Efeito Einstellung e oposição

Abraham S. Luchins (March 8, 1914 – December 27, 2005) was one of the most important American Gestalt Psychologists and a pioneer of group therapy. He was born in Brooklyn, New York and died in Albany, assim começa (e a modos que acaba) o wikipeido actualmente à disposição dos ouvintes. Acontece que este amigo nos interessa pelo que fez em 1942. Pegou num magote de gente, distribuiu jarros com água e observou como a própria inteligência gera a imbecilidade. Estava descoberto o Efeito Einstellung. Quer-se dizer, estava claro que ter uma solução pode ser impeditivo de adquirir outra para o mesmo problema. E é isto um problema, valha-me Santa Engrácia? É, nos casos em que a nova solução, para o tal problema, seria mais eficiente ou eficaz do que a velha.

O problema da oposição clássica, comum, é não estar a governar. Só este e mais nenhum. Mais nenhum. Com a maioria PS, e o Governo Sócrates, esse problema tornou-se particularmente dramático, e mesmo trágico. Neste momento regista-se que o PSD acabou, o PCP está cada vez mais igual a si próprio, o CDS é estéril, o BE entrou em modo de guerrilha urbana e ainda não apareceu novo projecto politico credível. Até Cavaco se estatelou numa senda imparável de disparates e falhas de responsabilidade. À volta dos partidos, na comunicação social, a oposição explora a chicana e o populismo: Público, Sol, Expresso, Correio da Manhã, 24 Horas, TVI, SIC, Rádio Clube. Os blogues de maior audiência, onde a oposição é um exercício constante, pícaro, resfolegam inconsequências; quando não infantilidades e psicoses. Segundo o Blogómetro, no Top 25 estão 7 blogues de crítica política: Blasfémias, A Educação do meu Umbigo, Abrupto, Arrastão, 5Dias, O Insurgente e 31 da Armada – e ainda se poderia juntar o recentemente encerrado Atlântico, também prolixo e azougado no bota-abaixo. A obsessão paranóica do Pacheco, RTP, acolhe uma super-vedeta como Marcelo Rebelo de Sousa, os Gato Fedorento (2007), os Contemporâneos, Prós e Contras, Corredor do Poder, Grande Entrevista, Sociedade Civil, Parlamento, pelo menos. Não faltam ocasiões, só à pala da estação da 5 de Outubro, para desmascarar essa corja de ladrões que se governam à nossa custa. Porque será, então, que os tão inteligentes, brilhantes!, opositores continuam sem conseguir passar a mensagem?

Há conforto em reduzir a incompetência da oposição a vícios ideológicos e morais. Tanto à esquerda como à direita, na sua generalidade, os quadros políticos são confrangedores, mistela de videirismo com ignorância, ou de informação com oportunismo. Mas o conforto é preguiçoso. Melhor será partir para a explicação literal: não existe mensagem alternativa, concorrente, oposta. Não existe. E é por isso que não passa, não chega, não nada. Todos se assumem como oposição extremista, comungando da mesmíssima fórmula: se vem do Governo, ou do PS, é mau, é péssimo, é pessimamente mau. Inevitável será constatarmos que, com esta postura primária e odiosa, a oposição não sabe fazer oposição. Limita-se a repetir velhas soluções em novos tempos. A oposição ainda não percebeu que fazer oposição no século XXI, num Portugal com a liderança de Sócrates, deve consistir em apoiar a governação. É isso que a comunidade espera e está pronta para premiar, a promessa de se superar o actual Governo pela qualidade das propostas, não pelo histerismo e má-fé das denúncias.

Ora, estamos a falar de muita gente junta reunida nos partidos e comunicação social opositores, mole onde aparecem jornalistas, professores universitários, investigadores e especialistas das mais desvairadas proveniências e estatutos. Ou seja, trata-se de um caudal insano de inteligência diariamente desperdiçada, freneticamente gasta a produzir peças de comunicação cuja memória se esgota no círculo dos acólitos e comensais. O seu destino é a inconsequência, o povo não lhes liga – prefere participar em sondagens a favor do Governo.

Então, vamos combinar o seguinte: a oposição pode ficar assim, é lá com ela, mas tu vais pontapear o Efeito Einstellung para fora da tua vida. Não tem graça continuares a ser imbecil sem um partido, jornal ou blogue para te apoiar.

