Todos os artigos de Valupi

António Alçada Baptista

Eric Fischl Bad Boy

É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que fomos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento. Tenho muito a convicção de que somos seres em formação, pois o projecto humano não aponta para aqui. Penso é que ele nos vai sendo revelado por pequenas nostalgias de coisas ainda não vividas, que se exprimem por intuições avulsas e, apesar de tudo, pelo halo poético do mundo, que seria mais visível se acertássemos a maneira como olhamos para ele. Depois também há, felizmente, aqueles que já nasceram mais à frente no caminho do futuro.

in O Tecido do Outono

Teatro do absurdo no Palácio de São Bento – Sessões contínuas

O CDS-PP pretendia suspender o processo de avaliação dos professores. Porquê e para quê? Ninguém sabe ao certo, mas o projecto foi votado no dia 5 de Dezembro. Paulo Rangel, líder parlamentar do PSD, afirmou que a bancada tinha sido toda mobilizada e chamada. Foi assim que ficámos a saber que pouco mais de metade dos deputados do PSD comparecem a votações que podem causar problemas ao Governo mesmo quando são mobilizados e chamados, imagine-se o que será sem esses cuidados. No final, Paulo Rangel declarou que a ausência de 30 deputados do PSD não teve relevância para a votação. A votação, contudo, teria levado à aprovação da proposta do CDS caso os deputados mobilizados e chamados tivessem lá estado durante uns minutos para votar. A Manela ficou furiosa com a indisciplina dos miúdos e chamou o delegado de turma ao gabinete da directora. Quer duas coisas: os nomes dos trastes que se baldaram à prova e uma jura de que nunca mais se vai repetir tal vergonha. Marco António Costa diz que os deputados estão desmotivados e que Paulo Rangel se devia demitir. Este espectáculo vai continuar e é de entrada livre. Quem disse que há crise no teatro em Portugal?

Cineterapia


Il Deserto Rosso_Michelangelo Antonioni

Quando ouvia a expressão É tão bom que até irrita, ou variantes, não entendia. Achava parvo. Ter um prejuízo emocional causado pela elevada qualidade de alguma coisa era parvo. Foi assim comigo durante mais de mil anos, tendo acabado apenas quando vi este filme. De todas as vezes que o vejo, repito um encadeado de exclamações à média de uma por plano. E são elas cabrão, filho da puta, cabrão de merda, filha da puta, cabrão do caralho, foda-se… (e volto ao princípio da sequência).

A erupção do vernáculo atesta a intensidade da experiência. Cada plano é um quadro rigorosamente composto nas suas formas, cores, linhas de fuga e coreografias. Tão rigoroso que progressivamente nos damos conta de ser obsessivo e, finalmente, maníaco. O belo, neste filme, é uma imposição, uma violência. Talvez já nem seja belo este belo, mas uma imitação a desafiar o original. É sabido que Antonioni chegou a pintar árvores e relvados, e a queimar vegetação, para obter certos efeitos cromáticos. Até o som é cor, convoca o olhar. Mas também a colocação da câmara nos humilha, porque não falha o ângulo definitivo mesmo em movimento. Montagem? Magnética, colando polaridades, mantendo a passada forte e equilibrada. Texto? Mentiroso e vendido. Actores? Pândegos e reprimidos ou reprimidos e pândegos.

Este é o filme mais exibicionista e vaidoso que já vi. Foi o primeiro filme a cores de Antonioni, depois da celebrada trilogia de rajada. Ele vivia a crise dos 50 (e dois) nos 60 (e quatro). Estava cheio de medo, precisando de gritar Eu sou um realizador genial, agora a cores. Para esconder a trafulhice narcísica, Tonino Guerra enche o filme de muitas mensagens, muitos cantos e recantos, almofadas e miradouros. Da crítica à sociedade alienada e à exploração capitalista, passando pela denúncia ecológica e dos males da industrialização, até à reflexão sobre a condição feminina e o velório do amor, é servirem-se. Mas o próprio autor não perdia tempo com as interpretações, fica o aviso, ele apenas se preocupava em dar corpo aos filmes que a sua intuição criava sem ele saber como, porquê ou para quê.

