. E que tipo de relações se pode ter com um Estado a cujos representantes não se reconhece o direito de representação? Se o BE não recebe Eduardo dos Santos no Parlamento, servindo-se de critérios tão vagos e ambíguos, como seriam as suas relações com a enorme maioria dos países mundiais, inevitavelmente abrangidos pelos mesmos critérios, caso fosse Governo? Os eleitores aguardam um rápido esclarecimento.

Entretanto, o papagaio-mor do partido, Daniel Oliveira, vendo-se à beira do abismo lógico, resolveu dar um passo em frente: afirmou que Eduardo dos Santos é um criminoso. Ter estado presente no Parlamento, então, significaria ter sido cúmplice dos crimes que o BE já averiguou e encaminhou para as autoridades nacionais e internacionais (presumo, fazendo fé na honestidade intelectual deste arauto da verdade). Fez muito bem o BE, canta o Daniel, e tal imbecilidade abre-nos o apetite para as seguintes perguntas: o BE aceita partilhar o Parlamento com deputados e partidos que foram ao beija-mão do criminoso?; o BE aceita ter um Presidente da República que convida criminosos para visitas de Estado?; o BE tem planos para alterar a política interna angolana? Os eleitores, e as autoridades angolanas, aguardam um rapidíssimo esclarecimento.

Para mim, é tudo muito mais simples. Sendo o Parlamento a sede da democracia, quem foge dele foge dela.

11 thoughts on “Que nome vamos dar a quem foge do Parlamento?”

  1. caro Valupi,
    Este post podia resumir-se apenas ao último parágrafo, pois nele está contido tudo o que o bloco é.
    Apenas uma contradição: o bloco não foge dela (a democracia) porque nunca lá esteve.

  2. ai Valupi, és tramado mas és delicioso, meu pauzudo. Não consigo comentar nada de jeito mas é por causa do Sol, a ver se amanhã cedinho dou alguma para a caixa,

    ou mais logo,

    agora é uma sesta a desoras. Com ponto e tudo.

  3. Valupi, o que dizer de quem acompanha com:

    dos santos,
    chavez,
    kadafi,

    Governo chinês?

    Eh pá Larga o vinho

    Quem julga o BE são os eleitores, logo, tu também, mas só nessa medida. Qualquer outra balela tua é só isso mesmo um chorrilo de disparates.

  4. O BE tomou as atitudes que tomou e Oliveira defende por várias razões, sobre as quais podemos especular.

    O BE quer afirmar-se como um partido diferente em que vale a pena apostar e votar, coisas que são realmente muito pouco óbvias.

    O BE quer caçar votos à esquerda e à direita. O melhor ainda seria simultaneamente à direita e à esquerda.

    O BE sente enorme necessidade de se distinguir do PCP, o qual não teve problemas nenhuns em ir ao beija-mão de ‘criminosos’ como o PM chinês e o presidente de Angola. De facto, o PCP ainda é amiguinho dos ex-comunistas chineses e dos ex-marxistas que continuam no poder em Angola. Ao fugir ao ‘beija-mão’, gesto gratuito e meramente simbólico, o BE está a acusar o PCP de antigas e comprometedoras conivências. Bem, claro que não é o Miguel Portas que tem o papel de denunciar essas conivências, até porque o semário Sol, onde Miguel escreve as suas crónicas, terá sido comprado pelos alegados ‘criminosos’ de Angola. Há um lugar para tudo… Se um dia o BE tiver que dizer mal da SIC, do Balsemão ou do Expresso, nunca será Oliveira a fazê-lo, someone else receberá essa incumbência, para o rapaz poder continuar a elogiar a independência da comunicação social e a provar pelo seu próprio caso que os magnatas da comunicação nunca o condicionam. Pois não.

    O BE quer caçar nas hostes do PCP com argumentos de ‘esquerda’, por isso fala de escandalosas desigualdades sociais em Angola e da vida altamente luxuosa dos nababos seus dirigentes.

    O BE sente enorme necessidade de afirmar a sua diferença em relação aos partidos da rotatitividade no poder (PS, PSD e CDS) com argumentos que as democracias liberais têm dificuldade em acusar de radicais ou extremistas: corrupção e falta de liberdade em Angola ou na China. Argumentos encaralhantes, de facto, para quem tem um discurso oficial anti-corrupção e pró-liberdade. Claro que ao BE não convém começar a dizer que as empresas portuguesas deveriam sair de Angola, fosca-se! Há uma hora para tudo, porra.

    O BE quer causar incómodo aos governos de centro direita ou centro-esquerda apontando o dedo acusador aos tiranos que esses governos recebem em Portugal por alegado interesse económico nacional e sabe-se lá por que mais interesses obscuros. Não é preciso fazer acusações concretas, basta falar em ‘cumplicidades’, que o Zé Povo acredita o resto (julga o BE). Um dia a TVI ou o Mário Crespo revelam que um familiar de Sócrates passou um fim de semana em Luanda e o BE logo virá dizer: “Nós bem dizíamos!”

  5. É por essa maneira de actuar que o BE nunca conseguirá ter funções governativas,(inviabilizando no futuro, interessantes e válidas alternativas) apesar de na maior parte das vezes funcionar como uma certa «consciência» no nosso sistema político, que o levou ao lugar que agora ocupa.

  6. É verdade que confirma a auto-exclusão do Bloco de qualquer projecto governativo e isso deixa-me suspenso porque acho isso admissível num partido com 5-6% mas não com 8-10%. Por outro lado acho que o modelo de oposição do Bloco está esgotado mas pelos vistos está a radicalizar. Não te esqueças que o Bloco conseguiu de facto trazer para cima da mesa um conjunto de questões em que ninguém mais falava então, a violência doméstica, as questões da igualdade, até os offshores eu não sabia que existiam até o Louçã contar. No entanto eu achava que o corolário natural disto tudo seria o Bloco participar na governação com o PS, mesmo que numa plataforma difícil e imperfeita. Bem, pelos vistos não vai ser assim.

  7. Quando o Miguel Portas deixar o semanário que os angolanos compraram, avisem-me.

    Ou não se importará Miguel de ser pago com dinheiro de «criminosos»?

    Já agora: Balsemão não foi ao «beija-mão» de José Eduardo dos Santos?

    E Daniel Oliveira não o denuncia?

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