29 thoughts on “Efeito Einstellung e oposição”

  1. Eu tenho uma teoria geral que explica este fenómeno: mediocridade. A situação está assim não porque Sócrates seja brilhante, embora se tenha evidenciado pela determinação e sensatez reveladas, mas porque em todo o leque de opositores não surge uma única ideia nova, um rasgo de imaginação face aos acontecimentos que se precipitam nestes tempos agitados. Portas é mais do mesmo, deixa uma sensação de enfado olhar para aquela figura a repetir as mesmas fórmulas que usa há anos sem sucesso. O Pcp é o que é e se quiser sobreviver não pode mudar de estratégia. O Bloco ainda iludiu alguns (confesso que eu fui um deles) por algum tempo, parecendo ser um paradigma diferente. Mas nah, é a mesma tradição de sempre da demagogia de rua que já havia na Udp e no Psr. E finalmente, o Psd está numa situação parecida a um grupo de forcados em que ningúem quer ir à cara nesta pega e quer esperar por outro touro. Ou só quando este for mais sangrado com mais farpas.

  2. tu com o Einstellung e eu com o Entscheidungsproblem,

    e realmente depois do Bloco com 10% dizer que não está em qualquer caso disposto a participar no arco da governação, fiquei sem onde votar à primeira vista, não posso votar nuns que vão fazer uma guerrilha sem outra consequência que não seja dar ao Cavaco a oportunidade de dissolver o parlamento para dar depois o Governo a um cavaquismo travestido, que a memória das pessoas é curta, ou costumava ser,

  3. Valupi, aqui temos um post bem esgalhado! de facto a capacidade de decisão dos governos que integram a EU é cada vez menor, restando agora quase só a possibilidade de decidir como fazerem a distribuição do Rendimanto Nacional. Os eleitores não são parvos e sabem que retirar a teta do bando Socra para dar ao bando MFL pouco lhes adianta. Por mim, ou voto Socra numa óptica de quanto pior melhor, ou ponho um das caldas no boletim de voto.

  4. Z, sou o primeiro a dar-te razão. Mas lembro aquilo que é suposto ser uma evidência: o uso do conceito de imbecilidade é retórico. Imbecis somos todos, é a tese. Porque estamos sempre a precisar de aprender. Assim, não estar a aprender, cristalizarmo-nos nas ideias feitas (o tal efeito que Luchins estudou, neste exemplo do texto) pode ser também inteligente, mas será ainda uma imbecilidade por se estar a falhar o Logos.
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    Manolo, e que tal criares um partido/movimento com as tuas ideias?

  5. Bom post, embora comeces a tornar-te num panegirista do Sócrates. Ele nem precisa que o defendam, com esta oposição completamente desacreditada…

    Só não gostei que chamasses wikipeido a uma das maiores invenções do séc XXI, té gora. E essa de quereres que a oposição apoie o governo, só tu! A oposição é muito necessária ao governo enquanto oposição, o que é preciso é uma boa oposição, que aponte o que o governo faz mal e proponha soluções alternativas viáveis e coerentes com aquilo em que essa oposição acredita.

  6. Nik, “wikipeido” é relativo à entrada em causa. Muito pouca informação, aqui fica a descodificação. Quanto a defender Sócrates, diria que é mais a premência de atacar a oposição. Porque o problema de Portugal actualmente não está no Governo, está na falência da oposição.

    Eu não quero que a oposição apoie o Governo, quero é que se comprometa com a governação. Isso passa por fazer crítica, com certeza, mas acima de tudo fazer propostas alternativas. Propostas que enriqueçam as nossas opções, não como agora em que a oposição não apresenta alternativas e ainda gasta o seu tempo a querer destruir a governação.

  7. Efeito Einstellung. Um exemplo seria desligar e voltar a ligar o computador sempre que um problema aparece nele, embora por vezes a solução seja outra, geralmente mais simples. Mas a solução chapa 4 também tem vantagens , ou seja, é automática, é rápida, não precisamos de pensar muito nem de nos perdermos a falhar a tal solução “mais simples”. O que é mais simples às vezes é mais complicado (é o efeito Nik).

  8. Já reparei muitas vezes que quando saio duma rotina para arranjar uma solução mais inteligente e económica, muitas vezes arranjo é problemas do catano.

  9. Pois, não é um acaso a prevalência do Efeito Einstellung. Há racionalidade na repetição da fórmula conhecida, já automatizada. Mas por isso se fala do embotamento dos especialistas, dos “sábios”…

  10. Segundo ouvi, o Blogómetro uniu-se para te tramar! Nem uma mera referência ao acetilsalicílico é uma injustiça. O que fazer? Já sei apresenta queixa àquela moça da ERC que queria regular os blogs ;-)

    Não sei o que será mais deprimente, se a oposição, se os medíocres se sobressaem,( assim ao jeito de vesgos em terra de cegos, estás e topar?) ou se a lena laudatória da vulgaridade.