Il Deserto Rosso é uma maravilha feita de uma única substância: donaire. Monumento a um ego que nos deslumbra pela sua exuberância e força. Um ego em estado puro, tangível pelo milagre do cinema. Só visto, porque não tem nada para contar.

Recuar sem perder a cara e avançar mostrando o cu

A vitória dos professores não será a derrota do Governo, muito menos da magnífica portuguesa de nome Maria de Lurdes Rodrigues. Governo e Ministra estão a cumprir a sua obrigação: fazer o possível para melhorar Portugal. Para tal, negoceiam a torto e a direito. É inquestionável que o actual Governo é o mais profissional de sempre na memória política contemporânea, e a prova vem precisamente do grau de conflitualidade que suscita e a que está sujeito. Convém não esquecer que com a traição de Barroso, e a decadência de Santana, a tristeza e o desânimo invadiram a comunidade e bateu-se no fundo. Foi por isso que se deu a maioria a alguém que até era uma promessa suspeita, um político arisco e vaidoso como Sócrates. Ao tempo, os opinadores chafurdavam na crença de que o País não tinha salvação, era irreformável. Havia cada vez menos vergonha, nas franjas populistas, em louvar publicamente Salazar. Foi também a hora do fulgor analítico de José Gil – a mostrar que, por debaixo da vestimenta democrática, o corpo cheio de chagas da miséria como destino continuava em estado novo.

A vitória dos professores será a derrota de Portugal. Ao dia 5 de Dezembro de 2008, ninguém pôs os olhos num qualquer modelo de avaliação alternativo que tenha sido enfiado por alguma janela do Ministério. Nem há quem saiba ao certo o que os professores querem para além da demissão da Ministra e a garantia de uma progressão linear, sem distinção de mérito nem aumentos da actual carga laboral. Quando acabar esta fase, se garantirem o que a oposição já se comprometeu em lhes dar, vão voltar ao que eram: uma classe profissional que não se une na defesa da escola, que não confia nas autoridades, que despreza os colegas e que tem como principal critério de sucesso a capacidade de antecipar a reforma.

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F.E.A.R. 2: Project Origin – Exclusive Developer Diary: Design HD

Depois do cinema? A 8ª, 9ª ou 10ª arte: jogos digitais. Síntese de pintura, cinema, programação, matemática, física, neurologia, psicologia e sociologia. E em constante e ilimitado acrescento de possibilidades, fruto das inovações tecnológicas que configuram hardware e software. Na verdade, são inimagináveis as experiências que esperam os cérebros humanos na sua progressiva fusão com o potencial da computação.

Ai daqueles que não entendam que pelos jogos também passa, e passa na gazua, o jogo da evolução sempre a acontecer.

Aspirina Z

O nosso amigo Z entrou oficialmente em festa com a notícia do BCE ter cortado as taxas de juro em 75 pontos base para 2,5%. Se o vires passar, dá-lhe os parabéns, pois ele fez campanha por esta redução durante meses.
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E continuando a agradecer ao nosso amigo, olá Revista Z Cultural. Recomendo o gasto do tempo necessário para ler a deliciosa entrevista a Marlyse Meyer. Aliás, autora que apetece conhecer em livro.

A festa da democracia

No Jornal da Noite, ontem, Odete Santos conseguiu embaraçar Mário Crespo. Disse que Maria de Lurdes Rodrigues era muito feia, tão feia que tinha umas trombas assim… [e fez uns gestos chocarreiros]. Guilherme Silva, par do Frente-a-frente, foi paternalista, como se estivesse no jantar de Natal da empresa e fosse obrigado a assistir às figuras tristes da sua secretária, depois de três brindes com amêndoa amarga terem mergulhado de cabeça no Piriquita servido generosamente para empurrar a espetada mista. A Odete estava eufórica, histriónica. E o Crespo riu, mas em registo Oh Odete, pá, assim também não vale, olhós mínimos…

