
Il Deserto Rosso_Michelangelo Antonioni
Quando ouvia a expressão É tão bom que até irrita, ou variantes, não entendia. Achava parvo. Ter um prejuízo emocional causado pela elevada qualidade de alguma coisa era parvo. Foi assim comigo durante mais de mil anos, tendo acabado apenas quando vi este filme. De todas as vezes que o vejo, repito um encadeado de exclamações à média de uma por plano. E são elas cabrão, filho da puta, cabrão de merda, filha da puta, cabrão do caralho, foda-se… (e volto ao princípio da sequência).
A erupção do vernáculo atesta a intensidade da experiência. Cada plano é um quadro rigorosamente composto nas suas formas, cores, linhas de fuga e coreografias. Tão rigoroso que progressivamente nos damos conta de ser obsessivo e, finalmente, maníaco. O belo, neste filme, é uma imposição, uma violência. Talvez já nem seja belo este belo, mas uma imitação a desafiar o original. É sabido que Antonioni chegou a pintar árvores e relvados, e a queimar vegetação, para obter certos efeitos cromáticos. Até o som é cor, convoca o olhar. Mas também a colocação da câmara nos humilha, porque não falha o ângulo definitivo mesmo em movimento. Montagem? Magnética, colando polaridades, mantendo a passada forte e equilibrada. Texto? Mentiroso e vendido. Actores? Pândegos e reprimidos ou reprimidos e pândegos.
Este é o filme mais exibicionista e vaidoso que já vi. Foi o primeiro filme a cores de Antonioni, depois da celebrada trilogia de rajada. Ele vivia a crise dos 50 (e dois) nos 60 (e quatro). Estava cheio de medo, precisando de gritar Eu sou um realizador genial, agora a cores. Para esconder a trafulhice narcísica, Tonino Guerra enche o filme de muitas mensagens, muitos cantos e recantos, almofadas e miradouros. Da crítica à sociedade alienada e à exploração capitalista, passando pela denúncia ecológica e dos males da industrialização, até à reflexão sobre a condição feminina e o velório do amor, é servirem-se. Mas o próprio autor não perdia tempo com as interpretações, fica o aviso, ele apenas se preocupava em dar corpo aos filmes que a sua intuição criava sem ele saber como, porquê ou para quê.
Il Deserto Rosso é uma maravilha feita de uma única substância: donaire. Monumento a um ego que nos deslumbra pela sua exuberância e força. Um ego em estado puro, tangível pelo milagre do cinema. Só visto, porque não tem nada para contar.