  11. “Propostas (da oposição) que enriqueçam as nossas opções” disse Valupi. Pela boca morre o peixe, “nossas” de quem?

  12. Há uma doença em Portugal, e já não é de hoje, que consiste em dizer mal de tudo todo o tempo. Uma visão paranóica da sociedade e da realidade em geral, uma visão catastrofista, uma visão azeda, treinada em procurar tudo o que é escuro e feio e dar-lhe todo o relevo sobre o resto. Boas notícias são bad news para os pacientes desta maleita. Se algo vai bem, se alguém fez alguma coisa de bom, é preciso urgentemente mostrar ou inventar o lado pérfido da coisa. Em qualquer sector da vida portuguesa, o paciente desta fixação doentia vê estratégias tenebrosas, conspirações, complôs permanentes para nos tramar a todos e aos pacientes em particular. O conceito de crise, que agora ouvimos de manhã a noite em todos os tons e instrumentos, ajuda à festa. Festim de desânimo, maledicência, paranóia. Ontem estava a ouvir na rádio um debate sobre o Mundial de futebol a que Portugal e Espanha se querem candidatar. Não sei se acho bem, não pensei sobre isso. Mas ao fim de meia hora a ouvir um verdadeiro patarata a dizer mal de absolutamente tudo o que se relacionasse com futebol e com Portugal, comecei a pensar, por um saudável efeito anti-paranóia, que o Mundial deve ser uma coisa maravilhosa para o país, para o desporto e para todos nós.

  13. Ibn, tens de ganhar o higiénico hábito de rever os textos antes de os enviar. Quanto ao Blogómetro, vou seguir a tua sugestão. Os gajos andam a brincar com a tropa.
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    Manolo, nós os que votamos. Espero que seja o teu caso.
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    Nik, assino por baixo.

  14. Talvez tenhas razão.
    Mas gosto do impulso, não da razão nem da perfeição!
    Já estás a ver? Rever textos nãã!! É escrever e Submit!!!

  15. bem, imbecis com essa abrangência vá, mas podias mudar para ignaros ou outros adjectivos similares vai que não vai,

    concordo que temos essa doença da alma de andar a puxar pelo negativo, parece que já tem raízes muito fundas mas a última etapa como epifenómeno foi a da simplificação do eucaliptal extensivo, a maximização da competitividade (pela água e pela luz) em detrimento da mata mediterrânica com a sua diversidade e coopetição. Transposto para o plano das idéias deu esquemas de Ponzi. Haja mosaicos.

    o Obama falou dos valores essenciais da verdade, transparência, lealdade, etc., que eu gosto se queremos alterar para melhor este estado de coisas,

    a crise mundial é consequência directa de um ciclo longo de kondratyev acoplado à cúspide da invasão do Iraque, já se sabia da História: Galbraith entre outros ensina-nos que a depressão de 1929 foi consequência do financiamento da I GM, exauriu-se a base da pirâmide e o sistema entrou em cavitação,

    agora é dar a volta para subir

  16. Ora acho muito bem, não esqueçam: America Latina e eventual suspensão conjunta e conjugada do pagamento das dívidas externas se fôr preciso, para negociar junto dos comilões,

    há aí uns comilões que ainda não topei os nomes

  17. Z, isso levaria a anular a função retórica de “imbecil”. Lembro-te que etimologicamente a palavra remete para bengala, falta de força nas pernas.

  18. De facto, o primeiro comentário deste post (do Jerónimo) é lapidar: não poderia estar mais de acordo. Penso que seria giro alguém um dia estudar o que aconteceu a estes eleitores desiludidos por esta bosta que é o BE (atenção, eu fui um deles). Algo me diz (pura especulação) que muitos poucos terão ido parar ao PCP.

  19. Excelente Valupi.
    Que posso acrescentar que não esteja nas linhas e nas entre-linhas?
    Apenas que o Sócrates tem um discurso baseado em alvos muitos precisos, do tipo do Obama. Pode até nunca lá chegar a seta, mas que o arco apontava na direcção certa, isso apontava.
    Dou como exemplo a lapidar relação que ele sublinhou já várias vezes e que nunca eu tinha ouvido de ninguém, nem políticos, nem de sociológos, nem professores:
    O nível de retribuição salarial em Portugal está directamente dependente do grau da formação profissional do trabalhador. Simples não é?
    Abraço
    MFerrer

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