Só que não são os mínimos, é a média. Prova de que a recusa dos professores em serem avaliados – e, portanto, classificados – não tem um pingo de ideologia encontra-se no léxico das palavras de ordem. Desde o início que a preferência recaiu sobre dois termos: respeito e arrogância. São substantivos correlativos, duas faces da mesma moeda. A arrogância do Governo/Sócrates/Ministra/Ministério/Políticas causa a falta de respeito pelos professores/escola/educação/direitos/liberdade/democracia. Com estas balizas mentais, prontamente amplificadas e exploradas pelos sindicatos, PC e BE, instiga-se a irracionalidade e cortam-se as vias de diálogo. Ter uma massa de profissionais mantida emotivamente na crença de que faz sentido estarem indignados é a condição preferida para todo e qualquer tipo de manipulação.

O que Odete Santos fez na SIC Notícias, ainda com o balanço da faena dada aos delegados comunas dias antes, foi expressar o quadro mental de grande parte dos professores, activistas e demais simpatizantes deste puro salazarismo. Os cartazes, frases e gestos ofensivos para a pessoa de Maria de Lurdes Rodrigues espelham a condição a-política de quem se reduz a uma subjectividade que constrói um delírio de perseguição. A violência que salta desta juliana de pessoas de todas as idades e currículos partidários, ou cívicos, é uma esplendorosa celebração da democracia. Porque se a democracia não resistisse aos que ainda não a compreendem, ela nunca teria nascido e chegado até nós.

Como distinguir um comuna de um comunista

É raro encontrar um comunista. Raro e bom, eis a primeira verdade. Gostamos de falar com comunistas, nunca se dando o tempo por mal empregue. Porque um comunista irá falar-nos do comunismo, e o comunismo é bom. Bom e raro, eis a segunda verdade; e que até nem é mentira nenhuma. O comunismo é uma outra face do amor. É a plenitude da misericórdia, a lei da compaixão, a realização da esperança. O comunismo é lindo como tudo o que não existe, mas há. Há comunismo num comunista, e isso é lindo porque o comunista existe. O comunista tem o coração imaculado, guardado num amanhã inalcançável. E esse coração verte poesia e ternura para o chão dos dias. Ele dói-se e condói-se com o sofrimento dos povos e das gentes, até dos algozes. Que seria de um oprimido sem opressor? Seria o comunismo sem História. Sem História não há Homem, Humanidade, libertação. O comunismo é a eternidade aqui e agora a nascer continuamente da generosidade teândrica dos camaradas. Por isso um comunista está sempre em contínuo perdão, acolhendo dialecticamente as situações e os protagonistas. Para um comunista, os tiranos são os revolucionários que maior sacrifício ofertam à causa. São aqueles que ficam privados da solidariedade socialista dos restantes, remetendo-se a um estado de solidão e alienação capitalista. Os tiranos, ao se deixarem abraçar pelos melífluos braços do imperialismo, arriscam mortes ignominiosas às mãos de marinheiros, camponeses, metalúrgicos, mulheres e crianças; mas não necessariamente por esta ordem. Como é óbvio, com esta largueza de espírito tamanha e tamanha alma indomável, os comunistas não se encontram nos partidos, muito menos no PCP.

Os comunas estão sempre zangados. Até quando riem estão zangados. Quando comem, conduzem e lêem o jornal, estão zangados. Há quem defenda que quando cagam estão zangados, mas não o posso confirmar. Estão zangados porque estão em luta. Faz lá algum sentido ir para a luta e não estar zangado? Não faz. Por isso, por tanto, ficam mais zangados, por estarem em luta e por estarem em luta zangados. As causas que indispõem os comunas ao ponto de quererem lutar zangados são mais do que aquelas a que conseguem acudir. Por tanto, por isso, os comunas ficam mesmo muito zangados, ainda mais zangados do que no início da luta, visto que não pára de se descobrir mais e mais razões para se estar zangado, para lutar zangado e para estar zangado por se andar a lutar zangado. Quando um comuna está zangado isso ouve-se e vê-se a considerável distância. A voz sai gritada, as veias do pescoço incham, os lábios ficam secos ou a espumar, os braços agitam-se, alguns ameaçam cantar. O comuna procura convencer os outros simulando os sintomas que antecedem a crise cardíaca, naquela que é uma semiótica anti-burguesa de grande efeito. Como sabe que tem razão, o comuna fica muito zangado perante a má-vontade alheia. Bem cedo os comunas descobriram que não era a conversar que as pessoas se entendiam. A conversar as pessoas revelam-se muito complexas, demasiado exigentes com a validade das propostas e relutantes em se deixar levar pela gritaria e espasmos animalescos. Então, os comunas partem para a luta. Numa luta, tudo fica mais simples. Os inimigos estão em frente, é em frente que se deve disparar. E quem não é dos nossos, está contra nós. Sim, encontram-se comunas em todos os partidos, sem excepção.

