Como distinguir um comuna de um comunista

É raro encontrar um comunista. Raro e bom, eis a primeira verdade. Gostamos de falar com comunistas, nunca se dando o tempo por mal empregue. Porque um comunista irá falar-nos do comunismo, e o comunismo é bom. Bom e raro, eis a segunda verdade; e que até nem é mentira nenhuma. O comunismo é uma outra face do amor. É a plenitude da misericórdia, a lei da compaixão, a realização da esperança. O comunismo é lindo como tudo o que não existe, mas há. Há comunismo num comunista, e isso é lindo porque o comunista existe. O comunista tem o coração imaculado, guardado num amanhã inalcançável. E esse coração verte poesia e ternura para o chão dos dias. Ele dói-se e condói-se com o sofrimento dos povos e das gentes, até dos algozes. Que seria de um oprimido sem opressor? Seria o comunismo sem História. Sem História não há Homem, Humanidade, libertação. O comunismo é a eternidade aqui e agora a nascer continuamente da generosidade teândrica dos camaradas. Por isso um comunista está sempre em contínuo perdão, acolhendo dialecticamente as situações e os protagonistas. Para um comunista, os tiranos são os revolucionários que maior sacrifício ofertam à causa. São aqueles que ficam privados da solidariedade socialista dos restantes, remetendo-se a um estado de solidão e alienação capitalista. Os tiranos, ao se deixarem abraçar pelos melífluos braços do imperialismo, arriscam mortes ignominiosas às mãos de marinheiros, camponeses, metalúrgicos, mulheres e crianças; mas não necessariamente por esta ordem. Como é óbvio, com esta largueza de espírito tamanha e tamanha alma indomável, os comunistas não se encontram nos partidos, muito menos no PCP.

Os comunas estão sempre zangados. Até quando riem estão zangados. Quando comem, conduzem e lêem o jornal, estão zangados. Há quem defenda que quando cagam estão zangados, mas não o posso confirmar. Estão zangados porque estão em luta. Faz lá algum sentido ir para a luta e não estar zangado? Não faz. Por isso, por tanto, ficam mais zangados, por estarem em luta e por estarem em luta zangados. As causas que indispõem os comunas ao ponto de quererem lutar zangados são mais do que aquelas a que conseguem acudir. Por tanto, por isso, os comunas ficam mesmo muito zangados, ainda mais zangados do que no início da luta, visto que não pára de se descobrir mais e mais razões para se estar zangado, para lutar zangado e para estar zangado por se andar a lutar zangado. Quando um comuna está zangado isso ouve-se e vê-se a considerável distância. A voz sai gritada, as veias do pescoço incham, os lábios ficam secos ou a espumar, os braços agitam-se, alguns ameaçam cantar. O comuna procura convencer os outros simulando os sintomas que antecedem a crise cardíaca, naquela que é uma semiótica anti-burguesa de grande efeito. Como sabe que tem razão, o comuna fica muito zangado perante a má-vontade alheia. Bem cedo os comunas descobriram que não era a conversar que as pessoas se entendiam. A conversar as pessoas revelam-se muito complexas, demasiado exigentes com a validade das propostas e relutantes em se deixar levar pela gritaria e espasmos animalescos. Então, os comunas partem para a luta. Numa luta, tudo fica mais simples. Os inimigos estão em frente, é em frente que se deve disparar. E quem não é dos nossos, está contra nós. Sim, encontram-se comunas em todos os partidos, sem excepção.

9 thoughts on “Como distinguir um comuna de um comunista”

  1. Valupi, se sabes como distinguir um comuna de um comunista, ajuda-nos lá também a distinguir um Socialista de um Chuchalista.

  2. Ainda bem que não há desses comunistas no PCP, Val, era um desperdício.

    Se houvesse, seriam expulsos por não saberem usar a cassette (ainda não passaram ao CD-ROM).

    Ibn, eu prefiro de longe os chuchalistas aos socialistas. Os socialistas são uns comunistas envergonhados, uns pobres coitados. Os chuchas, não. Gostam é de gajas, pagode e boa disposição.

  3. na minha jubentud fui do PC. Saí em 1981/2, depois de ter sido ameaçado de expulsão por ter construído um movimento unitário que extravasava os cânones tradicionais. Foi-me dado o comando, ao mais alto nível, para destruir aquilo, que era o meu orgulho, e eu destruí, a seguir rasguei o cartão.

    mas fiz mal: devia ter só rasgado o cartão e não ter cumprido o comando

  4. Ibn, é simples: os chuchalistas estão na oposição, os socialistas não estão no Governo.
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    Vasco, certíssimo. A Madeira é um antro de comunas.
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    Nik, o PCP é um desperdício político, mas como religião faz falta.
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    Z, faz todo o sentido, as organizações de cultura ditatorial não conseguem lidar com a liberdade.

  5. Curiosa definição!
    nem imagina a quantidade de comunas que encontro no PSD e no PS. Para já não falar do CDS, em que o menino feirante anda sempre tão zangado!

  6. Valupi,

    Excelente, engraçado e percebi tudo! Que mais quer uma pessoa?

    Talvez masturbar-se com a mão esquerda, condição sine qua non para enfim poder fazer parte do Partido Comunista…

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