António Alçada Baptista

Eric Fischl Bad Boy

É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que fomos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento. Tenho muito a convicção de que somos seres em formação, pois o projecto humano não aponta para aqui. Penso é que ele nos vai sendo revelado por pequenas nostalgias de coisas ainda não vividas, que se exprimem por intuições avulsas e, apesar de tudo, pelo halo poético do mundo, que seria mais visível se acertássemos a maneira como olhamos para ele. Depois também há, felizmente, aqueles que já nasceram mais à frente no caminho do futuro.

in O Tecido do Outono

10 thoughts on “António Alçada Baptista”

  1. Texto excelente!
    Está tudo aqui.
    Será possível ainda irmos a tempo de apanhar o TGV da morte, para apanhar o que pára «em todas» e, assim, sorvermos a vida?!

  2. Ohhh pá,

    Obrigadinho por este texto, para quem vai trabalhar no feriado, foi uma boa maneira de começar.

    PS: A “bons dias” assim era capaz de me habituar.

  3. Bela escolha. Tive duas longas conversas com AAB duas entrevistas para o jornal O MIRANTE e para a revista BOLA MAGAZINE, a segunda vai ser recuperada em livro. A propósito dos afectos dizia com graça «sou do tempo em que os homens não pegavam nos filhos ao colo com raras excepções em fotografias de estúdio». Isto diz muito sobre o que é ter nascido em 1927 na Covilhã.

  4. Também tu trazes pedaços de luz para este irreal quotidiano com as tuas palavras, as tuas palavras escolhidas dos outros, as imagens que convocas e o olhar que revelas – as pequenas nostalgias do que ainda não foi vivido.

  5. Ó Zé, e essa frase de os homens não pegarem nos filhos ao colo saiu mesmo assim na Bola Magazine? Se não pegavam com raras excepções, então pegavam neles com o quê? Cuidado quando recuperares isso em livro.

    O meu avô, que nasceu no século XIX, pegava nos filhos ao colo e a minha avó comentava, de acordo com testemunhas do seu tempo: só pegas neles agora porque ainda não temos essas máquinas de tirar retratos como o senhor D. Carlos. Aquilo é que era uma mulher bem informada em relação ao futuro!

  6. Sofia, estamos sempre a tempo de apanhar o TGV da vida, isso é certo.
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    Joao, felizes os que têm de trabalhar nos feriados, pois a esses não chega a crise, pelo contrário.
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    jcfrancisco, também gostava de ter tido conversas com ele.
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    j de joão, trazemos todos. Estamos juntos. E a caminho, pelo que mais vale apreciar a paisagem, brincar nos riachos e colher os saborosos frutos.
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    CHICO, bem visto. Aliás, uma das mais inesquecíveis passagens da Ilíada é essa mesmo de um pai com o filho ao colo, nas muralhas da cidade.
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    Ana, sim.

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