Efeméride Gnoseológica

Celebra-se hoje a 1ª semana após Vítor Constâncio ter afirmado desconhecer a ocorrência de uma reunião entre António Marta e Dias Loureiro nos idos de 2001 à tarde; e numa sala perto de si (isto é, dele). Ocasião para perguntar aos jornalistas do meu país quantas vezes, nestes 7 dias, já perguntaram a Marta se confirma a declaração de Constâncio.

Aceitam-se respostas tanto de jornalistas com carteira profissional como daqueles com bolso amador.

Assim se vê a força do PC

Um grupo de delegados ao XVIII Congresso Nacional do PCP, querendo seguir fielmente os ensinamentos dos camaradas mais aplaudidos, tentou entregar a Jesus Martinez Valladares, representante do Partido Comunista de Cuba, uma fotografia dos irmãos Castro, mas, infelizmente, acabaram acusados de divisionismo pela ala mais vermelha do Comité Central, conhecida como Lampiões de Abril.

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O caso Dias Loureiro explicado por um professor

Antes disso [da resposta a uma pergunta], deixe-me dizer uma coisa sobre Dias Loureiro que me esqueci de dizer. Em conversa com colegas e com alunos, uma coisa que me impressionou foi a seguinte, que é uma lição deste episódio, que é: eu disse aos meus alunos Tenham uma profissão, uma carreira, antes de irem para a política, para depois quando saírem da política voltarem à carreira e à profissão. Para não ficar a ideia de, quem vai para a política, vai para tirar proveito dela como uma espécie de trampolim para conseguir coisas e abrir portas a que não chegaria doutra maneira.

Professor Marcelo

O PSD também precisa de um bailout

O estranho abandono de Cavaco Silva, em 1995, ainda não deixou de provocar estragos no PSD. Fernando Nogueira foi logo apontado como uma péssima escolha para sucessor, mesmo antes da sua eleição. Marcelo Rebelo de Sousa mostrou ter jogo de pés, mas não ter força de braços. Durão Barroso fazia da ocupação do cargo de primeiro-ministro a realização messiânica da sua vida. Ele sabia que um dia chegaria lá. Assim que chegou, traiu o compromisso eleitoral a meio da legislatura e deixou o País entregue a Santana Lopes. Santana foi um desastre como governante e estadista, desperdiçando infantilmente o poder máximo que lhe foi cair nas mãos. Marques Mendes prometia um cavaquismo renovador e puro, tendo começado muito bem ao tentar limpar a casa. Nem chegou a ser Sol de pouca dura, foi apenas uma lâmpada que se fundiu assim que foi ligada à corrente. Com Luís Filipe Menezes, e pela primeira vez na História do PSD, alguns temeram que o partido não sobrevivesse à super-humana ciência de Gaia. Finalmente, Manuela Ferreira Leite, por mérito próprio e alheio, confirmou o diagnóstico: o PSD está moribundo.

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O pudor dos amigos pessoais

Mário Bettencourt Resendes é mais um daqueles casos misteriosos em que o público não percebe por que raio lhe pedem opinião sobre política. Mas pedem, com regularidade. E com regularidade ele provoca crises de amnésia: depois de o ouvirmos, não conseguimos fixar nada de nadinha que tenha dito. Há uma explicação corrente para o desconcertante efeito, a qual defende a tese de que nada chegou a ser dito, daí nada poder ser lembrado. Contudo, aparelhos de gravação de som, e dos mais baratinhos, registam sinais sonoros cuja fonte só pode ser o próprio Mário. Pois bem, na última edição do Expresso da Meia-Noite, Bettencourt introduziu uma radical inovação no seu desempenho e disse algo que ainda não consegui esquecer. Primeiro, anunciou ser amigo pessoal de Dias Loureiro, seguiu para o ataque aos que o condenavam na opinião pública sem esperar pelas provas e depois referiu não ter visto a sua entrevista, dada 170 horas antes. Vamos recapitular: um marmanjão que é jornalista, comentador político e amigo pessoal de Dias Loureiro, vai para um programa de informação onde se discute a crise do BPN dizer que não teve tempo para encontrar um computador com ligação à Internet para ver a entrevista mais importante dos últimos 30 anos. Eis uma daquelas cenas em que mesmo a lobotomia não seria capaz de apagar a recordação de tão espantoso fenómeno ocorrido com o senhor jornalista convidado a falar da actualidade.

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Em quê? Em quem?

O nosso amigo teofilo m. ofereceu-nos uma saborosa reflexão encaixotada. E agora, quem sabe, até pode ser que as suas questões obtenham alguma resposta.

Mas porque é que nós havíamos de confiar no próximo, quando este nos lixa a vida assim que pode?

Confiámos na 1ª República e foi o que se viu, golpes e contra-golpes até à exaustão; veio o Gomes da Costa acabar com a República e os que o chamaram despacharam-no para os Açores, exilado; logo a seguir chega o Carmona – depois de um pequeno interregno do Cabeçadas – que nos oferece o ‘botas’ que tivemos de gramar durante quarenta anos de bico fechado e alegres manifestações espontâneas; veio o Marcelo com as ‘conversas em família’ e lá nos embalou para mais seis anos do mesmo embrulhado em papel de Natal.

Chega o 25 e o Zé Povo entusiasma-se e confia um poucochinho e desata a pensar que a democracia se fazia num dia, pelo menos era o que lhe prometiam, e o que é que se viu?

Ficámos perto do Sol do mundo, e quando a pele começou a avermelhar, veio alguém que meteu o socialismo na gaveta e que nos prometeu a Europa dos ricos, e todos pensaram que agora é que era, que seríamos todos proprietários e patrões, passaríamos a ter todos um canudo, a ser doutores e engenheiros e a ter o respectivo tratamento, que as cantigas que passavam na rádio eram oráculos da astróloga Maya ou da reikiana Florbela, e pimba! lá fomos para o pardieiro outra vez.

Porra! então toda a gente nos lixa e ainda havíamos de ser confiantes? Em quê? Em quem?

Bute lá avaliar a Ministra


Na imagem, vemos uma professora encantada com a bandeira sindical que agita. De notar o facto de estar aos ombros de um colega, assim revelando a coesão da classe. Esta manifestação reuniu 250 mil professores em Lisboa, no dia 8 de Novembro, mas a contagem ainda não está concluída, podendo facilmente chegar aos 500 mil nos próximos meses.

Maria de Lurdes Rodrigues é a responsável ministerial pela tentativa de instituir um modelo de avaliação docente na escola pública. A classe profissional com que tem de lidar corresponde a um tipo único de empregados do Estado: funcionários públicos liberais. Cada professor tem-se comportado até agora com uma oligárquica autonomia profissional, posto que se limita a esperar que o tempo o recompense. Faça o que fizer e como ficar feito, basta-lhe não ser denunciado por alguma ilegalidade para se descobrir promovido e premiado pelo Estado. Milhões de portugueses passaram pela escola pública achando normal que os professores não fossem avaliados, apenas que fossem avaliadores. Como poderia um avaliador ser avaliado, questionava-se o português, sem com isso mergulharmos num abismo sem fundo? Era o clássico argumento da causalidade, de tão boa memória tomista, a exigir mais uma avaliação para cada novo avaliador do avaliador anterior. Série infinita, inútil despesa mental para um descrente que até agradece a simplificação absoluta do processo: deixem lá os professores em paz e nem pensem em avaliá-los ou, em exacta alternativa, ofereçam-lhes a fabulosa auto-avaliação e não se fala mais nisso.

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